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1986
Assis Diomar Ferreira - Hidráulica Sorriso
Sobre o lado bom da vida
Esse capítulo não remete somente à história de vida de Assis Diomar Ferreira – um homem que sabe viver o lado bom da vida. Nas linhas que seguem, ele pontua as lembranças dos primeiros quinze dias de Sorriso como município legalmente constituído e reconhecido, além de contar um pouco da sua própria trajetória e dos acasos do destino.
Assis Diomar Ferreira, que mais tarde ficaria conhecido apenas como Diomar, nasceu em Marmeleiro (PR), em 10 de outubro de 1970.
Viveu na cidade até os seis anos de idade, quando a família se mudou para o município vizinho de Francisco Beltrão, estabelecendo-se na comunidade de São Roque. Foi ali que Diomar aprendeu a ler, a escrever, a trabalhar.
Filho de agricultores, ia para a lavoura desde pequeno. Ouvia os planos do pai acerca de mudar de vida. Em 1984, quando o garoto tinha 14 anos, corria à boca solta na comunidade a novidade de que no Mato Grosso, em uma cidade recém-iniciada de nome Sinop, estava se instalando uma usina de produção de farinha de mandioca.
O nome de Ênio Pepino, um dos colonizadores da cidade, era citado a toda hora. Junto com as novidades sobre Sinop, também chegavam informações sobre Sorriso, outra cidade recém-iniciada e já bastante comentada.
“Foi assim que meu irmão mais velho, José Luís, acabou vindo para cá. De tanto ouvir falar e de saber, por conhecidos, que havia trabalho na lavoura, ele decidiu vir”, conta.
Dois anos depois, o caminho feito pelo primogênito dos Ferreira da comunidade São Roque, foi refeito pelos irmãos mais novos, Diomar e João Carlos. Os dois embarcaram sem ter real noção do que enfrentariam, enquanto a mãe chorava na rodoviária.
“Eu não compreendia aquele choro; para mim, tudo parecia uma aventura. Ela, porém, sabia muito mais do que eu imaginava: despedia-se de um filho, via-nos como homens formados, justos e honestos, e nos entregava ao mundo”, reflete.
Se para a mãe ficava o peso da saudade, para os meninos crescia a aventura. “No meio do caminho acabou o dinheiro, não passamos fome porque tínhamos o bornal bem arrumado e recheado pela mãe”, diz. Depois de três dias na estrada, enfim os dois chegaram. E o choque foi grande. “Não havia cidade, não do jeito que estávamos acostumados, era um deserto verde”.
Os dois desceram do ônibus à noite e foram para o hotel mais próximo. “A rodoviária era perto de onde é o Posto Sorrisão.” No hotel, alugavam-se camas, não a diária do quarto. Era um aposento com três camas, sendo que uma já estava ocupada. Os irmãos ficaram com as outras duas e dormiram ao lado de um desconhecido, de quem nunca souberam o nome nem tiveram notícias depois.
Na manhã seguinte, quem apareceu para pagar a diária das camas e resgatá-los foi Alcino Manfroi.
Guiados pelo pioneiro, os dois seguiram para a casa de Alcino, onde José Luís já estava instalado, para que, assim como o irmão mais velho, passassem a trabalhar nas lavouras do seu Manfroi.
Primeiro prefeito é eleito
Era 27 de outubro de 1986. Sorriso havia sido elevado à categoria de município em 13 de maio daquele mesmo ano.
Também foi realizada eleição para a escolha do primeiro prefeito da cidade. A votação ainda era feita por meio de cédulas de papel. “Chegamos aos últimos dias da campanha eleitoral e aquele pleito acabou elegendo seu Alcino Manfroi, como prefeito. Não me lembro onde ocorreu a apuração, nem de que forma, acompanhamos o resultado, mas jamais esqueço a emoção e o abraço que demos em seu Alcino”, conta.
A disputa foi voto a voto: tanto Alcino quanto o adversário, receberam pouco mais de 800 votos cada. “Sorriso tinha pouco mais de 1,6 mil eleitores naquela época”, ressalta o empresário.
Prefeito eleito, na segunda-feira seguinte, seu Alcino chama o filho Silvio e Diomar para acompanhá-lo à sede da Prefeitura.
“Os primeiros 15 dias da história da Prefeitura de Sorriso foram construídos sobre a Loja Lenita, na Avenida Brescansin. Ali funcionava a subprefeitura, e foi nesse espaço que a prefeitura permaneceu até ser transferida para um chalé mais ao fundo. Infelizmente, não tiramos fotos daqueles dias”, relata.
A função de Silvio e Diomar era simples: limpar o local para que Alcino pudesse instalar o gabinete. Havia apenas uma escrivaninha e uma cadeira.
“Seu Alcino comprou tudo do bolso, maquinário, caçambas, o que a cidade apresentava como necessidade, ele dava um jeito. Um homem incrível, dedicado à família e ao trabalho, ele era incansável”.
Seu Alcino, primeiro prefeito, foi eleito para um mandato “tampão” de dois anos. Nas lembranças de Diomar, estão as viagens que o prefeito fazia a Nobres atrás de documentação. Eram oito dias, entre a ida e volta, em uma BR-163 de terra e esburacada. “Assim que concluiu o mandato, eu parei de trabalhar com ele, havia acabado de completar 18 anos, mas nunca esqueci os ensinamentos e o cuidado com cada pessoa”.
Dentre as obras de seu Alcino, constam a chegada de telefone, energia elétrica, implantação do Banco do Estado e a vinda da Escola Estadual Mário Spinelli.
Nesse meio tempo, em janeiro de 1987, os pais e os irmãos mais novos de Diomar, também haviam se mudado para Sorriso. A mudança veio em um caminhão pau de arara, carregando vaca de leite, cachorro, gato, além de seis crianças, tudo misturado. Além dos pais, vieram os seis irmãos mais novos – agora, toda a família residia no Mato Grosso.
Com a chegada da família e o fim do mandato de Alcino, o jovem inicia a procura por trabalho em outros pontos. “A cidade desenvolvia muito rápido, em 1988 já tinha mais empresas e tanto eu quanto meus irmãos começamos a trabalhar com a parte de mecânica e hidráulica de máquinas pesadas, além da parte de motores dos muitos geradores que mantinham a cidade”, relata. “O asfalto só chegava em uma única rua, na Brescansin e terminava na igreja”, lembra.
“Sempre gostei de comércio, de gente, de conversar, e assim que as coisas foram começando a dar certo, eu pensei em por meu próprio negócio”, relata.
Assim, ainda no início dos anos 90, Diomar coloca uma loja, a “Lojão de Fábrica”, onde trabalhava com vestuário e calçados. A loja era tocada pela própria família. Ao lado do Lojão, funcionava uma loja de lingerie, a La Belle Lingerie.
Atuando na loja e acompanhando o crescimento da cidade, Diomar percebeu o tanto de serviço que um mecânico realizava na cidade. Então, junto com os irmãos João Carlos e Valmir, Diomar decidiu estabelecer uma oficina.
“Abrimos em um banheiro; tinha um posto com um banheiro abandonado e pedimos ao dono para alugar a sala, ele disse que poderíamos reformar e usar por um ano sem pagar aluguel. Assim, em um espaço de três metros de largura com 15 de comprimento – os irmãos quebraram uma das paredes do banheiro e seguiram com a empresa até o fim das instalações do prédio – abrimos a nossa oficina”, relata.
Para atender os chamados da clientela, os três dividiam uma bicicleta velha em que carregavam a caixa de ferramentas. Mas até surgir clientes, foram três longos meses em que os Assis, amargaram prejuízos.
Por fim, com a propaganda de boca em boca de que o serviço era bom, foram aparecendo os clientes. “A situação melhorou quando conseguimos instalar uma linha telefônica que atendia pelo número 544-3181 para as chamadas – o mesmo número segue ativo até hoje, com acréscimo do 3 no prefixo. O fato é que esse telefone nos endividou, pois naquela época você pagava o preço de um carro novo por um telefone”.
Endividados, os Ferreira não tinham opção: precisavam trabalhar com afinco, sem escolher clientes ou horários. A lida era tanto para pagar o telefone, como para tirar algum lucro. Maio de 1995, marcou o início das atividades oficiais da Hidráulica Sorriso.
Ser jovem na Sorriso de outrora, não era fácil. Eram poucas opções de bares e restaurantes. “O ponto de encontro de todo mundo era o D’graus ou o Chapéu de Palha. Mas havia um porém: quase não havia moças na cidade. Saía-se para dançar e não havia com quem dançar. “Eu dizia para minha mãe que não tinha como arrumar uma namorada”, conta Diomar, rindo.
Foi quando o destino entrou em ação. Diomar viajava de ônibus até o Braz, em São Paulo, para buscar as novidades que figuravam no Lojão de Fábrica.
Uma viagem longa e cansativa de, no mínimo três dias para ida e mais três dias para volta. E numa dessas viagens, depois das compras feitas, um equívoco resultou na mesma poltrona vendida mais de uma vez. Era a poltrona ao lado em que Diomar estava.
No fim, o motorista foi chamado para auxiliar e, Diomar, ouvindo que uma das donas do bilhete duplicado era de Sorriso, resolve a contenda e a convida a se sentar ao seu lado, enquanto a outro moça, de outra cidade mais ao Norte, foi para um banco mais ao fundo. Conversa vai, conversa vem, ele descobre que a moça ao seu lado se chamava Angela Bedin e era a dona da loja de lingerie.
Era fim de 1994. “Praticamente saí daquele ônibus casado, pois nunca mais larguei a Angela, minha alma gêmea”, conta.
Por ironia do destino, o rapaz que tinha medo de ficar solteiro casou-se aos 24 anos de idade. Quando ela foi cursar Direito em São Paulo, ele a acompanhou. “Era o sonho dela”.
Angela havia chegado em Sorriso em 1979 com os pais, Luiz Carlos Bedin e Zulmira Granetto Bedin. A intenção era produzir uma ou duas safras e voltar para Renascença (PR).
Em 1982, quando Luiz Carlos falou sobre o retorno, dona Zulmira foi enfática e disse que não retornaria. Ela escolheu ficar em Sorriso. Além de Angela, o casal também é pai de Cristiane e Adriana.
Com as lojas instaladas lado a lado na Rua Videiras, nº 805, Diomar seguia na hidráulica junto aos irmãos. “Trabalho nunca faltou”. Assim que retornaram de São Paulo, Diomar voltou aos plantões.
A loja de vestuário, a essa altura, já fora vendida. “Todo o esforço passou a ser concentrado na hidráulica, e meu sogro nos auxiliou. Ele fez um bom preço e compramos uma F-100 para carregar o material e atender com mais agilidade. “Essa caminhonete foi uma mão na roda por muitos anos na hidráulica”, conta.
Enquanto isso, a vida pessoal da família também passava por transformações. Foi após a esposa ter se formado e estabelecer carreira que chegaram as filhas Luanna e Luna. “Hoje olho para elas e entendo o choro da minha mãe, jamais deixaria o que tenho de mais valioso se aventurar no mundo sem lenço nem documento”, sorri, ao citar o clássico da música popular brasileira, eternizada na voz de Caetano Veloso.
Da época em que iniciou, quando as filhas eram pequenas, ele lembra que não tinha dinheiro nem mesmo para fazer estoque de peças. “Tudo era muito demorado, não tínhamos como ter estoque, porque faltavam recursos. Quando precisávamos de uma peça, aguardávamos duas semanas; agora, você comercializa com qualquer lugar do mundo e em dois dias, três, recebe os produtos”, avalia.
Hoje, além da Hidráulica Sorriso, que completou 30 anos em maio de 2025, Diomar também administra a Fazenda São Luiz, pertencente à família de Angela, e a Transportadora Sorriagro, fundada em 2006.
A transportadora, ressalta, surgiu da necessidade da própria fazenda. Para dar conta dessas diferentes frentes de trabalho, ele acabou se afastando parcialmente da rotina da hidráulica.
“Há pouco tempo, em 2018, enfrentamos uma grande crise na Hidráulica, porque meu irmão, o Carlos, queria fechar. Então voltei para cá, fui atrás do Charlinho (Charles, um dos antigos funcionários), que havia saído e ofereci uma parte na sociedade”, conta.
Na época, o número de funcionários caiu para 11 pessoas. Charlinho aceitou voltar como sócio. Já para o irmão Valmir, de quem ele havia comprado a parte na empresa, fez a mesma proposta. “Comprei e dei parte na sociedade de volta, porque meu irmão é um dos corações dessa empresa, ele que lida diretamente com o setor de montagem, conhece melhor do que ninguém todos os nossos colaboradores e clientes, põe a mão na massa”, diz.
A filha mais velha, Luanna, também é sócia. Cursando Administração de Empresas, é a responsável pelas finanças da Hidráulica Sorriso. “Tenho muito orgulho de estar aqui, de fazer parte da história da empresa e da vida dos meus pais. Meu pai é o modelo que quero sempre seguir”, frisa. Completando o time, Thales, esposo da cunhada Cristiane, também é sócio.
“Hoje somos uma grande equipe, delegamos as funções e assim fazemos dar certo, cada um sabe das suas responsabilidades”, destaca o empresário.
A Hidráulica Sorriso conta hoje com 20 colaboradores e oferta a linha completa nos serviços de cromagem, montagem e mantém uma linha completa de fabricação de peças. “Como empresa, buscamos sempre estar atualizados e ofertar o melhor ao nosso cliente com respostas rápidas e soluções especificas para cada situação”, salienta.
A empresa, que iniciou no fundo de um banheiro, está instalada em um espaço amplo com mais de 1,6 mil metros quadrados, em via perimetral à BR-163. Diomar recorda que, quando iniciaram, havia apenas duas hidráulicas na cidade.
“Muitos dos proprietários das hidráulicas de hoje, foram nossos funcionários, saíram daqui e temos muito orgulho de dizer isso, que fizemos história, que inspiramos outras pessoas, que, de algum modo, ensinamos alguém”, pontua.
O empreendedor destaca que 80% dos sorrisienses, já devem ter feito serviços com a Hidráulica Sorriso.
“Nunca mais voltei para São Roque. Até queria levar as meninas para conhecer, mas não sei o que encontrarei. Acho que hoje o nosso lugar é aqui”, diz. Como pai, Diomar se preocupa em deixar um legado de amor às filhas e aos sobrinhos, em especial às pequenas Maria de dois anos e Amélia, de cinco, filhas de Thales e Cris, com quem ele convive diariamente. “Crianças aprendem pelo exemplo, por isso é tão importante cercá-las de amor e ensinar o caminho do bem”, frisa.
Diomar é espírita. Há dez anos, apresenta o Momento Espírita na televisão local e há sete, em uma emissora de rádio. Para dar conta de todas as funções, ele delega algumas.
“Na terça, por exemplo, gravo todos os programas de rádio, então eu confio plenamente nas decisões que meus sócios tomam aqui. Todo mundo é adulto e sabe de seus deveres. Eles sabem que confio neles e eu posso fazer meu trabalho de forma tranquila”, frisa. E em nome do ensinar e espalhar boas mensagens, também se tornou palestrante. “Viajo o estado todo”, conta.
Diomar faz questão de destacar que toda religião é boa, quando se consegue acalmar o coração e tirar bons ensinamentos. “Para mim, todas são essenciais. Mais vale um ateu digno do que um religioso hipócrita”, afirma, parafraseando Divaldo Franco.
Para ele, o adágio popular exemplifica que nossas ações precisam corresponder às palavras e gerar bons frutos: “de nada adianta pregar o bem que não se faz. Para ser verdadeiro, precisa ser acompanhado de ações práticas”, reforça.
Dentre as muitas facetas, o palestrante é o autor da música “O lado bom da vida”, em que canta “ama, trabalha, perdoa, espera... tudo vai acontecer, esse é o lado bom da vida pra se viver....”, como uma oração. E na sequência, segue com “você levanta sua mão pro céu e faz sua prece, não espera que façam por você” que canta com a cunhada Cristiane.
A própria música, frisa ele, é uma ode de amor e bons ensinamentos. Amar, orar, trabalhar, perdoar, fazer a sua própria prece. “Há muita beleza neste lado da vida, só precisamos viver de forma que possamos reproduzir e ver o quanto há de belo em cada novo dia”, aconselha. Assim como na letra da música, fazer a sua própria prece. “Há muita beleza nessa oração”, completa.
Cantar, inclusive, é um dos dons de Diomar. No momento desta entrevista, ele preparava para o fim do ano de 2025, a canção “Tem dias que tá tudo bem”, do compositor Nando Cordel, que já embalou várias trilhas sonoras de romances da televisão. “É do Nando em parceria com o incrível Dominguinhos a composição ‘Isso aqui tá bom demais’”, diz. “Conheci ele pessoalmente há alguns anos, vi o ser humano incrível que ele é”, conta.
Para Diomar a vida é feita disso: amigos, responsabilidades, cuidado com o outro e leveza para seguir adiante. “Estamos sempre no lugar que devemos estar. Deus nos dá aquilo que precisamos e o livre arbítrio para o justo e o bom, cada passo, cada decisão só depende de nós”, aconselha com um sorriso calmo e a segurança de quem sabe que suas ações condizem com aquilo que ensina, e, mais do que isso, seguem a trilha daquilo que tem plantado no coração.
Afinal, para fazer diferença na vida do outro, precisamos iniciar mudando a nós mesmos. “Brinco que sou mil e uma utilidades, juntando tudo sou o pai, marido, filho, um cidadão que busca fazer a diferença”, salienta.
“Digo sempre a mim mesmo: quanto custa um sorriso? Para mim é simples, é o fato de que mesmo vivendo em dias em que tudo é corrido, tenhamos o instante e o dom de olhar para o outro, observar sua necessidade e estender a mão, mas, antes disso dar um sorriso”, diz. “acho que por isso eu e a cidade nos escolhemos: para mim, foi aqui que a vida sorriu”, encerra.
1986
Sônia e José Lazarotto
O legado da terra
Sangue, solo e suor foram os pilares que transformaram o destino da família Lazarotto. Descendentes de imigrantes italianos, eles construíram, ao longo de quatro gerações, uma trajetória que os levou do quase nada à consolidação de um sólido império agropecuário. A união familiar, o trabalho árduo e a compreensão profunda do valor da terra constituem os elementos centrais dessa saga, marcada pela persistência, pela adaptação e pela capacidade de transformar esforço em patrimônio e identidade.
Quando se busca uma referência do agronegócio no Norte de Mato Grosso, é quase inevitável chegar ao nome do Grupo Lazarotto. Essa potência de origem familiar administra um conjunto de fazendas modernas e reconhecidas pela excelência na agricultura e na pecuária, sustentadas por boas práticas de gestão e pelo uso de tecnologias de ponta. Gigante em extensão territorial, desempenho produtivo e capacidade de inovação, o Grupo Lazarotto possui propriedades nos estados do Rio Grande do Sul e da Bahia. Somente em Mato Grosso, são cinco fazendas. Um chão que carrega história e propósito. Um território que tem nome e sobrenome.
Essa imensidão de terras, hoje sob a gestão do grupo, não é fruto do esforço de uma única geração. O legado que atravessa solos férteis e se projeta para filhos e netos resulta de um trabalho coletivo, construído ao longo do tempo por uma família que soube crescer unida, compreendendo o valor da terra como patrimônio, identidade e horizonte de futuro.
A história começa com Felisberto Lazarotto, avô de José, movido pelo ímpeto de buscar novos caminhos para seus descendentes. Filho de imigrantes italianos, Felisberto nasceu em Garibaldi, no Rio Grande do Sul, e desde muito cedo aprendeu que a sobrevivência estava diretamente ligada ao trabalho. “Ganhou uma enxada ao completar sete anos de idade”, recorda o neto José. Aos oito anos, a família mudou-se para Santo Ângelo. Foi ali que Felisberto cresceu, casou-se e formou sua própria família.
Com o passar dos anos, fez as contas: possuía 12,5 hectares de terra, oito filhos para criar e a clara percepção de que aquela equação não se sustentaria a longo prazo. Diante desse cenário, decidiu arriscar uma marcha rumo ao Oeste, ainda dentro do território gaúcho. Na antiga região das Missões, depositou suas esperanças em um futuro mais promissor para a família.
Dos oito filhos de Felisberto, o caçula recebeu o nome de João. Já adulto, João casou-se com Iba Milanesi e o casal estabeleceu-se em Guarani das Missões, cidade vizinha. Em 1950, juntamente com um de seus irmãos, João abriu um pequeno comércio. Era um típico “bolicho” da época: um balcão simples, algumas tulhas para armazenar grãos, erva-mate e farinha, prateleiras com bebidas, querosene e fumo.
Nesse modesto estabelecimento de Secos e Molhados, João começou a desenvolver sua vocação para o comércio. “Ele era um bom negociante. Sabia conversar com as pessoas. Comprava bem, vendia também… porco, milho, trigo… fazia negócios. Sempre justo e certo para pagar e para receber”, relembra José, o terceiro dos quatro filhos do casal.
Foi nesse ambiente, entre sacas de grãos, cadernos de fiado e longas conversas no balcão, que se consolidaram os primeiros valores que mais tarde sustentariam a trajetória do Grupo Lazarotto: trabalho, honestidade, visão de futuro e a capacidade de transformar oportunidades simples em projetos duradouros.
José nasceu em 3 de abril de 1961 — ano escolhido pela Unesco como o “Ano Mundial da Semente”, uma coincidência simbólica que parece antecipar a profunda ligação que ele desenvolveria com a terra ao longo da vida. Seu pai, João, havia estudado apenas até a terceira série do ensino fundamental. Apesar da baixa escolarização formal, compreendia a importância do conhecimento e, por isso, ensinou a esposa e os cunhados a fazer contas, garantindo que todos soubessem negociar e administrar os negócios da família. Ciente do valor da educação, fez questão de oferecer aos filhos oportunidades que ele próprio não tivera.
Aos seis anos de idade, José começou a estudar no Colégio São José, onde permaneceu até a sexta série. Em seguida, foi matriculado no Colégio Estadual João Przyczynski. A rotina escolar, no entanto, sempre esteve associada ao trabalho. A maior parte dos funcionários do comércio de seu João era composta por membros da própria família: a esposa, os filhos, além de primos, tios e tias. Desde muito cedo, José também passou a ajudar no dia a dia do estabelecimento. Pesava batatas, moía pimenta e realizava tarefas simples, compatíveis com sua idade. Chegou até a cortar fumo de corda, atividade que menos apreciava. “O fumo vinha banhado em mel. Era gosmento, tinha um cheiro forte, deixava as mãos grudando”, recorda.
Com o tempo, João prosperou no comércio e gradualmente começou a adquirir mais terras. Inteligente e atento, logo percebeu que seus filhos possuíam aptidões distintas. Alguns demonstravam facilidade no trato com as pessoas, habilidade essencial para negociar, comprar, vender e conduzir o negócio. José, porém, não se encaixava nesse perfil.
Tímido, sentia-se muito mais à vontade na lida com a terra do que atrás do balcão. Não demorou para que João compreendesse que aquele filho deveria dedicar-se às lavouras que a família vinha incorporando. Aos 11 anos de idade, José já operava a colheitadeira Ideal 875, uma das primeiras máquinas do patrimônio dos Lazarotto.
A família, aliás, destacava-se pela adoção precoce da mecanização em suas áreas. José recorda um episódio emblemático que ilustra como os Lazarotto participavam dos primórdios da revolução tecnológica no campo.
Em 1964, a família utilizava uma colheitadeira importada — numa época em que ainda não existiam equipamentos desse tipo fabricados no Brasil. Certo dia, um grupo vindo de Horizontina (RS) visitou a propriedade para observar a máquina em funcionamento. Eles pertenciam à Schneider Logemann & Cia, mais conhecida como SLC. Menos de um ano depois, em 1965, a empresa lançaria no mercado a A-65, a primeira colheitadeira produzida no país, marco da indústria nacional de máquinas agrícolas.
Consolidando-se simultaneamente como comerciante e produtor rural, João deu, em 1970, um passo decisivo ao adquirir sua primeira área de terras fora do Rio Grande do Sul. Eram 750 hectares em Dourados, então parte do território do Mato Grosso, hoje Mato Grosso do Sul.
No estado gaúcho, a família já acumulava cerca de mil hectares. João tornara-se uma liderança local. Seu comércio, muitas vezes, desempenhava funções semelhantes às de um banco, guardando valores provenientes de transações e negócios da comunidade. Também exerceu papel político relevante, sendo o primeiro presidente da Câmara Municipal e vice-prefeito em duas ocasiões.
Nesse percurso, João consolidava não apenas patrimônio, mas uma posição de referência social e econômica, estabelecendo as bases sobre as quais as gerações seguintes expandiriam o legado da família Lazarotto
Enquanto seu pai demonstrava notável habilidade para lidar com as pessoas, José encontrava na terra o seu verdadeiro lugar. Por volta dos 14 anos de idade, já era responsável pela produção em diversas propriedades da família, que, somadas, alcançavam cerca de 600 hectares.
