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1980
Carlos Gilberto Frison
Onde havia quase nada, ele fez nascer o cuidado
A trajetória de Carlos Gilberto Frison, que enxergou futuro onde só existia começo
Esta é a história de um homem que dedicou a vida a cuidar de outras pessoas, muitas vezes de quem sequer conhecia. Em uma Volkswagen Brasília vermelha, movida a gás, ele percorreu o recém-traçado da BR-163, em Mato Grosso, e se encantou com tudo o que encontrou ao longo do caminho.
Munido apenas de um aparelho para aferir a pressão arterial e um estetoscópio, ousou sonhar grande: fundar um hospital em uma vila com poucas casas e quase nenhum recurso. Com entusiasmo e disposição, fez um esforço e percebeu que ali era o seu lugar no mundo.
Sua determinação deu origem ao Hospital e Maternidade Nossa Senhora de Fátima, criado antes mesmo de Sorriso surgir oficialmente no atlas brasileiro como município. Carlos Gilberto Frison nasceu em Joaçaba, em 5 de outubro de 1953, filho dos agricultores Vicente Frison e Almira Colombo Frison.
Entre suas lembranças de infância, destacam-se as cenas em que ele, ainda pequeno, ajudava os pais no cultivo da terra, trabalho essencial para a subsistência da família. Quando Carlos tinha pouco mais de um ano, Vicente e Almira decidiram mudar-se para Salto do Lontra, no Paraná, onde a família continuou dedicada à lavoura. Naquele período, o distrito ainda pertencia a Francisco Beltrão. Foi para lá que, aos oito anos, Carlos foi enviado para morar com a avó materna, já que na pequena comunidade onde viviam não havia escola.
A estadia com a nona marcou sua memória. Ele recorda o cheiro da comida preparada com carinho, o olhar cuidadoso e o afeto constante que ela lhe oferecia enquanto o ajudava a dar os primeiros passos na alfabetização. Em Francisco Beltrão, Carlos viveu até os 15 anos. Para dar continuidade aos estudos, a família decidiu enviá-lo para Curitiba, onde ele cursou o antigo 2.º grau, atual ensino médio. A escola oferecia três áreas de formação: Ciências Biológicas, Ciências Exatas e Ciências Sociais.
Foi em Ciências Biológicas que Carlos encontrou sua verdadeira vocação. Ele se identificou imediatamente com o ambiente dos laboratórios e, a partir daí, percebeu que sua trajetória estaria ligada ao cuidado com a saúde humana. Em 1974, com 20 anos de idade, foi aprovado no curso de Medicina da Faculdade Federal do Paraná. Tudo corria bem para Vicente e Almira. O filho seria médico. E Vicente queria expandir os negócios. Na época, atraído pela política nacional de desenvolvimento e ocupação do Centro Oeste brasileiro, Vicente visitou o Mato Grosso. Adquiriu terras na região que anos mais tarde viria a ser o distrito de Primavera no município de Sorriso. “Na época, a terra era tão barata no Mato Grosso que ele nem precisou vender nada no Paraná”, lembra o filho.
Por dois anos, Vicente manteve propriedades nos dois estados. Em 1977, já convencido do desenvolvimento da região, vendeu a área no Paraná e voltou a investir na região de Sorriso. Com isso, em 1977 a família mudou-se para Cuiabá, enquanto Carlos permaneceu em Curitiba para continuar os estudos. Um ano antes, em 1976, ele havia se casado com Eliane de Fátima Wellner, acadêmica de Jornalismo.
Impulsionado pela curiosidade, em 1978 Carlos visitou os pais. Gostou de Cuiabá. E na chegada teve outra ideia: analisou no mapa o traçado da BR-163 que há pouco fora aberta e fez uma excursão que seguiu de Barra do Garças até Alta Floresta. Sozinho, percorreu toda a região e gostou do que viu. “Naquele ano passei por Sorriso e não tinha nada, creio que umas quatro casas apenas e um restaurante que funcionava em uma delas. Era uma mata fechada rasgada por uma estrada de terra, o traçado da Br 163”, relembra.
Carlos retornou a Curitiba, concluiu o curso em 1979 e colou grau no início de 1980. Eliane também havia acabado de se formar em Jornalismo. Convencida pelo marido, despediu-se da capital paranaense e embarcou rumo ao desconhecido. Toda a mudança do jovem casal coube em um Volkswagen Brasília vermelha, movida a gás. Já em Cuiabá, na casa dos pais de Carlos, eles finalizaram os planos para uma nova viagem: fariam o mesmo trajeto percorrido por ele dois anos antes, em busca do lugar onde iriam fixar residência. Na mesma Brasília, iniciaram a excursão. Carlos reviu as paisagens de um passado recente, afinal, eram apenas dois anos que separavam as duas expedições e conferiu de perto o quanto cada local havia avançado. Diante de seus olhos um novo cenário se descortinava. Na viagem de volta o casal parou no Posto Sorrisão – único posto de combustível do então Distrito de Nobres.
