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1973
Os Primeiros Passos de Sorriso: A Chegada dos Pioneiros
- Em 7 de julho de 1973, Otávio de Souza Cruz chega com sua família à região de Sorriso para trabalhar na Fazenda Santa Anastácia.
- Otávio de Souza Cruz é considerado o primeiro morador do local, marcando o início do povoamento contínuo na área.
- Ivo Raiser e Nelson Francio iniciaram a abertura das terras de Benjamim Raiser em Sorriso.
- Diante das dificuldades e da falta de infraestrutura, montaram uma borracharia às margens da BR-163, marcando o início da presença da família Raiser na região.
1973
Maria Vilani dos Santos
Quando a coragem e a doçura se encontram
Maria Vilani dos Santos de Souza Cruz não é somente um nome de mulher. Ela marcou a história de toda uma geração que veio depois: foi, de fato, a primeira mulher a residir em Sorriso. Ela dá início à história das mulheres que moraram em Sorriso, quer seja por vontade própria ou porque na época era dever acompanhar os maridos. Maria Vilani, foi a primeira a fazer o percurso, suas mãos semearam a terra antes de qualquer adubação e correção do solo – para descobrir que de início nada produzia aqui, passou necessidade e solidão. Contudo, hoje mais de 50 anos depois, ela celebra a vida ao lado dos filhos, na cidade em que é a própria história.
Vilani no latim antigo é frequentemente associado a características de força e determinação. Em várias interpretações, o nome é visto como um símbolo de coragem e resiliência, refletindo a personalidade de quem o carrega. A mulher que o recebeu, com certeza, carrega a essência desse nome. Única filha de Manoel Euzébio dos Santos e Maria Francisca de Jesus, Maria Vilani nasceu em 9 de junho de 1952, em Guairaça, uma pequena comunidade no noroeste do Paraná.
Os pais trabalhavam na lavoura, às terças, em um sistema de plantio em que quem trabalhava a terra arrendada, recebia a terça parte. Manoel plantava de tudo: arroz, feijão, milho, café, não era proprietário, usava a força dos braços para cultivar a terra dos outros. Também atuava contratando mão de obra para o serviço pesado nas roças. Seu Manoel, acabou sendo contratado por um senhor, seu Amináscio, um japonês para o trabalho com a terra e mudou para a fazenda do japonês com a família. Amináscio tinha por sócio um irmão, chamado Mário.
Tudo parecia bem, mas infelizmente, quatro anos após o nascimento da filha, Maria Francisca, sua esposa, faleceu. Manoel ficou sozinho com a menina, passou a contar com o auxílio da própria mãe, a dona Luiza, para cuidar da menina. Tempos depois, se casou novamente. Maria Vilani tinha por volta de oito anos de idade.
Com o novo casamento, mudou para a cidade, mas continuava trabalhando na lavoura. Na cidade, agora sob a supervisão da madrasta, Maria foi encaminhada à escola. “Lembro que eu tinha 9 anos, cursei só o primeiro ano, só para aprender a ler e escrever mesmo”. Findo aquele ano, Maria foi encaminhada para a lavoura: contratado para limpar e plantar os eitos, o pai precisava de todas as mãos firmes na enxada. “A vida era carpir o dia todo, fizesse sol ou chuva, estávamos sempre com o cabo da enxada na mão”, lembra.
Além dele, da filha e da esposa, Manoel contratava mão de obra na cidade. Muitos jovens chegavam no lugar, à procura de serviço. Foi assim com um mineiro recém-chegado no local, por nome Otávio de Souza Cruz, que logo recebeu a alcunha de Pelé, era negro e tão sorridente, quanto o craque da bola.
O menino tinha cerca de 14 anos, quando foi contratado para o serviço pesado com seu Manoel, ao lado dele, Maria com 9 anos, batia enxada o dia todo. Por três anos, essa era a rotina dos dois. “Então ele resolveu voltar pra Minas, ficou uns dois anos em Minas e retornou”.
Otávio era de Virgem da Lapa, nascido em de janeiro de 1947, havia saído de Minas adolescente em busca de serviço no Paraná. Quando a saudade de casa apertou, ele voltou. Contudo, dois anos depois refez o caminho.
“Quando ele voltou eu tinha 15 anos, ali me encantei. Começamos a trocar olhares; ele pediu permissão para o pai para namorarmos. O pai deixou, mas o namoro era assim: cada um sentado em uma cadeira com o pai no meio, cuidando. Não podíamos nem conversar sozinhos”, lembra ela.
Um ano após o início do namoro, seu Manoel reconheceu as boas intenções de Otávio e abençoou a união. “Quando completou um ano, meu pai disse que era hora de se casar. Fiquei feliz, porque amava o Otávio de todo o coração”, relembra ela, ao recordar a juventude. O casamento aconteceu em Paranavaí, hoje conhecida como “Cidade Poesia”, no dia 12 de março de 1970. Ao revisitar essa memória em 12 de março de 2026, ela se surpreende: “Hoje fazem 56 anos.”
Naquele primeiro 12 de março, o de 56 anos atrás, não houve festa, pois “a gente não tinha condição, fomos no cartório de Paranavaí com as testemunhas, casamo-nos e voltamos para casa para almoçar todos juntos. Não tinha dinheiro para vestido ou festa, mas tinha amor e união”, completa.
Agora casados os jovens seguiram em Guairaça, trabalhando com seu Manoel, de fazenda em fazenda. A rotina mudou quando em 4 de junho de 1971, um choro – muito bem-vindo – invadiu a casa: era Nilza quem chegava no mundo. Um ano e meio depois, o casal tornou-se pai de Niziel, nascido em 11 de dezembro de 1972.
Uma nova trajetória
Para criar os filhos, Otávio seguia cedo para o eito. Trabalhava inclusive para um compadre de nome Dário Figueira D’Ávila. Em uma dessas empreitadas em que Otávio preparava a terra, Dário o questionou: “tu vives falando que quer ir pro Mato Grosso e eu acabei de comprar uma terra lá, não quer ir pra lá cuidar pra mim? É área grande, de mato”. Tratava-se da Fazenda Paulista.
Otávio topou conhecer o tal lugar e, em agosto de 1973, acompanhou Dário em uma viagem para ver a terra. Voltou em uma semana e anunciou para Maria que a família mudaria. Ela não sabia ao certo para onde iria; tinha apenas a certeza de que, no Paraná, ficariam o pai, a avó Luiza, a madrasta e os oito irmãos mais novos — filhos de seu Manoel com a segunda esposa —, todos ainda pequenos, assim como os seus. O coração apertava diante da despedida. “Mas, naquela época, a mulher tinha que seguir o marido sem pestanejar”, pontua.
Eles vieram, chegaram em 7 de setembro de 1973, Maria lembra bem, era dia da Independência do Brasil e o jovem casal sonhava que ali estavam iniciando o próprio caminho. Com a chegada, Maria Vilani foi a primeira mulher a de fato residir no que viria a ser Sorriso. Era tudo mato, um mar de mato para onde quer que ela olhasse. O vizinho mais próximo, recorda ela, era a tropa do 9.º Batalhão de Engenharia e Construção do Exército Brasileiro, o famoso 9.º BEC da base de Cuiabá.
O ponto dos militares ficava há 19 quilômetros de distância da casa de pau a pique, levantada às margens do Rio Lira por Otávio. A casinha, feita da madeira que ele mesmo derrubou, tinha frestas largas por onde entrava a chuva durante seis meses e a vegetação na época da seca, o telhado era de tabuinha, como aqueles que cobriam as casas antigas do Sul.
Tudo feito por Otávio e Maria à mão, ela o auxiliava enquanto cuidava dos filhos e do serviço da casa. A luz, à noite vinha do liquinho a querosene que trouxeram do Sul. Os militares cuidavam da balsa, ficavam no ponto onde hoje está instalada a ponte sobre o Rio Teles Pires.
“Fora eles, tinha um que outro morador em Sinop e tinha Vera, onde as irmãs cuidavam de um hospital”, lembra ela. Maria não conhecia o povoado de Sinop, nem outras paragens, seus olhos só percorriam a mata que tomava conta das terras de Sorriso. Tudo o que ela sabia era o que Otávio contava. Para ela, existiam os soldados do 9.º BEC e as irmãs de Vera, em especial a irmã Adélia que por muitas e muitas vezes a socorreu.
Dário, lembra Maria, costumava vir ver as terras a cada três meses. Otávio era encarregado de cuidar. Como ambos eram habituados ao cabo da enxada, logo pensaram em limpar um espaço ao lado da casa para plantar. Mas nada dava. “O milho mal nascia e soltava aquele pendão fraco, amarelo, não ia para frente; a melancia não tinha força de sair, faltava corrigir a terra e colocar adubo e nós não tínhamos nada para fazer isso”, lembra. Ao ver que as sementes não desenvolviam, o coração apertava. Maria lembrava das roças do Paraná, do tanto de melancia que colhiam. “Era fartura de comida, de fruta e aqui nada”.