O prazer de preparar o solo, semear e acompanhar a lavoura brotar, crescer, ser colhida e, ao final de cada safra, encher os galpões, gerava nele uma satisfação profunda. Esse ciclo da produção, aliado à sua conexão direta com a terra, tornava-se uma concorrência desleal com a escola. “Quanto mais eu trabalhava na lavoura, os estudos ficavam menos interessantes”, comenta.
José continuou frequentando as aulas, mas a educação formal passou a ocupar um lugar secundário em suas prioridades. A matemática que realmente lhe despertava interesse era a dos 30 sacos de soja por hectare em um ano considerado bom. A geografia à qual se dedicava era a da próxima área a ser plantada.
“O pai acabou conseguindo aumentar muito o tamanho das áreas da família trocando terras de mato por terras de timbó. As terras com mato eram vistas como mais férteis, mais produtivas, enquanto as chamadas áreas de timbó eram consideradas de solo fraco, pouco produtivas. Então o pai trocava um hectare de mato por dois hectares de timbó. Ele entendeu cedo que o solo só precisava de correção. E assim aumentamos muito nossas lavouras”, relata José.
A busca por mais terras não representava apenas uma ambição econômica, mas uma espécie de provação familiar. Os Lazarotto desejavam honrar o propósito herdado e jamais retornar àquela equação considerada insustentável: 12,5 hectares para sustentar oito filhos. Se Felisberto partira desse ponto e conseguira multiplicar as posses da família, a missão das gerações seguintes era dar continuidade a essa jornada, assegurando a prosperidade como legado.
Em 1978, José recorda que a família procurava uma nova área para aquisição. O plano inicial era comprar algo entre 300 e 400 hectares. No entanto, surgiu a oportunidade de adquirir uma propriedade de 750 hectares, em São Nicolau. “Quando meus pais e meus irmãos fecharam o negócio, disseram que com isso não precisaríamos mais comprar terra por dez anos”, lembra José.
Mais do que uma simples expansão territorial, aquela aquisição simbolizava a reafirmação de um projeto de vida: crescer sem romper com as raízes, avançar sem esquecer o ponto de partida, e transformar a terra não apenas em meio de produção, mas em herança, identidade e futuro.
Naquele período, José contava 17 anos de idade. Ao lado dos irmãos, começava a traçar planos para o futuro, ainda sem imaginar o quanto sua vida se transformaria ao longo da década seguinte. No último dia de 1978, o jovem tímido, mais à vontade entre lavouras do que em salões, sentiu algo diferente brotar no peito. Estava na cidade, cercado de gente, em um dos tradicionais bailes de réveillon das pequenas comunidades do interior. Não era o seu território. Ali não era lugar de botina, mas de sapato engraxado.
Entre tantas pessoas reunidas no salão, porém, ele só enxergava uma. Não qualquer uma: era uma jovem de riso fácil, entusiasmada com tudo o que via e ouvia, distraída e, ao mesmo tempo, cuidadosamente observada pelos pais. Tomado por uma coragem pouco habitual, José decidiu enfrentar o próprio desassossego. Era um Lazarotto, afinal, e alguma habilidade para negociar devia correr em seu sangue. Em vez de se dirigir diretamente à moça, aproximou-se primeiro do pai, pedindo permissão para dançar com a filha. Diante do consentimento do homem, de postura firme e olhar atento, José caminhou até a jovem e a convidou para dançar.
A moça respondeu, um pouco insegura, que não sabia dançar. José, então, pediu que apenas o acompanhasse, assegurando que poderia ensiná-la. Sem perceber, naquela simplicidade de gestos e palavras, dava início a uma história que ultrapassaria em muito aquele salão iluminado.
A jovem era Sônia Fontoura Kriëger. O pai, Samuel Kriëger, acompanhava a filha ao lado da esposa, Marisa. Era a primeira vez que Sônia participava de um baile. Samuel era bancário, conhecido pela seriedade no trabalho e pelo rigor no ambiente familiar. Iniciara a carreira como estafeta e, com o tempo, tornara-se maloteiro, função que exigia absoluta confiança para o transporte de valores — reconhecimento que vinha tanto de sua conduta ética quanto de sua presença física, que inspirava respeito e segurança. Sônia era a primeira filha do casal, que mais tarde teria outras duas meninas.
Sônia nascera em 25 de setembro de 1963, em Santo Ângelo, e seu nascimento chegou a ser notícia nos jornais da região: um bebê que teria vindo ao mundo sorrindo, exibindo dois dentes já formados. Recebeu visitas e presentes de curiosos que queriam ver de perto aquele acontecimento incomum. Ainda muito pequena, com apenas três meses de idade, mudou-se com a família para Três Passos, no Rio Grande do Sul, onde viveu até os 12 anos.
Criada em um ambiente de cuidado e afeto, Sônia recorda que teve uma infância tranquila, cercada pela atenção dos pais e dos tios, marcada por segurança, alegria e proteção. Sem que soubessem naquele momento, aquele encontro de fim de ano, entre passos inseguros de dança e olhares tímidos, marcava o início de uma união que redefiniria duas trajetórias pessoais e passaria a integrar, de forma definitiva, a própria história da família Lazarotto.
Em 1975, Samuel recebeu uma proposta de promoção para assumir a gerência de uma agência em Humaitá (RS). Dois anos e meio depois, uma nova mudança se impôs à família, quando foi transferido para Guarani das Missões, onde ficaria responsável pela implantação da agência do Banrisul na cidade.
A família chegou a Guarani das Missões em 15 de setembro de 1978. Poucos dias depois, Sônia completaria 15 anos de idade — uma data carregada de simbolismo para as jovens daquela época. Era costume celebrar a chamada Festa de Debutante, evento que, de certa forma, marcava a apresentação da menina como moça diante da sociedade. Recém-chegada à cidade, Sônia passou a estudar no Colégio São José e, ali, conheceu uma colega chamada Vera. Como ainda não conhecia praticamente ninguém, pediu que ela convidasse algumas pessoas da cidade para sua festa de aniversário.
A tarefa foi cumprida, e a celebração ganhou novos contornos, reunindo convidados da região e também das cidades onde a família havia morado anteriormente. O encontro entre Sônia e José poderia ter acontecido naquela noite, mas acabou adiado por um imprevisto: uma semana antes da festa, José machucou o pé ao se espetar em um prego, o que o impediu de comparecer. Curiosamente, aquele não foi o primeiro desencontro da história do casal.
No primeiro final de semana após a chegada da família a Guarani das Missões, Samuel, ainda como novo gerente do banco na cidade, fora convidado para um casamento — justamente de um dos irmãos de José. Naquela ocasião, quem não compareceu foi Sônia, que preferiu permanecer em casa. Mesmo sem se conhecerem formalmente, os caminhos dos dois continuaram a se cruzar. Nos meses seguintes, Sônia recorda que, em algumas manhãs, a caminho da escola, passava por José, que caminhava pela rua ao lado dos irmãos. Numa dessas ocasiões, chegou a comentar com as colegas que ainda namoraria aquele rapaz.
Assim, entre encontros adiados, desencontros ocasionais e olhares à distância, a história de Sônia e José ia sendo silenciosamente construída, como se o tempo preparasse, com paciência, o momento exato para que suas trajetórias finalmente se alinhassem.
Por isso, aquela primeira dança, na primeira vez em que Sônia saía de casa sozinha, na última noite do ano, soava como uma promessa que nunca havia sido formalmente feita. Um encontro que não fora planejado, mas que acontecera depois de vários outros que quase se concretizaram. José pedira apenas que ela o acompanhasse, garantindo que a ensinaria a dançar — e ensinou. Com o tempo, ensinaria muito mais. Sônia recorda, ainda emocionada, que foi ele quem lhe ensinou a dançar, a dirigir e a enfrentar a vida. Foi seu primeiro e único namorado, companheiro para toda a vida, como define, 47 anos depois daquele baile.
O jovem casal começou a namorar naquela mesma noite, embora tudo tivesse ocorrido sob o olhar atento de Samuel, pai zeloso que não tirava os olhos da filha. Sempre que podia, aliás, fazia questão de interpor pequenos obstáculos ao relacionamento. Em determinado momento, passou a organizar viagens familiares quase todos os fins de semana, numa tentativa velada de afastar os dois.
As viagens tornaram-se cada vez mais frequentes. Durante a semana, Sônia se dedicava aos estudos e José ao trabalho no campo. Nos raros fins de semana em que poderiam se encontrar, Samuel levava a filha para longe. Para contornar a situação, Sônia passou a pedir que José viajasse com a família, única forma de conseguirem estar juntos por algum tempo.
Era um daqueles amores característicos de um tempo que já não existe. Uma história singela ilustra bem esse sentimento. Quando namoravam havia pouco mais de um ano, Sônia foi renovar sua carteira do INPS, instituto de previdência que antecedeu o INSS. O documento antigo seria descartado, mas José, ao encontrá-lo no escritório, retirou cuidadosamente a fotografia da namorada e a guardou em sua própria carteira. Aquele pequeno retrato o acompanharia por muitos anos, como símbolo silencioso do vínculo entre os dois.
Nos anos seguintes, Sônia deu continuidade aos estudos, enquanto José se consolidava na atividade agropecuária. Os Lazarotto permaneciam unidos, trabalhando juntos e expandindo seus negócios, cada um em sua frente de atuação, mas sempre sob a orientação do patriarca. Do lado dos Kriëger, em 1982, Samuel recebeu uma nova proposta de trabalho em Alvorada, na Região Metropolitana de Porto Alegre. Dessa vez, não se tratava de uma viagem temporária, mas de uma mudança definitiva, que separaria fisicamente o casal.
Antes da partida da família, em 15 de maio de 1982, José pediu Sônia em casamento. Tornaram-se noivos, mas isso não impediu a mudança. Sônia seguiu com os pais para Alvorada e concluiu o magistério em Porto Alegre. Seis meses depois, aos 19 anos de idade, retornou a Guarani das Missões para se casar com José, então com 21.
Assim, depois de desencontros, esperas e pequenas resistências, a história iniciada naquela primeira dança finalmente se transformava em projeto de vida, unindo duas trajetórias que haviam sido, desde o início, discretamente conduzidas pelo tempo.
E que festa foi aquela. Os Lazarotto eram uma família numerosa e amplamente conhecida na cidade. Durante os preparativos do casamento, Samuel chegou a demonstrar preocupação com a quantidade de convidados. Brincando, comentou com José que talvez fosse mais fácil anunciar o evento por meio de um autofalante pelas ruas, já que seria mais simples contar quem não fora convidado do que listar todos os presentes.
Somente da família Lazarotto compareceram cerca de 220 pessoas. Somados os demais convidados, a celebração reuniu mais de 500 pessoas. A festa aconteceu em 22 de janeiro de 1983, em estilo tradicional, no salão da paróquia, com um grande churrasco acompanhado de maionese de batata. Quem assumiu o comando da churrasqueira foi Belmiro Jablonski, amigo e contador da família, que aceitou a empreitada em troca de cerveja bem gelada. Foram necessários três grandes levas de carne até que todos fossem servidos, e não havia mesas suficientes para acomodar todos os convidados ao mesmo tempo.
Recém-casados, Sônia e José passaram a morar em um apartamento no centro de Guarani das Missões. O jovem casal levava uma vida confortável, mas carregava também ambições de crescimento e prosperidade. Sônia foi acolhida com carinho pela família Lazarotto e logo compreendeu a força e o valor daquela união familiar. Até hoje, preserva em sua casa um espaço dedicado às fotografias dos antepassados do esposo, gesto que expressa respeito e admiração por aqueles que abriram os caminhos antes deles.
Em 1983, uma comitiva dos Lazarotto, formada por um dos filhos de João e dois sobrinhos, percorreu o país durante quarenta dias em busca de novas oportunidades. Não se tratava de turismo, mas de negócios. A família procurava terras férteis, com potencial produtivo e facilidade de aquisição. José acabou não participando da viagem, pois o período coincidia com as provas finais do curso técnico em Contabilidade que cursava naquele momento.
Foi nessa jornada que os Lazarotto conheceram o Centro-Oeste brasileiro. No ano seguinte, em 1984, concretizaram a compra de uma área no Tocantins e de uma propriedade de aproximadamente 8,8 mil hectares em Sorriso, no Norte de Mato Grosso — passo decisivo que marcaria o início de uma nova etapa na trajetória da família e redefiniria, de forma definitiva, o horizonte de seus negócios.
No Sul, o casal colhia os primeiros frutos da união. Em 6 de novembro de 1984 nasceu Jonathan. Dois anos depois, em 30 de novembro de 1986, chegou Carine, completando o casal de filhos. Carine tinha apenas três meses de idade quando José recebeu a missão de assumir as terras da família no Norte de Mato Grosso. Até então, quem cuidava da propriedade era seu irmão mais velho, Luís Sérgio, que acabou sofrendo um infarto enquanto estava em Sorriso. Foi levado de volta ao Sul para tratamento, onde, infelizmente, dois anos depois, veio a falecer.
Na família, apenas Luís e José demonstravam verdadeira afinidade com a lavoura. Os demais irmãos seguiram o caminho do comércio. Com a ausência de Luís, recaiu sobre José a responsabilidade de administrar as terras da família mais distantes de sua querência. Seria aquilo um fardo? Para Sônia, a resposta é imediata: Mato Grosso foi a melhor coisa que aconteceu. José concorda.
Essa é a visão que o casal construiu ao longo do tempo, quase quarenta anos depois de deixarem para trás a vida confortável no Rio Grande do Sul e se lançarem à realidade ainda precária do Mato Grosso da década de 1980. Filha de bancário, Sônia sempre vivera em ambiente urbano. No apartamento em Guarani das Missões, contava com televisão, máquina de lavar, ventilador e todas as facilidades proporcionadas pela energia elétrica. Próximo de casa, havia mercado, cinema e era fácil encontrar uma empregada doméstica ou uma babá. Em Sorriso, nada disso existia. Quando chegaram, não havia como prever que aquele lugar se tornaria uma das regiões mais prósperas do país. Tratava-se, antes de tudo, de uma aposta.
A família chegou a Sorriso no final de 1986 e instalou-se em uma casa na Rua Roberto Carlos Braga. José recorda que, ao ver a cidade pela primeira vez, sentiu desânimo. Era pequena, sem infraestrutura, com comércio incipiente e poucas opções de vida social. No entanto, sua percepção mudou completamente quando foi conhecer as terras da família.
Ao chegar à propriedade e observar o trator de esteira abrindo o cerrado, sentiu-se tomado por uma sensação de encantamento. Seus instintos de homem do campo despertaram diante daquela imensidão de terra, de topografia favorável, chuvas regulares e um solo que parecia pedir para ser semeado.
Naquele momento, toda a incerteza se dissolveu. A precariedade da cidade foi compensada pela promessa silenciosa da terra. Ali, José sentiu que havia futuro. Ali, pela primeira vez desde a mudança, sentiu esperança.
Empolgado com as possibilidades que a nova terra oferecia, José construiu a sede da fazenda e preparou os primeiros 300 hectares, onde plantou arroz. Considerava muito mais fácil abrir o cerrado do que enfrentar os matos fechados do Rio Grande do Sul. O solo pobre, que exigia adubação e correção, não o intimidava. Ele já estava acostumado a lidar com terras difíceis, como as de timbó que seu pai costumava negociar por metade do preço.
Embora a família tivesse se estabelecido em Sorriso, a rotina ainda era marcada pela constante migração. José precisava continuar gerenciando a produção das terras dos Lazarotto espalhadas por outras três cidades no Rio Grande do Sul. Em uma dessas viagens, levou consigo uma amostra do solo de sua propriedade em Sorriso e a apresentou a um agrônomo do Sul, profissional conceituado e professor universitário em Passo Fundo (RS). A reação foi desanimadora. Ao analisar a amostra, o especialista teria perguntado, em tom de desdém:
“De onde vem essa pelanca? Você tirou isso da barranca da estrada?”. José recorda o episódio com indignação, sentindo-se desrespeitado pela avaliação superficial.
A opinião do agrônomo, no entanto, não abalou sua convicção. José seguiu firme apostando no potencial do solo de Sorriso. Ainda em 1986, o Grupo Lazarotto adquiriu uma área de 9,9 mil hectares em Tapurah, comprada com os recursos obtidos pela venda da propriedade de Dourados, de 750 hectares, adquirida originalmente em 1970. Dois anos depois, o grupo ampliou ainda mais seus investimentos ao comprar outra área, de 48 mil hectares, em Lucas do Rio Verde, viabilizada com a venda da fazenda de Guarapuava, no Paraná.
E falando ainda da década de 1970 e da relação dos Lazarotto com a terra, em 1978, ano em que a família adquiriu uma área em São Nicolau, no Rio Grande do Sul, a expectativa era de que não precisariam mais se preocupar com novas aquisições por, pelo menos, dez anos. No entanto, a realidade seguiu outro rumo. Ao final desse período, a família havia comprado, ao todo, cerca de 75 mil hectares de terras. Aquela aquisição em São Nicolau, feita em 1978, acabou sendo apenas mais um passo dentro de um processo contínuo de expansão.
Já em Sorriso, o luxo da família era uma televisão a pilha. O pequeno aparelho, comprado na capital, se tornava o principal lazer ao fim do dia. Com a ajuda de uma parabólica, ainda era possível acompanhar o noticiário e manter algum contato com o mundo exterior.
Esse eletroportátil foi uma distração importante para Sônia e para os filhos, que a partir de 1989 passaram a viver de forma definitiva em Sorriso. Jonathan acabava de entrar em idade escolar, o que tornou necessária a permanência da família em apenas uma cidade. José, por sua vez, seguia com a vida na estrada, conciliando as terras de Mato Grosso com propriedades no Sul do país e também na Bahia.
Enquanto isso, Sônia se enraizava em Sorriso para dar sustentação não apenas à família, mas também aos negócios. Durante os longos períodos de ausência de José, era ela quem assumia praticamente todas as responsabilidades: cuidava da casa, dos filhos e administrava o escritório da fazenda. Fazia as compras, organizava a logística de abastecimento, resolvia questões bancárias e acompanhava as crianças na escola. Era, ao mesmo tempo, mãe, pai e gestora. “Eu saía cedo de casa e só voltava no final do dia”, relembra Sônia.
José recorda que o final da década de 1980 foi marcado por grande instabilidade econômica no Brasil. Negócios envolvendo compra e venda de terras tornaram-se especialmente arriscados devido à inflação galopante. O dinheiro perdia valor com extrema rapidez, “na mesma velocidade que o leite azeda sem refrigeração”, como ele costuma dizer. Ao receber qualquer quantia, era preciso transformá-la em terra o mais rápido possível.
Em 1989, a situação chegou a um ponto tão crítico que, por pouco, a fazenda em Sorriso não foi vendida. A dificuldade, no entanto, foi superada e, ao longo da década de 1990, a produção agrícola no cerrado mato-grossense começou, de fato, a se consolidar. Novas variedades de sementes, mais precoces e mais bem adaptadas às condições da região, passaram a ser desenvolvidas, ampliando a janela de plantio e otimizando o aproveitamento do período das chuvas.
A logística, ainda bastante deficitária, começou a dar seus primeiros passos rumo à melhoria, especialmente com a pavimentação da BR-163, fundamental para o escoamento da produção. As tecnologias aplicadas ao campo ampliaram a produtividade e, como consequência, vieram também maquinários mais modernos e eficientes, capazes de atender às exigências do plantio e da colheita em larga escala. Na cidade, em 1994, a chegada da rede de energia elétrica representou mais um avanço significativo, facilitando o cotidiano da população e contribuindo para a fixação das famílias.
A maior bênção colhida por José e Sônia, no entanto, não foram apenas as terras férteis ou os benefícios trazidos pelo desenvolvimento regional. Esses fatores perderiam parte de seu valor se os filhos não tivessem se engajado de forma natural na atividade. Assim como ocorreu com Felisberto e seus descendentes, e com João e seus quatro filhos, José e Sônia conseguiram entrelaçar Jonathan e Carine aos negócios da família.
Os dois cresceram frequentando o campo, subindo em tratores e colheitadeiras, incorporando desde cedo a rotina da vida rural. À medida que amadureciam, tornavam-se cada vez mais envolvidos com o trabalho, até que, na vida adulta, passaram a ter nos empreendimentos do Grupo Lazarotto suas principais atividades. Jonathan formou-se em Agronomia, trazendo para as lavouras da família o conhecimento técnico aliado ao olhar de quem é herdeiro e gestor. Carine, por sua vez, encontrou na pecuária o seu campo de atuação, contribuindo para a expansão desse ramo dos negócios.
A ligação de Carine com o campo, contudo, ultrapassou a lida diária e se estendeu à arte. Inspirada pela vida na fazenda, passou a compor músicas que retratam o cotidiano da pecuária em Mato Grosso, algumas delas interpretadas por outros artistas. Essas obras foram reunidas em uma coleção acompanhada de um documentário, intitulados Experiência na Fazenda.
“Os filhos se criaram na fazenda e isso fez com que desenvolvessem um amor pelo que fazemos. O melhor é perceber que nossos netos seguem o mesmo caminho. São crianças apaixonadas pelas fazendas, que já sentem essa ligação com a terra”, comenta Sônia.
Até os dias atuais, os Lazarotto — José, seus irmãos e os filhos — conduzem os negócios como um grande grupo familiar, unidos e fortalecidos por uma mesma visão. Somente no Mato Grosso, o grupo administra cinco fazendas, em sua maioria localizadas no Norte do estado. São milhares de hectares de área cultivada, onde se produzem culturas tradicionais como soja, milho, sorgo e algodão, além de novas apostas, como amendoim e gergelim. Somados, os armazéns do grupo possuem capacidade de armazenagem de aproximadamente 1,4 milhão de sacas. Na pecuária, o plantel alcança cerca de 7,5 mil cabeças de gado da raça nelore.
Mais do que os números expressivos, o verdadeiro sucesso do Grupo Lazarotto está na forma como produz. A relação construída ao longo do tempo é marcada pela valorização da terra e, sobretudo, das pessoas que nela trabalham. Apenas no Mato Grosso, são mais de 500 colaboradores distribuídos pelas fazendas do grupo. Não é raro encontrar funcionários com mais de três décadas de dedicação à empresa. Em alguns casos, filhos de antigos colaboradores, que cresceram nas casas das fazendas, formaram-se em Agronomia e hoje ocupam cargos de gestão, atuando como gerentes das propriedades.
Cada fazenda do grupo se organiza como uma pequena comunidade. Na unidade de Nova Mutum, por exemplo, há inclusive uma igreja — “ela já existia quando compramos a área”, revela José. Em Lucas do Rio Verde, outra igreja está em fase de implantação. As propriedades contam com casas estruturadas, acesso à internet e serviços básicos, formando verdadeiros vilarejos rurais, onde vivem os colaboradores e suas famílias.
Para dar suporte à logística de uma operação dessa magnitude, o grupo dispõe de três aeronaves — um Ipanema, um Air Tractor 502 e um Air Tractor 802 — que facilitam o deslocamento e a gestão das áreas. O desempenho das equipes já foi, inclusive, reconhecido por meio de premiações internas, com concursos que elegeram os melhores operadores de máquinas em provas de plantio e colheita, valorizando a excelência do trabalho cotidiano.
Ao longo de mais de 70 anos de trajetória, os Lazarotto prosperaram por manterem uma visão estratégica e compreenderem, desde cedo, a importância da inovação. Se no passado o diferencial estava na aquisição de máquinas e tecnologias para ampliar a produção, hoje o olhar se volta para a próxima revolução do campo.
Em 2018, o grupo interligou todas as suas propriedades por meio de sistemas de internet e conectividade digital. Além dos modernos sistemas de gestão, as fazendas passaram a ser monitoradas em tempo real. A perspectiva de máquinas autônomas já se apresenta no horizonte e não seria surpresa se as primeiras experiências desse tipo ocorressem justamente nas propriedades do Grupo Lazarotto.
José também projeta novos caminhos por meio da verticalização dos negócios. A intenção é avançar para o setor industrial, agregando valor à produção. Atualmente, o grupo estuda a implantação de plantas industriais voltadas à transformação dos grãos, com a produção de óleo e etanol. Tudo indica que a família de comerciantes e produtores rurais ainda reserva novos capítulos para sua história, impulsionada pela força da nova geração.
A ligação profunda com a terra, o vínculo familiar, o desejo permanente de crescer, transformar e transmitir um legado melhor às gerações futuras são valores que atravessam toda a trajetória da família Lazarotto. Esses princípios, além de definirem sua identidade, também dizem muito sobre a própria história de Sorriso. Foram virtudes como essas que serviram de alicerce para a consolidação da região, um território onde foi possível mudar o destino de gerações inteiras em apenas uma.
1986
Emancipação político-administrativa de Sorriso
- Em 13 de maio, o governador Júlio Campos promulga a Lei nº 5.002/86, elevando o distrito de Sorriso a categoria de município, desmembrado das cidades de Nobres, Sinop e Paranatinga.
