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Personalidade

Publicado em 31 de Agosto de 2021 ás 08:01 , por O Homem Onesto

O Homem Onesto

Religioso que viveu em Primavera do Leste entre os anos de 1980 e 1998 e depois, de 2006 a 2008, ano de sua morte, dedicou-se intensamente às causas sociais da cidade

Por Valmir Faria e Irmã Iradi Canan

 

“Ele não era só um padre, era amigo, especialmente amigo. Ele se interessava pelas causas das pessoas, das crianças, principalmente” (Volnei Lorenzzon, amigo)

 

Existem pessoas diferenciadas e que se destacam por suas atitudes em favor da sociedade, especialmente dos menos favorecidos. Suas ações resultam em impacto positivo e se transformam em legado que jamais será esquecido. 

Padre Onesto Costa foi uma dessas pessoas: Seus sonhos e ideais eram voltados à evangelização e ao serviço da promoção humana, sempre atento às necessidades emergentes. Em seu jeito de ser, viver e trabalhar imprimiu um estilo de vida que marcou fortemente quem conviveu com ele.

Abnegado, inteligente e generoso, viveu intensamente suas emoções, fazendo delas fonte de inspiração e energia que deram um colorido especial às suas decisões e atitudes. Soube canalizar seu caráter marcante, exigente consigo mesmo e com os que os cercavam, imprimindo ao seu sacerdócio o sentido fundamental de sua vida. Exerceu sua liderança eclesial e social positivamente como ninguém, e por isso será sempre lembrado pelo seu legado.

O padre Onesto Costa, com certeza é uma das personalidades mais marcantes que Primavera do Leste já teve ao longo de sua história.  Porém, era um ser humano sujeito a sentimentos como felicidade, frustração, tristeza e insegurança, mas nunca desistia. Alimentava sonhos, sentia saudades e era sensível ao sofrimento das pessoas e até dos animais. E não cansava de dizer, “Avanti” (em frente).

 

Paixões e pequenos prazeres

Uma das paixões de Padre Onesto era a fotografia. Gostava de fotografar pessoas, lugares, paisagens e a natureza, que ajudou a preservar plantando centenas de árvores. Embora vivesse uma vida de austeridade, se alegrava com os pequenos prazeres da vida, como uma boa refeição e uma boa música. 

Em uma de suas anotações, feita no dia 4 de abril de 1980, ele relata que após a missa almoçou na casa de uma das famílias que formavam a pequena comunidade. “A comida é ótima, bem brasileira. Estou satisfeito. Tem também uma boa garrafa de vinho”, escreveu. 

 

Mais que um padre, um amigo

Apesar dos anos duros da guerra, que certamente deixaram marcas, Padre Onesto sempre manteve forte os laços de amizade. “Ele não era só um padre, era amigo, especialmente amigo”, ressalta o advogado Volnei Lorenzzon, que conviveu com o religioso. “Se interessava pelas causas das pessoas, das crianças principalmente”, completa.   

Mesmo distante não esquecia os amigos da Itália, com os quais trocava inúmeras correspondências expressando todos os seus sentimentos e impressões sobre o lugar onde vivia, o que despertava neles o interesse em ajudá-lo, enviando recursos para a realização de obras com fins sociais e religiosos.

Morando em Primavera do Leste desde 1979, Victório Marcon, 97, foi um dos primeiros a ter contato com o Padre Onesto tão logo ele chegou à cidade. Por serem vizinhos, a convivência era diária e “Nono” Marcon, por falar italiano, tornou-se intérprete do religioso.

Passados 13 anos da morte do religioso, a saudade do velho amigo faz com que quase todas as manhãs “Nono Marcon” vá até a praça em frente a Catedral reverenciar a estátua do religioso e conversar com ele. “Eu digo sempre: você foi um herói aqui e o povo está sentindo a sua falta, mas no dia que nós nos encontrarmos no reino de Deus eu vou te falar como está Primavera do Leste. E parece que ele dá risada”, conta o pioneiro. No dia 30 de junho, menos de um mês após ter concedido esta entrevista, “Nono” Marcon faleceu. 

 

Solidão e Saudade

A distância da terra natal despertava no padre Onesto um sentimento comum a todos os mortais: a saudade. “Estou em Primavera, no Mato Grosso, no Brasil, mas parece-me estar no meio do povo de San Pancrazio (Paróquia onde atuou entre 1959 e 1977). Vejo vultos, ouço vozes, é uma tentação, mas tenho que reagir”, anotou ele no mesmo dia 4 de abril de 1980. 