Para driblar as dificuldades que enfrentavam, Otávio caçava “e eu pescava na beira do rio Lira, fazia a fisga, colocava a linha no anzol, peguei muito peixe no Lira para alimentar as crianças”, diz. Mas doía ver os filhos sem nunca ter provado uma fruta, algo tão simples para ela.
“Nunca tomaram leite, meus filhos, nunca tomaram leite, pois eu não tinha como oferecer, uma coisa que para mim era sagrado no Paraná”, detalha emocionada. Otávio, ela lembra, viajava até Rosário Oeste, uma vez por mês para comprar o básico. “Tudo era difícil. Tinha o ônibus São Cristóvão que passava aqui na segunda de tarde e seguia para Sinop, voltava nas terças e, então o Otávio embarcava e seguia para Rosário, voltando na quinta-feira. O Otávio ia e trazia farinha, café, sal, querosene para o liquinho, coisa que não estragasse. A carne era de pesca ou de caça e depois das galinhas que criávamos”, detalha. Como não havia energia, Otávio tinha que cuidar tudo o que comprasse: devia ser na medida e nenhum produto perecível, pois não havia como guardar.
Maria se emociona ao lembrar que era necessário racionar a comida justamente pelo fato de não ter como acondicionar. Porções que hoje ela cozinha em dois dias – e que teria que ser assim há mais 50 anos atrás também – eram racionadas para ser preparadas durante quatro a cinco dias. “Não passamos fome, fome, porque eu e o Otávio, dávamos um jeito pescando, caçando”, chora ao contar.
“Mas vontade e necessidade sim, muitas e muitas vezes. Eu não tinha um doce, uma bolacha para oferecer para os meus filhos, eles tinham vontade; muitas vezes eu e o Otávio também, mas a gente engolia em seco e continuava, ele acreditava que aqui iria crescer”, diz enquanto as lágrimas correm silenciosas e endossam as lembranças de tempos difíceis
“Muitas vezes faltavam roupas e calçados para as crianças e para nós; tudo era muito caro. Não havia a comodidade de banco ou qualquer facilidade nesse sentido, então o Otávio só recebia dinheiro em mãos a cada três meses, e isso apenas se o seu Dário viesse. Nunca havia certeza de sua vinda, por isso todas as compras eram feitas com muito controle. A cada viagem mensal, Otávio trazia um pouco e organizava o dinheiro para que fosse suficiente até a próxima visita do Dário”, relata.
A roupa, Maria lavava na beira do Lira, em uma tábua cortada para a finalidade. A água que bebiam, também era do rio: todo dia ela enchia o balde e fervia em cima de um fogão à lenha ou em uma fogueira de chão perto de casa. A comida também era feita com a água do Lira.
“Tudo era o Lira, o banho, a água e o alimento, porque o peixe vinha de lá, tenho muito amor e gratidão por esse rio”, diz. Mais de uma vez viu sucuri passar do lado, quando estava no rio, também viu antas, capivaras, onças. “Da casinha de pau a pique, dava pra ver de tudo que era bicho, mas com a proteção de Deus, eles nunca chegaram perto”.
Gratidão que ela estende aos soldados do 9.º BEC. “Eles estavam abrindo a estrada que depois seria a BR-163 e construindo as pontes e sempre nos auxiliaram, sempre nos trataram com muito respeito. Muitas vezes nos deram comida, o que evitou que passássemos fome; outras forneciam medicamentos, nos auxiliaram muitas vezes”, detalha.
Quando Otávio e os filhos Nilza e Niziel foram acometidos por malária, uma doença que nunca tinham ouvido falar, Maria seguia a pé pedir a ajuda dos vizinhos, percorria o trecho em oração. “Deus sempre providencia: em todas as vezes que eles estavam muito mal, eu encontrava os soldados trabalhando por perto e eles levavam para o Hospital das Irmãs em Vera”, diz.
Já em Vera, era necessário deixar o marido e as crianças sob o olhar das irmãs, era nesses momentos que Maria confiava em Deus, rezava com fé e dor e acreditava na força do abraço da irmã Adélia. Era necessário deixar todos à cargo da irmã e voltar sozinha.
“Teve várias vezes que o Otávio ficou três, quatro dias lá, então ele voltava e eu tinha que ir levar as crianças e voltar porque não era permitido que ficasse com eles. Voltavam as crianças e os soldados e na mesma viagem, levavam o Otávio, mal novamente. Foi um ciclo muito difícil de vencer, eles ficaram muito fracos, foi um ano de várias internações”, se emociona. Ela lembra que as irmãs aconselhavam que deviam se alimentar melhor, variar, mas com a comida regrada era difícil. Foi mais de um ano de luta, até os três ficarem bem.
Desses dias, Maria tem a lembrança e o gosto da solidão bem presentes. “Muitas vezes era só eu e Deus: você podia gritar que ninguém iria te ouvir, você se machucava, chorava de dor, gritava angustiada e não tinha ninguém para socorrer. Então aprendi a falar para Deus, falar da minha fé e me manter apegada a ele”, resgata do passado.
Mesmo quando todos estavam em casa, ainda havia silêncio e solidão. “Só nós quatro e mais ninguém; se o Otávio saía pra ver se estava tudo bem, éramos só eu e as crianças e eu tinha que me apegar com Deus”. A distância de quem ficou no Paraná era enorme, a saudade também. Por muito tempo, Maria não teve notícias: Dário não era da mesma cidade do pai dela e a família não sabia por onde a menina doce e cheia de sonhos, que saiu do Paraná, andava.
Em 1975, a solidão ficou um pouco menor. Desde 1973, ela sabia que dois homens acampavam por alguns meses na mata, eles abriam uma área para plantar, iam e vinham para o Sul. Eram Ivo Raiser e Nelson Francio. Quem lhe contava a novidade era o marido, Otávio.
“Foi quando pensei que haveria de vir gente, quem sabe outra mulher, pois aqui eu vivia sozinha”. E veio. Nelson mudou com Catharina e os três filhos pequenos em 1975. Mas ficavam longe da casinha de Maria, a solidão ainda continuava. O que ela tinha certeza é que agora o lugar cresceria. É dessa época o restaurante tocado por Catharina e Nelson e a vendinha de secos e molhados, de seu Helmuth Seidel.
A vilazinha tomava forma. “Em 1977, seu Ângelo Dal Molin e o cunhado dele, o Valdir Demori, colocaram o Posto Sorrisão e isso mudou tudo”. Com um local de parada estabelecido, a vila cresceu. Se o posto acalentava como uma mostra de futuro, também custou várias lágrimas de Maria.
Ali já havia uma vendinha e quando as crianças passavam viam e pediam brinquedos, comida, doces. Para tudo, ela tinha que dizer não. Muitas vezes, tanto ela quanto o marido, continuaram usando a roupa surrada para dar algo melhor às crianças.
Em 1977, os mais velhos passaram a frequentar as aulas de dona Arlete Cappellari. Ali ela teve certeza de que viraria uma cidade. “Eu mesma pouco estudei, fazia questão que a Nilza e o Niziel, fossem na aula”, detalha.
A vida em Sorriso passou a ter mais cor, sabor e tom de alegria em 1977, quando Dário vendeu a Fazenda Paulista para Diamantino Borges e Antônio Augusto Coelho.
A Fazenda Paulista passou a ser a Fazenda Santa Anastácia e os novos proprietários fizeram questão de manter o casal, agora transferido para uma casa melhor. Diamantino e Toninho, como Antônio era conhecido, iniciaram a abertura da área. Diamantino, que era amigo de Aréssio Paquer e conhecia o campo experimental que havia sido montado em Sorriso, pediu à Otávio se ele plantaria a terra. Otávio, que já era habituado a semear, lavrar, carpir e plantar no Paraná, respondeu de pronto, que sim. Por dois ou três anos, Otávio esteve à frente da lavoura que mais produziu. Era um orgulho imenso.
“Ali passamos a viver felizes. Seu Diamantino e seu Toninho, vinham todo mês; traziam muita provisão, vivemos em fartura: todo mês, traziam um saco de doce para as crianças, quando descobriram que eles nunca tinham comido nada. Traziam coisa que até eu nunca tinha visto, uma das coisas desse tempo, era a pipoquinha doce, um sabor que derretia na boca”, recorda. Traziam roupas, calçados. Inaugurou-se um tempo feliz para a família.