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Em 15 de novembro, a população de Sorriso votou pela primeira vez para escolher seu prefeito. A disputa foi entre Alcino Manfroi, pioneiro produtor rural, com o vice Alberto Dal Molin, e Ignácio Schevinski, sócio da Colonizadora Sorriso, acompanhado do jovem líder Mário Raiter. Manfroi saiu vitorioso, tornando-se o primeiro prefeito do município.
- No mesmo pleito foi eleita a primeira legislatura da Câmara de Sorriso, com os seguintes vereadores: Aureliano da Silva, Argino Bedin, Laurindo Koch, Valmir Locatelli, José Domingos Fraga Filho, Genoíno Spenassato e Eugênio Destri. Desses 7 vereadores, 4 eram da situação.
- É implantado o sistema de telefonia urbana de Sorriso, com 600 terminais conectando casas e comércios.
- A Rádio Sorriso entra no ar em caráter experimental. Sua inauguração de fato só ocorreria em 1988.
- É instalada a Agência Postal Sorriso, operada pelo funcionário José Augusto Morales.
- Pioneiros fundam a primeira Loja Maçônica da cidade.
1986
Churrascaria Figueira
Figueira – da árvore à Churrascaria que faz história
Imagens em preto e branco projetadas em um slide na parede. Foi dessa forma, que Leonir Fernandes Perin Vitali, o seu Leo da Figueira, conheceu Sorriso e se encantou. De pronto, imaginou os contornos projetados em preto e branco, cheios de cores e passou a sonhar em conhecer o tal lugar. Hoje, sonho realizado e bem estabelecido, seu Leo relembra o caminho que percorreu para chegar em Sorriso
Foi quando moravam em Arvorezinha – antiga vila de Figueira Alta, distrito de Encantado,RS, que em 1963, Oralino Marangon Vitali e Irês Marangon Vitali, tornaram-se pais de Leonir. Com o pai doente, “na época úlcera era uma enfermidade difícil de tratar”, o menino foi encaminhado para morar com a tia Henriqueta, irmã da mãe, no interior.
Criado na casa dos tios, viveu na roça desde cedo. Todos os dias, percorria sete quilômetros a pé para chegar à escola, onde estudou até a quarta série. No contraturno, o trabalho era na lavoura, com cabo de enxada e arado nas mãos. A família produzia de tudo um pouco, garantindo o sustento com o próprio esforço.
Com o menino sob os cuidados da tia, os pais labutavam na cidade, onde tinham um pequeno restaurante familiar. Houve uma época em que chegaram a mudar para São Miguel do Oeste, em Santa Catarina, onde também tocaram restaurante, em busca de melhores oportunidades. A intenção dos dois sempre foi estabelecer a família, encontrar um tratamento adequado para Oralino, e buscar o filho. Durante o tempo que se dedicaram a construir esse sonho, o menino ficou com Henriqueta.
Quando Leonir tinha por volta de 13 anos de idade, os pais retornaram ao Rio Grande do Sul. “Aí fui morar com eles e trabalhar no restaurante”, lembra. Voltando ao Rio Grande, Oralino e Inês logo se estabeleceram no caminho que já conheciam: preparando alimento cheio de cor e sabor.
Foi trabalhando no salão do restaurante dos pais, que Leo ouviu falar pela primeira vez de Sorriso, devia ser por volta de 1979, pontua ele. Um conhecido de Arvorezinha, por nome Plínio Zen, havia adquirido terras na tal cidade e em uma viagem de passeio ao Rio Grande, fez questão de mostrar os slides para o amigo Oralino.
Nas imagens projetadas na parede, surgiram uma pequena vilazinha com poucas casas e um campo experimental, onde plantava-se vários cultivares para ver como a terra respondia. “Ali, naquele momento, pensei, ‘vou conhecer esse lugar’”. Seu Plínio se foi, mas a ideia ficou plantada na cabeça do garoto. “Cursei o segundo grau e tinha pra mim que sem estudo eu tinha duas opções: ou ser peão ou ser dono de alguma coisa”.
Enquanto planejava como conhecer a cidade no Centro Oeste, Leo seguia auxiliando os pais. E a vida pessoal também progredia: Leo casou-se com Sílvia Molinari Simonetti, nascida em Arvorezinha em 20 de agosto de 1967, filha de Terezinha e Luiz. “Conhecia a Sílvia desde criança, do pátio da escola, das atividades da comunidade e da igreja”, recorda. O casamento foi celebrado em 1983. No ano seguinte, em 28 de abril de 1984, nasceu Fernanda, a primeira filha do casal.
Foi o pai de Sílvia, seu Luiz, que viabilizou a realização do sonho do genro. Pedreiro de mão cheia, seu Luiz pegou uma casa de conhecidos para construir em Cascavel, no Paraná e ofertou vaga de servente de pedreiro ao genro. “Eu pensei ‘vou e junto dinheiro pra ir pro Mato Grosso’”.
Era a primeira vez que Leo saía do Rio Grande, viajou com dinheiro emprestado do sogro. Por 30 dias, atuou como servente, depois seu Luiz o promoveu a pedreiro. “Ele disse, te vira e me virei”.
Foram 90 dias de trabalho. Dinheiro na mão, foi conhecer Costa Rica, no Mato Grosso do Sul. Gostou. Arrumou serviço para tocar o restaurante do Posto Baús, localizado no Km 13 da MS-306, na área do Parque Nacional das Emas. Serviço contratado, os donos do posto eram conterrâneos também, Leo retornou ao Rio Grande para buscar a esposa, a filha e a mudança. Os sogros também acompanharam a família. Corria o ano de 1984.
Incentivado por um de seus clientes, seu Darci Potrick — que, vez ou outra, aparecia para almoçar no Restaurante do Baús —, viu reacender o sonho de conhecer Sorriso. “O Darci vinha e dizia: ‘Vai, Leo, aquilo lá vai crescer muito. É um ótimo lugar para abrir um bom restaurante’. Confiei e fui conhecer, em meados de 1985”, relembra.
A experiência foi positiva. Ao retornar para Baús, contou a Sílvia tudo o que havia visto, e os dois concluíram que era o momento de mudar. Assim, chegaram a Sorriso de mala e cuia no dia 22 de junho de 1986, durante o mandato do primeiro prefeito eleito do município, seu Alcino Manfroi.
Em Sorriso, Leo alugou um barracão de madeira, que até então abrigava uma oficina mecânica – no mesmo local onde a Figueira está instalada hoje e iniciou o trabalho para abrir uma churrascaria. Reformou todo o barracão. Na empreitada da reforma contou com o apoio do sogro, seu Luiz e do cunhado Renato Simonetti, que era seu sócio.
Além da reforma do local, era preciso cuidar de diversos outros aspectos essenciais. Entre as prioridades estavam a compra de freezers, a perfuração de um poço artesiano e a aquisição de um gerador, já que a cidade dispunha de energia elétrica por apenas quatro horas diárias — um desafio significativo para quem trabalharia com alimentos. Também era necessário investir em louças, utensílios e mais panelas, itens indispensáveis em uma lista extensa de preparativos.
Para comprar os pratos, toda a louça na verdade, fez uma viagem até Cuiabá. As cadeiras, encomendaram do Paraná: 40 jogos de quatro cadeiras cada com assentos de palha e feitas de ipê; já as mesas, em número de 40, mandou fazer na marcenaria ao lado, a marcenaria do Dinho.
Hoje, 40 anos depois, as 40 mesas feitas de angelim, seguem firmes e fortes no salão da churrascaria. As cadeiras foram substituídas ao longo dos anos e hoje o conjunto todo é de angelim. “Resistentes, seguirão por muito tempo na história da Figueira”, frisa o empresário.
Mobília e louça pronta, Leo, Sílvia, Renato e a sogra Terezinha e o sogro Luiz, montaram um cardápio. Já estava acordado que trabalhariam com churrascaria no rodízio.
Em 31 de outubro de 1986, a família se levantou cedo: foram todos para a cozinha da Churrascaria Figueira – uma homenagem à terra natal, antes de mudar o nome para Arvorezinha, sob imposição do estado gaúcho, quando a área virou município em 16 de fevereiro de 1959.
“Tinha uma figueira bonita, no alto do morro, ao lado da igreja, daí vinha o nome. Quando mudaram o nome, a população não gostou, sempre ficou esse saudosismo da homenagem à figueira da igreja. Quis homenagear minha terra, como me lembrava dela”, confessa. Pois bem, na madrugada daquele 31 de outubro, os Simonetti Vitale, amanheceram na cozinha da Figueira.
Dona Terezinha e a filha Sílvia, prepararam macarrão, arroz, feijão, mandioca, farofa e a tradicional maionese gaúcha. Leo, Renato e Luiz prepararam a carne de boi, porco e frango, era coxinha, asinha, lombo suíno, alcatra, filé, uma infinidade de carne, tudo temperado com capricho. Na churrasqueira subia a fumaça do fogo recém-feito, só esperando o momento de espetar a carne.
O cardápio ainda incluía sagu e ambrosia como sobremesa. Ao entardecer, as portas foram abertas, e a família celebrou o nascimento da Churrascaria Figueira, em Sorriso. A terra, até então marcada por tons de preto e branco, ganhou cor e sabor. Naquela noite de 31 de outubro, 47 pessoas compareceram para o jantar.
Aos poucos, a fama se espalhou de boca em boca e, em apenas 15 dias, o salão já estava cheio tanto no almoço quanto no jantar. Durante seis anos, a Figueira manteve esse ritmo, servindo refeições todos os dias da semana, de segunda a segunda. “O salão era do mesmo tamanho desse de hoje, depois comprei o terreno e fiz de alvenaria, são 220 lugares”, pontua o empresário.
No início, seu Leo conta que chegou a ter até 15 freezers para acomodar as carnes que vinham de fora. Carne bovina ele sempre comprou do Mato Grosso, mas o porco e o frango, vinham de Santa Catarina. “O caminhão vinha a cada 15 dias, era preciso ter estoque e o gerador velho batia dia e noite para dar conta”, sorri, ao lembrar que não havia a comodidade da energia elétrica e a facilidade na entrega de hoje.
Verdura, ele conta, recebia uma vez por semana. “Tinha um japonês que vinha de Cuiabá uma vez por semana com uma carga de verdura, a gente comprava o que ele trouxesse”, detalha.
Outra forma de abastecimento era o chamado Sacolão. “Recebia esse nome porque as pessoas iam com sacolas, enchiam e depois pesavam em uma balança”, recorda. Leo, no entanto, costumava comprar caixas fechadas. O Sacolão chegava à cidade apenas uma vez por semana, e era de lá que vinham as frutas e verduras.
“Só não tinha brócolis, mas vinha couve, couve-de-bruxelas, mini repolho… vinha muita coisa. Quase todos os alimentos vinham de fora, mas aqui eu comprava muita carne bovina para o espeto”, conta, sorrindo.
Entre os itens indispensáveis estavam também a batata para a famosa maionese da dona Sílvia, preparada à moda gaúcha, e a farinha utilizada no preparo do macarrão.
“Servíamos cinco pratos quentes e nove de saladas, fora as carnes. O macarrão da minha sogra sempre foi destaque, o melhor macarrão que já comi”, diz o genro. “Até hoje, com 88 anos, dona Terezinha passa pela cozinha e auxilia no que pode, tudo o que ela cozinha é sempre muito saboroso”, elogia. “A Sílvia puxou à mãe, o tempero delas sempre foi o segredo do nosso sucesso”, brinca.
Enquanto as mulheres se viravam na cozinha, ele, o cunhado e o sogro davam jeito na carne. “E na limpeza também, fazíamos de tudo. No início, chegávamos às 6 da manhã para iniciar o serviço e muitas vezes ficávamos até meia-noite”, relembra.
Leo também tinha uma geladeira para a bebida. Eram 200 engradados no estoque para trocar quando o caminhão chegasse. As bebidas vinham de Cuiabá, e o estabelecimento oferecia diversas marcas, chegando inclusive a comercializar a Nova Cerpa, do Pará. “Naquela época, era preciso escoar todo o estoque do caminhão, então vendíamos de tudo. Havia cinco churrascarias na cidade — um lugar pequeno, mas onde todos trabalhavam muito”, ressalta.
Também era essencial reservar um espaço especial para o vinho trazido do Rio Grande do Sul, ingrediente fundamental para o preparo do sagu, uma das sobremesas mais apreciadas da Figueira.
Cerca de 30 litros de vinho eram necessários mensalmente, no passado - e hoje também- para o preparo da iguaria. O leite da ambrosia, também vinha de fora. “Nossa sorte era o gerador que mantinha a alma da Figueira, no caso a cozinha, funcionando a pleno vapor”, diz.
Em 24 de setembro de 1991, quatro anos após a chegada ao Mato Grosso, nasceu André. O parto foi no “Hospital das Irmãs em Sinop. Nossa sorte foi ter minha sogra e a minha cunhada, a Lidinês, auxiliando em tudo”, relembra.
André, assim como a irmã mais velha, Fernanda, foi criado dentro da Churrascaria. Desde muito pequenos, os dois sempre acompanharam os pais e aprenderam a auxiliar no que podiam. “Cuidaram de muita panela de arroz e lavaram muito prato”, revela o pai. “hoje, tenho orgulho em dizer que ambos trabalham comigo e fazem de tudo um pouco aqui dentro”, completa.
Dentre as festas que marcaram época e fizeram tradição na Figueira, está a da festa de 50 anos de casamento de seu Benjamin Raiser, o catarinense que comprou as terras e dividiu entre os filhos.
Em 1988, foi Leo quem preparou a festança. “Para o nono Raiser, fiz umas cinco festas muito grandes, que marcaram”. Depois vieram comemorações de Sheferbey e muitas outras.
Mas nem só de churrasco se fez a vida de Leo. Torcedor confesso do Internacional, vibrou muito nos anos 1990 e 1991, quando o Sorriso Esporte Clube (SEC), integrou a primeira divisão do Campeonato Brasileiro de Futebol e recebeu o rival do Internacional, este o time de coração de Leo.
“Quando recebemos o Grêmio, sete mil pessoas vibraram no Estádio Egídio Preima; na vez do Bahia, foram seis mil pessoas. Viver essa emoção, assistir uma partida e torcer pela prata da casa, ficou na história”, conta.
Leo detalha que participou de muitas promoções para financiar o SEC. “O Elpídio Daroit era o presidente do clube, fizemos muita promoção embaixo das árvores do armazém dele e no CTG, nos unimos e mostramos o SEC para o Brasil. Espero que esse tempo áureo do SEC retorne esse ano ainda”, diz saudoso.
Hoje, a Figueira tem louça completa para servir até 1,8 mil pessoas de forma concomitante. “Só precisa lavar na hora se chegar ao 1.801”, sorri. O conjunto inclui pratos, talheres, taças. Tudo completo.
As cadeiras de angelim, seguem firmes e fortes, testemunhando essa história. Para acompanhá-las, foram feitas cadeiras novas, de angelim também. Leo frisa que tem condições de montar até oito buffets ao mesmo tempo. “Do começo para agora, tudo mudou, da falta de energia, hoje temos câmara fria para acondicionar os alimentos”, detalha.
Leo já chegou a servir 2,6 mil almoços ao mesmo tempo: 1,6 mil só na festa da Sicredi. “Era um domingo, abrimos aqui e servimos lá também, foi um atropelo para deixar tudo bonito e todo mundo saiu satisfeito. Eu, inclusive, só de ver as pessoas felizes saboreando o que preparamos com dedicação e cuidado, me senti extremamente feliz”, confessa.
E a rotina da família segue firme: às 6 horas, Leo e Sílvia já estão a postos, conferindo tudo de perto no salão e na cozinha. Contam com o auxílio de Fernanda e André e, claro de dona Terezinha. Cerca de 20 colaboradores auxiliam diariamente. O neto Victor, hoje com 12 anos, também foi criado na Figueira. “No meu colo, acompanhando de perto a rotina.
Hoje ele está mais afastado, porque estuda, mas ele sabe que essa é a casa dele, quando ele vem é uma alegria”, diz. Avô e neto partilham a paixão pelo futebol. Quando o menino treina, o vô gosta de acompanhar de perto. “Quer me ver feliz é colocar um jogo na televisão e me deixar fazendo churrasco”, sorri.
Para Leo, todo o esforço valeu a pena. “Sonhei com esse lugar ainda em preto e branco e hoje me alegro ao vê-lo cheio de cores. Nasci em 1963, hoje tenho 63 anos e estou instalado às margens da BR-163. Acredito que este seja meu ano de sorte: o ano em que a Figueira comemora 40 anos de história em Sorriso”, comemora o empresário que saiu do Rio Grande do Sul aos 22 anos de idade para realizar o sonho de conhecer o Mato Grosso e escrever os novos rumos da história dos Simonetti Vitali.
1986
Marisa Baggio
O Caminho das Flores
Uma vida plantada na terra fértil do trabalho, colhida no coração generoso da família
Muitas vezes, a trajetória de uma pessoa se revela através das terras que percorreu, das sementes que plantou e das tempestades que enfrentou. A história de Marisa Baggio é um testemunho dessa jornada: marcada pela simplicidade do interior, pela força do trabalho árduo e pela sensibilidade de quem reconhece a beleza nos detalhes mais singelos da natureza. Sua vida carrega o legado de seus pais, Oscar e Noemia Baggio, e a sabedoria ancestral que atravessou gerações.
De família italiana, Marisa nasceu em 6 de novembro de 1966, em Chapecó, Santa Catarina. Primogênita de três filhos — Rudimar e Juliano —, cresceu entre os caminhos do campo, os desafios da migração e a construção de um legado empreendedor. Suas raízes familiares, como as de uma árvore frondosa, sustentam e alimentam as futuras gerações.
A vida da família Baggio era regida pelo ritmo da terra. No interior de Pato Branco, Paraná, numa localidade chamada São Brás, Oscar e Noemia eram produtores rurais. Tiravam seu sustento do trabalho na roça, cultivando feijão e milho, e cuidando de vacas leiteiras. Era uma vida onde o luxo não residia em bens materiais, mas na fartura da natureza e na solidariedade familiar.
A estrutura familiar era ampla e profundamente entrelaçada. Oscar compartilhava a terra com seus dez irmãos — José, Abrelino, Genésio, Danilo, Elidio, Luísa, Lourdes, Egidio, Jacinto e Aneri —, formando uma rede de apoio e convivência. Alguns já casados, outros ainda solteiros, muitos compartilhavam o mesmo casarão, criando um ambiente de constante interação e afeto.
Para Marisa, essa convivência era um espetáculo diário de afeto e cultura. A casa refletia autenticamente as tradições italianas: falava-se alto, conversava-se muito, brincava-se com alegria e, acima de tudo, vivia-se em comunidade. Essa dinâmica lhe ensinou, desde cedo, o valor da partilha e a importância de encontrar segurança nos laços de sangue.
Quando Marisa completou sete anos, precisou deixar o interior para iniciar seus estudos. Mudou-se para Pato Branco, onde morou com seus avós paternos, Tereza e Aurélio, enquanto seus pais permaneceram na roça. Essa separação física não rompeu os laços afetivos: Marisa via seus pais a cada quinze dias ou, às vezes, semanalmente, conforme a disponibilidade de tempo e as condições de transporte permitiam. Apenas aos doze anos, quando os pais se mudaram definitivamente para a cidade, a família voltou a residir sob o mesmo teto.
O período em que Marisa viveu com os avós, sua avó tornou-se uma figura central em sua vida, uma verdadeira mentora que lhe transmitiu ensinamentos que ecoariam por toda a sua trajetória pessoal e profissional.
Foi na cozinha, entre panelas, aromas e o calor do fogão a lenha, que Marisa recebeu suas primeiras e mais valiosas lições. A avó Tereza a ensinou a preparar os pratos típicos da culinária italiana: a polenta robusta, o macarrão caseiro, os pães frescos e o inesquecível bolo de chocolate. A diversão da menina consistia em levar os pães para a avó e ajudá-la a acender o fogo no forno a lenha, localizado na área externa da casa.
No entanto, mais do que receitas, a avó Tereza ensinou o ingrediente secreto de qualquer prato: o amor. Ela dizia que não importava se a comida era simples ou sofisticada; se fosse feita com amor, as pessoas perceberiam. "O trabalho de fazer bem-feito ou mal feito é o mesmo", costumava dizer a matriarca em italiano. "Então, faça bem-feito e você não precisa fazer duas vezes." Essa filosofia de excelência e dedicação tornou-se um mantra na vida de Marisa.
Além da culinária, a casa dos avós era um santuário de generosidade. A avó Tereza tinha o hábito sagrado de nunca deixar uma visita sair de mãos abanando. Quem cruzasse a porta daquela casa levaria consigo um doce de frutas (a tradicional chimia), ou alguma das frutas colhidas do quintal. Esse gesto de hospitalidade e acolhimento foi profundamente absorvido por Marisa, que até hoje mantém a tradição em sua própria casa, presenteando suas visitas com vasos de flores, plantas ou doces caseiros.
Nesse período, ela conviveu também com suas tias, Elide e Luísa, que viviam no mesmo casarão e tiveram participação especial para aprendizado e crescimento, dando-lhe muito carinho e segurança.
Havia outras presenças importantes, tia Helena, com gestos de cuidado e atenção.
Tia Jaque, sua madrinha do coração, ensinava mais do que com palavras, com a forma que vivia. Era alegre, presente, gostava de arrumar seu cabelo, de conversar e estar próxima. Com um olhar atento e sensível, sonhava sobre a alegria de viver, sobre perceber e se gostar; era uma presença que acolhia o coração. Sua partida precoce aos 25 anos deixou saudade, mas também um legado silencioso e permanente. Marisa a carrega até hoje na memória e no afeto, como uma lembrança viva de leveza e amor.
A chácara dos avós era um verdadeiro paraíso natural. O avô Aurélio cultivava um parreiral gigante, de onde extraíam as uvas para a produção do próprio vinho e da grappa. Havia plantações de diversos tipos de caqui, morangos, mexericas suculentas e romãs — fruta pela qual Marisa nutre uma paixão até os dias de hoje. A avó, atenta aos gostos da neta, sempre reservava a primeira beterraba da colheita para que Marisa pudesse cozinhar, sabendo do seu amor pelo vegetal.
A infância foi marcada por brincadeiras ao ar livre, escorregando em grandes morros e criando mundos imaginários em uma casinha na árvore. Foi nesse ambiente cercado pela natureza que despertou em Marisa uma sensibilidade ímpar para as flores. Desde muito pequena, ao avistar uma florzinha no jardim, ela a colhia e a colocava em um pequeno vaso dentro de casa. Quando a mãe lhe dizia que a flor ficava bonita no jardim, a menina respondia com convicção: "Aqui também é bonito, mãe."
Essa inclinação estética e cuidadosa manifestava-se até mesmo na forma como Marisa lidava com presentes. Aos quatro ou cinco anos, ela se recusava a entregar qualquer presente sem antes preparar uma embalagem. Não precisava ser algo sofisticado, mas era essencial que o pacote fosse adornado com uma flor. Esse detalhe, que na época parecia apenas uma peculiaridade infantil, revelou-se anos mais tarde como um dom divino, um prenúncio do caminho brilhante que ela trilharia no universo da arte floral.
A transição para a vida escolar trouxe novos desafios para a jovem Marisa. Longe de casa e sentindo imensamente a falta da mãe, ela encontrou nos estudos um refúgio e uma meta. O desejo de aprender era latente, mas as dificuldades iniciais, como a transição da letra de forma (letra caixa) para a letra cursiva, exigiram resiliência.
Foi nesse contexto que a figura da professora Setembrina entrou em sua vida. Conhecida por sua rigidez, a educadora não aceitou as limitações da aluna e impôs um desafio: "Você vai aprender a escrever por bem ou por mal, compre um caderno de caligrafia." A primeira frase que Marisa precisou preencher em três cadernos inteiros foi: "Eu vou aprender a escrever."
O exercício exaustivo e repetitivo rendeu frutos. A letra de Marisa transformou-se em uma caligrafia desenhada e bonita. Mais do que aprimorar a escrita, esse episódio ensinou à menina uma lição vital: tudo o que se deseja pode ser alcançado com esforço; tudo o que se repete se aperfeiçoa; e, embora nada seja fácil, a boa vontade faz as coisas acontecerem.
Marisa tornou-se uma aluna dedicada, que se cobrava constantemente e não aceitava notas baixas. Suas matérias preferidas refletiam suas inclinações naturais: o Português, a Arte (onde podia desenhar e pintar) e a Educação para o Lar, disciplina que a conectava ainda mais com o universo da culinária e lhe apresentava novas perspectivas. O Ensino Fundamental foi concluído em Pato Branco, e o Ensino Médio, mais tarde, na Escola Senecista Marcílio Dias, em São João.