A solidão também o incomodava e as condições de vida dele e dos moradores da pequena comunidade o preocupavam. Em 28 de maio de 1981 ele escreveu. “De um tempo para cá, uma preocupação me perturba com insistência: Será que conseguirei permanecer sozinho? Tenho a impressão de que a minha saúde vai ser prejudicada”, anotou. 

No final de julho de 1981, novamente a distância e a ausência dos amigos o incomodam. “Há muito tempo não recebo correspondência, não saberia dizer se é melhor ou pior. Estou me sentindo sozinho, quase isolado. Às vezes, tenho preocupações além do meu trabalho”. 

Preocupação com as crianças e com os mais pobres

Padre Onesto tinha um apreço enorme pelas crianças, que chamava de “bambinos”, e com os jovens. Sabia que era preciso dar a eles a oportunidade de estudar e por isso se dedicou também a ensinar. Por algum tempo exerceu o magistério em Primavera do Leste.

Porém, algo que tocava o coração do homem e do religioso Onesto Costa, era a situação em que viviam as camadas menos favorecidas da sociedade. Ele não se conformava com as condições de vida das famílias que habitavam a chamada “Vila da Palha”, que ficava ao lado da BR-070.

“Para elas tinha sempre uma palavra de conforto, de ânimo”, lembra a irmã Rosa Rita Pilonetto, que conviveu por vários anos com o religioso. “Ele dizia sempre: Vamos para frente. Hoje é difícil, mas quem persevera vai colher depois. hoje vocês não têm dinheiro, vocês não têm recursos nenhum, vocês vão ser perseverantes, vocês vão conquistar com o tempo”. 

Resiliente e determinado

Volnei Lorenzzon lembra que o religioso enfrentou grandes dificuldades no início de sua trajetória em Primavera do Leste, provocadas pela falta de estrutura da cidade e da própria Igreja, que também começava a se fazer presente. Mas sua resiliência e determinação não o deixavam desanimar.

Como ainda não havia Casa Paroquial, Lorenzzon conta que o padre dormia na residência de uma família, almoçava em outra e jantava em uma terceira casa. “Ele não tinha carro, no primeiro momento tinha uma bicicleta. As dificuldades eram grandes”, recorda.

Um missionário com visão de futuro

Nascido na região de Fornovo di Taro, padre Onesto chegou ao Brasil em 1979, então com 55 anos. Em 1980 foi designado para atuar na Paróquia de Poxoréu, onde deveria trabalhar na pequena comunidade de 7 Placas, que, mais tarde, seria Primavera do Leste. 

Com uma visão voltada para o futuro, ele sempre se preocupou em melhorar as condições do lugar. “Ele acreditava que esse local iria se desenvolver muito, e justamente aconteceu. Padre Onesto, no primeiro momento, foi o grande prefeito de Primavera”, enfatiza Volnei Lorenzzon. 

Embora sendo um religioso, de início, a edificação de templos não era sua prioridade. Preferia que fossem construídos espaços onde pudessem ser realizadas outras atividades. O salão paroquial, primeira obra religiosa construída em Primavera do Leste, foi usado por um bom tempo como sala de aula para as crianças. 

Com a participação direta do padre Onesto Costa e a colaboração dos moradores de Primavera e da Itália, foram construídas seis igrejas, 14 centros comunitários e creches; 110 casas populares, um centro de catequese, duas quadras cobertas, um pronto atendimento, central das pastorais sociais, casa paroquial, casa das irmãs Ursulinas, entre outras. 

O retorno a Primavera

Em 1998 padre Onesto retornou à Itália. E lá a saudade era da cidade que ajudou a construir em meio ao cerrado de Mato Grosso. Ao olhar as montanhas ele dizia que além delas havia um povo que precisava da sua ajuda. 

Em 2005, em visita a Primavera do Leste, ao comemorar seu aniversário, expressou que o melhor presente seria poder retornar a viver na cidade. Como seu estado de saúde já exigia maiores cuidados, a Congregação das Irmãs Ursulinas CJA assumiu o compromisso de cuidar dele em um possível retorno, que aconteceu em agosto de 2006. 

Padre Onesto Costa morreu no dia 28 de dezembro de 2008, em sua casa no Centro Esportivo Parma, criado por ele, cercado de amigos. Sua trajetória de vida findava ali, porém, a lembrança e o legado do homem-sacerdote que entregou-se totalmente para fazer de Primavera do Leste uma bela cidade, com fé, com progresso e justiça social, continuam vivos.

 Fonte de pesquisa: livro “Caríssimos, Avanti”, escrito pela Irmã Iradi Canan, Irmã Ursulina CJA e um grupo de colaboradores.

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6ª Edição Revista Fator MT - Primavera do Leste