Foi na época da Santa Anastácia, que Maria ficou grávida da terceira filha. Como em Sorriso não havia hospital, ela teve a menina em Cuiabá. Por sorte, as contrações iniciaram em uma quinta-feira, dia em que o São Cristóvão passava.
Nesse tempo, ela trabalhava como cozinheira da fazenda e tinha um auxiliar por alcunha de Toninho. “Deixamos a Nilza e o Niziel com ele e embarcamos no ônibus”. Seguiram, ela e Otávio. O ônibus atolou em Nova Mutum. “Parecia que a cada solavanco, a dor aumentava, ficamos muito tempo parados; o Otávio numa preocupação que só”.
Assim que chegaram em Cuiabá, o ônibus parou em frente à Santa Casa de Misericórdia, Maria atravessou a rua e o marido pediu por socorro. Levaram a esposa para deitar e uma enfermeira foi buscar uma toalha, para que ela pudesse tomar um banho depois da viagem exaustiva.
Mas não deu tempo: Nilva nasceu ali amparada pelo pai e as enfermeiras. Assim que teve alta, Maria com a bebê nos braços, subiu no ônibus com o auxílio do marido e retornou para a Santa Anastácia. Nilza foi registrada na segunda folha do cartório do 2.º Ofício de seu Benedito Abadia da Silva. “Era pra ter sido na primeira, mas o pai demorou para ir”, pontua hoje Nilva.
Com a bebê pequena e os outros dois maiores, Maria arrumou trabalho na limpeza do Hospital e Maternidade Nossa Senhora de Fátima. Foi uma das primeiras funcionárias do Hospital, inaugurado em 1980, pelos médicos Carlos Frison e Derly Simão. No ano seguinte, em 1981, o Hospital atendeu 320 pacientes e realizou 21 partos, um deles foi o de Débora, a quarta filha de Otávio e Maria Vilani. A mãe havia saído do Fátima pouco antes. “Só não começou com N também, porque dona Alice, que era madrinha, falou ‘chega de N’”, sorri Maria.
Alice é a psicóloga Alice Cury, esposa do advogado da Fazenda Santa Anastácia, que escolhida como madrinha, fez uma lista com três nomes de menina “Ana, Débora e Carolina” para que os pais optassem por um. “Mostrei para o Otávio ele disse, ‘vamos por Débora, então’”. Débora nasceu, em 30 de maio de 1981.
Quando a menina nasceu, Maria havia mudado para a cidade. Otávio continuava na fazenda; ela mudou para facilitar o acesso dos mais velhos à escola. Foi uma das primeiras moradoras do Bairro Bom Jesus, o primeiro da cidade – em tudo foi pioneira.
Na casa onde passou a residir deu abrigo à muita gente, que chegava em busca de dias melhores. Com a mudança, passaram a ver Otávio a cada quinze dias, pois ele continuava na lavoura. Na cidade, ela arrumou serviço como cozinheira do Chapéu de Palha, a lanchonete de Dircéia e Estácio, que recebeu o apelido de “12 Furo”, depois de uma pendenga resolvida no 38, por dois frequentadores.
Apesar dos 12 furos, ninguém se feriu. “Era comum que os homens andassem armados e quando discutiam, atiravam pro alto, o teto vivia furado, daí o apelido”, conta sorrindo e lembrando das rusgas antigas que presenciou.
“Naquela época sentia medo, hoje eu me divirto lembrando”. Por ali ficou até 1986, comandando a cozinha. Otávio também ficou até esse ano na Santa Anastácia, depois passou a pegar empreitadas em várias fazendas da região.
Enquanto isso, Maria amargava a saudade da família. Até que em 1982, passou um caminhoneiro e lhe contou que conhecia uma de suas irmãs, a filha mais velha do segundo casamento do pai, Maria Isabel. “Escrevi uma cartinha e na volta, quando veio de Sinop pra cá ele parou e pegou minha carta e levou para a Isabel”. A partir da,í ela passou a esperar a resposta que demorava entre seis meses e até dois anos, dependia dos fretes que o motorista pegava.
O sistema de comunicação com a família continuou por cartas, sempre quando o conhecido passava. Foi assim que em 1982, quando chegou a resposta de Maria Isabel que a primogênita de seu Manoel soube da morte do pai em 1977. A notícia na letra miúda de Maria Isabel, provocou muita dor. “Você vive um luto muito intenso, o luto de não estar lá e o luto de saber tempos depois, foi muito triste”, diz.
Maria conta que teve que seguir em frente. E infelizmente, por problemas familiares em 1986, voltou para o Paraná, com os quatro filhos. Débora, a mais nova tinha cinco anos, lembra bem de brincar pela tubulação do Bom Jesus antes de ir embora. Pouco depois, em Paranavaí, o marido bateu à porta. Queria convencê-la a voltar. Ela disse que não. Ele então pegou Niziel e o trouxe de volta. Pouco tempo depois Nilza, que trabalhava na cidade em Paranavaí, pegou o ônibus sem a mãe saber e voltou para Sorriso, tinha 17 anos.
“Era muito apegada ao pai”, pontua Maria “e aqui era tudo o que ela conhecia”. A comunicação com os filhos e o marido passou a ser por telefone. “O telefone da vizinha, dona Maria, que pra nós sempre foi a tia Maria”, conta Débora. Infelizmente, Otávio faleceu em 03 de março de 1999.
Em 2004, ela fez a mudança e retornou com Débora e Nilva para Sorriso, de onde nunca devia ter saído, frisa. Voltou a morar no mesmo endereço de outrora, na Vinícius de Moraes, no Bom Jesus. No quintal grande da casa da mãe, Nilza, Niziel e Nilva, construíram seus lares. Débora reside no Mário Raiter.
Hoje a grande alegria de Maria, é ver a casa cheia e a comida farta na mesa. É feliz cozinhando de tudo e muito para a família. Segundo a neta mais nova, Aylla, de oito anos, a vó faz a melhor lasanha do mundo.
Nilza, conta a mãe, é vendedora; ela é mãe de Alex, Alessandra e Alécio, “todos com A”, brinca Maria. Niziel exerce o ofício de pedreiro, casado com Lucimara é pai de Niziel Júnior, Suelen Maiara e Elias, o netinho mais novo de dona Maria. Nilva, casada com Robson, é mãe de Otávio e Maria Eduarda. A caçula, Débora, é mãe de Ariadne e Aylla, “as duas com A”, constata a avó.
Além disso, ela é bisavó de Pietro, Pedro, Manoela, Maitê e Gabriel. “Quando olho para eles, sinto muita gratidão. Gratidão ao Rio Lira, aos soldados do 9.º BEC, ao seu Diamantino e ao seu Toninho, que foram pessoas muito especiais nas nossas vidas. Também tenho gratidão ao Otávio, porque foi ele que teve a coragem de dizer sim ao Dário; ao meu pai e a todos que vieram antes de mim e aqueles que de uma forma ou outras, estiveram e estão na minha vida”, confessa a mulher, que reuniu a coragem e a doçura e transformou em resiliência, a luta por dias bonitos. De olhar meigo e mãos calejadas, Maria Vilani dos Santos de Souza Cruz, a primeira mulher a residir neste chão, narra a história de Sorriso da varanda casa, cheia de plantas bem cuidadas, amor no coração e orgulho pela cidade que ajudou a criar. Vilani é o símbolo da coragem, resiliência e doçura, a tradução do próprio nome que carrega.
1973
Benjamin Raiser e Catharina Doneda
O homem que ajudava a batizar bairros e prédios tinha como grande sonho a Chapada
Desbravador e visionário, Benjamin Raiser transformou terras inexploradas em uma cidade cheia de história e tradição.
Benjamin Raiser e Catharina Doneda, desbravaram os três estados da Região Sul. Construíram uma numerosa família, com mais de uma dezena de filhos, e acompanharam de perto a atuação política do patriarca em Caçador (SC) e em Rio das Antas, distrito cuja emancipação ajudou a conquistar.
Mais tarde, ousaram sonhar com o longínquo Mato Grosso. O olhar se voltou inicialmente para Chapada dos Guimarães, mas foi em Sorriso que fincaram raízes. Benjamin Raiser dá nome a diversos pontos de Sorriso: um bairro, uma unidade básica de saúde e, mais recentemente, o Centro Histórico-Cultural Benjamin Raiser — todos grafados com “S”, por uma curiosa ironia de datilografia que acabou alterando a letra. Inaugurado em agosto de 2022, o Centro Histórico-Cultural está instalado na área central, na Praça da Juventude, em um prédio amplo que chama a atenção de quem passa e revela parte da história de Sorriso. Mas, afinal, quem é o homem que empresta seu nome a bairros e prédios espalhados pela cidade?