A transição da infância para a adolescência foi marcada pela entrada precoce no mundo do trabalho. Aos 14 anos, Marisa começou a trabalhar na empresa da família, a Irmãos Baggio. Sem experiência prévia, mas armada com uma imensa vontade de aprender, ela adotou uma rotina dupla: trabalhava durante o dia e estudava à noite.
Iniciou suas atividades como secretária na filial da empresa. Suas funções iam desde o atendimento aos clientes, até o preparo do tradicional chimarrão e do café. Com o tempo e a dedicação, foi transferida para a matriz recém-inaugurada, assumindo o cargo de secretária da diretoria.
Nesse novo ambiente, uma figura feminina teve um impacto profundo em sua formação pessoal: a tia Eliane (esposa do tio Jacinto). Mulher de postura elegante, sempre impecável, com unhas feitas, cabelos arrumados e que "nunca descia do salto", Eliane tornou-se um modelo de feminilidade e compostura para a jovem Marisa.
Com a tia, Marisa aprendeu a se vestir, a se arrumar e a se portar como uma mulher educada e gentil. Mais do que estética, Eliane orientou a sobrinha sobre os limites e os cuidados necessários para uma jovem que morava longe dos pais. Esse período de mentoria e aprendizado foi guardado com muito carinho e saudade, sendo fundamental para a construção da autoconfiança e da elegância que acompanhariam Marisa por toda a vida.
A juventude de Marisa foi, portanto, uma mistura de trabalho, educação e a internalização de valores familiares, como ajudar o próximo sem esperar nada em troca e fazer as coisas bem-feitas para não ter que refazê-las.
Aos 15 anos, teve uma festa de debutante simples na forma, mas grandiosa no significado. Realizada na chácara da família, um lugar que carregava tantas memórias da infância, a celebração reuniu aqueles que sempre estiveram presentes na sua história. A comida preparada em casa, os doces feitos pelas tias, o bolo preparado por sua mãe. Cada detalhe trazia o toque do amor. Naquela noite, dançou a valsa com seu pai, seus avós Aurélio e Luiz, seus tios. Foi uma festa inesquecível, onde seus primos comemoraram com muita alegria.
Mais do que uma festa, foi a expressão de uma família unida, que, dentro de suas possibilidades, oferecia o melhor que tinha. Um momento que permaneceu guardado não pela grandiosidade, mas pela verdade.
Ao mesmo tempo, a vida seguia em movimento, foi então que uma nova mudança se apresentou. Sua família deixou Pato Branco e seguiu para São João, no Paraná, onde seu pai assumiria a responsabilidade de conduzir uma nova etapa do trabalho da família. E foi nesse novo cenário, em meio às mudanças e recomeços, que um encontro mudaria o rumo da sua história.
Alguns encontros não começam quando acontecem, mas muito antes — mesmo que apenas um dos lados perceba. Foi assim com Marisa e Almir. Antes mesmo de se conhecerem oficialmente, Almir já a observava de longe, em gestos simples do cotidiano. Frequentador dos encontros semanais na oficina da empresa da família, onde se reunia com amigos de seu pai, ele a via chegar da escola, ainda envolvida na rotina dos estudos e da juventude.
Marisa dividia seu tempo entre o trabalho na empresa da família e, mais tarde, em uma loja de confecção na cidade de São João — experiência que também contribuiu para sua formação e ampliou seu contato com o público e com o universo feminino.
O encontro entre os dois aconteceu, de fato, em um carnaval. De forma leve, espontânea, como tantas histórias que começam sem pretensão, mas que carregam, desde o início, algo diferente. O que começou ali, evoluiu com rapidez, mas também com certeza.
Em apenas onze meses, viveram o namoro, o noivado e a decisão de construir uma vida juntos. O casamento marcou o início de uma nova fase — simples, mas cheia de significado. Enquanto seus pais seguiam para Mato Grosso, iniciando um novo ciclo em Sorriso, Marisa e Almir permaneceram em São João, dando seus primeiros passos como casal.
Construíram ali uma casa pequena, mas acolhedora. Mais do que um espaço físico, era o início de um lar, um lugar onde sonhos começavam a ganhar forma, onde a vida a dois se desenhava com cumplicidade, parceria e construção diária.
Marisa se viu, pouco tempo depois, vivendo uma nova descoberta: a maternidade. A chegada de Bruno trouxe consigo um novo sentido. Com ele, nascia não apenas um filho, mas também uma nova versão de si mesma.
Quando Bruno ainda era pequeno, Marisa e Almir tomaram uma decisão que mudaria, mais uma vez, o rumo da família. Sorriso, no Mato Grosso, surgia como uma terra de oportunidades. Movidos pela coragem e pela vontade de construir algo maior, decidiram dar a si mesmos a chance de conhecer e recomeçar.
Essa escolha, no entanto, não foi feita sem sentir. Ao partirem, deixavam para trás não apenas um lugar, mas pessoas profundamente importantes.
Ficavam sua sogra, seu sogro, seus cunhados e toda a família construída ao redor daquele lar.
E, com eles, um vínculo que já havia se fortalecido — especialmente com a presença de Bruno, ainda tão pequeno. Hoje, ao olhar com mais maturidade, Marisa reconhece o quanto essa despedida também foi difícil para quem ficou.
A ausência de um neto, de um sobrinho, de uma convivência que estava apenas começando, deixou um vazio silencioso.
Naquele tempo, a distância era ainda maior do que os quilômetros podiam medir, não havia facilidade de comunicação. Em Sorriso, as linhas telefônicas eram limitadas, e era preciso agendar horário para conseguir uma ligação breve, dividida com tantas outras pessoas que também aguardavam.
Para Almir, a distância da família também foi sentida de forma profunda, era uma adaptação que exigia força, resiliência e, acima de tudo, propósito. Ainda assim, escolheram permanecer, porque, mesmo diante da saudade, havia um chamado maior.
Almir se afastou temporariamente do banco onde trabalhava para viver esse período de transição. Era um tempo de observação, de adaptação, de escolha. Após um ano, retornaram a São João com a intenção de permanecer.
Mas, por vezes, o coração reconhece o seu lugar antes mesmo de a razão organizar os caminhos. Logo no primeiro dia de volta ao trabalho, veio a certeza. Sorriso não era apenas uma possibilidade — era o destino.
E foi assim que decidiram retornar definitivamente, iniciando ali a construção de uma nova vida, uma escolha que, com o tempo, se revelaria acertada. A cidade cresceu e as oportunidades se multiplicaram.
A vida de Marisa e de sua família estava prestes a passar por uma transformação. A década de 1980, trouxe consigo a promessa de novas oportunidades no Centro-Oeste brasileiro, uma região que começava a despontar como um polo de desenvolvimento agrícola e econômico.
Os primeiros a desbravar esse novo território, foram os tios Genésio e Abrelino, que migraram para o Mato Grosso por volta de 1984, estabelecendo-se e montando negócios. Muito apegados ao irmão Oscar, eles o incentivaram a seguir o mesmo caminho, relatando as vastas perspectivas de crescimento que a região oferecia. Movido pela esperança de um futuro melhor para sua família, Oscar Baggio chegou ao Mato Grosso em março de 1986, acompanhado da esposa e dos filhos Rudimar e Juliano.
No entanto, a jornada de expansão familiar foi marcada por uma tragédia irreparável. Apenas três meses após a chegada de Oscar, em junho daquele mesmo ano, os tios Genésio e Abrelino faleceram em um trágico acidente automobilístico, quando retornavam da cidade de Sinop. Ficaram suas esposas — tia Leda e tia Ilda — e seus filhos ainda pequenos. A perda repentina de dois irmãos, foi um golpe devastador para Oscar.
Diante desse cenário de luto e necessidade de reconstrução, a família uniu forças. Cerca de um ano após a chegada do pai, Marisa, agora casada e com seu primeiro filho, Bruno — então com apenas cinco meses de idade —, embarcou em um ônibus com o marido, deixando para trás sua casa no Sul e partindo rumo ao desconhecido.
A chegada à cidade de Sorriso, foi um choque de realidade. Acostumada com a fartura de frutas e o clima ameno do Sul, Marisa deparou-se com um ambiente árido e com infraestrutura precária. "Eu chorava escondido", relembra. A falta de frutas frescas e até mesmo de carne, era um contraste doloroso com a vida na chácara dos avós.
As condições de moradia iniciais, eram extremamente desafiadoras. A família recém-chegada acomodou-se em um espaço improvisado e precário. O medo constante de que algo acontecesse com o filho, assombrava Marisa.
A residência era um "puxadinho" de madeira nos fundos de uma loja, com piso de cimento. Quando chovia, a água invadia o casebre. Insetos enormes e lesmas eram presenças frequentes, o que causava pânico na jovem mãe.
Apesar de todas as adversidades, do medo e das lágrimas furtivas, a resiliência herdada dos Baggio falou mais alto. A família começou a trabalhar incansavelmente. Inicialmente, atuaram no comércio de móveis e eletrodomésticos com o pai, Oscar. Posteriormente, em sociedade, abriram uma modesta loja de colchões. Cada desafio superado era um tijolo na construção de uma nova vida em Sorriso, uma cidade que, assim como eles, estava apenas começando a florescer.
A veia empreendedora de Marisa não tardou a se manifestar. Inquieta e determinada a construir seu próprio caminho, ela percebeu uma lacuna na cidade de Sorriso: a ausência de flores e de opções de presentes. A lembrança de sua infância, onde nenhuma embalagem estava completa sem uma flor, ecoava em sua mente. Ela sentia falta da beleza e da vida que as plantas traziam para os lares.
Movida por essa percepção, Marisa, em parceria com sua mãe, Noemia, e sua cunhada Nanci (esposa de seu irmão Rudimar, que atuava como enfermeira), decidiu agir. Em 1993, na garagem da casa de seus pais, nascia a "Mariná Flores". O nome, simples e sonoro, marcava o início de um negócio que transformaria não apenas a vida da família, mas também o mercado de eventos e decorações da região.
O começo, no entanto, foi marcado pela necessidade urgente de aprendizado. Sem domínio técnico sobre a arte floral, Marisa e a cunhada viajaram até Cuiabá com o intuito de visitar floriculturas, comprar mercadorias e, principalmente, aprender a confeccionar arranjos e buquês de noiva.
Em uma das floriculturas da capital, Marisa, com a humildade de quem deseja aprender, pediu que lhe ensinassem as técnicas básicas. A resposta que recebeu foi um balde de água fria: a proprietária recusou-se a ensinar, afirmando que elas deveriam aprender sozinhas, assim como ela própria havia feito.
A recusa, em vez de desanimá-la, acendeu uma chama de determinação. Marisa comprou algumas violetas, crisântemos e rosas em outro estabelecimento e retornou a Sorriso. Na semana seguinte, a Mariná Flores já enfrentava seu primeiro grande teste: a decoração de dois casamentos. Um deles foi decorado com flores de papel e o outro com flores naturais. Apesar da inexperiência técnica, o talento nato e o bom gosto de Marisa, garantiram que o resultado fosse elogiado e considerado lindo.
Foi nesse momento que Marisa tomou uma decisão: "Eu vou estudar, eu vou aprender e eu vou ensinar." Essa promessa silenciosa tornou-se a força motriz de sua carreira.
Curiosamente, o destino se encarregaria de proporcionar um desfecho poético para o episódio da recusa em Cuiabá. Anos mais tarde, já reconhecida como uma grande profissional e tendo representado o Brasil em eventos internacionais, Marisa foi convidada para uma demonstração na inauguração de um grande distribuidor de flores em Cuiabá. Após sua apresentação impecável no palco, duas jovens a procuraram pedindo uma consultoria. Marisa aceitou prontamente. Ao chegar ao endereço no dia seguinte, descobriu que o local era exatamente a mesma floricultura onde, anos antes, o conhecimento lhe havia sido negado.
A trajetória empreendedora de Marisa também incluiu a aquisição de um viveiro de plantas por volta de 1992, localizado em frente ao colégio Dinâmica. O negócio prosperou, chegando a ter entre 12 e 18 funcionários. No entanto, a gestão de uma equipe predominantemente masculina, revelou-se estressante, especialmente devido à resistência de alguns funcionários em receber ordens de uma mulher. Durante a gravidez de sua filha caçula, Isabela, Marisa decidiu que precisava focar sua energia. Vendeu o viveiro e concentrou-se inteiramente na Marina Flores, garantindo a excelência que se tornaria a marca registrada de seu trabalho.
O talento de Marisa para a arte floral transcendia a simples montagem de arranjos; era uma expressão de sua alma, uma conexão profunda com a natureza e com o divino. No entanto, o reconhecimento ao nível nacional chegou de maneira inesperada, impulsionado pelo amor e pela sabedoria de seu filho, Bruno.
Marisa havia sido convidada para representar o estado de Mato Grosso na Copa Brasileira de Arte Floral, promovida pela Ibraflor, na cidade de Natal, Rio Grande do Norte. Insegura por não possuir formação acadêmica formal na área e acreditando que enfrentaria apenas "feras" do design floral, ela hesitou em aceitar o convite.
A virada de chave ocorreu às vésperas do 15º aniversário de Bruno. Quando Marisa lhe perguntou o que desejava de presente, alertando que os recursos financeiros estavam limitados, o jovem surpreendeu a mãe. Ele não queria um bem material; seu único pedido era que ela participasse da competição. Diante da relutância de Marisa, Bruno proferiu palavras que ecoariam para sempre em seu coração: "Mãe, se você foi convidada, é porque você também é fera. Mas, independentemente de ser ou não, o que você nos ensina a cada dia? Que não é importante ir só para ganhar. O importante é ir e dar o seu melhor. Vá lá e dê o seu melhor."
Movida pelo pedido do filho e celebrando o aniversário dele à distância, Marisa viajou para Natal. Em meio a competidores com estruturas gigantescas e trabalhos suntuosos, ela se acomodou em um canto com sua ajudante e, simplesmente, fez o seu melhor.
No momento da premiação, a surpresa foi absoluta. Ao anunciarem o segundo lugar, descreveram uma profissional que estava se destacando muito na arte floral brasileira, dona de um sorriso lindo e que, coincidentemente, vinha da cidade de Sorriso: Marisa Baggio. Ela conquistava não apenas o título de vice-campeã nacional, mas também a honra de representar o Brasil em Cancún. As lágrimas de emoção de Marisa contagiaram todos os presentes. Aquele prêmio foi a confirmação divina de que seu trabalho não era apenas uma profissão, mas uma verdadeira missão de vida.
As vitórias continuaram a se acumular. Marisa tornou-se campeã do Centro-Oeste e participou de quatro Copas Brasileiras de Arte Floral. Sua trajetória internacional também ganhou força. Um dos episódios mais marcantes ocorreu durante a Iberíada, evento promovido pela Escola Ibero-Americana de Arte Floral, sediado em Bombinhas, Santa Catarina.
Naquela ocasião, Marisa participava apenas como convidada, sem a intenção de competir. Para a festa de abertura, que exigia trajes típicos regionais, ela improvisou: com arames, cola e algumas flores, criou um colar espetacular que atraiu a atenção e os flashes de todos os presentes. No dia seguinte, lá estava ela no palco, ensinando a confeccionar joias de flores, sem nenhum cronograma prévio, apenas movida pela paixão de compartilhar sua arte.
Ainda no mesmo evento, sua filha Isabela, que estudava Engenharia Química em Curitiba, foi visitá-la. Ao perceber que a mãe não havia preparado um buquê para a competição oficial, Isabela insistiu incisivamente: "Mãezinha, você vai fazer." Cedendo ao apelo da filha, Marisa recolheu flores de arranjos dispersos, encontrou uma tela e um barbante e, enquanto conversava com a filha e uma amiga, montou sua peça. Deixou o trabalho anonimamente na abertura de uma porta. Durante o jantar de gala, foi informada de que seu buquê improvisado havia conquistado o primeiro lugar.
Esses momentos de triunfo, muitas vezes surgidos em meio a dúvidas ou após rasteiras e decepções com funcionários e pessoas próximas, serviram como mensagens claras de que ela estava no caminho certo. "O cuidado de Deus para não parar", reflete Marisa. A cada obstáculo, uma vitória extraordinária surgia para lembrá-la de seu dom e de sua missão de levar beleza e emoção à vida das pessoas.
A consolidação de Marisa no universo da decoração e da arte floral não se deu apenas pelos prêmios conquistados, mas principalmente pela assinatura única que ela imprime em cada projeto. Seu trabalho é caracterizado por uma profunda conexão com a natureza e por uma sensibilidade aguçada para captar a essência de cada cliente. "Nenhum trabalho é meu. O nosso trabalho é inspirado por Deus", afirma com humildade. Para ela, a inspiração divina é a bússola que guia a criação de ambientes que traduzem os sonhos de quem a contrata.
Se havia algo que marcava aquele tempo, era a ausência. Faltavam recursos, faltavam materiais, faltava estrutura. Mas nunca faltou criatividade. Há mais de três décadas, quando quase nada estava disponível com facilidade, cada evento exigia mais do que execução, exigia invenção. Era preciso criar a partir do que existia ao redor, do que a terra oferecia e do que as mãos conseguiam transformar. E foi nesse cenário que a identidade de Marisa começou, de fato, a se consolidar, não pela abundância, mas pela capacidade de transformar o pouco em extraordinário.
Um dos momentos mais marcantes dessa trajetória, foi a celebração de bodas de ouro de uma família muito especial, a família Daroit. O evento aconteceu em um CTG, um espaço naturalmente rústico, que pedia sensibilidade para ser transformado. Sem acesso a materiais sofisticados, Marisa e sua equipe criaram com o que tinham. O teto foi trabalhado com TNT, reinterpretado com criatividade e leveza. Elementos da natureza foram incorporados, trazendo textura, movimento e autenticidade. Nada era óbvio, mas tudo fazia sentido.
Naquele mesmo contexto, uma amiga vinda de São Paulo acompanhava o processo. Keka Saab, nome respeitado e conceituado na arte floral brasileira, trazia consigo uma vivência diferente, acostumada a uma realidade com maior acesso a materiais e estrutura. Ao observar a quantidade limitada de flores, lançou um comentário que soou quase como um desafio: fazer arranjos bonitos com abundância é fácil; quero ver o que vocês fazem com isso.
O que surgiu ali não foi limitação, foi identidade. Arranjos minimalistas, harmônicos, ricos em textura e movimento. Uma estética que não dependia de excesso, mas de olhar. E o resultado foi marcante.
Em outro momento, diante de mais um desafio, um casamento exigia a cobertura completa do teto, mas não havia tecidos, nem materiais convencionais disponíveis. Mais uma vez, a solução veio da essência. Folhas de buriti foram cuidadosamente trabalhadas, recortadas e organizadas em estruturas de madeira, criando uma composição única. O bambu deu forma a biombos, que, elevados ao teto, se transformaram em um mosaico natural. Raízes e cipós completaram o cenário. O que antes era limitação, se tornou linguagem.
E foi nesse processo que surgiu também um novo momento: o primeiro evento com maior presença de orquídeas e flores naturais em abundância, um contraste que evidenciava ainda mais o caminho percorrido até ali.
Mas talvez um dos reconhecimentos mais simbólicos tenha acontecido fora daquele contexto. Durante um dos módulos da escola ibero-americana de arte floral, Marisa levou um pequeno álbum com registros de seus trabalhos, sem pretensão, sem expectativa. Ao observar as imagens, o professor Mário Antonelli fez uma pergunta direta: foi você quem fez isso?
Por um instante, houve dúvida, talvez receio. Mas a resposta veio: sim. E então veio algo que não se esquece: se você fez isso com esse material, você não tem noção de onde pode chegar.
Aquela frase não era apenas um elogio, era uma confirmação. Porque, até então, Marisa já fazia, mas ali alguém de fora reconhecia o que existia de único no seu olhar. E, de certa forma, nomeava aquilo que ela sempre praticou, mesmo sem perceber: transformar limitações em linguagem.
Ao longo dessa trajetória, os desafios nunca deixaram de existir, mas a forma de enfrentá-los se manteve a: não olhar para o problema, mas para a possibilidade; não para o que falta, mas para o que pode ser criado.
E talvez seja exatamente por isso que, depois de tantos anos, sua presença no mercado permanece, não sustentada apenas pelo que faz, mas pela forma como enxerga.
O caminho até aqui foi construído com constância, sem atalhos, sem pressa, com verdade. Mas chega um momento na vida de quem constrói com propósito em que o reconhecimento deixa de ser apenas local e começa a atravessar fronteiras.
Antes mesmo de uma formação estruturada, Marisa já se permitia ir além. E foi assim que surgiu um dos momentos mais marcantes de sua trajetória. Seu filho, Bruno, estava prestes a completar 15 anos. E, como mãe, Marisa queria saber qual presente ele gostaria de receber. A resposta não veio em forma de algo material, veio como um chamado.
O diferencial de Marisa reside na sua capacidade de enxergar beleza onde muitos veem apenas o trivial. Elementos como galhos secos, raízes, fatias de madeira, cipós e até mesmo algodão são transformados em obras de arte sob o seu olhar. Ela recorda, com orgulho, de um evento corporativo onde utilizou o algodão de forma inovadora, criando arranjos aéreos e bases para mesas de doces que resultaram em um impacto visual único e inesquecível. "Se eu não soubesse utilizar, se tornaria algo não tão agradável ao olhar. Não é nada comum, é algo raro, mas colocado de forma certa, fica extraordinário."
Essa ousadia e visão vanguardista a colocaram à frente de seu tempo. Um dos marcos de sua carreira foi um grandioso projeto de casamento realizado em Cuiabá, na Vila dos Lagos, para a família de Carine Lazzarotto. O evento foi de uma magnitude ímpar, contando com a participação de 32 artistas florais graduados e graduandos, para estagiarem, vindos de diferentes países. Juntamente com a equipe brasileira, totalizando mais de 100 pessoas envolvidas no projeto. A estrutura contemplava 27 espaços, sendo 15 principais e 12 complementares.
Nesse casamento, Marisa lançou tendências que, na época, fugiam do convencional. Enquanto o mercado priorizava decorações massivamente cravejadas de flores, ela apostou no desprendimento aéreo, no uso de cipós e em uma profusão de texturas naturais. "Eu não via arte [apenas com flores], eu via só flor. E eu gosto da arte, eu gosto da textura, amo usar elementos da natureza", explica.
A magnitude e a inovação desse projeto foram tão expressivas que, cinco anos após a sua realização, a revista Clip, considerada a revista de arte floral mais conceituada da Europa, dedicou seis páginas ao evento, apontando as escolhas de Marisa como uma forte tendência mundial. Lançar moda antes mesmo que ela seja compreendida pelo grande público, tornou-se uma constante em sua trajetória.
Sua percepção vai além da estética; trata-se de empatia. Marisa entende que um decorador não pode impor seu gosto pessoal sobre o desejo do cliente. "Eu não posso colocar um vermelho em quem quer cor branca. Eu não posso colocar cipó num projeto que pede leveza." Seu dom, como ela mesma define, é filtrar os desejos do cliente — mesmo daqueles que "gostam de tudo" — e ordenar os elementos de forma harmoniosa, criando espaços lúdicos, encantadores e, acima de tudo, que respeitem a identidade de quem os sonhou.
Para que cada detalhe chegue impecável para o cliente e para os projetos, Marisa sempre contou com alguém que é seu braço direito: Diogo, que nasceu com a Mariná flores. A estrutura da Marina Flores encontra sua força de execução na atuação direta de Diogo, que se consolidou como o seu braço direito fundamental. Diferente de seus irmãos, Bruno e Isabela, que seguiram suas próprias profissões e oferecem o suporte familiar e emocional, Diogo é quem está no dia a dia do negócio, sendo a peça indispensável para que a engrenagem funcione com precisão.
Sua história se mistura com a da própria empresa; desde os seis meses de idade, ele já vivenciava a rotina dos eventos, o que lhe conferiu uma percepção técnica que hoje é estratégica para o sucesso de cada projeto. Como seu braço direito, ele é o motor que impulsiona a busca pela excelência e o rigor nos detalhes. É ele quem traz a determinação necessária para "fazer acontecer", desafiando a empresa a atingir novos níveis de qualidade e garantindo que o respeito ao cliente se traduza em resultados impecáveis. Ele é, hoje, a base operacional que permite que o seu legado continue crescendo com solidez e inovação.
A excelência alcançada por Marisa não é fruto apenas do talento inato, mas de uma busca incessante por aprimoramento e conhecimento. A menina que um dia prometeu a si mesma que iria "estudar, aprender e ensinar" cumpriu sua palavra com louvor. Ao longo dos anos, ela acumulou diversas formações e especializações que a elevaram ao patamar de mestre em sua área.
Embora possua formação em Gestão Financeira — curso que realizou por necessidade administrativa de seus negócios, apesar de confessar que os números e as exatas não são o seu forte —, a verdadeira paixão acadêmica de Marisa reside na arte. Ela é formada pela Escola Ibero-Americana de Arte Floral, instituição com atuação em dezenas de países, e nunca parou de se atualizar. Suas viagens de estudo a levaram a países como Alemanha e México, onde absorveu novas técnicas e culturas.