Ali conversa vai, conversa vem, comentou com um dos sócios do posto, Valdir de Mori, que era médico recém-formado e excursionava pela região com a esposa para decidir onde trabalhar. Valdir decretou: “então seu lugar é aqui!”. Carlos duvidou. “Mas aqui não tem nada”, foi a sua resposta. Contudo, Valdir estava decidido e levou o casal para conhecer a vila que começava a tomar forma. Carlos se surpreendeu ao encontrar mais de cem casas de madeira alinhadas. “Foi um susto. Em dois anos, o cenário havia mudado completamente. Ainda segui incrédulo, mas Valdir me levou para conversar com o Guinter, e ambos me convenceram da necessidade de um hospital e do potencial de crescimento da região”, relata. O Guinter mencionado era sobrinho de Claudino e Alberto Francio, dois dos sócios da Colonizadora Sorriso. Foi ele quem agilizou, em Cuiabá, para que os tios e os demais sócios recebessem o médico.
Já na primeira conversa com Claudino e Alberto, Carlos recebeu como proposta a doação de uma área para a construção do hospital. No total eram 24 lotes de 800 metros² cada. A Colonizadora Sorriso também fez um financiamento para que o jovem médico adquirisse os equipamentos necessários à instalação. Com a brasília novamente na estrada, Carlos e Eliane se mudaram para Sorriso. Na mala, o médico trazia todo seu equipamento: um aparelho para verificar a pressão arterial e um estetoscópio. A primeira sede do Hospital e Maternidade Nossa Senhora de Fátima, construída em 1980, foi totalmente feita em madeira e erguida com base no escambo. “Havia uma madeireira adiante de onde hoje fica a Havan, e o gerente, Paulinho, foi quem procurei para comprar a madeira”, conta o médico.
No entanto, Paulinho apresentou uma contraproposta: forneceria toda a madeira necessária para o hospital e para a casa do médico em troca de serviços clínicos. A madeireira tinha cerca de 80 funcionários, muitos deles com famílias e crianças pequenas. Com um valor estipulado para os atendimentos, o acordo foi firmado — e assim o hospital começou a ganhar forma.
O Hospital Fátima iniciou suas atividades em uma área de 150 m², com um consultório médico, um quarto, uma sala para partos e pronto atendimento, além de um pequeno laboratório onde atuava a bioquímica doutora Cida.
Ela permaneceu no local por apenas seis meses, mudando-se depois para Peixoto de Azevedo ao se casar com um médico amigo de Carlos.
Completavam a equipe a esposa de Carlos, Eliane, que o auxiliava no que fosse necessário, cuidava do setor financeiro e ainda administrava uma pequena farmácia; e a tia de Carlos, irmã Jacinta, freira com mais de 30 anos de experiência em hospitais de Santa Catarina, que pediu licença à congregação para ajudar o sobrinho.
A farmácia do hospital, inclusive, surgiu da própria necessidade do trabalho diário.
Carlos prescrevia as receitas e não tinha onde a população comprar.
Voltou à Curitiba e estabeleceu contatos com distribuidoras farmacêuticas para o envio de medicamentos ao Mato Grosso. “Assim abrimos a farmácia com um pouco do que era essencial na época”, conta.
A necessidade também fez com que em seis meses o hospital tivesse que ser ampliado para quatro quartos. Também foi construída uma sala cirúrgica onde eram realizadas cirurgias de pequena e média complexidade, como cesarianas, apendicectomias e correções de hérnias.
Essa ampliação já foi feita totalmente em alvenaria. Todo o funcionamento dependia de um gerador — e era o próprio médico quem acionava a manivela para colocá-lo em operação.
Como Carlos e Eliane moravam nos fundos do hospital, era comum que fossem chamados durante a noite. Partos, picadas de cobras e outros animais peçonhentos, além de acidentes com maquinário agrícola e em madeireiras, faziam parte da rotina. Muitos partos aconteciam nesse horário.
“Nessas horas, eu já passava e acionava a manivela do gerador para garantir a iluminação”, relata.
Porém, algumas vezes nada funcionava. Dois partos ficaram na memória do médico: foram feitos à luz de lanterna. Já no primeiro ano de funcionamento, o Fátima contabilizou 320 pacientes atendidos e 21 partos realizados.