Por trás do nome há um homem descrito pelos próprios familiares como um ‘desbravador, visionário e aventureiro’. Nascido em 26 de maio de 1905, em Garibaldi, na região serrana do Rio Grande do Sul, Benjamin veio ao mundo no início do inverno. Filho dos imigrantes alemães Cezário Raiser e Berta Raiser, já trazia no DNA o espírito da aventura e da busca pelo desconhecido.
Foi também no estado gaúcho que Benjamin, aos 23 anos, se casou com a descendente de imigrantes italianos, Catharina Doneda; o ano era 1928.
Filhos de imigrantes europeus atraídos pelas promessas de abundância nas colônias do Sul do país, o jovem casal estava habituado ao trabalho árduo nas lavouras. Inverno duro, verão intenso, educados sob costumes rígidos e à base de muito trabalho na roça. Instalados nas imediações de Arroio Trinta e Não-Me-Toque (RS), foi que o casal viu nascer sete dos doze filhos que teriam.
Por volta da década de 1940, com os filhos pequenos, Benjamin e Catharina mudam-se para Rio das Antas. Na época, comunidade do município de Caçador (SC). A viagem entre os estados do Sul foi toda feita em carro de bois. A velha e boa carroça, meio de transporte comum às mudanças sulinas na época da transferência da família.
Durante dias, a família percorreu o caminho que os levou até o meio oeste catarinense por estradas abertas no meio da mata e seguindo o caminho das mulas – era hábito soltar as mulas na mata e abrir a estrada no caminho percorrido pelos animais que, naturalmente buscavam os melhores pontos.
Lá, bem antes de desbravar o Mato Grosso, Benjamin e Catharina ajudaram a construir e moldar o que viria a ser o município de Rio das Antas, emancipado em junho de 1958. A terra recém-adquirida pelo casal é uma região de araucária, Benjamin à moda da época, com bois, correntes, machado e serrotes, limpou um espaço entre os pinheiros, derrubando as árvores do eitão em que viria a instalar a casa e o começo da lavoura.
Foi das próprias árvores derrubadas que ele construiu a casa da família. Em Rio das Antas nasceram os filhos mais novos do casal que, além dos 11 biológicos, também adotou mais um menino, formando uma família com sete meninas e cinco filhos homens. Foi também da área de pinus que a família Doneda/Raiser passou a tirar boa parte do sustento. Visionário que era, Benjamin percebeu nas araucárias uma nova oportunidade de renda e instalou uma serraria acompanhada de uma fábrica de caixas, estas produzidas com a madeira mais fina.
Acostumados a enfrentar dificuldades, tudo é aproveitado: cascas, pequenos pedaços e cavaquinhos que viraram lenha e aqueceram a grande família nos dias frios. Além disso, havia ainda a roça. No local desbravado plantaram milho. Para dar conta de todo o serviço, a família inteira trabalhava. Trocava dias de serviço com os vizinhos em uma prática que consistia em reunir mutirões de colonos em uma propriedade para trabalhar, fazendo rodízio, até que todos que colaboraram, eram ajudados.
Ainda assim, foi necessário contratar mais gente. Nos períodos de maior serviço (por volta dos anos 50), cerca de 30 funcionários também atuavam nos campos e na fábrica dos Raiser. O homem que queria desbravar o mundo sabia da importância da educação, e assim que a situação econômica começou a melhorar, enviou os filhos homens para o internato. Um por um, os três homens mais velhos foram estudar e retornaram bem antes do previsto. Não se adaptaram, o que acabou desestimulando o casal quando chegou a vez dos oito mais novos estudarem. Quando criança, Benjamin havia tido a oportunidade de estudar apenas seis meses. Foi nesse curto período que aprendeu a fazer os cálculos de cabeça que o tornaram famoso entre os familiares e vizinhos anos depois.
Benjamin acreditava na educação. Daquelas tábuas de pinus arrancadas da terra, ele levantou uma pequena escola na propriedade e foi ali que os 12 filhos – incluindo as meninas, os filhos dos funcionários e os filhos de outros colonos da redondeza – estudaram até o quarto ano do ensino fundamental. Essas tábuas também renderam mais um espaço necessário ao desenvolvimento da propriedade da família: um armazém de secos e molhados que servia como o mercado para os funcionários. Quando Rio das Antas ainda pertencia a Caçador, Benjamin foi vereador por uma legislatura, em 1955. Com o município já emancipado, voltou a ocupar uma cadeira na Câmara em duas legislaturas consecutivas, de 1963 a 1966 e de 1967 a 1969. Entre 1969 e 1973, foi eleito vice-prefeito de Rio das Antas.
Antes mesmo de assumir a vice prefeitura, o patriarca lançou o filho mais velho, Ivo, como candidato a prefeito, mas ele acabou derrotado por uma diferença de apenas seis votos. Apesar da decepção na política, a vida parecia boa em Rio das Antas. Mas era pouco para o espírito aventureiro. E foi assim que o colono e madeireiro foi parar adquirindo terras em Nova Londrina (PR). Ainda residindo em Santa Catarina, Benjamin plantou lavouras de café no Paraná e depois passou a criar gado. A ocupação exigia que ele viajasse constantemente de um ponto a outro, já que tinha posses no estado vizinho. Para auxiliá-lo na empreitada, o filho Armindo, acompanhado da esposa Nilse e dos filhos Altair e Dalson, mudou-se para o Paraná.
Um novo capítulo: rumo a outro estado
Com os três estados do Sul já conhecidos, Benjamin tornou a ouvir falar de Mato Grosso. Anos antes, ele já havia tocado no assunto com a família e impregnado nos filhos ainda pequenos a ideia da mudança para a região Centro-Oeste. Em 1970, durante a política de ocupação populacional das terras do Mato Grosso, quando o então presidente do Brasil, general Emílio Garrastazu Médici, estabeleceu o Programa de Integração Nacional (PIN), Benjamin retomou o sonho de conhecer o Mato Grosso.
No pacote do PIN estava a construção de duas grandes rodovias: a Transamazônica e a Rodovia da Integração Nacional. A Rodovia da Integração Nacional ligaria Cuiabá a Santarém (PA), com batalhões do Exército conduzindo as obras em cada ponta e a previsão de que as frentes de trabalho se encontrassem na Serra do Cachimbo.
Em meio a esse cenário, havia a promessa de terras férteis e de extensas áreas disponíveis para quem desejasse povoar a região. Empolgado, Benjamin passou a afirmar em casa que a família se mudaria para Chapada dos Guimarães. Pensando nisso, requereu terras com o Governo Federal em Chapada; a prática era comum na época. Contudo, como demorou para visitar o local e reforçar a intenção da colonização, acabou perdendo as terras. Benjamin não havia requerido espaço no povoamento urbano de Chapada — município que, em sua fundação, em 1722, chegou a ser considerado o maior do mundo, com uma área de 6.250 quilômetros quadrados, alcançando regiões onde hoje estão os limites de Alta Floresta. Ainda assim, ele seguia em busca de terras no interior.
Foi apenas em 1971 que Benjamin Raiser visitou o Mato Grosso para conhecer as terras que havia requerido em Chapada, descobrindo então que já as havia perdido. Conformado, o aventureiro se preparava para retornar, descansando no Hotel Presidencial, em Cuiabá, quando o destino o colocou frente a frente com Edmund Augustus Zanini.
Zanini, conhecido na história como o ‘Americano’, era casado com Therese Frances. Em 1963, o casal havia vendido as propriedades que tinha nos Estados Unidos e vindo para o Brasil com o objetivo de desenvolver atividades agropecuárias. Em Mato Grosso, adquiriram uma área de 149 mil hectares, então pertencente ao município de Nobres. O casal estabeleceu-se com os filhos em Cuiabá, enquanto Edmund deu início ao processo de ocupação das terras que, anos mais tarde, formariam uma parcela significativa dos municípios de Sorriso, Nova Ubiratã e Lucas do Rio Verde.
Em 1969, o Americano havia montado a Agropecuária Morocó em sociedade com tecnocratas, militares, industriais e latifundiários paulistanos chamados Ângelo Zanini, Carlos Henrique de Campos Zanini, Carmo Ortalli, João Peres Aneas, Jorge Bittar, Peter Levasier, Edemur Almeida, Reinaldo Silva Coelho e Ubiratan Spinelli, político de tradicional família cuiabana. O propósito da agropecuária era obter um financiamento de 50 milhões de dólares junto à Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), que viabilizaria a abertura de áreas e a formação de pastagens para criação de 100 mil cabeças de boi – visando abastecer todo o Centro-Oeste do Brasil que vivia um momento de crescimento e implantação de novas cidades.
