Suinocultura em MT: O abismo da conectividade entre a produtividade recorde e a tecnologia de ponta
Enquanto Mato Grosso consolida sua 6ª posição nacional com um crescimento de 17,1%, produtores enfrentam um paradoxo: a necessidade de IA em granjas que ainda sofrem com a falta de internet básica.
O setor de suinocultura em Mato Grosso vive um momento de dicotomia. De um lado, os números do relatório Sementes da Inovação 2026, apresentados pelo AgriHub, celebram um crescimento de 17,1% na produção estadual. De outro, o chão de fábrica — ou melhor, as granjas — revela um gargalo que impede a plena digitalização: a conectividade.

Para entender o que esses números representam na prática, nossa reportagem conversou com Ricardo Mendonça, suinocultor há mais de 15 anos na região norte de Mato Grosso, um dos polos que participaram do levantamento.
“A tecnologia não pode ser um artigo de luxo”
Para Ricardo, que opera uma granja de ciclo completo com 2.500 matrizes, o crescimento do setor é inegável, mas a transição para a “Suinocultura 4.0” ainda é um desafio diário.
“Nós queremos adotar sensores, visão computacional e IA para monitorar o ganho de peso e a saúde dos animais, mas como integrar tudo isso se o sinal de internet não chega na baia?”, questiona o produtor. “O estudo do AgriHub mostra que em Sorriso a conectividade é zero em várias granjas analisadas. Sem uma rede estável, a inovação para na porta da propriedade. A gente quer ser eficiente, queremos reduzir custos, mas precisamos de infraestrutura antes de qualquer algoritmo.”
A visão de Mendonça reflete o dado preocupante apresentado no simpósio: enquanto a necessidade por inovação é unânime entre os produtores, a infraestrutura ainda opera em velocidades diferentes dependendo da localização geográfica.
O Desafio da Eficiência: Mais do que apenas crescer
A análise de especialistas como Cleiton Gauer (Famato/Imea/AgriHub) é clara: o desafio agora não é apenas ampliar o plantel — que já registra a terceira alta consecutiva — mas sim a eficiência econômica.
A pressão sobre os preços pagos ao produtor exige que a gestão seja cirúrgica. Startups selecionadas pelo edital mencionado no estudo estão trabalhando em soluções que vão desde automação de ração até acesso facilitado ao crédito, mas o “check-up” real feito com produtores como Ricardo aponta que os gargalos de qualificação de mão de obra e gestão técnica ainda superam, em urgência, a própria adoção de ferramentas complexas.
O Caminho para a Competitividade em 2026
Para o CenárioMT, o dado que fica é que a inovação na suinocultura de Mato Grosso não é mais uma tendência futurista, mas uma questão de sobrevivência. A tecnologia de ponta será o fiel da balança entre as granjas que conseguirão manter a rentabilidade e as que serão engolidas pelo aumento dos custos de produção.
O setor, portanto, está em uma fase de transição: de uma atividade baseada no aumento de escala para uma atividade baseada na inteligência de dados. A pergunta que os editais de inovação e os produtores como Ricardo se fazem agora é: quem dará o próximo passo na infraestrutura para que essa IA chegue, finalmente, a todas as granjas do Estado?
Este artigo foi produzido com foco em dados proprietários do estudo “Sementes da Inovação 2026” e vivência regional da cadeia produtiva do agronegócio em Mato Grosso.
Fonte: CenárioMT