Carlos conta que de 1980 a 1990 atuou realizando partos, até outros médicos mudarem para a cidade. Nesse período, estima que realizou mais de 500 partos naturais, fora as cesáreas.
Em 1982, um parto em especial, realizado em Cuiabá, o marcou profundamente: o único filho, Diogo Frison, chegava ao mundo. O pai estava lá, acompanhando tudo. Nascia ali o cuidado, o olhar paternal e o laço entre os dois.
Daquele ano, um acidente envolvendo um ônibus na BR-163, entre Sorriso e Lucas do Rio Verde, também deixou marcas na vida profissional de Carlos. “Naquela época, os ônibus viajavam lotados, sempre com mais de 80 passageiros”, lembra. O veículo saiu da pista e capotou, e mais de 60 pessoas, com dores e escoriações, foram levadas ao Hospital Fátima. Era noite, e foi necessário acionar o gerador e a vizinhança. Carlos orientava o atendimento enquanto Eliane, irmã Jacinta e moradores da comunidade executavam as ações de socorro, todos unidos para atender a grande demanda. “Era muita gente precisando limpar escoriações e fazer alguns pontos, então acordamos os vizinhos. A cidade inteira nos ajudou. Enquanto as pessoas auxiliavam na limpeza das feridas, eu finalizava com os pontos e prescrevia a medicação para dor. Com poucos recursos e pouca equipe para atender tantos pacientes, foi um momento desafiador. Eles não estavam gravemente feridos, mas havia muita gente precisando de atenção” recorda.
Em pouco tempo a vila cresceu. Carlos não dava mais conta de atender a todos os chamados. Contatou um antigo colega da faculdade, o médico Wilson Soares e o convidou para atuar em Sorriso.
Wilson veio acompanhado da esposa. Wilson ficou em Sorriso cerca de seis anos e decidiu voltar para Curitiba para fazer especialização em anestesia.
Antes de partir, trouxe outro amigo, o médico Edmar Washington Oliveira Telles, também formado na Universidade Federal do Paraná. “Formou dois anos antes do que eu, não o conhecia, mas de imediato ele chegou e nos tornamos amigos e sócios”, pontua Carlos.
“Não foi fácil montar um hospital com poucos recursos”, diz. A força de vontade, o trabalho e a união marcaram o início do hospital. E a fé.
Dona Almira, mãe de Carlos, era devota de Nossa Senhora de Fátima, ela doou todo o material para uma capela que foi erguida sob as orientações de irmã Jacinta, também devota da santa.
“Com certeza a fé auxiliou a todos nós”, reflete o médico ao constatar que é nos corredores de um hospital que os murmúrios, o silêncio, a contemplação e os pedidos de cura se fazem ouvir com maior urgência.
Ele recorda um episódio em que a fé, aliada à medicina, foi decisiva. Na região havia a Fazenda Bradesco, localizada adiante de Nova Ubiratã, com mais de 200 funcionários. O capataz, Carlão, era responsável por levar os trabalhadores a Sorriso quando precisavam de atendimento.
No final de uma tarde, já no lusco-fusco, Carlão procurou o médico Carlos em sua casa. Na carroceria da caminhonete, trazia um peão esfaqueado no abdômen, que havia perdido muito sangue.
O doutor fez o atendimento emergencial e acionou o seu banco de sangue ambulante – formado por moradores que aceitavam doar, caso fossem do tipo sanguíneo compatível.
“Prestei o atendimento emergencial, administrei sangue, dei morfina e disse: ‘Vá para Sinop, aqui não temos mais recursos’”, lembra o médico. A orientação era que Carlão seguisse imediatamente.
Na manhã seguinte, enquanto subia a Avenida Brescansin, nas proximidades do Hotel São Miguel, do senhor Auti De Bona, o doutor Carlos avistou o capataz. Ele gritou: “Carlão, você levou o homem?”. A resposta veio de imediato: “Tá louco, doutor? Eu não ando nessa estrada cheia de buraco, mato e bicho à noite, não”. Preocupado, o médico voltou para verificar e encontrou o paciente ainda deitado na carroceria da caminhonete. Ele foi imediatamente encaminhado para Sinop, onde passou por cirurgia e permaneceu internado por 40 dias. Depois de recuperado, retornou para agradecer e visitar o médico. Conforme crescia a cidade, a estrutura do hospital aumentava. E novos colaboradores precisaram ser contratados. Uma delas foi Marlene Binsfeld, técnica de enfermagem.
“Está conosco há mais de 30 anos”, detalha. Mas não foi só a necessidade de ampliação ou de novos profissionais que marcou o início do atendimento.