O projeto não deu certo, e foi nesse cenário que os caminhos de Benjamin e Edmundo Zanini se cruzam. Desanimado, o Americano resolve vender parte da área. Benjamin compra seus primeiros mil alqueires em 1971. Em 1973, compra mais mil alqueires. Cada filho homem recebe 200 alqueires; já para as filhas mulheres, a herança é de 100 alqueires para cada uma. Um ano antes desse encontro que desenharia o futuro contorno de Sorriso, o 9º BEC (Batalhão de Engenharia Civil e Construção) inicia a implantação da BR-163 pelo lado mato-grossense.
Mais de 1.500 pessoas, entre civis e militares trabalharam na abertura do traçado e construção da rodovia de terra. Em 1971, quando Benjamin e o Americano fecham o negócio, já estava instalado o caminho que levaria até as terras adquiridas pelo gaúcho. A BR-163, de terra batida, desenrolava-se em meio à mata.
Em 1973, Benjamin convence o filho Ivo Raiser e o genro Nelson Francio a conhecer e desbravar o espaço. A dupla chega à região em uma viagem guiada por Benjamin que, ainda sem saber, havia concretizado a própria profecia: seria dono de parte da área de Chapada dos Guimarães – já que lá nos idos de 1700, Sorriso integrou o território inicial de Chapada, tendo depois pertencido a Nobres e conquistado a emancipação política-administrativa em 1986. Contudo, naquele ano de 1973, embora tivesse enviado os filhos Ivo e Nelson — este último casado com Catarina e já com filhos pequenos —, o primeiro proprietário oficial de Sorriso não passou a residir imediatamente nas terras.
Mesmo vivendo em Santa Catarina, em uma casa confortável e com acesso a centros comerciais maiores, foi em Sorriso que Benjamin e Catharina, em 1978, celebraram as Bodas de Ouro, em meio ao cerrado. Para a festa de 50 anos do casal, Benjamin fretou um ônibus em Santa Catarina para trazer amigos e familiares.
Nesta data tão importante para o casal, deixou o conforto de Rio das Antas para se embrenhar no mato. E Catharina, carinhosamente chamada pela família de Nona Catharina, veio ao Mato Grosso pela primeira vez em 1977, pouco antes da festa que celebraria o cinquentenário de vida a dois e os contornos da jovem cidade.
Em Sorriso, um buraco foi cavado no chão de terra para armazenar as muitas caixas de cerveja e refrigerantes que animaram a festa. Sobre as bebidas, colocava-se bastante gelo para mantê-las geladas e, por cima de tudo, uma camada de serragem.
“Eu tinha dez anos, mas me lembro muito bem dessa festa: da música, da quantidade de gente e da felicidade do nono. Ele tinha muito orgulho em dizer que foi dali que fundou Sorriso e que trouxe os parentes para conhecer e comemorar ali”, recorda o neto Lenoir Marcos Francio, filho de Catarina — que, curiosamente, carrega o mesmo nome da avó e de uma tia, irmã de Nelson. Em 1985, um ano antes da emancipação político-administrativa de Sorriso — então pertencente a Nobres —, Benjamin e Catharina Raiser mudaram-se definitivamente para as terras mato-grossenses. Antes disso, tiveram a confirmação de que o filho Ivo havia vencido a eleição.
Anos depois, um adversário político procurou Benjamin para relatar que, naquela eleição de 1966, os votos destinados a Ivo Raiser, registrados em cédulas de papel, teriam sido contabilizados para outro Ivo: Pedro Ivo Figueiredo de Campos, deputado estadual por Santa Catarina entre 1967 e 1971.O mesmo Pedro Ivo Figueiredo de Campos que ocupou o posto de governador do estado ‘barriga-verde’, de 1987 a 1990. A história, no final das contas, arrancou, gargalhadas – ou sorrisos (!) – de Benjamin. Não houve mágoas, apenas a certeza de que era para ser assim, para que se sentisse impulsionado a ir adiante, atrás das terras de Chapada que um dia ocuparam seu imaginário.
Já na data da mudança definitiva, em 1985, Catharina na casa dos 70 anos e Benjamim com 80, encontram um novo cenário: o lugar antes tomado pela mata, cede espaço a ruas ordenadas, ainda de chão batido e com muita poeira, mas já se veem os limites da cidade delineados. O gerador, fonte de energia, era instrumento comum na Sorriso de 85. Havia também um posto telefônico com fax para mandar e receber notícias de quem estava longe!
A cidade já abrigava os recursos essenciais como escola, farmácias, mercados, lojas – a primeira de todas inclusive foi da filha Carmelinda, conhecida simplesmente como Carmem, que merece um capítulo especial da história sorrisiense. Benjamin e Catharina estavam presentes em 1986 na comemoração da emancipação política-administrativa, fazendo jus ao legado junto à cidade. Três anos depois, em 1988, já instalados de forma definitiva, era hora de renovar os votos matrimoniais. Uma década depois, Benjamin e Catharina celebram 60 anos de casados, as Bodas de Diamante, em Sorriso. E novamente repetem a comemoração 10 anos depois, em 1998, com as Bodas de Brilhante, nos 70 anos de casados! Viveram uma longa história de amor, paralela à história de entrega à terra que, presentes ou distantes, ajudaram a moldar.
Em Sorriso, Benjamin nunca se candidatou a nenhum cargo político: ele gostava mesmo era de falar e movimentar os bastidores da política local; nas campanhas e disputas já se destacava o nome do neto Gerson Luiz Francio. Nos 14 anos em que residiu em Sorriso, o patriarca Raiser se tornou conhecido por ser uma pessoa a quem qualquer um poderia recorrer: para uns emprestava dinheiro – e geralmente não tinha coragem de cobrar; para outros tinha tempo para bons causos e histórias.
A filha Catarina o descreve como um homem de palavra: jamais voltava atrás depois do aperto de mão ao fechar um negócio. Em casa, as decisões tomadas nunca eram contestadas. Comprometido com o trabalho e com fazer dar certo tudo o que se propunha a realizar. Um senhor de muitas viagens, mas ao mesmo tempo um pai muito presente, preocupado com a família, vizinhos, conhecidos, e um nono que gostava muito de narrar causos aos netos.
“Ele tinha um orgulho imenso dessa cidade. Era, com certeza, como um dos filhos dele”, reflete a filha. Os 12 filhos chegaram a residir na cidade que o pai também embalou, e apenas três decidiram não permanecer por terras sorrisienses: o filho Armindo, aquele que cuidou das terras no Paraná e retornou para Santa Catarina, onde faleceu (sua esposa Nilse permanece residindo em Rio das Antas); a filha mais velha Olinda Raiser Schulz reside em Bataiporã (MS). A filha Berta Raiser Seidel mora em Guarantã do Norte e as outras filhas, Ezelfira, Catarina, Cristina, Carmelinda e Maria residem em Sorriso.
Legado Raiser
Quanto a Benjamin, o homem que nomeia bairro e prédios, faleceu em Sorriso, a cidade que incentivou e instruiu o filho e o genro a abrir suas divisas, em 16 de novembro de 1999. Mas até o descer de seu caixão fez história.Nas lembranças de Catarina filha, está o momento em que o corpo do pai é descido para a terra e o coveiro o reconhece. Ele conta que oito dias antes, ‘aquele senhor’ esteve no cemitério procurando um bom lugar para o jazigo da família. A preocupação era a esposa que, à época, acometida pelo Mal de Alzheimer, estava internada e debilitada. Conforme o último causo que Benjamin ajudou a contar de corpo presente, ele foi até o local e escolheu um espaço gramado e pediu a instalação de uma torneira para facilitar o serviço de regar a grama e outras plantas, quando houvesse necessidade.
O coveiro relata que não o viu chegar e nem percebeu como aquele senhor de 94 anos foi embora. Mas no dia do enterro, o trabalhador também não sabia que corpo deveria ocupar aquele local. Foi somente ao descer o caixão reconheceu Benjamin Raiser e contou à família que ele mesmo escolheu sua última morada.
A esposa Catharina só viria a falecer sete anos depois, sendo sepultada no local já escolhido por Benjamin (Catharina viveu em Sorriso por 21 anos). Sob o túmulo, a torneira está instalada, o gramado se mantém verde o ano inteiro e as flores estão cheias de cor. “Ele era feliz, foi muito feliz aqui em Sorriso, e sonhando com essas terras antes mesmo de vir. Ele tinha muito orgulho de cada pedacinho daqui, contava para parentes, amigos, que era o lugar que ele escolheu”, discorre Catarina Raiser Francio. E ele falava: “graças a Deus, o Ivo não foi eleito; se o Ivo tivesse sido eleito (no Sul), Sorriso iria existir, sim, em algum outro momento, mas a história e as pessoas seriam outras e ele era muito grato por tudo ter sido do jeito que foi e ter feito parte dessa comunidade”, completa.