Entre as suas maiores referências profissionais está o alemão Gregor Lersch, considerado, o "Papa Mundial da Arte Floral". Com ele, Marisa teve a oportunidade de se formar e aprofundar seus conhecimentos. Aos 80 anos, Lersch continua sendo uma fonte diária de inspiração para ela, especialmente por seu trabalho impecável e pelo uso magistral da natureza — galhos, troncos, raízes e arames — como base de suas criações.
No cenário nacional, Marisa nutre profunda admiração e amizade por profissionais de destaque. Tanus Saab, amigo que conquistou o primeiro lugar na mesma Copa Brasileira em que ela foi vice-campeã, é uma de suas inspirações. Fundador da Escola Brasileira de Arte Floral, junto à Paulo Perissoto. Tanus é admirado por sua energia, resiliência e pela escolha de dedicar sua vida ao ensino, viajando o mundo para compartilhar sua arte com uma postura zen e tranquila.
Outro nome é Michel Benevenute, a quem Marisa chama carinhosamente de "o Michelangelo das flores". Amigo do coração, Michel é reverenciado por seu trabalho no estilo garden (estilo jardim), caracterizado por uma montagem de arranjos que beira a perfeição artística.
Essas conexões com grandes mestres e a troca constante de experiências em congressos e feiras internacionais mantêm a chama da criatividade de Marisa sempre acesa. Além de aprender, ela sente um imenso prazer em ensinar. Um de seus projetos próximos é retomar as aulas de arte floral, focando especialmente naquilo que mais ama fazer: buquês de noiva e joias de flores.
Apesar de todo o sucesso e reconhecimento profissional, o maior orgulho e o pilar central da vida de Marisa são a sua família. A união familiar, valor herdado dos tempos da chácara no Paraná, continua sendo a força motriz de seus dias.
Marisa é mãe de três filhos, frutos de seu casamento, que, embora não carreguem o sobrenome Baggio em seus documentos oficiais, trazem em suas veias a força e a resiliência da família. O primogênito, Bruno Almir Pergher, nascido em meio às adversidades do início da vida no Mato Grosso, formou-se em Engenharia de Produção. Hoje, aos 39 anos, atua como consultor e corretor de grãos, sendo sócio da empresa Bases. Bruno é casado com Andressa Polli e pai de Oscar Polli Pergher (6 anos) e Romeu Polli Pergher (4 anos).
O filho do meio, Diogo Felipe Pergher, de 35 anos, cursou Arquitetura, faltando apenas dois anos para a conclusão. Ele optou por seguir os passos da mãe no empreendedorismo e tornou-se seu "braço direito". Diogo é empresário e atua nas empresas da família, que hoje incluem a Red Store e a Mariná Decorações. Ele é casado com Anelise Ataide e pai de Ivan Gabriel (13 anos), Maria Valentina (9 anos) e Maitê Gabriela (5 anos).
A caçula, Isabela Joana Pergher da Rosa, de 32 anos, formou-se em Engenharia Química, tendo estudado em Curitiba. Casada com Bruno Cruz da Rosa, Isabela é mãe do pequeno Benício Pergher da Rosa, de 3 anos.
A chegada dos netos trouxe uma nova luz e um novo ritmo à vida de Marisa. Se no passado a rotina exaustiva de trabalho e as longas viagens a impediam de estar presente em todos os momentos da infância de seus filhos — um fato que ela reconhece, afirmando que, se pudesse voltar no tempo, ficaria mais junto deles —, hoje ela faz questão de equilibrar sua agenda.
Embora o setor de eventos exija dedicação intensa, especialmente aos finais de semana, Marisa aprendeu a impor limites. Ela freia a agenda para se permitir usufruir do que construiu, dedicando tempo de qualidade aos netos e à família. "A vida é assim. Quando você vê, eu já estou chegando nos 60 anos e a gente não se permitiu parar muito", reflete.
As tradições familiares são mantidas com zelo. Assim como na época de sua avó Tereza e de seu pai Oscar, a família procura se reunir pelo menos uma vez por semana. Os netos são presenças constantes em sua casa, visitando-a quase diariamente. Marisa transmite a eles os mesmos valores que aprendeu na infância: o amor pela natureza, a importância de fazer o bem e, claro, o prazer de cozinhar com amor. A neta mais velha e os meninos já começam a demonstrar interesse e um olhar especial para a culinária, perpetuando o legado da bisavó Tereza.
A trajetória de sucesso, no entanto, não esteve isenta de dores profundas. O momento mais difícil da vida de Marisa ocorreu com a perda de seu pai, Oscar Baggio. A figura paterna representava muito mais do que a autoridade familiar; Oscar era um amigo, um conselheiro e o maior incentivador de Marisa. Era ele quem, nos momentos de dúvida, oferecia um ombro amigo e dizia com firmeza: "Filha, segue. Você consegue."
A despedida de Oscar foi repentina e marcou profundamente a família. No início de 2010, a família havia retornado de férias no Sul, onde visitaram o sogro de Marisa. O clima era de alegria. Na sexta-feira, Noemia, a mãe de Marisa, preparou um jantar onde as crianças contaram as peripécias das férias — como a vez em que andaram a cavalo sobre a plantação de feijão do avô, deixando-o furioso, o que arrancou boas risadas de Oscar.
No sábado seguinte, Oscar viajou a Sinop para realizar alguns exames médicos, cujos resultados não foram animadores. Preocupada, Marisa, que tinha uma viagem de trabalho agendada para a Alemanha no dia 19 de janeiro, propôs cancelar seus compromissos para levá-lo a São Paulo em busca de tratamento. Com a sabedoria e o altruísmo que lhe eram característicos, Oscar recusou a oferta da filha. "Filha, eu to bem e vou ficar melhor ainda, e você vai para a Alemanha sim", sentenciou ele.
Infelizmente, a promessa de melhora não se cumpriu neste plano. Na madrugada de domingo para segunda-feira, Oscar Baggio faleceu. A perda do patriarca deixou um vazio imensurável. Ver a mãe, Noemia, viúva, e ter que continuar a caminhada sem o suporte e a palavra de incentivo do pai, exigiu de Marisa uma força colossal, no entanto, o legado de Oscar permaneceu vivo. O impulso que ele sempre lhe deu para não parar tornou-se o combustível necessário para que ela, mesmo em meio ao luto, continuasse a honrar o nome da família e a construir sua história.
A matriarca Noemia, demonstrando a mesma fibra inabalável, continuou sendo um pilar para a família. Mesmo com a idade avançada, ela se recusa a parar de trabalhar e de ser útil. Quando os filhos tentam poupá-la de esforços, ela resiste. Para Noemia, o trabalho é sinônimo de vida. "Se quiser tirar a vida dela, é tirar ela daqui", comenta Marisa, admirando a vitalidade da mãe que, assim como as raízes de uma árvore forte, sustenta a todos ao seu redor.
1986
Família Santini
Tempo de construir
Da lida no campo aos empreendimentos que movimentam uma cidade inteira.
Antes mesmo de compreender a vastidão do mundo, Pedro Paulo Santini, já desvendava, com uma sensibilidade quase instintiva, os sinais primordiais da terra que o circundava. Nascido em 28 de novembro de 1962, no modesto e pacato município de Barão de Cotegipe, aninhado no coração do Rio Grande do Sul, Pedro cresceu sob o olhar vigilante e amoroso de seus pais, Arlindo Santini e Irides Martini.
Mais do que meros agricultores, estes dois pilares, encarnavam uma alma indômita e uma ética exemplar, cultivando não apenas a terra matreira dos pampas, mas também as virtudes essenciais que sustentam o ser humano: a paciência reverente diante do tempo da chuva, o valor sagrado do labor extenuante e o orgulho discreto de edificar com as próprias mãos um legado de dignidade.
A paisagem ao redor de Barão de Cotegipe, com seus campos que se estendem em ondulações suaves, cortados por pequenos riachos, que refletem o céu mutável, oferecia um cenário ao mesmo tempo belo e implacável. Os invernos rigorosos, por vezes acariciados por neblinas densas, e os verões de sol escaldante, exigiam do homem da terra uma adaptação constante, quase uma comunhão com as forças naturais. Ali, na vastidão verde e ocre, a vida pulsava em consonância com os ciclos da natureza, onde a esperança e o esforço se entrelaçavam de maneira indissociável.
A vida nas comunidades rurais do Sul brasileiro durante as décadas de 1960 e 1970, era marcada por uma rotina austera, porém carregada de significado. O dia começava com o despertar decretado pelo alvorecer, quando a luz tênue do amanhecer começava a filtrar-se entre as folhas das árvores e os galhos dos arbustos. Era um instante sagrado, onde o silêncio ainda reinava absoluto, e o ar fresco trazia consigo promessas e desafios.
O ciclo agrícola, com seus ritos imutáveis, moldava o cotidiano de toda a família: o plantio, o cuidado das sementes, o manejo do solo e a espera ansiosa pela chuva necessária, que ora tardava, ora chegava com fúria, exigindo prontidão e coragem. O sol, implacável em sua trajetória, acompanhava o trabalhador da labuta desde o despontar do dia até o crepúsculo, quando o céu se tingia de tons alaranjados e púrpuras, sinalizando apenas um breve interlúdio para o repouso do corpo, sempre pronto para o novo desafio do dia seguinte.
Em Saracura, pequena localidade onde nasceu Irides Martini, em 25 de setembro de 1939, a existência assumia uma austeridade quase monástica. Ali, a vida era uma narrativa constante de sacrifício e esperança, desde sua mais tenra infância, onde conheceu o rigor da vida rural, onde o suor e o esforço eram a moeda corrente e o descanso, um luxo raro.
A menina crescia entre os campos verdejantes e as casas simples, onde cada gesto era ensinado com a mesma seriedade com que se ensina uma prece ou um cântico sagrado. Os dias eram longos e as noites, muitas vezes, pontilhadas pelo brilho das estrelas, que pareciam testemunhas da luta incessante pela sobrevivência.
A estrutura familiar, embora modesta em termos financeiros, era uma verdadeira fortaleza de valores compartilhados, cuja solidez parecia resistir às mais severas tempestades da vida. O casamento de Irides com Arlindo, celebrado quando ela tinha apenas 22 anos, selou uma união pautada não apenas pelo companheirismo e pelo amor, mas sobretudo pela esperança indômita de construir uma família sólida e numerosa, capaz de resistir às intempéries do destino.
Desse enlace vigoroso, nasceram seis filhos: Pedro Paulo, o primogênito; Valmor, João, Clarice Maria, Cleci Fátima e, por fim, Jerson Luiz, o caçula, que viria ao mundo em 22 de novembro de 1976, encerrando o ciclo de gerações iniciadas por seus pais.
Jerson Luiz Santini, nascido em Barão de Cotegipe, sob o mesmo céu vasto e promissor que acolhera seus irmãos, viveu sua infância imersa na rusticidade do sítio familiar até os nove anos de idade. Nesse cenário bucólico e exigente, ele acompanhava o ritmo cadenciado da natureza e das tarefas agrícolas, ajudando seu pai Arlindo na roça no que era possível para uma criança de tenra idade. Este convívio precoce com a terra e o labor manual não apenas forjou sua resistência física, mas também lhe insuflou uma compreensão intuitiva da vida em seu estado mais genuíno: o entrelaçar do esforço e da recompensa, o valor da cooperação e o respeito inquestionável pela generosidade da terra.
Naquele tempo, a tecnologia, com seus confortos e facilidades que hoje parecem corriqueiros, era ainda um luxo distante e quase inacessível. As crianças da família experimentaram uma infância imersa no contato direto e quase íntimo com a terra, entre os afazeres da lavoura, as manhãs geladas de inverno e as tardes quentes de verão, e as tarefas escolares que lhes conferiam disciplina e conhecimento.
O ensino formal, ministrado em escolas católicas, como o Instituto Cristo Rei e posteriormente na Escola Mantovani, não era apenas uma transmissão de saberes; era uma verdadeira formação moral, impregnada de valores éticos e espirituais que preparavam os jovens para enfrentar as adversidades do mundo, com coragem e retidão.
Pedro, o primogênito, desde cedo sentiu o peso da responsabilidade sobre os ombros ainda frágeis de sua juventude. Aos treze anos, enquanto muitos de seus pares ainda desfrutavam da despreocupação da infância, ele já conduzia tratores, sentindo sob suas mãos a vibração poderosa daquela máquina que parecia estender a força de seu corpo cansado. Era um aprendizado na prática, uma iniciação dura, porém indispensável, que lhe ensinava o significado profundo da resiliência e da dedicação incondicional.
Seus irmãos, Valmor e Jerson, apesar de mais jovens e com uma vivência mais breve nesse ambiente, aprenderam com a mesma intensidade as lições transmitidas pela família, absorvendo valores como disciplina e perseverança, que se tornariam fundamentais em suas trajetórias futuras.
A educação, o trabalho e a fé, constituíam o tripé invisível, mas indestrutível, que sustentava a família, mesmo diante das limitações financeiras e das dificuldades inerentes à agricultura de subsistência. Havia, nessa conjunção de forças, uma lição profunda sobre o significado do sacrifício: a consciência de que tudo que se constrói com esforço e paciência torna-se pedra fundamental para o futuro, um ato de amor que transcende o tempo.
Neste cenário, o olhar de Pedro, ainda menino, buscava no horizonte não apenas o fim da jornada diária, mas o sentido mais amplo da existência. Cada gota de suor derramada, cada semente lançada ao solo, era carregada de esperança. A vida, naquele tempo e naquele lugar, era uma poesia escrita com as mãos calejadas e o coração aberto, uma ode à persistência e à dignidade humana.
Assim, as raízes da família Santini se aprofundavam no solo gaúcho, nutridas pela tenacidade de seus membros e pela sabedoria ancestral, que ensina que o verdadeiro valor está no labor constante, no amor compartilhado e na coragem de enfrentar o desconhecido com a firmeza dos que sabem que o futuro é construído — não concedido. Essa herança seria a fundação inabalável sobre a qual se ergueria a monumental saga que, anos depois, cruzaria fronteiras e desbravaria novos horizontes no coração pulsante do agronegócio brasileiro.
O destino, em sua implacável e por vezes cruel tessitura, reservou à família provações que ultrapassariam os limites do corpo e da alma, marcando para sempre o curso de suas vidas. Arlindo, o patriarca, cuja força e labor tinham sido os pilares invisíveis que sustentavam o lar e a lavoura, foi tragicamente acometido por uma sombra silenciosa e devastadora: a depressão severa.
Naquele período conturbado das décadas de 1970 e 1980, essa enfermidade psíquica era pouco compreendida pela medicina e, ainda mais, pela sociedade — um espectro envolto em estigma, preconceito e ignorância. Arlindo, homem de poucas palavras e de mãos calejadas, viu-se subjugado por um mal interno que lentamente consumiu suas esperanças e sua razão, até culminar no gesto final e desesperado do suicídio.
A notícia da perda abrupta caiu sobre a família, como uma tempestade violenta, capaz de arrasar as mais firmes estruturas emocionais e financeiras. A dor que se seguiu não era apenas a do luto, mas a de um vazio existencial, uma rachadura profunda que ameaçava desmoronar o mundo cuidadosamente edificado por anos de esforço.
Irides, até então dedicada à rotina do lar e ao labor constante na terra, viu-se diante do abismo da incerteza. Porém, foi justamente nessa hora que sua fé, discreta, tornou-se a chama vital que iluminaria o caminho dos seus. Com uma serenidade que parecia quase sobrenatural, ela assumiu o papel de esteio inabalável para seus filhos, convertendo o desespero, em uma força renovadora.
Seus discursos, repetidos com uma convicção quase litúrgica, tornaram-se um mantra e um bálsamo para os corações feridos: "Deus vai me ajudar" e "a gente tem que ter Deus na gente". Essas palavras, simples em sua estrutura, carregavam a densidade de uma crença profunda na providência divina e na capacidade humana de resistir às tempestades da vida.
A agricultura de subsistência, que até então sustentara a família, revelou-se insuficiente diante das novas demandas. A terra, que outrora oferecia frutos e esperança, parecia agora uma mãe dura, que exigia mais do que podia dar. A necessidade imperiosa de mudança não era apenas uma questão econômica, mas um chamado existencial para reinventar-se, para buscar horizontes mais amplos e promissores.
Nesse cenário de angústia e expectativa, começaram a circular relatos sobre o Centro-Oeste brasileiro, uma região em plena e efervescente transformação. Tão vasta quanto desconhecida, a terra prometida apresentava-se como um convite tentador para aqueles dispostos a enfrentar o desconhecido. Descrições de terras férteis, de um solo vermelho e generoso, e de oportunidades que pareciam brotar como flores em meio ao cerrado, ressuscitavam a esperança na família Santini. Era um território virgem, ainda pouco explorado, onde o espírito pioneiro poderia se manifestar em toda sua plenitude.
Em 1985, movidos pela curiosidade e pela audácia que lhes era peculiar, Pedro Paulo e seu irmão Valmor, embarcaram numa longa e extenuante viagem até Mato Grosso. O trajeto, feito predominantemente por ônibus, impunha-lhes o desafio físico e psicológico de enfrentar estradas precárias, muitas vezes esburacadas e enlameadas pelas chuvas sazonais, que serpenteavam por entre a vastidão do território brasileiro.
A paisagem que se descortinava diante dos olhos era radicalmente distinta daquela do Sul do país, com sua vegetação mais densa e clima úmido: ali, o cerrado se impunha soberano, com sua vegetação rasteira, árvores retorcidas e uma paleta de cores dominada pelos tons terrosos e pelo céu azul deslumbrante, mas inclemente.
O clima seco, muitas vezes abrasador, fazia o ar parecer pesado e carregado de poeira vermelha que se infiltrava em cada fresta, marcando a pele e os pulmões com sua presença constante e implacável. A precariedade da infraestrutura urbana nas cidades de Rondonópolis e Cuiabá, onde fizeram suas primeiras explorações, chocava-os pela simplicidade dos serviços e pela rusticidade das construções. As ruas de terra batida, as casas modestas e o comércio ainda embrionário contrastavam violentamente com a organização e a tradição do Sul, criando um sentimento ambíguo de estranhamento e fascínio.
O choque cultural foi, sem dúvida, intenso. Pedro Paulo e Valmor experimentaram a sensação da alteridade em sua forma mais crua — o sentimento de ser estrangeiro em uma terra que, embora brasileira, parecia outro mundo. Contudo, a inquietude diante do desconhecido, não conseguiu superar a visão empreendedora que já pulsava em suas veias. Aquele ambiente agreste e desafiador, em sua aridez aparente, despertava neles uma espécie de reverência e um desejo ardente de construir, de transformar. O retorno ao Sul, após essa primeira incursão, foi breve e serviu apenas para confirmar a decisão que em breve seria definitiva.
Em 1986, com o coração apertado, mas a mente firme, os Santini iniciaram a travessia rumo a Sorriso, uma pequena vila que ainda se encontrava em processo de emancipação política e social. Chegaram em plena época da seca, quando a aridez do sertão se fazia sentir com uma intensidade quase brutal. A paisagem era tomada por uma poeira incessante, que pairava no ar como um véu opaco e persistente, tornando o horizonte indistinto e o ar quase irrespirável. A cidade contava com apenas cerca de três quilômetros de asfalto em toda a sua extensão, um testemunho da rusticidade e do estado embrionário de seu desenvolvimento urbano.
Para Jerson, então uma criança de nove anos, a mudança parecia uma festa e uma aventura. Sua inocência e ânimo infantil, não lhe permitiam compreender a dureza da realidade que se descortinava ao redor. Para ele, a poeira que os envolvia e as ruas de terra batida, eram como um cenário fascinante, um convite ao descobrimento e à brincadeira — uma experiência que contrastava intensamente com a visão dura e preocupante que os adultos carregavam em seus semblantes. Enquanto Irides e os demais adultos ponderavam sobre as dificuldades da adaptação, a precariedade dos serviços e a dureza do clima, Jerson via tudo com olhos brilhantes, como se a mudança fosse um portal para um mundo novo e cheio de promessas.
Ao chegar, encontraram uma paisagem quase desértica, onde as ruas de terra batida, se perdiam em meio ao pó e à poeira que o vento levantava incessantemente. A infraestrutura era precária, os serviços básicos oscilavam e a população, composta por cerca de mil habitantes, vivia em meio a um cotidiano, marcado pela luta constante contra as adversidades naturais e sociais.
O calor, implacável e sufocante durante o dia, parecia intensificar a sensação de isolamento e vulnerabilidade. A poeira vermelha invadia as casas e os corpos, lembrando a todos que ali, mais do que em qualquer outro lugar, a natureza era um elemento indomável. O conforto e a segurança a que estavam acostumados no Sul transformaram-se em uma miragem distante, um sonho a ser alcançado apenas através do trabalho árduo e da perseverança.
Um episódio que ficou gravado na memória coletiva da família, foi o abandono repentino do veículo — um momento de tensão extrema que simbolizou as dificuldades do caminho. No meio de uma estrada isolada, cercados apenas pela imensidão cinzenta e seca do cerrado, ficaram sem combustível.
O silêncio da paisagem ao redor, parecia amplificar a angústia e o medo, o sentimento de estar à mercê de forças maiores e desconhecidas. Porém, a persistência e a solidariedade, emergiram como luzes na escuridão. Um amigo, cuja ajuda chegou como um sopro de esperança, providenciou o combustível necessário para que pudessem seguir adiante, transformando aquele momento de crise, em um marco de superação.
Assim, entre o pó do cerrado e a vastidão do céu, começou a epopeia dos Santini no Centro-Oeste. Uma jornada que, embora nascida da adversidade, converteu-se em um estímulo para o trabalho e a inovação, um convite para reinventar-se e construir, com as próprias mãos e com o coração, uma nova história. A migração não foi apenas uma mudança geográfica, mas uma verdadeira transfiguração existencial, onde o sacrifício se amalgamou a um legado que transcenderia gerações.
A chegada de Pedro Paulo e sua família à Sorriso, no coração pulsante do Mato Grosso dos anos 1980, marcou o início de um capítulo que mesclava esperança, desafio e transformação. A princípio, a cidade, embora promissora, revelava-se um ambiente saturado para profissionais com formação acadêmica, como Pedro, que havia concluído Ciências Contábeis.
A ambição de construir um futuro sólido, esbarrava na realidade pragmática de um mercado de trabalho restrito e competitivo. Assim, para garantir a subsistência imediata, Pedro e seu irmão Valmor, aceitaram com humildade empregos que, à primeira vista, pareciam distantes de suas aspirações intelectuais e acadêmicas: tornaram-se garçons no Restaurante Laçador, estabelecimento modesto e acolhedor, de propriedade da prima Neiva Delai
Esse período, longe de ser um retrocesso, revelou-se uma verdadeira aula prática de gestão, atendimento e operação comercial. A rotina diária no Laçador, impunha-lhes o contato direto com as demandas mais básicas do comércio — a paciência para ouvir as histórias dos clientes, a precisão na entrega dos pedidos, o equilíbrio emocional diante do cansaço e da pressão constante.
As noites findavam sob o peso da exaustão, enquanto os dias se levantavam com a mesma intensidade e a promessa de um amanhã melhor. Para Pedro, cada gesto, cada palavra trocada com clientes e colegas, cada desafio enfrentado no chão do restaurante era uma lição, um aprendizado tácito que transcenderia as fronteiras da mera sobrevivência.
Em agosto de 1986, a família Santini, finalmente reunida em Sorriso, enfrentou a dolorosa decisão de vender as terras que possuíam no Sul do país — uma terra que, embora modesta, representava raízes profundas, memórias e uma história de luta e superação. Abandonar esse passado foi quase quixotesca, um salto no escuro pelo sonho de dias melhores. A mudança foi uma ruptura abrupta com o conhecido, uma despedida das paisagens verdes e úmidas do Rio Grande do Sul para ingressar num cenário marcado por contrastes intensos: o cerrado mato-grossense, com sua aridez implacável e sua poeira fina que parecia invadir cada fresta da casa, do corpo e da alma.
A terra seca e o clima severo, testavam diariamente a resistência física e emocional de Irides e seus filhos. Sob o sol abrasador, as manhãs começavam com o céu tingido de um azul quase branco, enquanto o vento, carregado de pó e folhas secas, soprava incessantemente, como um lembrete cruel da austeridade daquele ambiente. A ausência quase total de infraestrutura adequada, com ruas empoeiradas, abastecimento de água irregular e a carência de serviços essenciais, transformava o cotidiano em um campo de provas persistente, onde o cansaço físico se misturava à angústia da adaptação.
Foi nesse cenário de adversidade, que surgiu a necessidade imperiosa de um negócio próprio que pudesse sustentar a família e firmar suas raízes naquele solo hostil. A oportunidade apareceu na forma do Restaurante Degrau, um estabelecimento singelo, localizado estrategicamente próximo à praça central de Sorriso. O restaurante era um ponto de encontro para viajantes, homens e mulheres cujas vidas itinerantes dependiam de uma refeição quente e de um ambiente acolhedor para aliviar as longas jornadas nas estradas brasileiras. A clientela, embora regular, era exigente e pouco tolerante a deslizes, impondo um ritmo acelerado e uma qualidade constante ao serviço.