Criado no Sul, Carlos nunca havia se deparado com doenças tropicais, como a malária. Quando a febre do ouro tomou a região com muitos moradores locais seguindo para o garimpo, a malária também chegou à Sorriso. Doutor Carlos foi para Alta Floresta durante uma semana.
Fez um intensivo com os colegas de lá para tratar a enfermidade. Cloroquina e quinino passaram a figurar em suas receitas.
“Nessa época diagnosticava um caso de malária atrás do outro. O hospital lotou. Chegamos a atender 100 pessoas em um único dia. E junto disso havia os acidentes nas madeireiras na época de estiagem”, destaca.
A vila abrigava muitas madeireiras que usavam o fogo para queimar restos de serragem. Contudo, o fogo nunca era apagado por completo. Com novas camadas de serragem jogadas diariamente, era natural que o fogo reanimasse e, consequência direta, ocorriam muitos ferimentos com queimaduras.
“Chegavam crianças e funcionários com queimaduras até o joelho”, lembra.
Além do cuidado com a população, Carlos atuava em todas as frentes na comunidade. Integrou a comissão pró-emancipação de Sorriso e, já se sentindo sorrisiense no coração, em 13 de maio de 1986, comemorou a emancipação. “Foi um marco importante para todos nós. Juntos lutávamos pela vinda do telefone fixo, do linhão de energia. Parecem coisas tão básicas hoje na época do telefone celular. Mas, no passado ter um telefone fixo fez toda a diferença no hospital.
Já os benefícios da energia elétrica no ambiente hospitalar são imensuráveis”, diz. “Eu nunca vim para cá enganado. Vim sabendo das dificuldades e dos desafios que teria ao abrir um hospital no meio do mato em um local sem energia e telefone. “Vim determinado a fazer tudo dar certo. E, a cada dia, eu me sentia mais parte daquele lugar, percebendo que ali era o meu lar. Meu filho crescia solto pela cidade, vivendo uma infância livre e feliz”, acrescenta. Agora como sócios, Carlos e Edmar continuaram ampliando o hospital e substituindo todas as estruturas de madeira por construções em alvenaria.
Em 1999, após 23 anos de casamento, Carlos e Eliane se separaram. Ela retornou a Curitiba, levando consigo o filho Diogo, que posteriormente cursou Agronomia na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Curitiba. Após concluir a graduação, Diogo voltou para o Mato Grosso. Algum tempo depois, já vivendo sozinho, Carlos iniciou um novo relacionamento e se casou com a enfermeira Anusia Cordeiro, também migrante interna, vinda do Maranhão.
Com Anusia, viveu mais 23 anos, até que o relacionamento também terminou. Ela optou por permanecer em Sorriso. “Hoje me dedico aos pacientes, ao meu filho e aos meus netos”, afirma Carlos. Ele lembra que, ao longo dos anos, o cenário da saúde mudou completamente. No início, lidava principalmente com doenças sazonais, queimaduras provocadas pelos fogos das madeireiras e muitos casos de acidentes com picadas de cobra. “Era uma população jovem; aqui não se atendia pacientes com problemas cardíacos como era comum no Sul”, explica.
Segundo ele, esse quadro se transformou. “Hoje a população envelheceu, e enfrentamos as mesmas doenças associadas ao avanço da idade que afetam outras regiões do Brasil”, reflete. O médico destaca que testemunhou — e carregou nas próprias mãos — a história da cidade.
“Muitas das meninas que ajudei a nascer quando cheguei aqui voltaram anos depois, já adultas, para que eu as acompanhasse em suas gestações. Fiz o parto de muitas delas, ajudando a trazer seus filhos ao mundo”, relata. Do início, permanecem as lembranças da determinação que guiava cada passo e cada detalhe.
Em 2018, Carlos e Edmar se afastaram da direção do Fátima. Passaram a atuar somente nos consultórios. Alugaram o hospital para o também médico Washington Oliveira Telles II, filho de Edmar.
Washington e a esposa Janaína Morais Telles implantaram um novo modelo de gestão do Hospital que saiu de uma organização privada para uma gestão social, através de uma Organização Social de Terceiro Setor.
Em 2013, foi criado o Instituto de Gestão Hospitalar e Assistência à Saúde do Estado de Mato Grosso (IGHASMAT).
A missão do casal passou a ser dar continuidade à gestão plena do Hospital e Maternidade Nossa Senhora de Fátima e implementar diversos programas e projetos de atendimento social voltados à área da saúde.
Doutor Carlos conta que seu antigo gerador movido a manivela foi aposentado. Hoje um grande gerador automático – sem a necessidade de ser acionado, toca o hospital diante de qualquer emergência como quedas de energia. Consultórios, equipamentos, tudo mudou.