Empreendedor, aventureiro, visionário. Benjamin Raiser adquiriu as terras no coração do Mato Grosso, fez nome e história.
1973
Padre Gaspar José Goldschmidt
A vida e sacerdócio de Padre Gaspar
Olhar calmo, sorriso bondoso, conselhos seguidos pelos fiéis, padre Gaspar é constantemente lembrado pelos sorrisense. De fé inabalável, o padre já sofreu represálias da própria igreja. “Meu apego está em Deus”.
Gaspar José Goldschmidt nasceu em Santa Cruz do Sul (RS), em 19 de março de 1953. Autodenominado “o mais cuiabano dos padres gaúchos”, costuma brincar que aquele foi o dia mais feliz do mundo. “Foi quando recebi o dom da vida”, afirma.
Filho de José, bodegueiro e proprietário de um armazém de secos e molhados, e de Etelvina — carinhosamente chamada de Dona Noquinha — Gaspar é o caçula de cinco irmãos: dois homens (sendo o mais velho já falecido) e três mulheres. Assim como os demais, foi educado sob os valores da fé e do amor transmitidos pelos pais.
Aos 10 anos, o menino Gaspar manifestou o desejo de estudar em um seminário. A vontade, compartilhada e acolhida pelos pais, foi prontamente atendida. “Já era o chamado, essa voz que somente quem já ouviu é capaz de entender”, avalia, com sua habitual voz mansa.
E assim o menino Gaspar, com apenas 11 anos rumou para o seminário em Arroio do Meio, da Diocese de Santa Cruz do Sul, e por lá ficou até os 14 anos de idade. “Fui expulso”, conta. A exclusão se deu pelo fato de o menino cobrar ações práticas do Concílio Vaticano II, que havia terminado em 1965. A direção do seminário considerou o adolescente revolucionário demais para a época. “Aceitei a decisão, entendi que Deus gostaria que eu refletisse mais. Fiquei com um pouco de raiva, mas a semente estava ali o tempo todo”, diz.
Gaspar também entendeu sua maior lição: nunca dizer que gosta de religião ou de Deus apenas pela influência de um padre, mas amar a Deus e seguir o sacerdote pelos ensinamentos bons que ele prega.
Após deixar o seminário, retornou à rotina de estudos em uma escola regular, onde concluiu o curso Técnico em Contabilidade. No cotidiano, dividia o tempo entre os estudos e o trabalho em casa, auxiliando o pai no balcão do armazém e a mãe nos diversos afazeres domésticos. Habilidoso e atento, sempre observou com interesse o trabalho manual desenvolvido por ela. O terço rezado diariamente pelos pais também se tornava uma semente constante de fé em sua formação.
Enquanto a fé amadurecia, Gaspar seguiu investindo na vida acadêmica. Chegou a cursar até o terceiro ano de Administração de Empresas e ingressou na Souza Cruz — hoje BAT Brasil, subsidiária da British American Tobacco no país — atuando no setor de exportação. O trabalho lhe garantia uma remuneração elevada para a época.
Mas a voz interior voltou a soar com força. Ao completar 19 anos, o jovem Gaspar decidiu se inscrever na Missão Anchieta, um projeto indigenista dos padres jesuítas voltado ao apoio às comunidades indígenas de Mato Grosso. Assim como outros jovens participantes, passou por um período de formação em Mafra (SC) e, em 6 de janeiro de 1973, partiu rumo às terras mato-grossenses.
Três dias depois, o grupo desembarcou em Diamantino. Coincidentemente — e de forma simbólica — era 9 de janeiro, data conhecida na história do Brasil como o “Dia do Fico”, quando, em 1822, o príncipe D. Pedro I declarou que permaneceria no país, contrariando as ordens das Cortes portuguesas que exigiam seu retorno a Lisboa. “Cheguei no Dia do Fico. Estava em meu destino permanecer aqui”, sorri.
O trabalho inicial de Gaspar foi como professor na comunidade de Santo Afonso. Durante quatro meses, esteve em sala de aula tentando suprir a carência de educadores locais. No entanto, ao longo do percurso, sua função mudou. A coordenação do projeto percebeu o talento do jovem para a fotografia e, como a missão era subsidiada por recursos públicos federais — “um padre de Brasília conseguia os recursos”, relembra —, tornou-se necessário documentar e comprovar as ações realizadas.
Assim, Gaspar passou a atuar como fotógrafo oficial da missão. “Não havia estradas para muitas das comunidades”, recorda. Para alcançar territórios como a Terra Indígena Apiaká e Caiabi, no Pontal de Apiacás, além de outras 16 comunidades que integram o Parque Nacional do Xingu, os missionários utilizavam um pequeno avião. “Ver a realidade dessas comunidades me tocou profundamente”, conta.
Dessa experiência, o padre preserva diversas fotografias reveladas pelo processo analógico e, sobretudo, um acervo imensurável de lembranças guardadas na memória. Finda a missão, o jovem retorna para Santa Cruz do Sul e à rotina de trabalho e estudos.
Passado um ano, Gaspar voltou a procurar o bispo responsável pela Diocese de Santa Cruz do Sul. A ele confidenciou que o chamado não cessava. Como na Diocese de Santa Cruz não havia possibilidade de retorno — em razão de sua saída anterior do seminário —, o bispo o encaminhou a Dom Henrique Froehlich, em Diamantino (MT).
Gaspar queria ser padre e desejava servir no Mato Grosso, onde havia presenciado de perto as necessidades das comunidades, indígenas ou não, e constatado a escassez de sacerdotes. Foi prontamente acolhido de volta pela Diocese de Diamantino, com um abraço fraterno, e enviado para um seminário em Campo Grande, então ainda pertencente ao território de Mato Grosso.
Em Campo Grande, permaneceu por sete anos, período em que cursou Filosofia e Teologia. “Nesse tempo, meus irmãos faziam uma ‘vaquinha’ todo mês para ajudar a pagar as despesas do seminário”, recorda. Gaspar conta ainda que os cinco filhos de seu José e dona Etelvina concluíram o ensino superior, todos sustentados pelo trabalho da costureira e pelo balcão cuidado diariamente pelo bodegueiro. “Eles enfrentaram muitas dificuldades pelo caminho, mas sempre seguiram adiante e nos ensinavam que era preciso trabalhar e ter fé”, afirma.
Ao longo desses anos, o jovem aprofundou sua vocação. No início do quarto ano, decidiu dedicar seu trabalho de conclusão de curso ao serviço social, atendendo engraxates, jornaleiros e guardadores de carro. Para isso, uniu-se ao PRONAVE da Prefeitura e deu início às suas ações comunitárias.
“No primeiro dia, um engraxate chamado Afrânio me perguntou se eu podia trocar um dinheiro. Fiquei tocado pela educação do menino e decidi que iria ajudá-lo ao longo da vida. Seria apenas uma gota no oceano, mas seria minha parte para um mundo melhor. Acabei ajudando toda a família”, recorda.
Gaspar conta que a mãe de Afrânio havia sido abandonada pelo marido e criava sozinha os sete filhos. “Foi quando ela me ofereceu ser tutor do Afrânio. Fomos ao juizado e ela me passou a guarda do menino. Ele morava com ela, mas a orientação diária era minha responsabilidade. Um ano depois, o levei para Santa Cruz do Sul, para ficar com meus pais e estudar.
Ele completou o ensino básico e me pediu para ingressar no seminário. Enviei-o para o Seminário Maria Mãe da Igreja, em Presidente Prudente, onde concluiu o ensino médio, mas depois decidiu sair. Concordei de pronto, mas pedi que viesse morar comigo em Sorriso, pois tinha apenas 15 anos.”
Em Sorriso, inspirado pela experiência escoteira vivida em Prudente, Afrânio cofundou o grupo de Escudeiros e tornou-se seu chefe. Mais tarde, já em Cuiabá, cursou Jornalismo e chegou a ser diretor do Jornal Diário de Mato Grosso. “Quando estava no auge de sua vida, casado e pai de três filhos, Deus o recolheu num trágico acidente na altura do Posto Gil”, conclui o padre, emocionado.
O jovem Gaspar foi ordenado padre na Catedral de Santa Cruz do Sul, em 1982, em uma missa assistida por mais de seis mil pessoas. No ano seguinte, foi nomeado para assumir uma nova paróquia a ser instituída no Mato Grosso.
“Quando assumi minha vocação, minha catequista me disse: ‘vou te auxiliar a trilhar o caminho’”, recorda. A promessa foi feita e cumprida por Edite Eidt, que, em novembro de 1982, saiu do Rio Grande do Sul e chegou a Sorriso para conhecer de perto os desafios que o jovem padre enfrentaria.