Para Irides, mulher cuja vida até então fora marcada pelo labor rural e pela lida direta com a terra, o desafio de assumir a cozinha do Degrau, foi monumental. Jamais havia trabalhado em um ambiente comercial, muito menos em um espaço onde as regras do tempo e da produção seguiam um compasso rigoroso e acelerado. Dona Ivone, a antiga proprietária e guardiã dos segredos daquele local, tornou-se uma mestra paciente e rigorosa. Com mãos calejadas e voz firme, ela se dedicou a transmitir-lhe as técnicas da cozinha industrial, as receitas que haviam conquistado os paladares da freguesia local, e o funcionamento dos equipamentos que, para ela, pareciam máquinas enigmáticas e impiedosas.
Os primeiros dias foram marcados por lágrimas, dúvidas que se enraizavam no peito e um sentimento profundo de inadequação. O peso da responsabilidade recaía como uma montanha sobre seus ombros, e o cansaço, físico e mental, ameaçava vencê-la. Contudo, a força da matriarca, forjada na dureza dos campos do Sul, revelou-se indomável. Cada noite, ao deitar-se exaurida, encontrava na memória o rosto dos filhos e a promessa de um futuro melhor, renovando sua determinação.
A cozinha do Degrau transformou-se, assim, em um palco de superação, onde a simplicidade dos ingredientes ganhava significado e a comida, feita com mãos calejadas e alma dedicada, tornava-se um ato de amor e resistência.
Enquanto a família se lançava de corpo e alma no empreendimento que lhes dava sustento, os filhos seguiam seus próprios caminhos de formação e adaptação. Jerson, o mais jovem, vivia a experiência singular de crescer em meio ao vigor desafiador do Mato Grosso, um território de possibilidades e carências. Em Sorriso, suas jornadas escolares encontravam abrigo na Escola São José, a primeira instituição de ensino da cidade, erguida pelo próprio fundador e colonizador do município.
Ali, entre as paredes que guardavam a história da própria cidade, Jerson continuava seus estudos, absorvendo não apenas o conhecimento formal, mas também a essência de um lugar em construção, um microcosmo de esperança e transformação. A escola, símbolo da perseverança comunitária, oferecia a Jerson um horizonte mais vasto, um contraponto à aridez do cerrado e um convite para que sua mente e coração se expandissem para além das dificuldades cotidianas.
A comida do Degrau, simples e saborosa, carregava consigo o aconchego de uma casa, o sabor da infância e a tradição da família Santini. O atendimento familiar, um diferencial que não estava escrito em cardápios ou manuais, criava um vínculo único com cada cliente. Tratavam todos como convidados especiais, recebendo-os com um sorriso sincero e uma atenção que transcendia o mero serviço. Essa relação de proximidade e afeto foi a chave para a fidelização de uma clientela, que via no Degrau mais do que um restaurante: um refúgio, um ponto de encontro, um pedaço de lar longe do lar.
Toda a família envolveu-se com afinco nesse empreendimento que, aos poucos, crescia em importância e em significado. Pedro e Valmor, aplicavam os conhecimentos administrativos e contábeis adquiridos, organizando as finanças, controlando os estoques e planejando estratégias que garantissem a sustentabilidade do negócio. As irmãs, Clarice e Cleci, com delicadeza e eficiência, cuidavam do atendimento e da limpeza, zelando pela higiene e pela organização do ambiente. Jerson, ainda menino, desempenhava tarefas essenciais, desde varrer o chão até ajudar na entrega dos pedidos, aprendendo desde cedo o valor do trabalho e da responsabilidade.
O trabalho era extenuante, sem concessão para finais de semana ou folgas, e o tempo parecia se diluir entre o calor das panelas e o burburinho da clientela. Contudo, essa dedicação absoluta consolidou o Degrau como a principal fonte de renda e aprendizado da família. Mais do que isso, aquele restaurante tornou-se uma escola de vida, onde cada desafio enfrentado e cada vitória alcançada, reforçavam os laços familiares e alimentavam a esperança.
O sucesso do Degrau, ainda que modesto em sua escala inicial, foi a pedra fundamental para a ambição de expandir e diversificar os negócios. A cidade de Sorriso, que começava a despontar como um polo econômico regional, oferecia oportunidades e desafios que exigiam coragem, planejamento e uma visão além do horizonte imediato. Para os Santini, o restaurante era a materialização de um sonho, o símbolo de uma travessia que unia passado, presente e futuro.
Nesse processo de construção, a família não apenas edificava um estabelecimento comercial, mas também tecia a história de uma nova identidade, forjada no calor do trabalho árduo, na doçura do acolhimento e na firmeza de uma crença profunda na capacidade humana de reinventar-se e prosperar, mesmo diante das adversidades mais implacáveis. O restaurante Degrau, então, deixou de ser apenas um ponto na geografia de Sorriso, para se tornar um marco simbólico do espírito indomável desta família.
No limiar dos anos 1980, enquanto Sorriso emergia timidamente do casulo rural para os primeiros lampejos do progresso urbano, a família já vislumbrava além do horizonte imediato. O Restaurante Degrau, fruto de árduos esforços e sacrifícios, não apenas consolidara a estabilidade econômica do clã, mas também lhes proporcionara uma visão aguçada das lacunas que permeavam o cotidiano da comunidade local. Entre essas lacunas, destacava-se, de modo particularmente incisivo, a ausência de espaços adequados para o lazer e o convívio social.
O modesto Clube Sorriso, com sua estrutura rústica e limitada, espelhava a simplicidade daquela pequena cidade em transição, porém, já não atendia às aspirações de uma população que crescia em número, diversidade e anseios culturais. Era um tempo em que o suor da labuta rural, começava a se converter em desejos por momentos de descontração e celebração, sobretudo para os jovens e para o emergente empresariado local.
Foi nesse cenário de efervescência social e econômica, que nasceu a ideia do Oásis, um projeto que carregava em si a promessa de modernidade, inovação e, acima de tudo, um sonho coletivo. A concepção do Oásis não foi fruto do acaso, mas sim de uma leitura perspicaz das transformações em curso, aliada à coragem e à visão empreendedora de uma família que já estava habituada a transpor desafios com determinação inabalável.
Inaugurado em 7 de novembro de 1987, o Oásis não se limitou a ser um mero salão de bailes e eventos; tornou-se uma verdadeira obra-prima arquitetônica e social, cujo impacto reverberou por toda a região.
A construção do Oásis, exigiu mais do que capital e técnica; demandou, sobretudo, um esforço coletivo que uniu mãos calejadas e corações esperançosos. Foram noites em claro, longas jornadas sob o sol escaldante do Mato Grosso, negociações tensas com instituições financeiras e um reinvestimento meticuloso dos lucros obtidos no restaurante.
Em cada tijolo assentado, havia a marca da perseverança e o espírito indômito dos Santini, que não se intimidavam diante da incerteza, mas a enfrentavam como um desafio a ser vencido. O clima, por vezes adverso, com chuvas repentinas e ventos que varriam a planície, parecia quase conspirar para testar a resistência daqueles homens e mulheres que viam no empreendimento, uma ponte para um futuro mais promissor.
Ao abrir suas portas, o Oásis rapidamente se transformou no epicentro social de Sorriso, um palco onde se encenavam não apenas bailes e concursos de beleza, mas também o pulsar de uma comunidade em busca de identidade e expressão cultural. A estrutura ampla e elegante, equipada com tecnologia de ponta para a época, impressionava e conquistava o público, que encontrava naquele espaço um refúgio onde a música, a dança e a convivência social se entrelaçavam em harmonias perfeitas.
Era um oásis literal e metafórico, um lugar onde a aridez das rotinas diárias, dava lugar ao frescor da alegria e da esperança.
Neste ambiente efervescente, Jerson, ainda um jovem adolescente, viu-se imediatamente imerso em uma realidade multifacetada. Aos quatorze anos, já se integrava ao labor cotidiano do Oásis Club, abastecendo freezers com diligência e distribuindo panfletos nas ruas, em uma rotina que mesclava o vigor da juventude com o peso das responsabilidades precoces. Com a tenacidade herdada de seus antepassados, ele assumiu responsabilidades que iam muito além do que se esperaria de alguém de sua idade.
De mãos calejadas pelo trabalho pesado na construção e manutenção do espaço, ao atendimento cortês e atento, Jerson preparava-se para uma carreira empresarial que, embora ainda embrionária, já revelava traços inequívocos de liderança e sensibilidade. Seus dias eram preenchidos por um misto de suor, aprendizado e sonhos; suas noites, embaladas pelas melodias que ecoavam no salão, acendiam em seu espírito a chama da paixão pela música e pelo convívio social.
Em meio a tempos de dificuldades financeiras que assolavam a cidade, Jerson tomou uma decisão que moldaria seu destino e o futuro do grupo: optou por não cursar a faculdade, preferindo dedicar-se integralmente ao negócio familiar para contribuir com seu crescimento e sustentabilidade. Essa decisão, pautada em um senso prático e maduro para sua idade, refletia a consciência de que o momento exigia sacrifícios e foco absoluto para garantir a perenidade do empreendimento.
A transição para a década de 1990, trouxe consigo novas demandas e desafios. O Oásis passou por uma modernização profunda, incorporando equipamentos de som e iluminação avançados que o catapultaram para o patamar de danceteria mais popular da região. Essa atualização tecnológica não apenas acompanhava as tendências musicais da época, mas também simbolizava a disposição da família em investir continuamente na excelência e na inovação.
Em 1994, Jerson assumiu o comando das pick-ups sob o pseudônimo de "DJ Jerson", atuando por doze anos como peça fundamental para o sucesso da casa. Seu carisma natural e sua sensibilidade musical, aliadas a uma compreensão intuitiva do público, faziam dele o maestro das festas, capaz de orquestrar emoções e criar atmosferas inesquecíveis. Sua presença ali não era apenas a de um animador, mas a de um guardião da alma cultural da cidade.
Paralelamente a essa efervescência noturna, a família decidiu elevar o padrão gastronômico de Sorriso. Em 1994, inauguraram o Restaurante Oásis no piso superior do complexo, uma iniciativa que refletia a ambição de oferecer uma experiência culinária sofisticada e um serviço refinado, até então inéditos na região.
Sob o comando incansável e talentoso de Irides, cuja mão firme e coração dedicado, haviam guiado a família por tantas jornadas, o restaurante consolidou-se como um templo da gastronomia local. Ali, cada prato era concebido como uma obra de arte, uma celebração dos sabores e das tradições, reinterpretadas com criatividade e rigor técnico. A reputação como chef, transcendeu os limites do estabelecimento, fazendo dela uma figura emblemática de dedicação e excelência.
O complexo Oásis tornou-se, assim, um espaço multifuncional que atendia a públicos distintos e complementares. Enquanto a danceteria vibrava com a energia efusiva dos jovens e amantes da música, o restaurante oferecia um ambiente de elegância e tranquilidade para encontros sociais, jantares de negócios e celebrações familiares. A sinergia entre esses dois polos permitia a maximização do uso do espaço e dos recursos, demonstrando uma visão empresarial que ia muito além da mera lucratividade, alcançando a dimensão da sustentabilidade e do impacto social positivo.
À medida que o século XXI despontava, o Grupo Santini não se contentava com as conquistas já alcançadas. Sob a liderança visionária de Pedro, a família expandiu seus horizontes com a aquisição do Restaurante Camelos, situado na então Avenida W1. A escolha dessa localização, longe de ser um mero acaso, refletia uma estratégia aguçada de acompanhar e antecipar o processo de valorização da Avenida Natalino Brescansin, que logo se tornaria um dos principais eixos urbanos da cidade.
O Camelos, sob o olhar atento de Pedro e Ivone, lentamente transformou-se em ponto de referência gastronômica e social, um local onde tradição e modernidade se entrelaçavam para criar experiências únicas.
Em 2002, a ousadia da família encontrou nova expressão com a inauguração de uma cervejaria artesanal anexa ao Camelu’s. Pioneira na região, a cervejaria não apenas agregou valor e exclusividade aos negócios familiares, mas também representou um gesto de inovação e coragem diante de um mercado ainda incipiente para esse tipo de produto. A produção artesanal, com sua aura de autenticidade e cuidado, refletia os valores mais profundos da família: o respeito pelo ofício, a busca pela qualidade e a paixão pelo que se faz.
A diversificação empresarial prosseguiu com a criação de novas marcas e a ampliação do portfólio, que passou a incluir bares, buffets, centros de eventos e casas de shows em cidades vizinhas. Cada novo empreendimento era concebido com o mesmo espírito empreendedor e a mesma ética de trabalho que haviam guiado os primeiros passos da família.
A profissionalização da gestão, combinada com uma divisão inteligente de responsabilidades entre os membros do clã, consolidou o Grupo Santini como uma verdadeira potência regional. Nesse contexto, o grupo destacou-se como pioneiro na introdução do turismo de eventos em Sorriso, uma estratégia inovadora que alavancou a economia local e projetou a cidade no cenário nacional. O primeiro grande show nacional a ser realizado, foi o consagrado duo sertanejo Victor & Leo, cuja apresentação reverberou como marco inaugural dessa nova era de entretenimento e desenvolvimento.
Com a expansão do setor cultural e de lazer, Jerson passou a comandar o setor de shows e eventos do Grupo, alinhando sua sensibilidade musical e experiência adquirida no Oásis à gestão de grandes produções. Enquanto isso, Pedro concentrou-se na administração dos restaurantes e buffets, fortalecendo o equilíbrio estratégico do grupo. Essa divisão inteligente de responsabilidades potencializou o crescimento sustentável do conglomerado, consolidando sua presença em múltiplos segmentos.
No âmbito pessoal, a trajetória de Jerson também se entrelaçou com a história da cidade. Há trinta anos, conheceu Rafaelle Francio, filha do colonizador da região, cuja união simbolizava a convergência de duas linhagens fundamentais para o desenvolvimento local. Deste enlace, nasceram duas filhas, Lorena, atualmente com doze anos, e Antonella, com oito, imbuídas dos valores que seus pais cultivaram.
O Grupo Santini, manteve uma participação constante e ativa na Exporriso, evento tradicional da cidade que congrega os setores agropecuário, comercial e cultural. Recentemente, o grupo assumiu a coorganização da feira. Essa trajetória monumental, não se restringia aos números ou à expansão física; era, antes de tudo, um testemunho vivo das virtudes que sustentam o espírito humano diante das adversidades.
Irides Martini Santini, a venerável matriarca, permanece como o coração pulsante dessa história, a pedra fundamental sobre a qual repousam as conquistas e os sonhos da prole.
Além das paredes do lar, a atuação de Irides na comunidade, não menos se destaca. Seu comprometimento social, manifestado pelo trabalho voluntário como catequista e cuidadora do santuário, revela a profundidade de sua espiritualidade. A capela, com suas paredes rústicas e bancos de madeira simples, era para ela um lugar de encontro com o divino e fortalecimento diário.
Aos 86 anos, ela mantém uma lucidez impressionante, uma memória vívida e uma alegria vibrante que contagia a todos ao redor. Em suas palavras simples e carregadas de sabedoria, “Deus ajuda quem tem fé e quem trabalha” não é apenas um ditado, mas uma filosofia que guia a existência da família.
No seio dessa grande família, Pedro, Jerson e Valmor, emergem como líderes naturais das gerações seguintes, homens que não apenas herdaram a capacidade empreendedora dos pais, mas que também compreenderam a grande importância da coesão familiar. Para eles, o sucesso não é fruto de esforços isolados, mas da capacidade de trabalhar em harmonia, de apoiar-se mutuamente nos momentos de fragilidade e de celebrar, com humildade e gratidão, todas as conquistas.
Essa visão, que pode parecer simples à primeira vista, é na verdade o alicerce que blindou o Grupo Santini contra as tempestades que costumam abalar muitos negócios familiares, onde as rivalidades internas e a falta de diálogo frequentemente levam à ruína.
Jerson, em particular, reflete com imenso orgulho sobre o crescimento sem precedentes de Sorriso, cidade que viu nascer e prosperar. Ele recorda com emoção, que nem mesmo seu sogro, o pioneiro colonizador Claudino Francio, poderia antever que aquele pequeno município desbravado com tanto esforço, chegaria a alcançar a grandiosidade de seus dias atuais. Essa constatação é para ele, fonte de uma gratidão profunda, um reconhecimento que transcende palavras e se traduz em um compromisso inquebrantável com o bem-estar e o progresso daquela terra e de seu povo.
Ao longo de quase quatro décadas, Jerson expressa sua mais sincera reverência à população de Sorriso, cuja confiança e apoio incondicional, foram a base sólida sobre a qual a família edificou seus sonhos e suas realizações.
1986
Família Parizzi
Onde o chão encontra o horizonte
A confluência de dois mundos: a coragem de enfrentar a aridez do incerto e a bravura de desenhar o novo, transformando a poeira no alicerce de uma dinastia
A história da família Parizzi e de seu impacto profundo e duradouro no desenvolvimento de Sorriso, Mato Grosso, tem suas raízes profundamente fincadas no interior do Rio Grande do Sul, em um tempo em que o trabalho no campo ditava o ritmo da vida e os valores familiares, eram a bússola para o futuro.
Adir Parizzi, nasceu em 25 de fevereiro de 1957, na cidade de Casca, um município que, na época, preservava a essência de um vilarejo pacato, onde as relações interpessoais eram estreitas e a vida transcorria sem as pressas da modernidade urbana. Filho de Zandir Parizzi e Rosalina Lorenzato Parizzi, ele cresceu em um lar numeroso e vibrante, compartilhando a efervescência da infância com seus sete irmãos: Gilberto, Humberto, Jandira, Raul, Branca, Ieda e Alberto.
Essa convivência em uma família grande, foi o primeiro e mais importante laboratório de relações humanas para Adir, ensinando-lhe, desde cedo, a importância da negociação, da partilha, da lealdade e da capacidade de encontrar soluções conjuntas em meio aos desafios cotidianos.
Os primeiros anos de Adir foram moldados pela simplicidade bucólica da vida no interior gaúcho. A casa onde nasceu, e que até hoje permanece como um relicário de memórias em sua mente, era um espaço simples, porém cheio de possibilidades para uma criança curiosa. As manhãs eram preenchidas com a convivência enriquecedora com os avós paternos, Tranquilo Parizzi e Júlia Tonial Parizzi, além dos maternos Liberal Lorenzatto e Rosa Tonial Lorenzatto, figuras centrais que incutiram no menino um profundo respeito pelas tradições, pela honestidade e, acima de tudo, pela terra.
As tardes eram divididas entre as obrigações escolares e a liberdade das brincadeiras ao ar livre, correndo pelos campos abertos, sentindo o vento frio do Sul no rosto e aprendendo a observar os ciclos da natureza. Foi nesse ambiente, que se esculpiram não apenas suas memórias mais tenras, mas também os alicerces de um caráter que se revelaria extraordinariamente resiliente e determinado diante das adversidades que o futuro lhe reservava.
Desde muito cedo, Adir demonstrou possuir um espírito inquieto e uma vontade intrínseca de ir além das fronteiras físicas e sociais que o cercavam. “Enquanto muitos de meus contemporâneos se contentavam com a segurança do lar e com a previsibilidade de uma vida estruturada na pequena Casca, eu já vislumbrava horizontes mais amplos e desafiadores”, recorda Adir.
A sala de aula tradicional, com sua rotina metódica e conteúdos teóricos, não conseguia prender a atenção do jovem. Sua verdadeira escola seria a prática diária, o contato direto com a realidade do trabalho e a observação atenta do mundo ao seu redor. Apoiando o pai nas atividades agrícolas e comerciais cotidianas, Adir desenvolveu uma compreensão prática e aguçada da vida, aprendendo que a terra retribui o esforço dedicado a ela — uma lição valiosa que se tornaria o mantra de sua existência e a base de sua futura filosofia empresarial.
Enquanto Adir crescia no interior gaúcho, outra história, igualmente rica em determinação e talento — e fundamental para a construção do legado Parizzi — estava sendo escrita no Sul do país.
Rone Magdalena Franciosi, nascida em 22 de outubro de 1962, também na cidade de Casca, crescia em um ambiente que contrastava com a rudeza do trabalho agrícola, mas que compartilhava os mesmos valores. Filha de Romeu Francisco Franciosi e Neide Rita Zandoná Franciosi, Rone, teve uma infância permeada pela arte, pela criatividade e pelo apreço pelo belo.
Até os seis anos de idade, Rone viveu em uma casa de madeira muito simples, localizada na vila Evangelista, em Casca, com o banheiro de alvenaria separado da estrutura principal. Sua infância foi marcada por uma convivência familiar calorosa. Sua mãe, Neide, provinha de uma família numerosa de nove irmãos, o que garantia reuniões familiares frequentes, repletas de tios e dezenas de primos, criando um ambiente de felicidade e brincadeiras constantes.
A casa dos avós paternos, Antônio Franciosi e Zaida Rossi Franciosi, erguia-se como um verdadeiro refúgio de memórias e afetos — uma construção antiga, cheia de detalhes e encantos, com porão e sótão, que despertavam a imaginação e acolhiam histórias de gerações. Era ali, nesse espaço carregado de significado, que avós e primos se reuniam todo entardecer, onde surgiam conversas e brincadeiras constantes., transformando o lar no coração pulsante das celebrações.
Rone relembra com ternura essas celebrações: “As festas de Natal, em especial, permanecem vivas na minha memória como experiências quase mágicas. Havia o ritual de acompanhar o avô materno Pedro Zandoná, até o mato para colher musgo fresco, cuidadosamente utilizado na montagem do presépio com a avó materna Luiza Anna Mattiuzzi Zandoná. Lagos improvisados com espelhos, refletiam pequenos patinhos de cerâmica, o pinheirinho natural, iluminado por velas de parafina acesas apenas à meia-noite, compondo o cenário natalino, enquanto a cantata de Noite Feliz ecoava, envolvendo todos em um sentimento de união”.
Esses momentos foram profundamente significativos para Rone, despertando nela um olhar atento para a beleza dos detalhes, o valor das tradições e a importância dos laços familiares.
A casa de seus pais era um verdadeiro ateliê vivo. Ambos eram apaixonados por arquitetura, arte e trabalhos manuais, tendo inclusive projetado a própria residência onde moravam. Romeu, desde a juventude, dedicava-se a esculpir casinhas em pedra e a criar outras formas de escultura, enquanto Neide dominava a pintura e uma vasta gama de artesanatos.
Inserida nesse ambiente estimulante, Rone demonstrou, desde muito pequena, um interesse natural por desenho, construção e criatividade. Ela passava horas montando casinhas com recortes de revistas, desenhando e pintando. Sua mãe foi uma grande incentivadora, matriculando-a em diversos cursos que ampliaram seu repertório criativo: pintura em tecido, escultura em vidro, pintura em tela, costura, confecção de flores artificiais, além de trabalhos manuais tradicionais como crochê e tricô.
Esse constante estímulo à criação desenvolveu, além das habilidades manuais, a sua percepção espacial e estética. Contudo, a educação recebida ia muito além do desenvolvimento artístico. Seus pais eram rigorosos na transmissão de valores éticos e morais. Eles a educaram para ser proativa, para não ter medo do trabalho e para buscar a excelência em tudo o que se propusesse a fazer.
Desde as tarefas do cotidiano doméstico, como cortar um pão ou organizar um armário, até os projetos mais complexos, a exigência era de que tudo fosse feito com retidão e capricho. A sinceridade e a honestidade na exposição de opiniões eram pilares dessa formação.
A vocação definitiva para a arquitetura não surgiu de forma repentina, mas com o amadurecimento natural de todas essas influências. Rone relata: “Durante as viagens proporcionadas por meus pais para conhecer outras regiões e realidades fora de meu círculo de convivência habitual, eu ficava impressionada com as obras arquitetônicas — edifícios imponentes, casas elaboradas, monumentos históricos”.
Ela começou a observar, com olhar crítico e analítico, os detalhes, os materiais empregados e as formas construtivas. O fascínio por projetos que resistiam ao teste do tempo, que duravam décadas ou séculos, marcando a história, a cultura e a identidade de um povo, consolidou sua escolha profissional. Para Rone, a arquitetura representava a materialização da beleza aliada à funcionalidade e à perenidade.
Com esse propósito, Rone ingressou no curso de Arquitetura e Urbanismo na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), no Rio Grande do Sul, em 1980. A experiência universitária foi intensamente exigente, transformando Rone em uma aluna aplicada aos estudos e cada vez mais apaixonada por sua escolha.
Ela se destacava não apenas nas disciplinas artísticas, mas também nas áreas de exatas, história e geografia, demonstrando uma compreensão holística da arquitetura. Projetos acadêmicos desafiadores, como o desenvolvimento de uma escola baseada em módulos hexagonais multiplicáveis, evidenciaram sua capacidade de aliar estética inovadora à soluções funcionais pragmáticas.