Uma grande ampliação também está em andamento no Hospital Fátima.
A estrutura atual, com mais de três mil metros quadrados, ganhará outros tantos que já estão em construção.
O novo espaço contará com UTI adulta e infantil, nova sede administrativa, cozinha, refeitório e lanchonete. Toda a obra está sendo realizada com recursos próprios, e a previsão é de conclusão em 2027.
“É uma obra grande, o hospital vai dobrar de tamanho”, destaca o fundador. Quando finalizado, o complexo deverá ultrapassar sete mil metros quadrados dedicados ao atendimento da população.
“Não penso em parar de trabalhar. O consultório é a minha segunda casa, mas hoje também aproveito mais o tempo com meus netos”, diz ele, sorrindo ao falar de Vicente — que recebeu o nome do bisavô — e da pequena Maria Carolina, de apenas quatro meses. Ambos são filhos de Diogo, que vive em Sorriso e é o responsável por administrar as terras da família.
Ele é o presidente da Cooperativa Agrícola de Primavera (COAP), que fundou em 2021 com o apoio do pai e de outros produtores de Primavera.
“Sou filho de agricultores, vejo a ligação com a terra um caminho natural”, confessa. Já da área inicial, adquirida por seu Vicente e dona Almira, aquela localizada no Distrito de Primavera, hoje brota a própria comunidade.
“As terras eram exatamente no local onde hoje é a sede do Distrito”, comenta Carlos. Na área central, dos 24 lotes de 800 metros² que recebeu da Colonizadora Sorriso na década de 80, o médico frisa que 10 mil metros² integram a área do hospital.
Os demais terrenos, ele próprio fez questão de doar para que outros médicos se instalassem na cidade. “Era uma forma de incentivar novos profissionais a virem, acreditarem em Sorriso, construírem família e criarem raízes aqui. Peguei amor por essa terra”, comenta, bem-humorado. E a cidade retribuiu esse carinho. Afinal, foi o homem que ousou acreditar e se tornou o primeiro médico a atuar no município. No fim, um aparelho de pressão e um estetoscópio foram suficientes para lançar as bases do Hospital e Maternidade Nossa Senhora de Fátima.“Sorriso celebrou a minha chegada, e eu celebro as oportunidades com que a vida me presenteou neste chão”, finaliza o primeiro médico sorrisiense.
1980
Família Dalsoquio
Da estrada ao sonho de empreender
Onde o barulho dos motores encontrou propósito e deu origem a uma história de raízes profundas e horizontes amplos.
A história dos Dalsoquio é marcada pela superação. Trabalho árduo e vontade de vencer. O pioneirismo de Antônio e Julita levou à construção de uma família unida e deu início a uma empresa próspera e comprometida com o desenvolvimento social da cidade, que auxiliaram a moldar.
Sob o céu missioneiro do Rio Grande do Sul, nasceu Antônio Miguel Dalsoquio em 10 de janeiro de 1951, nos arredores de Santo Ângelo, então distrito de Santa Tereza (RS). Filho de Vergílio e Tereza Dalsoquio, era o caçula entre quatro irmãos — Luiz, Lourenço, Ângelo e ele próprio. Herdou de sua família a coragem daqueles que atravessam fronteiras de terra e tempo, carregando consigo a fé, o valor do trabalho e a força da palavra cumprida.
Tereza era o coração do lar, símbolo de dedicação e ternura, enquanto Vergílio representava o espírito empreendedor, jamais empregado de outrem, sempre à frente de seus próprios negócios — caminhões, açougue e outras iniciativas que garantiam a subsistência da família construída com esforço próprio. A infância de Antônio foi marcada pelas idas à missa aos domingos e pelo trabalho no campo, com a roça aberta ao facão, o arado puxado por animais e uma única bicicleta compartilhada entre os quatro irmãos.
Quando Antônio completou quatro anos, os Dalsoquio iniciaram sua primeira grande travessia: partiram rumo ao oeste de Santa Catarina. Em São Lourenço do Oeste, encontraram o solo onde fincariam raízes e ergueriam não apenas uma nova casa, mas também os valores de trabalho, disciplina e união familiar que moldariam o destino de todos. Foi nesse solo catarinense que Antônio passou a maior parte da infância, marcada pela dureza e simplicidade da vida de colônia. Como ele mesmo recorda, a infância era feita de “lavoura, colônia, mexer com gado”, um trabalho braçal e contínuo, onde “tudo era bruto, tudo na mão”. Desde cedo, a vida lhe impôs responsabilidades.