Gaspar chegou à cidade em janeiro de 1983 e encontrou um relatório detalhado. Naquele ano, Sorriso contava com 230 famílias católicas registradas. O trabalho realizado por Edite incluía endereços de idosos, pessoas acamadas e o total de crianças aptas a frequentar a catequese, além de identificar a necessidade de cursos para noivos, preparando as famílias que se formariam.
Com o relatório em mãos, Gaspar estava pronto. Em 26 de fevereiro de 1983, o jovem padre assumiu a recém-criada paróquia. Um jipe decorado aguardava tanto o padre quanto o bispo Dom Henrique Flöehlich — o mesmo que, em 1973, havia ministrado a primeira missa católica em terras sorrisenses proferida por um religioso ordenado.
O veículo estava enfeitado com flores colhidas nos quintais locais, e dois banquinhos de madeira foram instalados na parte traseira para os religiosos, que seguiram em desfile de carro aberto — do local onde hoje está o Mercado Sorriso até a igreja, cujas paredes já estavam levantadas e a cobertura instalada. Nesse momento, antes de Gaspar assumir oficialmente como pároco, Dom Henrique realizou a leitura e a instalação da Paróquia São Pedro Apóstolo de Sorriso.
“Na entrada da igreja, quatro meninas vestidas de anjo nos esperavam. Foi muito lindo”, lembra o sacerdote, emocionado. As meninas eram Jaquelaine Favero Zanquetin — filha de Elci Favero, a dona Eti, que foi coordenadora de catequese por vários anos —, Gabriela Libanori, Maria de Lourdes Balbinot e Mariza Koch, irmã do atual pároco Valdir Koch. Com a instalação da paróquia, a população celebrou com uma grande festa, marcando o início de uma nova etapa na história religiosa de Sorriso.
E assim começou o trabalho do padre Gaspar. Inicialmente, não havia sequer um lugar para ele morar, e acabou residindo em uma casa cedida por pioneiros da região. O trabalho era intenso: muitas famílias a visitar, inúmeras demandas a atender.
Três meses após a posse, o padre recebeu de um de seus padrinhos de instalação da paróquia, o pioneiro Ignácio Schevinski Neto, um VW Fusca. Agora motorizado, pôde ampliar suas visitas, incluindo as famílias dos distritos de Caravágio e Primavera. A abrangência da paróquia chegava até Santo Antônio do Rio Bonito, a 140 quilômetros da sede. “Em época de chuva, era muito difícil”, recorda. Com estradas de terra esburacadas e em muitos trechos apenas picadas, chegar de carro era impossível.
Para ajudar, um jovem da comunidade de Rio Bonito se ofereceu para buscar o padre em determinado ponto. “Faltando alguns quilômetros, eu deixava o Fusca e seguia na garupa da moto, tomava muitos tombos no caminho. Houve um dia de muita chuva em que caímos em um buraco”, conta Gaspar. Apesar de levemente esfolado e com a batina coberta de lama, rezou a missa naquele dia “cheio da graça de Deus no coração”.
Essa comunidade era formada por colonos vindos da região do Lago de Itaipu, indenizados por suas terras e que haviam adquirido novas áreas em Mato Grosso. Porém, ao chegar, encontraram pessoas inescrupulosas que prometiam o paraíso — posto de saúde, escola e infraestrutura — mas exigiam que pagassem novamente por suas terras. “Fui a Sinop e registrei o caso junto ao bispo, que acionou o juiz.
A reintegração de posse foi concedida, mas os grileiros ameaçaram os colonos, e dois foram assassinados. Recebemos essas famílias em Sorriso, no Centro Comunitário, aguardando uma nova reintegração. Por essa ação, colocaram na porta da minha casa dois bilhetes com ameaças de morte”, recorda.
Era o final do segundo semestre de 1986. “Preocupado com minha segurança, Dom Henrique decidiu me enviar, em janeiro de 1987, a Roma para um curso de espiritualidade com duração de dois anos. Mas, ao final do primeiro ano, alegando falta de padres, precisei retornar à paróquia de Sorriso, onde permaneci até o início de 1989”, conclui Gaspar.
Na cidade em formação, o padre Gaspar atuava muitas vezes como psicólogo das famílias pioneiras. A vida era dura e as famílias viviam divididas: sem energia elétrica, sem escolas adequadas. “As salas de aula eram organizadas conforme a necessidade dos alunos. Os pais ficavam na lavoura, enquanto as mães permaneciam na cidade com as crianças. Na sexta-feira à tarde, os maridos vinham buscar esposas e filhos para o fim de semana, pois não podiam interromper o plantio ou a colheita”, explica.
Era o esforço coletivo que movia tudo. Durante a semana, as mães cuidavam das crianças e das aulas; nos finais de semana, pilotavam tratores ao lado dos maridos. “Essa terra deve muito da sua força a essas mulheres”, observa Gaspar. Mas a dureza da vida, a distância dos próprios pais e do conforto conhecido frequentemente as levava à depressão. Muitas desanimavam, pensando em voltar para trás.
Era nesse momento que entrava o padre Gaspar, oferecendo apoio e aconselhamento, ajudando a aliviar a saudade e fortalecendo a fé. “Sempre orientei a se manterem firmes na fé. Creio que foi a fé que sustentou muitas mulheres e famílias, permitindo que permanecessem aqui”, reforça.
Após residir por algum tempo em uma casa emprestada, foi construída a Casa Paroquial. “Morei nela por um ano”, recorda Gaspar. Em 1985, com a chegada de quatro irmãs para administrar a escola particular ligada à igreja — o Centro de Educação Básica São José —, o padre cedeu a Casa Paroquial às religiosas e mudou-se novamente para um espaço emprestado: um quarto na residência de uma família devota.
Nesse local, permaneceu por quatro meses, até que fosse construída a estrutura do atual Centro Comunitário Vale da Paz, então bem menor do que é hoje. Ali, o padre residiu durante cerca de um ano. “Depois, fechamos um pequeno quarto na própria igreja, e passei a morar nesse espaço”, acrescenta.
Dos tempos da instalação do São José, o padre Gaspar guarda boas lembranças. “A escola foi aberta e abençoada. Lembro de brincar com seu Claudino Francio e dizer: “Sorriso vai virar uma grande cidade”. Ele riu e respondeu: ‘Tomara, padre!’”. Para Gaspar, a fala proferida naquele 19 de março de 1985 já se tornou realidade.
Ativo e atento às necessidades de seus fiéis, ainda naquele ano Gaspar formou um grupo de escoteiros dedicado a cuidar e instruir crianças. “Já me preocupava com o mundo das drogas lícitas e ilícitas e queria proteger essas crianças”, recorda.
Foi assim que o atual pároco Valdir Koch teve seu primeiro contato com o padre Gaspar. Valdir integrou o grupo de escoteiros, frequentou a catequese, foi coroinha e também atuou como secretário da paróquia. “Havia nele, desde criança, o chamado. Sou muito feliz em ver meu coroinha agora padre”, frisa Gaspar.
“Dizem que todo padre deve formar outro pelo exemplo e pela dedicação. Sinto-me feliz por ter inspirado diversos jovens em várias partes do Mato Grosso. Muitos escolheram a vida sacerdotal, especialmente em Várzea Grande e Cuiabá, e aqui, na minha primeira paróquia, formou-se o Valdir”, completa.
Padre Gaspar permaneceu em Sorriso até 1989, quando um novo chamado o levou a atuar como capelão do Exército Brasileiro. Dom Henrique havia participado de uma reunião em Brasília, na qual a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) solicitava sugestões de padres para atuar junto às Forças Armadas. O governo federal e a Santa Sé estreitavam laços e iniciavam a estrutura da Arquidiocese Militar, demandando voluntários. “Pensei que, com a paróquia já bem encaminhada, minha missão local estava cumprida. Dom Henrique precisava de voluntários, e eu fui”, recorda Gaspar.
Aquele ano foi inteiramente dedicado ao aprendizado do novo ofício. Padre Gaspar e outros religiosos passaram um período na Academia Militar das Agulhas Negras, em Rezende (RJ), recebendo preparação específica. “O primeiro passo foi conviver com a farda e não com a batina”, conta. Saiu de lá como aspirante a oficial.
Como não havia voluntários para o Mato Grosso, Gaspar assumiu naturalmente a vaga de tenente-capelão na 13ª Brigada de Infantaria Motorizada, em Cuiabá. Em apenas quatro meses, foi promovido a 1º tenente. Para ele, aquele foi um período de grande desafio. Jovens a partir de 18 anos chegavam ao Exército e, diante da nova realidade e da distância das famílias e comunidades, muitos perdiam seus vínculos e referências. “Dois jovens tentaram suicídio. Sou grato por ter tido a oportunidade de acolhê-los e, juntos, conseguirmos evitar a tragédia”, recorda.