Durante o período da faculdade, Rone não se limitou ao ambiente acadêmico. Buscando independência financeira e experiência prática, ela realizava trabalhos extras para imobiliárias da região. Em uma época anterior à popularização dos computadores e dos softwares de desenho assistido (CAD), todo o trabalho era executado à mão na prancheta.
Rone desenvolvia projetos gráficos decorados e coloridos para material de propaganda, pintando plantas baixas manualmente em papel vegetal com extremo cuidado e precisão, para que pudessem ser fotografadas e reproduzidas em folders comerciais. Essa experiência aprimorou seu traço e sua atenção aos detalhes.
Após a conclusão da graduação em julho de 1985, Rone deu seus primeiros passos profissionais assinando projetos. Atuava com o rigor técnico e o cuidado extremo de quem compreende a responsabilidade legal e social de sua profissão, aplicando fielmente os conhecimentos adquiridos e buscando sempre a melhor solução dentro das normas estabelecidas. Sua carreira no Sul prometia ser sólida e bem-sucedida, inserida em um mercado maduro e estruturado.
A grande virada em sua trajetória, o momento que definiria o curso de sua vida para sempre, ocorreu em 1986. O Brasil passava por profundas transformações econômicas e demográficas, e o eco de uma “terra prometida” no Centro-Oeste, chegava com força aos ouvidos dos jovens do Sul.
A escolha não foi simples. Seu pai, Zandir, desejava que os filhos concluíssem a formação acadêmica e tivessem uma vida mais estável, o que fez com que a decisão fosse recebida com preocupação pela família. Ainda assim, Adir seguiu adiante, impulsionado por uma forte convicção de que precisava tentar e de que ali estava a chance de construir algo grandioso. Essa coragem diante do desconhecido, se tornaria uma marca essencial de sua trajetória.
A partida foi carregada de sentimentos mistos. Adir recorda: “A partida foi carregada de sentimentos mistos: a tristeza da despedida e a esperança de um novo começo. Levando apenas o necessário — roupas simples, ferramentas básicas e os valores herdados da família, como honestidade, fé e dedicação ao trabalho —, enfrentei uma viagem longa e difícil por estradas precárias até chegar ao destino”.
Em 27 de março de 1980, Adir chegou a Sorriso, encontrando uma realidade ainda rudimentar, com pouca infraestrutura e vastas áreas de terras virgens. Era um cenário desafiador, onde praticamente tudo ainda estava por ser construído, marcando o início de uma jornada de superação e construção de futuro.
Acompanhado de seu irmão Gilberto, cuja presença foi essencial nos momentos mais difíceis, Adir deu início à desafiadora missão de implantar a Fazenda Parizzi, marco inicial de sua trajetória de conquista no Mato Grosso.
Os primeiros anos foram extremamente duros, exigindo uma adaptação quase sobre-humana. A poeira constante, o calor intenso do cerrado e o isolamento profundo, passaram a fazer parte de sua rotina, testando não apenas sua resistência física, mas principalmente sua força emocional. Longe de tudo o que conhecia, o silêncio e a solidão do lugar tornavam-se, muitas vezes, opressivos.
Um dos episódios mais marcantes desse período foi quando Adir passou cerca de seis meses totalmente incomunicável com sua família no Rio Grande do Sul. Adir confessa: “A saudade e o cansaço chegaram a despertar em mim a vontade de desistir, contida apenas pela determinação de não fracassar e pela firmeza em provar que sua escolha havia sido acertada”.
O alívio veio com a chegada de um rádio amador enviado por seu pai, Zandir. Esse simples equipamento rompeu o isolamento, permitindo que Adir voltasse a se comunicar com a família, tornando-se um elo essencial para sua permanência e fortalecimento emocional.
Diante da realidade limitada da época, sem mão de obra especializada e com poucos recursos, Adir e Gilberto, precisaram assumir todas as funções na fazenda, enfrentando com coragem e versatilidade os inúmeros desafios de um território ainda em formação.
Eles eram, simultaneamente e conforme a necessidade do dia, mecânicos improvisados, tratoristas incansáveis, administradores meticulosos, cozinheiros e peões de força braçal. A crônica falta de peças de reposição para o maquinário agrícola, exigia um nível de improviso e criatividade que só a necessidade extrema pode forjar. Se um trator quebrava no meio do plantio, a solução precisava ser encontrada ali mesmo, com as ferramentas e materiais disponíveis, sob pena de perder o momento ideal para o cultivo.
Apesar de todas as agruras, o trabalho incessante começou, lenta, mas firmemente, a dar resultados. A introdução e a posterior consolidação da cultura da soja na região, representaram um divisor de águas para a Fazenda Parizzi e para todo o estado do Mato Grosso.
A soja tornou-se o símbolo palpável da transformação. Gradualmente, a produção agrícola expandiu-se, a infraestrutura incipiente da propriedade começou a tomar formas mais robustas e definitivas, e o esforço monumental passou a gerar frutos econômicos concretos.
A Fazenda Parizzi, que outrora fora apenas um ponto isolado, começava a se erguer como um farol de progresso, um testemunho vivo da força da vontade humana. Adir não estava apenas cultivando a terra; ele estava cultivando um futuro, semeando com suor e calos nas mãos os valores de integridade, perseverança e trabalho.
No entanto, o destino preparava o cruzamento das trajetórias de Rone e Adir. O encontro que mudaria o rumo de suas vidas, ocorreu em setembro de 1985, na cidade de Casca. Adir havia retornado temporariamente ao Sul para prestigiar o casamento de um de seus irmãos. Em uma noite de festa no clube local, dias após a cerimônia, os caminhos do desbravador do cerrado e da jovem arquiteta, se cruzaram.
Adir e Rone, que se conheciam apenas de vista, reencontraram-se transformados pelas experiências vividas. A conexão entre eles foi imediata, marcada por admiração mútua: ele se encantou pela inteligência e firmeza dela, enquanto Rone viu em Adir um homem corajoso e visionário. Mesmo com a distância — ele em Sorriso e ela no Rio Grande do Sul —, mantiveram um relacionamento por um ano, sustentado por cartas e poucos encontros.
Casaram-se em setembro de 1986, e a decisão de Rone de se mudar para Sorriso no mesmo ano, representou um grande ato de coragem, ao deixar para trás conforto, família e carreira, para enfrentar um recomeço cheio de incertezas.
Ao chegar, Rone relata: “Ao chegar, me deparei com uma realidade extremamente precária: cidade com pouca infraestrutura, dificuldades no abastecimento de água e alimentos. Ainda assim, minha escolha refletia o amor por Adir e a crença no potencial daquela terra”.
Diante das dificuldades encontradas em Sorriso, Rone não recuou; ela iniciou sua trajetória profissional, montando seu escritório de arquitetura dentro de casa. Em um cenário simples, tornou-se uma das mais requisitadas arquitetas da cidade e, gradualmente, conquistou espaço ao atender principalmente famílias vindas do Sul, que buscavam reproduzir conforto e estética em suas novas moradias.
Os desafios eram enormes: sem tecnologia ou estrutura, os projetos eram feitos à mão e copiados artesanalmente, em processos demorados. Além disso, a falta de materiais de construção mais sofisticados, obrigava Rone a organizar viagens até Cuiabá, enfrentando estradas precárias para adquirir insumos, muitas vezes com prejuízos no transporte.
Mesmo assim, ela manteve um alto padrão de qualidade e transformou as limitações em inovação, criando soluções arquitetônicas adaptadas ao clima da região, com projetos modernos e funcionais que passaram a marcar sua atuação em Sorriso.
Inovou ao propor residências com volumetrias destacadas e formas diferenciadas, rompendo com a monotonia das construções padronizadas da época. Suas obras, notadamente as primeiras casas inteiramente brancas com jogos de volumes imponentes erguidas em terrenos amplos, causaram grande impacto visual e marcaram o início de uma nova era na arquitetura local.
Rone não estava apenas desenhando casas; ela estava introduzindo um novo padrão de moradia, provando que era possível aliar conforto, estética apurada e funcionalidade mesmo em um ambiente de fronteira agrícola.
Com o passar dos anos e a consolidação de seu trabalho e reputação, o escritório improvisado em casa tornou-se insuficiente. Rone projetou e construiu um edifício comercial próprio para abrigar a sede definitiva da ArqDesign em 1992, criando também salas adicionais para locação, demonstrando sua visão empreendedora. A demanda crescente por seus projetos permitiu a expansão da equipe, atraindo jovens arquitetos que viam em Sorriso e no escritório de Rone um terreno fértil para o desenvolvimento profissional.
A ArqDesign, consolidou-se como uma referência absoluta não apenas na cidade, mas em toda a região, pautando sua filosofia de trabalho na personalização extrema. Sem se prender a um estilo único e engessado, o escritório notabilizou-se pela capacidade de traduzir os anseios e o perfil de cada cliente em projetos que equilibravam magistralmente funcionalidade e sustentabilidade, predominantemente voltada para o moderno e o neoclássico.
Os detalhes no planejamento, o estudo de cada ângulo, a integração harmoniosa com o paisagismo e a iluminação, tornaram-se as assinaturas inconfundíveis das obras assinadas por Rone, elevando o padrão arquitetônico de Sorriso a níveis comparáveis aos de grandes centros urbanos.
Rone reflete sobre esse período: “Enquanto eu redesenhava a paisagem urbana, Adir continuava a transformar a paisagem rural com igual vigor. A Fazenda Parizzi, superada a fase crítica de sobrevivência, entrou em uma trajetória de crescimento sustentado”.
A superação das dificuldades iniciais, a aquisição de conhecimento prático sobre o solo e o clima do cerrado, e a disponibilidade gradual de melhor infraestrutura e mão de obra, permitiram a expansão das áreas cultivadas e a adoção de tecnologias agrícolas mais eficientes.
A consolidação da cultura da soja, seguida pela introdução do milho na segunda safra (safrinha), transformou a propriedade em uma unidade produtiva de alta performance, contribuindo ativamente para posicionar Sorriso como um dos principais polos de produção de grãos do Brasil.
A trajetória profissional de Adir e Rone, embora ocorresse em frentes distintas — o agronegócio e a arquitetura —, desenvolveu-se de forma intrinsecamente ligada e complementar. A parceria estabelecida no casamento estendeu-se para a vida profissional na forma de apoio mútuo incondicional, respeito pelas realizações um do outro e compartilhamento de visões estratégicas.
Adir sempre foi o maior admirador e incentivador do talento e da bravura de Rone, reconhecendo publicamente o orgulho que sentia ao ver os projetos de sua esposa se destacarem e transformarem a cidade.
Rone, por sua vez, compreendia a complexidade e a importância do trabalho de Adir no campo, oferecendo o suporte emocional e a estabilidade familiar necessários para que ele pudesse focar na expansão dos negócios agrícolas. O ápice dessa construção conjunta, o projeto mais complexo e recompensador da vida do casal, foi a formação e a consolidação de sua família.
A chegada dos filhos, representou a introdução de uma nova dinâmica, repleta de alegrias imensuráveis, mas também de desafios logísticos e emocionais consideráveis. Em 1988, nasceu o primogênito, Heron Franciosi Parizzi.
A maternidade, em um contexto onde as facilidades ainda eram escassas, exigiu de Rone um esforço de conciliação extraordinário. Sem o auxílio de funcionários domésticos nos primeiros tempos, e lidando com as limitações do município, ela dividia exaustivamente seu tempo entre os cuidados com o bebê, a administração do lar e a dedicação ininterrupta à sua prancheta de projetos.
Desde cedo, Heron compreendeu com clareza o trabalho dos pais e sempre os teve como grandes referências de vida. O pai, atuando como agropecuarista à frente das fazendas, e a mãe, como arquiteta responsável por seu próprio escritório, demonstraram ao longo dos anos valores sólidos de honestidade, responsabilidade e dedicação.
Acompanhando de perto essa trajetória, Heron pôde perceber a relevância da atuação de ambos para o desenvolvimento de Sorriso — seja pelas inúmeras obras e projetos arquitetônicos que contribuíram para o crescimento urbano da cidade, seja pelo trabalho no campo, que promoveu desenvolvimento conjunto com as famílias envolvidas e consolidou um legado pautado na humildade, parceria e compromisso.
Heron focou nas atividades rurais, seguindo os passos do pai. Sua vivência prática na fazenda desde a juventude, despertou o interesse em cursar agronomia, formando-se em 2010 pela Faculdade Arnaldo Horácio Ferreira (FAAHF), em Luís Eduardo Magalhães-BA, etapa fundamental para consolidar o caminho que já vinha sendo construído desde a infância.
Essa vivência influenciou diretamente suas escolhas profissionais. Heron também teve experiências importantes ao lado da mãe, trabalhando com ela por cerca de quatro anos como office boy, o que ampliou sua visão e contribuiu significativamente para sua formação.
Heron expressa sua admiração: “Desde cedo, percebi a importância do trabalho dos dois para Sorriso e acompanhei o crescimento deles. Tivemos desafios, como a separação da sociedade nas fazendas, mas sempre nos apoiamos e superamos. Hoje seguimos trabalhando juntos há mais de 20 anos”. O que mais o marcou foi a postura dos dois diante do trabalho: a entrega, o compromisso com prazos e a responsabilidade em sempre fazer o melhor. Mesmo diante de desafios, a família se manteve unida e superou as dificuldades.
Quase três anos depois, em 1991, a família cresceu com o nascimento da filha do meio, Naira Franciosi Parizzi.
A rotina tornou-se ainda mais intensa e exigente. Adir, focado na consolidação da fazenda, passava longos períodos no campo, enfrentando as péssimas condições das estradas de terra, o que muitas vezes o impedia de retornar diariamente para casa, limitando suas visitas à família a intervalos quinzenais.
A infância de Naira foi marcada por uma rotina equilibrada entre a presença constante da mãe e a dedicação intensa do pai ao trabalho nas fazendas. Ela relata que, prematuramente, ficou evidente o esforço que sustentava a família: de um lado, a mãe, que passava noites desenhando projetos à mão, revelando, ainda que de forma sutil, sua vocação e compromisso com a arquitetura; de outro, o pai, cuja presença era mais frequente nos finais de semana devido à rotina no campo, sendo percebido, na visão infantil, como aquele que “plantava e colhia soja”, sem que se tivesse plena dimensão da grandeza de seu trabalho.
Apesar dessa dinâmica, o ambiente familiar sempre foi marcado por tranquilidade, estabilidade e afeto, com uma rotina organizada entre escola, compromissos diários e momentos de convivência. Com o passar dos anos, essa distância foi sendo reduzida, permitindo uma presença mais constante do pai no cotidiano da família.
Naira, herdando a sensibilidade estética da mãe e a visão organizacional, graduou-se em Arquitetura e Urbanismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), em 2016. Contudo, sua trajetória profissional a direcionou para a gestão dos negócios da família. Especializando-se em agronegócio, ela assumiu a liderança da área financeira do grupo, trazendo profissionalismo e visão estratégica para a retaguarda corporativa.
Ao mesmo tempo, a cidade e o contexto em que estavam inseridos, contribuíram para uma infância rica em experiências e vínculos. Cercados por amigos e primos, em uma comunidade formada por pessoas que também estavam longe de suas origens, os laços se fortaleciam naturalmente, seja nas praças, nos clubes ou dentro de casa.
Mesmo diante das limitações da época, com menos acesso a recursos e infraestrutura, a infância foi vivida de forma leve e feliz, marcada por lembranças especiais como as viagens ao Sul para visitar familiares e, principalmente, as idas à fazenda — onde a liberdade, as brincadeiras com soja seca e a simplicidade do campo, construíram memórias afetivas profundas.
Naira descreve seus pais com admiração: “É muito difícil alguém não se agradar com a presença do meu pai. Ele veio de uma realidade muito diferente da que vivemos hoje, mas não deixa de lado a simplicidade e a alegria. Minha mãe é muito correta e cuidadosa, está sempre pensando nos outros e em como pode ajudar a sociedade da melhor forma. São perfis diferentes, que se completam, e me arrisco a dizer que são exemplos para muitos.”
Com a ausência física do marido em determinados períodos, Rone assumia o papel de âncora familiar, mantendo a estabilidade do lar, cuidando da educação dos filhos e conduzindo seu escritório de arquitetura com a mesma excelência de sempre. A saudade do Sul, do conforto da casa dos pais e do convívio com a família extensa era uma presença constante e, por vezes, dolorosa.
No entanto, a rede de amizades construída em Sorriso, revelou-se fundamental. Os amigos, também pioneiros enfrentando desafios semelhantes, tornaram-se a família substituta, oferecendo suporte mútuo, acolhimento e força para perseverar, especialmente nos momentos de maior dificuldade econômica e estrutural da região, quando muitos desistiam e retornavam às suas origens.
Quatorze anos após o nascimento de Naira, em 2002, a família completou-se com a chegada do caçula, Égon Franciosi Parizzi.
A essa altura, a realidade de Sorriso e a situação financeira da família já eram radicalmente diferentes e infinitamente mais confortáveis do que nos anos heroicos da década de 1980. A cidade havia prosperado, a infraestrutura havia melhorado significativamente e os negócios da família estavam consolidados.
Égon construiu sua trajetória também acompanhando desde cedo a rotina e o trabalho dos pais, o que influenciou diretamente na sua escolha pessoal e profissional. Atualmente, estuda Agronomia, na Faculdade Arnaldo Horácio Ferreira (FAAHF), em Luís Eduardo Magalhães-BA, representando a nova geração de gestão, planejamento e inovação tecnológica, preparando-se para integrar as ferramentas mais modernas à administração dos negócios familiares.
Suas memórias de infância são marcadas por momentos felizes na fazenda e pela convivência familiar, onde aprendeu valores como gratidão, honestidade, paciência e dedicação. Ele destaca a admiração pela capacidade dos pais de se reinventarem, descrevendo o pai como sábio, bem-humorado e resiliente, e a mãe como determinada, organizada e firme em seus objetivos. Reconhece, ainda, que ambos merecem viver com mais leveza após tantos anos de dedicação.
O caçula expressa sua gratidão: “Meu pai é brincalhão, mas muito sério quando precisa, e minha mãe é extremamente determinada e organizada. Hoje levo esses ensinamentos comigo e acredito que eles merecem aproveitar mais a vida depois de tudo que construíram”.
Em suas lembranças, destaca ensinamentos importantes recebidos dos pais, como o respeito, união e responsabilidade, e admira a forma como enfrentaram os desafios e cresceram ao longo do tempo.
Rone relembra que os valores fundamentais instruídos aos filhos permaneceram vivos e presentes em sua formação. Heron, Naira e Égon, cresceram imersos em um ambiente onde o trabalho árduo, a partilha com o próximo e a valorização do estudo eram princípios vividos no cotidiano, sempre orientados pela preparação para a continuidade do legado familiar.
O amadurecimento dos filhos e sua gradual inserção nos negócios coincidiram com um período de reestruturação e expansão significativa das atividades empresariais da família.
O ano de 2006, marcou um ponto de inflexão importante, com a profissionalização da gestão da Fazenda Parizzi e a consolidação formal do Grupo Adir Parizzi. Essa reestruturação preparou o terreno para o movimento mais audacioso do grupo desde a chegada ao Mato Grosso: a expansão das fronteiras agrícolas para além do estado.
Em 2011, demonstrando que o espírito pioneiro e a inquietude que o haviam movido na juventude, permaneciam vivos, Adir decidiu investir na aquisição e desenvolvimento de terras no estado da Bahia. Essa decisão estratégica, representou um desafio formidável, exigindo uma profunda mudança de mentalidade, a adaptação a um novo bioma, a novas dinâmicas logísticas e a reestruturação organizacional de toda a empresa para operar em múltiplas frentes geográficas.
A consolidação do sucesso empresarial e a contribuição inegável para o desenvolvimento socioeconômico da região, não passaram despercebidas pela comunidade. Em 2010, em um momento de profundo significado e emoção, Adir Parizzi, foi agraciado com o título de Cidadão Sorrisense, concedido durante uma sessão solene da Câmara Municipal de Vereadores.
A homenagem foi o reconhecimento público e oficial da trajetória de um homem que chegou a um território inóspito com pouco mais do que coragem e esperança, e que, através de décadas de trabalho incansável, ajudou a construir a cidade.
Durante a cerimônia, cercado por sua esposa, filhos, amigos e companheiros de jornada, Adir pôde olhar para trás e contemplar a magnitude da obra construída. Seu maior motivo de orgulho, no entanto, não residia na extensão de suas terras ou na prosperidade de seus negócios, mas na certeza de ter deixado para seus filhos um legado moral inabalável e uma história de superação que outrora parecia impossível.
Hoje, a família Parizzi é a personificação viva da história de sucesso de Sorriso. Eles mantêm vivas as tradições de seus antepassados italianos, valorizando a união familiar acima de tudo. O hábito de se reunirem diariamente para o almoço é mais do que uma tradição; é o momento sagrado onde os laços são fortalecidos, as visões (muitas vezes divergentes, mas sempre complementares), são debatidas e as decisões que guiam o futuro do Grupo Adir Parizzi, são forjadas em conjunto.
Adir sintetiza a filosofia familiar: “O respeito mútuo, a honestidade nas relações comerciais e o compromisso com a excelência, continuam sendo os pilares que sustentam todas as nossas ações”.
Rone, com sua paixão inabalável pela arquitetura, continua a olhar para o futuro com otimismo e visão inovadora. Ela enxerga as transformações tecnológicas, como a Inteligência Artificial, não como ameaças, mas como ferramentas poderosas, que permitirão à arquitetura atender com ainda mais precisão e agilidade aos anseios e necessidades das pessoas.
No entanto, ela mantém a convicção profunda de que a essência de um projeto bem-sucedido, reside na sensibilidade humana: na capacidade de ouvir o cliente, de captar o que não é dito explicitamente e de criar espaços que proporcionem qualidade de vida, sustentabilidade e integração harmoniosa com a natureza.
Seu conselho para as novas gerações de arquitetos, reflete sua própria jornada: aliar o conhecimento técnico dos novos materiais ao desenvolvimento de uma percepção aguçada sobre a alma de quem habitará a obra.
Adir, ao contemplar a cidade vibrante e pujante que Sorriso se tornou em seus 40 anos de história, enxerga o reflexo de sua própria vida e da vida de milhares de outros pioneiros, que compartilharam o mesmo sonho e a mesma audácia. A cidade é a prova tangível de que a prosperidade é filha legítima do trabalho árduo e da perseverança.
A mensagem que ele deixa como testamento para as atuais e futuras gerações é a síntese perfeita de sua filosofia de vida: a importância de nunca sucumbir ao desespero diante das dificuldades, de manter uma fé inabalável nos próprios propósitos e de acreditar sempre na possibilidade do sucesso.
Ele expressa sua profunda gratidão à cidade que o acolheu e lhe proporcionou a oportunidade de crescimento, e estende seu reconhecimento a todos aqueles que, recusando-se a desistir frente às inúmeras adversidades, cooperaram para erigir uma das cidades mais prósperas e dinâmicas do Brasil.
A história de Adir e Rone continua a ser escrita, agora com a força renovada da nova geração, mas sempre guiada pela mesma bússola moral que norteou os primeiros passos dados há mais de quatro décadas.
A semente plantada com sacrifício e regada com perseverança, germinou, floresceu e hoje oferece seus melhores frutos, garantindo que o nome Parizzi permaneça indissociavelmente ligado à história de sucesso, pujança e protagonismo da cidade de Sorriso.
1986
José Baggio
A melhor máquina é aquela que não para
Independente de qual seja a origem ou o tipo: ferramenta boa é a que não trava o serviço. Em uma família formada por várias peças, foi a mais nova a entender que tudo que recebe atenção, continua funcionando. Essa compreensão ditou o rito da marcha dos “cavalos de aço” que cortaram o cerrado mato-grossense e que agora são mais de 3 mil, plantando e colhendo, recebendo a atenção diária da empresa fundada por aquele cuja ambição era ter a melhor oficina.
Espaço e tempo! Esses dois fatores que acostam a humanidade desde sempre, também enredavam os primeiros agricultores que se lançaram ao Centro-Oeste brasileiro. Quase como que confinados em pequenas propriedades no Sul do país, essa gente encontrou no cerrado de Mato Grosso uma vastidão de terras. Um chão novo que podia ser permutado pelo velho, sem muita dificuldade. A questão do espaço estava resolvida. Restava o tempo.
Esse é mais difícil de negociar. Cada um tem as mesmas 24 horas no dia para fazer o que precisa. Se quiser mais, precisa contar com as horas de outro. Ou então descobrir uma forma de produzir além das próprias forças. Na agricultura, são as ferramentas. O que permitiu aos agricultores multiplicar seu tempo e aproveitar o amplo espaço das terras de Mato Grosso foram os artefatos de ferro e aço, movidos a diesel.