O trabalho árduo fez com que a escola terminasse cedo — Antônio parou no quarto ano. Foi no Educandário Santa Maria Goretti que, entre livros e caminhões, escolheu a boleia: o chamado das estradas falou mais alto. A paixão pelos veículos superou a permanência na escola e, ainda adolescente, ele já dirigia jipes e caminhões ao lado dos irmãos. Com apenas 17 anos, em 1968, partiu definitivamente para o “trecho”.
As longas viagens pelo país moldaram seu caráter, sua independência e sua visão de mundo. A vida de motorista era feita de ausências prolongadas, meses longe de casa, estradas perigosas e pouco descanso. Durante anos, a cabine do caminhão, tornou-se seu lar, levando-o do Sul ao Nordeste e de volta, enquanto a comunicação com a família se resumia a cartas e recados. Desde cedo, Antônio cultivou uma ligação profunda e quase umbilical com os veículos e o transporte.
A partir de 1968, Antônio rasgou o mapa, cruzando diversos estados e regiões do país. Viveu por períodos no Paraná e no então Mato Grosso (hoje Mato Grosso do Sul), cercado por caminhões, fretes, madeira e transportadoras. Dormia onde a estrada permitia, aprendeu com tombos e perdas, e encontrou na solidariedade entre motoristas, uma verdadeira irmandade de asfalto.
Em Curitiba, Antônio encontrou um “segundo pai” em Arthur Ceshim, que lhe ofereceu a oportunidade de participar do caminhão que dirigia e, ainda, o confiou com o cuidado de outros quatro veículos, pertencentes a colegas. Além disso, Arthur transmitiu conselhos que se tornariam um guia permanente: respeito ao próximo, honestidade inquestionável, fazer o certo mesmo quando ninguém está olhando e valorizar apenas aquilo de procedência segura. “Foi o meu segundo pai”, lembra Antônio, cujos ensinamentos se tornaram o alicerce de sua vida empresarial.
Embora a vida no caminhão seguisse bem, o coração do jovem Antônio se comoveu durante uma visita a São Lourenço do Oeste. Lá, ele reencontrou Julita Romanini, nascida em Alvorada, no Rio Grande do Sul. Filha de uma família numerosa, com nove irmãos — Alci, Ana, Josefina, Lurita, Eliete, Julita, Marinês, João Carlos e Evandro —, Julita cresceu em meio a uma rotina simples, marcada pelo trabalho na roça, pela religiosidade e pela força das tradições familiares.
Por volta dos 15 anos, o destino aproximou Julita e Antônio por meio de outra união familiar: sua irmã Lurita, casou-se com Lourenço, irmão dele. A partir daí, as visitas entre as duas casas, tornaram-se cada vez mais frequentes. Na pequena vila, onde as opções de lazer eram escassas, a convivência reforçou os laços e afinidades. Foi nesse ambiente simples e familiar, que Julita percebeu nascer um interesse recíproco, que logo se transformou em namoro — sempre sob a vigilância atenta e protetora de seu pai.
Assim começou a história dos dois: um amor construído com paciência, encontros breves, olhares discretos e a constante expectativa pelo próximo reencontro. Inicialmente, o patriarca dos Romanini foi contra o namoro — o futuro genro era caminhoneiro e vivia na estrada, o que pesava na decisão do pai. Foram quatro anos de tentativas para pedir a mão de Julita, em casamento.
A mudança veio com um conselho do avô materno dela, Aurélio Bruscata: “O nono disse: ‘Pode deixar casar. Ele é trabalhador.” E foi a fala do nono, que venceu a resistência do pai. Assim, em 14 de fevereiro de 1976, os dois uniram suas vidas, selando um pacto que, em 2026, completará 50 anos — meio século de cumplicidade, fé e construção compartilhada, permanecendo como eixo afetivo e prático de toda a família Dalsoquio.
Infelizmente, logo após o casamento, o casal enfrentou o primeiro grande baque da vida a dois: o pai de Antônio faleceu aos 58 anos, vítima de um ataque cardíaco, em 21 de junho de 1976. “Todos nós sentimos muito”, recordam. Ainda assim, era preciso seguir adiante. Na época, o jovem casal, residia em Curitiba, e foi na capital paranaense que, em 1977, um acidente de jipe levou Antônio à Unidade de Tratamento Intensivo (UTI). “Foi um mês de luta pela vida, em que recebi o apoio da família — e esse apoio foi essencial na recuperação”, relembra. Pouco depois, para renovar a esperança e trazer alegria à família, nasceu, em junho de 1977, a primogênita do casal, Joseane.
