Entre o campo e a cidade, hub aposta em Sinop como polo de inovação
Criado há três meses, o Pequi Innovation Hub busca aproximar produtores, startups e outros setores para testar tecnologias no campo e ampliar o ecossistema de inovação no norte de Mato Grosso
Em uma região onde tecnologia e produção agrícola convivem lado a lado, há cerca de três meses, Sinop (a 480 km de Cuiabá) ganhou um hub (local estratégico) de inovação criado com um objetivo: fazer com que as tecnologias desenvolvidas para o agronegócio realmente atendam às necessidades de quem está no campo. Fundado pela engenheira agrônoma Jéssica Gimenes, o Pequi Innovation Hub pretende aproximar produtores rurais, startups e diferentes setores da cidade para testar soluções, levantar dados e entender o que funciona - ou não - dentro das propriedades.
Agro Bayer
Em entrevista ao
, Jéssica conta que a ideia nasceu das experiências acumuladas em mais de 11 anos trabalhando com inovação no agronegócio. Segundo ela, a trajetória começou em Piracicaba (SP), onde atuou como voluntária em uma entidade internacional que acelerava startups de forma online. Foi ali que passou a acompanhar como ideias desenvolvidas dentro das universidades poderiam virar projetos, negócios e tecnologias com potencial de chegar ao mercado.
Pouco tempo depois, ela passou por multinacionais, startups e hubs de inovação. Porém apesar de estar inserida em um ambiente altamente tecnológico, Jéssica sempre se questionava se aquilo que estava desenvolvendo correspondia ao que o produtor realmente precisava.
“Será que essa é uma demanda do produtor rural? Será que essa é uma dor dele mesmo? Será que ele tem esse nível de maturidade tecnológica?”, lembra.
A dúvida não era apenas teórica. Segundo Jéssica, havia situações em que uma empresa tentava vender determinada tecnologia a um produtor sem que aquela solução fizesse sentido para a realidade da propriedade.
Foi quando veio para Mato Grosso que a engenheira agrônoma conseguiu se aproximar mais desse outro lado da inovação, participando de trabalhos para mapear o perfil tecnológico dos produtores e liderando uma iniciativa de levantamento das principais dificuldades enfrentadas pelo setor rural no Estado.
“Eu rodei mais de 25 cidades aqui no estado e identifiquei que tinha um hub em Rondonópolis, tinha um hub na capital, tinha um hub em Lucas do Rio Verde, mas não tinha um hub aqui em Sinop que é uma cidade super chave, com aeroporto, universidade. Então baseado em tudo o que eu estudei, em tudo que eu observei aqui no estado, eu vi que a gente ainda precisava trabalhar muito essa parte de validação das tecnologias em campo e levantamento de dados, por meio de um hub de inovação ao mesmo tempo que a gente precisava desenvolver a maturidade das cidades ao redor”, explica.
Arquivo Pessoal
Jéssica Gimenes, fundadora do Pequi Innovation Hub
Entender antes de vender
Jéssica aponta ainda que uma das frentes que o Pequi pretende desenvolver é justamente a validação das tecnologias no campo. Para ela, ao invés de partir apenas da solução que uma startup tem para oferecer, a proposta é olhar também para quem está do outro lado: qual problema aquele produtor enfrenta, quanto de tecnologia já utiliza e qual ferramenta poderia ser incorporada à sua rotina.
O agronegócio é uma das quatro verticais de atuação do hub. As outras são energia, principalmente biocombustíveis, saúde e construção civil. Segundo a especialista, a definição das áreas levou em consideração as demandas identificadas em Sinop e na região.
O Pequi também busca fazer conexões para além de Mato Grosso. Jéssica cita, entre elas, uma parceria com o Parque Tecnológico de São José dos Campos para o desenvolvimento de projetos relacionados à agricultura familiar e a aproximação com uma entidade internacional voltada à aceleração de projetos de sistemas agroalimentares. “O objetivo é trabalhar em rede sempre”, resume.
Quando a gente tem um hub que se estabelece dentro de uma cidade e não no campo, as pessoas começam a entender um pouco melhor como fazer parte daquele movimento
O campo e a cidade
Essa rede, porém, não envolve apenas produtores e empresas de tecnologia. Uma das apostas do Pequi é aproximar o universo rural de pessoas que vivem na cidade e atuam em áreas que, à primeira vista, podem parecer distantes do agronegócio.
Para Jéssica, instalar um ambiente de inovação dentro da cidade ajuda a ampliar essa troca. O produtor pode sair da rotina da propriedade, conversar com profissionais de outros setores e conhecer experiências adotadas em outras regiões. Ao mesmo tempo, pessoas que dificilmente frequentariam uma feira agrícola, por exemplo, podem entrar nas discussões sobre inovação por outros caminhos.
“Quando a gente tem um hub que se estabelece dentro de uma cidade e não no campo, as pessoas começam a entender um pouco melhor como fazer parte daquele movimento”, explica.
Um dos exemplos é o movimento Mulheres na Inovação. A iniciativa reúne mulheres de diferentes áreas, sem ficar restrita ao agronegócio. A ideia é justamente colocar experiências distintas na mesma conversa e perceber o que pode ser aproveitado entre os setores.
Jéssica cita o próprio campo jurídico como exemplo. Questões e soluções discutidas entre profissionais do Direito também podem encontrar aplicação dentro de uma propriedade rural. Para ela, essa mistura é necessária para que o ambiente de inovação deixe de circular sempre entre os mesmos atores.
“O que eu acho que estava faltando aqui em Sinop era esse ambiente promotor mesmo para que o campo viesse para a cidade e a cidade viesse mais para o campo também”, afirma.
Qual tecnologia cabe em cada fazenda?
Uma das iniciativas previstas pelo Pequi tenta responder justamente a essa pergunta. O hub mantém um Observatório de Inovação do Agronegócio e um Observatório de Inovação de Sinop. O objetivo é fazer um diagnóstico de cada fazenda para identificar o nível de utilização de tecnologia pelo produtor. Com essas informações, seria possível aproximá-lo de soluções mais compatíveis com a realidade da propriedade.
Na prática, a proposta tenta evitar um problema que Jéssica encontrou ao longo da carreira: apresentar uma tecnologia primeiro para somente depois descobrir se aquele produtor está preparado para utilizá-la ou sequer precisa dela.
O levantamento também deve ajudar startups e empresas de base tecnológica a identificar produtores com maior possibilidade de aderir às soluções oferecidas. Do outro lado, Jéssica acredita que conhecer previamente o estágio tecnológico de cada propriedade pode tornar mais fácil a aceitação de novas ferramentas pelos produtores.
Além de observatórios, estão previstos programas voltados aos produtores rurais e às empresas de base tecnológica, com trabalhos de validação e aceleração de startups. Como o Pequi tem apenas três meses, parte dessas iniciativas ainda está começando a sair do papel.
“A gente espera, no futuro, ser um hub de informação e inteligência para o estado de Mato Grosso que consiga expandir isso a nível nacional e tornar Sinop a agenda de referência em inovação principalmente do agro do Brasil. A gente tem um potencial gigantesco para estabelecer isso aqui, temos as pessoas certas, os movimentos certos, então o Pequi está nessa agenda para fortalecer mesmo o nosso ecossistema”, declara.
Fonte: CenárioMT