Há várias marcas de equipamentos agrícolas cruciais para desenvolver as lavouras em Sorriso e na região, tanto no passado como agora. Mas foram as máquinas da John Deere que acabaram se tornando um símbolo do agro forte, imparável. Há uma semelhança histórica entre como surgiram essas máquinas e como elas ocuparam Sorriso.
John Deere era um ferreiro estadunidense, filho de um alfaiate. Em 1827, se mudou para o estado de Illinois em busca de um lugar melhor. Encontrou agricultores tendo problemas com seus arados de ferro, que sofriam para cortar o solo duro das pradarias. Ele lembrou das agulhas que poliu para o pai, deixando-as mais lisas e afiadas, e assim projetou seu arado de aço autolimpante. O equipamento mudou o jogo do “espaço e tempo” naqueles campos. O primeiro foi vendido em 1838. Cerca de 15 anos depois, a empresa de Deere fabricava mais de 10 mil arados por ano. A ferramenta ficou conhecida como o “Arado que Quebrou as Planícies”. Esse foi o início da empresa que se tornaria a maior fabricante de máquinas agrícolas do mundo. Deere disse que jamais colocaria o próprio nome em um produto que não tivesse o melhor dele.
Cerca de 150 anos separam o primeiro arado de John Deere da primeira máquina agrícola verde e amarela a chegar em Sorriso. Ainda assim, a filosofia de quem fundou a fábrica é muito parecida com a de quem vende os maquinários John Deere no Norte de Mato Grosso. “A melhor máquina não é a que tem fama, é a que tem assistência. Precisa funcionar bem, sempre”.
A frase é de José Baggio, o homem à frente da revendedora John Deere em Sorriso e em outras 10 cidades no Nortão. De Nova Mutum até a divisa com o Pará, tais máquinas que operam o agronegócio recebem a atenção da empresa que leva o nome de José: a Agro Baggio. Um trabalho consistente de 40 anos que começou não com o desejo de ser a maior revenda de máquinas, mas com a ambição de ser a melhor oficina. É uma jornada em busca de manter tudo funcionando. Consertar para não deixar parar.
José Baggio nasceu em 19 de maio de 1961, no município de Itaberaba, uma pequena cidade no meio oeste de Santa Catarina. Ele é o mais novo dos 13 filhos de Victório Aurélio Baggio e Tereza Marina Rosa Baggio, descendentes de italianos que migraram do Rio Grande do Sul em busca de novas terras. A família vivia em uma pequena propriedade rural onde cultivavam milho, feijão, arroz e outras culturas. O que se colhia da terra virava moeda de troca no armazém da cidade. Além do ofício no campo, Victório também trabalhava como sapateiro.
A infância de José foi simples. Como caçula ele sempre recebeu muita atenção da família, que por sinal, era muito unida. Os Baggio gostavam de trabalhar e viver juntos. Mas aos poucos os irmãos mais velhos foram trilhando seus caminhos. José tinha apenas 4 anos de idade quando uma novidade começava a mudar o ritmo do trabalho no campo. Foi em 1965 que Balduíno Schneider e Frederico Jorge Logemann colocaram no mercado a SLC 65-A, a primeira colheitadeira autopropelida do Brasil. O nome da máquina vem da oficina montada pelos dois agricultores de Horizontina (RS), a Schneider Logemann & Cia. Ltda. A SLC 65-A era equipada com motor a gasolina Chevrolet nacional, baseada na tecnologia do modelo 55 da norte-americana John Deere. José era novo demais para saber, mas a máquina que colhia mais rápido fabricada pelos agricultores gaúchos iria mudar sua vida.
O equipamento rapidamente conquistou os produtores de grãos. Na década de 1960, o sudoeste do Paraná vivia um período de expansão agrícola, semelhante ao que Mato Grosso experimentaria anos mais tarde. Muitos gaúchos e catarinenses trocaram suas pequenas propriedades no Sul por áreas maiores no Paraná, e, com mais espaço, a máquina da SLC resolvia o desafio do tempo.
Percebendo uma oportunidade de negócio, Jacinto e Aneri Baggio — irmãos de José — partiram para uma empreitada em Pato Branco (PR). Em 1967, reuniram economias, conseguiram um sócio e abriram uma revenda de máquinas agrícolas na cidade. A loja oferecia forrageiras, trilhadeiras e motores. Pouco depois, fecharam um acordo com a SLC e se tornaram revendedores autorizados dos equipamentos da marca.
O negócio prosperou, e algum tempo depois Oscar, Abrelino e Genésio Baggio seguiram o caminho dos irmãos, mudando-se para o Paraná e abrindo uma filial em São João. Meses mais tarde, Genésio e Danilo também passaram a integrar a operação. Diante do sucesso da empreitada no novo estado, os Baggio encontraram uma forma de se reunir novamente em torno do mesmo negócio.
Em 1970 a família estava toda no Sudoeste do Paraná. José tinha 9 anos quando foi morar em Pato Branco. Lá frequentou a escola e aos poucos ia se aproximando dos negócios dos irmãos. Quando fez 15 anos de idade, em 1976, começou a trabalhar na revenda Irmãos Baggio, que agora era 100% da família. Ele era uma espécie de estafeta da empresa: fazia entregas, pegava encomendas, fazia os serviços de banco e correio. “Era um coringa. O que precisava, fazia”, conta José.
Com 18 anos, os irmãos mais velhos chamaram José para uma conversa. No tom exagerado, típico de uma boa família italiana, os irmãos diziam que a sua revenda tinha a pior oficina do Brasil. Foi dessa forma que José foi convidado para ser o gerente da oficina da empresa.
José não fazia ideia de quem era John Deere, mas chegou à mesma compreensão sobre as ferramentas do campo. O arado autolimpante de Deere fez sucesso porque não era preciso parar o trabalho para limpar a lâmina. Para José, uma oficina eficiente seria aquela que manteria as máquinas trabalhando, sem parar. É a mesma lógica em séculos e realidades distintas. Seu empenho transformou a oficina da Irmãos Baggio na melhor do país entre as revendas SLC.
A máquina símbolo de tecnologia no campo nessa época era a SLC 1000 – que com o passar dos anos passou a ser chamada de Milzinha. Era uma colheitadeira de 11 pés (aproximadamente 3,60 metros de comprimento), que ceifava cerca de 300 sacas em um dia de serviço. Era pouco se comparado com os maquinários atuais, mas muito além do que as antigas trilhadoras produziam.
À medida que os pequenos produtores do Paraná se consolidavam, mais “Milzinhas” eram adquiridas. No começo da década de 1980 as revendas Baggio negociavam cerca de 80 colheitadeiras por safra.
Os negócios iam bem, mas a inquietude da mente empreendedora sempre almeja mais. Os Baggio estavam no epicentro da propaganda da marcha para Mato Grosso. No final da década de 70 e começo dos 80, pipocavam projetos de colonização no Norte de Mato Grosso, prometendo terras sem fim, a preços baixos e sem o rigoroso inverno que castigava as produções. Além dos comerciantes de terras, agricultores locais faziam eco na propaganda, largando suas propriedades no Sul para apostar no Mato Grosso. Para finalizar, a mensagem era ressoada pelos líderes nacionais. “Me lembro dos discursos do general presidente João Batista Figueiredo. Ele incentivou os produtores a acreditar no Mato Grosso, dizendo que o estado tinha muita terra, quase de graça, mas que tinha que ter coragem e trabalho para produzir. Figueiredo já dizia que os alimentos seriam a grande necessidade do mundo naquela época. Como líder, ele fez o seu dever, se antecipando ao problema”, analisa José.
Os Baggio entenderam o chamado. Em 1983 Abrelino e Genésio decidem abrir uma empresa de máquinas agrícolas em Sorriso. Na época, a cidade tinha de 2 a 3 mil habitantes e uma agricultura que ainda engatinhava. No entanto, a SLC já tinha uma revenda local. Era a Horizonte Máquinas, que vendia os equipamentos fabricados no Rio Grande do Sul. A John Deere já havia se associado à SLC, comprando 20% da empresa. Com a parceria americana, a SLC começou a produzir em 1983 sua primeira linha de plantadeiras. Ainda nesse ano surgiu a primeira colheitadeira verde e amarela da marca, a SLC modelo 6200, que até então era pintada de vermelho.
Com a SLC já representada em Sorriso, os irmãos Baggio buscam um contrato com a Valtra, uma indústria finlandesa que chegou ao Brasil na década de 1960 com a marca Valmet. Foi com os tratores Valmet que os Baggio iniciaram seu negócio em Sorriso com uma revenda e uma oficina. Afinal, máquina boa é a que tem assistência.
José continuava sua vida em Pato Branco, trabalhando na empresa da família e mantendo a melhor oficina do país. Conseguiu montar um time de bons funcionários. Um deles, que trabalhava na loja, tinha uma bela e jovem filha, que despertou a atenção de José. Era Mari Teresinha Decker. Os dois se aproximaram, e entre conversas decidiram namorar e logo se casaram, em 1985. Ela tinha 16 anos de idade e ele 22. “Éramos dois moleques, muito jovens, começando a vida. Os pais da Mari tiveram que ir ao cartório assinar os documentos do casamento porque ela era menor de idade. Era uma época diferente. Com 16 anos um homem já trabalhava, tinha responsabilidade e se preparava para começar uma família”, comenta José.
Os Baggio estavam crescendo, prosperando e alcançando suas ambições. Até que um episódio trágico chacoalha a linha do tempo e do espaço. Era julho de 1986. Depois de uma semana de trabalho bem-feito, os irmãos Baggio que estavam em Sorriso decidem ir para Sinop jogar futebol. Era um dos poucos lazeres da época. Abrelino, Genésio, Aneri e Oscar viajaram de carro até a cidade vizinha para disputar um torneio de várzea em um sábado à tarde. Na volta, já à noite, o veículo passou rápido demais por um quebra-molas na saída de Sinop, decolou e capotou. Abrelino e Genésio foram arremessados para fora do carro e morreram no local. Aneri e Oscar ficaram gravemente feridos e passaram semanas sob cuidados médicos.
“O acidente mudou para sempre a visão da família. Foi um impacto enorme. Minha mãe chorou a perda dos filhos pelo resto da vida. Éramos muito unidos. Crescemos juntos e sempre nos apoiamos. Foi uma tragédia difícil de superar”, relembra José, ainda emocionado ao narrar o episódio.
Com a morte dos irmãos, o caçula da família Baggio assumiu a responsabilidade de conduzir os negócios em Sorriso. A perda repentina dos sócios desencadeou um período de crise. José descreve essa fase como a mais difícil de sua vida e da história da empresa.
“Quando os diretores de uma empresa morrem, toda a parte fiscal desmorona. Foram meses lidando com Cartório, debatendo e recorrendo à Valmet, tratando dos negócios em aberto — tanto o que havia para pagar quanto o que tínhamos para receber. Foi um período extremamente desafiador”, relata José.
No contrato que os irmãos Baggio firmaram havia uma cláusula de que a empresa seria automaticamente desfeita em caso de morte de um dos sócios. Então, toda a operação que os Baggio fizeram em Sorriso entre 1983 e 1986 teve que ser encerrada. Coube a José enterrar o CNPJ dos irmãos e abrir uma nova empresa para tentar preservar pelo menos o legado da clientela conquistada. E foi assim que surgiu a Agro Baggio.
Enquanto encerrava a empresa antiga e constituía uma nova, José tentava negociar um novo contrato com a Valmet, para ser o revendedor da marca em Sorriso. Acordo que levou um certo tempo. Para não deixar os negócios morrerem, José comprava tratores no Paraná e revendia em Sorriso. “Deus e muita persistência. Foi assim que consegui”, explica José.
Em 1986, além do tumulto causado pela perda dos irmãos, pesavam também as questões familiares. Sorriso estava em processo de emancipação e, como muitas localidades de Mato Grosso, dispunha de muito menos que o básico. Não havia energia elétrica, água encanada ou ruas asfaltadas. A infraestrutura era limitada, assim como os serviços disponíveis.
Em Pato Branco, José e Mari levavam uma vida financeiramente estável, em uma cidade estruturada e com ampla oferta de recursos ao redor. Mudar-se para Sorriso significava abrir mão de tudo isso.
No começo, o casal ficou com um pé em cada estado, passando alguns dias em Sorriso para resolver os problemas da empresa e voltando para Pato Branco. Mas essas viagens eram desgastantes e José percebeu que jamais conseguiria fazer o negócio de Sorriso prosperar se não entregasse toda sua atenção. “Depois de um tempo eu disse para Mari: ‘precisamos ficar em definitivo em Sorriso; você pode trazer sua família e o que mais quiser, mas nós vamos ficar’. Ela entendeu e aceitou”, relembra José.
No campo, as máquinas que reinavam em 1986 na cidade de Sorriso eram os tratores CBT, Valmet e Ford… todos “queixo-duro”. A maioria dos produtores plantava arroz e a soja estava engatinhando. Segundo José, com sorte colhiam 30 sacas por hectare. “Ainda bem que veio a Embrapa e com pesquisa trouxe a tecnologia. Hoje estamos chegando a 80 sacas por hectare”, pondera.
Com 25 anos de idade, o jovem Baggio já sabia qual era a meta para o negócio que manteria em Sorriso. Ele queria ter a melhor oficina de máquinas agrícolas do Brasil em Mato Grosso. É aquela mesma máxima da “máquina boa é a que tem assistência”. Mas não era fácil atrair e manter bons mecânicos no recém-aberto cerrado. José conta que os profissionais vinham atraídos pelo salário e pelo volume de trabalho, mas meses depois suas esposas iam embora. Pesava a distância da família, a dificuldade em se comunicar com as pessoas e a vida limitada de uma cidade em formação. As esposas partiam e os mecânicos iam atrás. A oficina tinha uma alta rotatividade de funcionários, algo negativo para qualquer empresário. A saída foi “fabricar” novos mecânicos.
José passou a investir na formação de mão de obra local. Ele precisava montar seu time. Recrutou e ofereceu treinamento profissional para a nova equipe e assim foi alcançando melhores resultados. José diz que tem uma espécie de “mantra” que resume bem a forma como conduz seu trabalho e seus negócios. A frase é “Pé De Uva”, um acróstico das palavras Persistência, Determinação, Humildade e Valorização do ser humano. “É o que busco aplicar na minha vida e na nossa empresa”, revela José.
A fórmula italiana funcionou. Quatro anos depois de assumir a unidade de Sorriso, o negócio estava reestruturado. A Valtra era a líder local em vendas de equipamentos agrícolas na cidade. No ano de 1989 José consegue pegar a representação da SLC em Sorriso, voltando a negociar a marca. Segundo ele, nessa época a revenda local negociava cerca de 10 máquinas por ano. No primeiro ano da SLC dentro da Agro Baggio foram vendidas 100 colheitadeiras.
A assistência técnica era o principal cartão de visita da empresa de José. Além disso, muitos produtores do Paraná migraram para Mato Grosso e encontraram na antiga Agro Baggio — agora operando sob a marca SLC — o apoio que precisavam para tocar suas lavouras. À medida que o agronegócio fincava raízes no cerrado, a Agro Baggio acompanhava esse movimento, ganhando força e vitalidade.
Até a vida pessoal floresceu nesse período. Em 1988 nasceu Diandra, a primeira filha de José e Mari. Em 1993 veio Anderson, o segundo filho — ambos sorrisienses de nascimento.
Tudo estava dando certo, até o país dar um cavalo-de-pau na sua política monetária. Entre os anos de 1993 e 1994 o Brasil iniciou o Real, um plano econômico que prometia dar estabilidade à moeda nacional. Mas a transição foi especialmente cruel para quem operava negócios referenciados em Dólar. Era o caso da Agro Baggio. “O momento de transição para o governo Fernando Henrique Cardoso foi o pior para todas as empresas do Brasil. Desbancou a economia”, lembra José.
Em junho de 1994, 1 Dólar valia 2.230 Cruzeiros Reais. Esse era o referencial de negócio. No mês seguinte, com o novo Plano Econômico em vigor, um Dólar passou a valer 0,85 Real. Segundo José, na conversão de um número milhar para um em centavos, o preço da soja e outras commodities agrícolas caiu junto. “Eram 100 concessionárias SLC-John Deere no Brasil naquele momento. Apenas 9 sobreviveram à crise. Financeiramente a Agro Baggio estava quebrada. Passou um mês inteiro onde não entrava nenhum cliente na loja, nem para comprar, nem para pagar o que devia. Foi a única vez que senti um remorso e cogitei largar tudo e voltar. Mas voltar para onde? Para fazer o que?”, revela José.
Não havia mais para onde voltar. José e Mari já estavam integrados a Sorriso, e o caminho mais sensato era salvar o negócio da família na jovem cidade — custasse o que custasse. Para isso, José negociou uma área de terra que havia comprado e vendeu sua BMW, um carro ao qual era especialmente apegado. Com o que conseguiu reunir, foi até a fábrica para uma conversa franca.
De maneira direta e transparente, entregou tudo o que tinha e pediu dois anos para regularizar as contas. “Muitos donos de revenda deixaram a crise estourar na fábrica. Não honraram suas dívidas. Eu fui honesto, assumi a bronca e pedi tempo para pagar. Eles me liberaram um crédito, e assim conseguimos manter o negócio funcionando”, relata José.
No ano seguinte, em 1995, o Governo Federal implantou um plano de securitização para socorrer o setor agrícola, que estava atolado em dívidas, principalmente com o Banco do Brasil, que registrava um alto índice de inadimplência. O plano permitiu que os produtores rurais renegociassem suas dívidas, transformando-as em títulos negociáveis no mercado financeiro, o que aliviou a pressão sobre os bancos e possibilitou a continuidade dos financiamentos rurais. A ajuda federal manteve o agro rodando, e com isso a Agro Baggio começava a se recuperar.
Outro ponto favorável foi a chegada da linha de tratores SLC-John Deere. Em 1996, a John Deere aumenta em 40% a sua participação na SLC e com isso acrescenta sua linha de tratores nas concessionárias do Brasil. Era um produto a mais na prateleira da Agro Baggio.
Segundo José, foram necessários mais 4 anos de trabalho para sanar os problemas e dívidas que surgiram na conversão do Plano Real. A boa fase na família Baggio é marcada pelo nascimento de Jonathan José, o terceiro e último filho do casal, nascido em Sorriso em 1998. Para José, as pessoas acabam suportando as crises e se mantendo firmes para superar, porque desistir também não é algo fácil. “Ninguém tem coragem de dizer ‘eu vou parar’. Uma pessoa que planta 3, 4 ou 5 mil hectares não vai deixar de plantar porque o preço não é bom, porque o governo é ruim ou porque talvez o clima não ajude. Ele vai continuar plantando, arriscando, porque não fazer também é difícil para o produtor”, avalia.
E essa persistência fez o agro avançar sobre o cerrado. No final da década de 90, a agricultura no Médio Norte de Mato Grosso iniciava sua era de ouro. Variedades cada vez mais ajustadas às condições de clima e solo da região resultavam em aumento da produtividade a cada safra. Anos de pesquisa promovida pela Embrapa, Empaer e outras instituições do gênero criaram um sólido modelo de produção agrícola a ser seguido. A iniciativa privada veio na esteira, promovendo sua própria pesquisa e lançando seus produtos. As máquinas agrícolas na Agro Baggio foram ficando cada vez maiores e mais potentes. Todos os avanços registrados já permitiam a realização de duas safras por ano. Na virada do milênio a agricultura em Sorriso parecia cada vez menos coisa de colono e cada vez mais indústria do campo.
Na bandeira com a qual José trabalhava, importantes avanços ocorriam naquele período. Em 1999, a John Deere assumiu o controle total do capital da SLC, e a revenda de Sorriso incorporou o nome da fabricante norte-americana, passando a se chamar Agro Baggio John Deere. Foi então que José iniciou a expansão regional dos negócios, abrindo filiais em outros municípios.
Nos anos seguintes, foram inauguradas dez unidades da Agro Baggio, hoje presentes em Sinop, Lucas do Rio Verde, Nova Mutum, Marcelândia, Matupá, Alta Floresta, Tabaporã, Tapurah, Feliz Natal e Boa Esperança do Norte — esta última, recentemente emancipada de Sorriso e Nova Ubiratã. “Quando conseguimos formar uma equipe de colaboradores altamente treinada, senti que a Agro Baggio era uma empresa sólida e que estávamos prontos para crescer”, explica José.
A John Deere ganha muita relevância no cenário do agronegócio no início dos anos 2000. Em 2001, a fabricante incorpora sua marca mundial no Brasil. Já em 2005, lança a pedra fundamental de sua nova fábrica de tratores, em Montenegro (RS). Embora o agronegócio tenha passado um período de turbulência entre 2005 e 2006, o negócio da família Baggio se manteve firme. Nessa época, José empreende em um novo setor, fundando a Agropecuária J.E.B, uma empresa que atua no ramo imobiliário, negociando largas áreas de terra.
A John Deere também foi ampliando seu leque. No ano de 2014 iniciou a operação de uma fábrica de equipamentos de construção, a chamava “linha amarela”, em Indaiatuba, interior de São Paulo. Três anos depois comprou a Wirtgen Group, líder mundial nesse segmento.
Atualmente, a Agro Baggio atende produtores desde Nova Mutum até a divisa com o Pará. A empresa conta com 870 colaboradores distribuídos em suas 11 unidades. Segundo José, mais de 60% da equipe atua no pós-venda — profissionais responsáveis pela assistência técnica, sustentando o lema que sempre guiou sua trajetória: “a melhor máquina é a que não para”.
Em 2025, essa equipe monitora, minuto a minuto, mais de 3 mil máquinas agrícolas em operação no Norte de Mato Grosso — praticamente uma indústria a céu aberto, mantida pela estrutura construída por José.
Com esse trabalho a Agro Baggio consegue detectar e resolver os problemas das máquinas e equipamentos antes que elas precisem parar. “Sempre persistimos para acertar a máquina. Acredito que essa tenha sido a contribuição que demos para o agronegócio de Sorriso. Não esperamos que a garantia de uma máquina seja aprovada para então fazer o reparo. Trocamos a peça primeiro e depois discutimos com a fabricante se a garantia cobre ou não. O mais importante é manter o equipamento funcionando, trabalhando”, explica José.
O resultado do empenho tornou a Agro Baggio uma das mais importantes concessionárias da John Deere no mundo. A empresa de José é a concessionária da marca com maior volume de venda na América Latina. Desde o ano de 1993 até o presente momento, a Agro Baggio ganhou em todos os anos o Prêmio Classe Mundial, implantado pela John Deere como forma de avaliar a excelência em atendimento, vendas, pós-vendas e alinhamento com os padrões globais da marca de cada concessionária. A Agro Baggio nunca ficou fora da premiação. E foi além. A revenda de Sorriso e região tem 10 títulos “Leaders Club John Deere”, honraria concedida a um seleto grupo de 10% das concessionárias John Deere avaliadas como as melhores em desempenho e volume de vendas. É o topo do topo dentro da marca. Como atingir esse nível?
“É só fazer as coisas certas”, responde José.
Ao longo desses 40 anos, José assistiu do lado de dentro a transformação de uma região inabitada e inóspita no maior celeiro de grãos do planeta. Um fenômeno que fez Sorriso crescer a uma taxa de 20% ao ano, rebocada pelo agronegócio. Para além de fornecer e manter as máquinas operando, José também deu sua colaboração na formação da sociedade local. Por anos ele atuou junto a diretoria da igreja católica local, sendo parceiro em reformas e melhorias da paróquia. Apesar do trauma familiar, não se afastou do futebol. O empresário sempre foi ativo junto a diretoria do Sorriso Esporte Clube, sendo o principal patrocinador do time de futebol local durante 6 anos. “As pessoas no Sul e no Sudeste do Brasil estavam sufocadas. Elas encontraram em Sorriso uma oportunidade de fazer diferente, um lugar com mais chance de crescer e prosperar. Foi esse sentimento que fez a diferença, além de muito trabalho. Eu acredito que dentro de 5 ou 10 anos Sorriso passe a marca de 250 mil habitantes e continue sendo importante no cenário nacional. Eu vejo um futuro grandioso para Sorriso. Basta acreditar”, comenta José.
Vendo a revolução que o agro materializou nessa região, o empresário relembra a antiga profecia do presidente militar João Batista Figueiredo, que dizia que os alimentos seriam a grande carência da humanidade. Hoje, com um planeta com 8 bilhões de pessoas, o avanço tecnológico da produção agrícola não é apenas uma questão mercadológica, mas sim humanitária. E para José, continuará sendo. Ele cita uma frase dita por Paulo Herrmann, ex-CEO da John Deere Brasil: “Todo dia nos hospitais nasce uma pessoa com boca. Isso define tudo e nós estamos no melhor lugar do mundo para produzir, que é o Brasil e dentro do Brasil estamos no melhor lugar, onde dá 3 safras por ano, onde não falta chuva nem sol, onde a terra é farta. Não há outro lugar no mundo assim”, finaliza José.
Basta apenas o “Pé de Uva” e não deixar a máquina parar.