Com a vida renovada e Joseane nos braços, Antônio revelou a Julita um antigo sonho do pai: mudar-se para o Centro-Oeste. Sentiu que era o momento de realizar o desejo do falecido pai. Assim, ainda em 1977, o casal partiu com a filha recém-nascida para Fátima do Sul, território que hoje integra o Mato Grosso do Sul. Antônio recorda que, naquela época, a oportunidade de participar do surgimento do novo estado, foi real — o governador recém-empossado, Harry Amorim, chegou a anotar em um guardanapo seu contato, convidando-o a se envolver na política de estruturação do Mato Grosso do Sul. O convite foi recusado, mas o impulso empreendedor, permaneceu vivo.
Em 1978, a pequena família, mudou-se para São Gabriel do Oeste, onde passou a se dedicar a diferentes empreendimentos — restaurante, posto de combustível e depósito de madeira. Foi nessa cidade que, em 8 de junho de 1980, nasceu a segunda filha do casal, Jovane.
Aos poucos, a região Norte do Mato Grosso, começou a pulsar como uma promessa, e foi ali que a família decidiu fincar raízes. “Ainda em São Gabriel, ouvia falar de Sorriso”, lembra o ex-caminhoneiro. Chegar a Sorriso, nos primeiros anos da década de 1980, era adentrar um lugar em formação: ruas de chão, energia gerada por motor, um único telefone público, água escassa e uma cidade ainda aprendendo a existir.
Julita recorda os tempos em que era preciso buscar água potável no Posto Sorrisão. “Buscava água para beber e cozinhar; de resto, tínhamos o rio”, lembra. Carregava baldes pesados, enquanto cuidava das filhas pequenas. Para facilitar a vida, tempos depois, ela e o vizinho Genoíno Spenassato perfuraram, em sociedade, um poço — um gesto de união diante da necessidade.
Em Sorriso, a estrutura era precária, mas a união da vizinhança era sólida. As celebrações de fim de ano no Centro de Tradições Gaúchas (CTG), reuniam todos em uma espécie de irmandade improvisada, capaz de aliviar o peso dos dias difíceis. Foi essa rede de vizinhos, somada à vontade de prosperar, que manteve Julita e Antônio firmes, mesmo quando muitos decidiram ir embora.
Com o apoio da família Francio, então representada por Guinter Francio, figura importante no desenvolvimento local —, os Dalsoquio se aventuraram nos negócios. Guinter doou um terreno para a construção do Mercado DalRezan, no qual, o casal detinha 34% das ações. Jovens e visionários, inauguraram em Sorriso o conceito de "supermercado", em contraste com os antigos “bodegões” que vendiam de prego a cimento. No DalRezan, os clientes podiam usar carrinhos para escolher e acondicionar os produtos, antes de passar pelo caixa.
Das primeiras bandeiras à unificação, quando o local ainda se consolidava de povoado a distrito Gleba Sorriso, nasceu o Sorriso Supermercado, a raiz de um varejo moderno, que se expandiu pela região. Antônio e os irmãos se desvincularam da sociedade do empreendimento em 1983. “O Guinter foi essencial não só na nossa história. Ele foi gigante na trajetória de várias famílias, doando terrenos e incentivando. No nosso caso, nos possibilitou abrir o mercado”, ressalta o empresário.
Foi então que, aproveitando o prédio que lhes coube na divisão, a família Dalsoquio, iniciou um novo ciclo de sucesso, migrando para o ramo de materiais de construção e máquinas. Nesse empreendimento, a paixão por veículos de Antônio e a visão de crescimento de Sorriso se uniram, dando origem à Casa do Construtor. Pelo trabalho árduo, a família prosperou em meio a uma cidade ainda com ruas de terra, energia fornecida por motores e um único telefone público, onde a comunicação exigia paciência e espera em fila.
Dessa época, o casal recorda o apoio coletivo que marcou os primeiros passos da cidade. Várias famílias pioneiras seguiram unidas na empreitada de fazer dar certo: os Francio, Zavareze, Barbieri, Brandão, Dal Molin, Demori, Spenassato e Rovaris e tantos outros, lutavam lado a lado. Foi nesse contexto, que Antônio, já rotariano no Sul, uniu forças com Osmar Salton e participou da fundação do Rotary Club de Sorriso, contribuindo ativamente com projetos sociais e fortalecendo o espírito comunitário e solidário, que sempre marcou sua trajetória.
Foi no distrito de Sorriso, no Hospital e Maternidade Nossa Senhora de Fátima, que a família cresceu. Em 16 de fevereiro de 1985, nasceu o terceiro filho do casal. O menino foi batizado com o nome do nono paterno, se tornando Vergílio também. Em 1987, a Casa do Construtor, foi vendida. Antônio percebeu que a cidade enfrentava um gargalo estrutural: faltavam areia e brita na cidade, que despontava o mais rápido possível. E ali, surgiu a grande virada. Em 1988, nasceu a TRANSMIDAL. O nome foi sugerido por um amigo querido, Salvador Ferraz, gerente do Banco Nacional que, com uma caderneta e uma caneta, fez a fusão perfeita do nome: TRANSporte + MIneração + DALsoquio = TRANSMIDAL.