Padre Gaspar saiu da 13ª Brigada de Infantaria Motorizada em 1994 como 1º tenente. Em 5 de abril de 1994, foi para atender outro chamado especial: o bispo Dom Bonifácio Piccinini precisava de padres auxiliares na Catedral. “A Catedral é a igreja do bispo, todos os demais são auxiliares e cumpri essa função por 15 anos como Cura da Catedral”. Nesse período, Gaspar também foi chanceler da Cúria e atendeu a Paróquia de Acorizal. “Ia para Acorizal toda sexta-feira e retornava na segunda, foi um bom período, pregar a fé sempre é bom”, destaca.
Desse período, Gaspar brinca que permanecerá um tempo no purgatório para “pagar o ego”. Durante sua trajetória, recebeu os títulos de cidadão mato-grossense, cuiabano e sorrisiense. “Digo sempre que sou um mato-grossense que nasceu no Rio Grande do Sul por engano; esses títulos vieram para oficializar meu vínculo com a terra que amo. Senti-me muito lisonjeado. É a nossa vaidade humana — e brinco que, por ter me sentido tão prestigiado, ainda terei que prestar contas”, comenta, sorrindo largamente.
A segunda represália
Após 15 anos de serviços na Catedral, o sacerdote enfrentou novamente uma dificuldade. Gaspar, sem saber que sofria de depressão, percebeu que estava doente. “Pedi licença para voltar ao Rio Grande do Sul. Achei que ia morrer e queria estar ao lado da minha família, das minhas irmãs e sobrinhos; precisava restabelecer esse elo”. Seus pais e o irmão mais velhos já haviam falecido.
Embora o bispo não tenha concordado, Gaspar partiu para sua terra natal. Acusado de desobediência, foi proibido de celebrar missas no Mato Grosso e perdeu o direito à côngrua — o salário recebido pelos religiosos. Chegou a Santa Cruz do Sul em fevereiro, e, em março, teve a côngrua e o plano de saúde cortados.
No Rio Grande do Sul, Padre Gaspar foi diagnosticado com depressão severa. A dor não era física, vinha da alma. “Padres também adoecem”, reflete. Durante oito meses, sofreu de forma intensa e devastadora. O consolo vinha da presença em casa de uma irmã, do carinho da família e de um crucifixo — um presente de noivado que seu José dera a dona Etelvina em 1942. Desde então, o crucifixo acompanhava a mãe em sua carteira.
Quando ela faleceu, Gaspar pediu como única herança o crucifixo. “Minha mãe era maravilhosa. Sempre colocava uma flor, mesmo que de papel, ajeitava uma imagem do Espírito Santo, bordava; havia sempre algo belo e elevado a Deus perto dela”, recorda. Dona Etelvina, bordadeira talentosa, deixou às filhas jogos de lençóis ricamente bordados, peças alvas, cuidadas e belas. “Escolhi o crucifixo, que me acompanhou nos momentos mais difíceis”, conclui o padre.
Oito meses após ter sido acolhido na casa da irmã e um pouco melhor, Gaspar foi convidado pelo então Bispo de Santa Cruz, Dom Sinésio Bohn, a assumir uma paróquia na diocese. Mudou-se para Travesseiro, no Vale do Taquari. Na época com três mil habitantes, Travesseiro havia se emancipado de Arroio do Meio em 1992. O local havia sido nomeado assim por ser um ponto de travessia do Arroio Jacaré, atual Rio Forqueta.
Novamente o padre estava em uma paróquia pequena em que todos se conheciam. “Fui muito feliz lá por seis bons anos”. Até ficar doente e contrair pneumonia duas vezes no mesmo ano. “Então um médico me disse que meu pulmão não era feito para o frio”. Era um atestado clínico comprovando que o padre pertencia ao Centro-Oeste.
Seguindo os conselhos médicos, Padre Gaspar retornou ao Mato Grosso em 2014. Inicialmente, fixou-se em Cuiabá, uma cidade que guarda no coração. Na capital, tentou tornar realidade o sonho de construir uma casa de apoio para atender pacientes e familiares do interior durante os tratamentos na cidade.
“Cheguei a receber a notícia da liberação de uma verba, mas o dinheiro acabou não chegando até mim, e acabei desistindo”, relata. “Hoje entendo que tudo acontece no tempo de Deus e que esses ensinamentos serviram para eu aprender a ser mais paciente. Não foi possível abrir a casa de apoio por algum motivo especial, e compreendi que não posso fazer tudo; Deus me abençoa naquilo que é possível realizar”, confia.
Em 2019, Gaspar decidiu encerrar o projeto e retornou a Sorriso, onde havia semeado a palavra no início de sua missão. Ao longo de todos esses anos, nunca rompeu os laços com a cidade. Retornava sempre que podia para visitar os fiéis, celebrar casamentos em que era convidado e até mesmo para pescar.
Ao longo de sua trajetória, estima ter celebrado mais de 600 casamentos e realizado bem mais de três mil batizados. “São todas vidas consagradas ao amor de Deus”, destaca.
Sem a côngrua, em Sorriso, Padre Gaspar vive com o apoio de amigos e fiéis. “Não preciso de muito”, afirma. O carro é emprestado por um amigo, e a casa em que reside tem o aluguel custeado por outra família amiga, ainda dos tempos do início de sua vida sacerdotal. “De meu, só alguns poucos itens da mobília e minha fé, que é inabalável e inegociável”, acrescenta o padre, considerado “inconveniente” pela Igreja em duas ocasiões, mas profundamente amado pelos fiéis.
Proibido de atos públicos no Mato Grosso, Padre Gaspar reza a missa sozinho todos os dias. “Esse é um momento de grande alegria para mim: abrir os olhos e ver a claridade é o melhor momento do dia; agradeço por estar vivo”, conta.
Seus dias são permeados pela fé e pelos trabalhos manuais, cuja habilidade herdou da mãe. Gaspar pinta em óleo sobre tela, costura, produz artesanato, lê a Bíblia e jamais deixa de comparecer a um casamento em que seja convidado, lembrando aos noivos que Deus os colocou um no caminho do outro para que sejam felizes e espalhem a força do amor e da fé.
Em Sorriso, Padre Gaspar se sente acolhido. Na casa de Jaquelaine, uma das quatro meninas que o recepcionaram com vestes de anjo, guarda as relíquias de uma vida inteira dedicada ao sacerdócio — são 43 anos de ordenação. Entre os itens estão o crucifixo e uma imagem da Imaculada Conceição.
“Uma vez, quando estava em Cuiabá, procurei um santeiro — profissional especializado na fabricação de imagens de santos — para fazer uma réplica da imagem do Senhor Bom Jesus usada nas procissões. Por ser uma peça de mais de 300 anos, tinha medo que se quebrasse, então encomendei a réplica”, recorda. O santeiro fez a réplica e, como presente, deu ao padre a imagem original. “São gestos que nos tocam”, comenta.
Dentre outras imagens e símbolos, Nossa Senhora da Imaculada Conceição e o crucifixo são guardados por Jaquelaine com devoção e amor. “São objetos carregados de memória. A história deles não pode acabar comigo; com ela, estão em boas mãos”, reflete o sacerdote sobre a mulher que ajudou a educar e fortalecer a fé em sua vida.
É ela quem conta dos muitos dons do sacerdote. “Além de pintar, costurar, fazer artesanato é um ótimo cozinheiro e um amigo sempre pronto a auxiliar, um conselheiro com a palavra certa”, diz Jaquelaine.
As vestes usadas na primeira missa, assim como outras memórias do padre Gaspar, estão em exposição permanente no Centro Histórico-Cultural Benjamin Raiser, carinhosamente chamado pelo sacerdote de Casa do Pioneiro. “Acho importante deixar esses registros para que as novas gerações possam ver, entender como foi e perceber as dificuldades que enfrentamos para instalar a paróquia aqui”, afirma.
Para Gaspar, quem não tem memória não sabe voltar para casa. “Sofri vários revezes na vida, mas sempre encontrei o caminho de volta, pois a presença de Deus nunca me faltou”, completa. “Vivi a alegria profunda de receber e ouvir o chamado, uma vida cheia de amor e fé, porque Deus assim escolheu”, conclui.
Padre Gaspar, hoje com 73 anos, o mais mato-grossense dos padres gaúchos, vive o amor por estas terras há 53 anos. De Sorriso, cidade que conheceu em 1983, não pretende se afastar. “Serei adubo da terra que semeei com a palavra de Deus; que a morte me encontre vivo”, declara.