O começo foi modesto: um caminhão, uma draga de barranco e um cronograma que cabia no bolso, mas exigia disciplina de gigante. Na linha de frente, Wilson, Jurandir, Maninho e outros parceiros de ofício, ajudaram a consolidar os quatro pilares que se tornariam a marca da empresa: respeito às pessoas, manutenção preventiva rigorosa, segurança operacional sem atalhos e palavra dada como contrato.
Na vida pessoal, em 12 de abril de 1990, o núcleo familiar, voltou a crescer. Já no município de Sorriso, emancipado em 1986, nasceu Vanessa. “Os três últimos vieram a cada cinco anos”, brinca o pai. Com Vanessa e os outros três filhos, a Transmidal se expandiu, chegando a Sinop e Lucas do Rio Verde, abrindo novas frentes de mineração e tornando-se referência regional — um dos alicerces do desenvolvimento de Sorriso.
A cada viagem, um checklist a cumprir: máquinas revisadas, prazo de entrega, processos padronizados, controle de custos e uma cultura que priorizava previsibilidade, pontualidade e respeito ao cliente. Em paralelo, a família passou a abrir novas frentes: lojas em Sinop e Lucas do Rio Verde, novas áreas de mineração, parcerias logísticas e comerciais. Aos poucos, consolidou-se um ecossistema integrado, que unia o chão (areia, pedra, obra), à rota (caminhões, logística, entrega), com a criação do grupo V Dalsoquio, Mineração Caiabi e da Pérola Mineração — todas empresas do grupo AMD, iniciais do patriarca Antônio Miguel Dalsoquio.
Antônio, que com o tempo passou a ser chamado de Toninho, faz questão de afirmar que, no coração dessa engrenagem, está Julita — o coração invisível do império familiar, parceira de luta, administradora da vida cotidiana e sustentáculo de tudo. Foi ela quem manteve a rotina, quando o trecho prolongava os dias: cuidou da escola, da saúde e da casa, deu o tom nas conversas difíceis e preservou o ânimo da família, quando o cansaço ameaçava se transformar em desistência. O marido mareja os olhos ao dizer: “Sem Julita, a história seria apenas uma cronologia de máquinas; ela fez da organização doméstica e emocional o que nenhum empreendimento sobrevive sem: Julita foi e continua sendo, o equilíbrio da nossa família.
Com o tempo, a Transmidal, tornou-se sinônimo de solidez, respeito e referência regional, consolidando-se como um dos pilares do desenvolvimento de Sorriso. Surgiram novas áreas, novas marcas e novas parcerias. Em casa, nove netos enchem os fins de semana de barulho bom, renovando a responsabilidade de deixar um exemplo.
“A vida da família nunca foi só CNPJ; sempre ultrapassou os muros da empresa”, lembra Julita, destacando as constantes contribuições a obras, templos e ações sociais. Antônio organizou campeonatos, dirigiu o esporte local, jogou e torceu como quem constrói time e torcida ao mesmo tempo. A rede de amizades — Duca, Iracy, Erzídio e tantos outros — tornou-se extensão da própria família, aquela mesma que ajudou a construir, com trabalho e afeto, o lugar onde vivem.
A fé, também foi uma constante, ocupando sempre um lugar essencial na trajetória da família. Essa presença, se refletiu na participação ativa em comunidades religiosas e sociais, como a Paróquia São Pedro Apóstolo e as associações Santa Luzia, São Francisco, Mãezinha do Céu, o Centro Espírita e a APAE. Em todas elas, os familiares marcaram presença, não apenas pela devoção, mas também pelo compromisso com o trabalho voluntário e pelas doações de insumos provenientes da mineração, destinados a obras, ampliações e manutenção. Além disso, gestos silenciosos de solidariedade — ações anônimas, movidas pela vontade genuína de ajudar — continuam fazendo diferença, sem buscar reconhecimento.
Em 1994, a família ingressou em um novo ramo: a atividade agrícola. Contudo, o período se encerrou em 1997, após uma safra ruim, levando-os a concentrar suas energias na mineração e no transporte — decisão que definiria os rumos das décadas seguintes. O que poderia ter sido frustração, transformou-se em estratégia, tornando-se uma das marcas da trajetória Dalsoquio.
Já bem consolidado nas associações de apoio ao crescimento comunitário e por convite de amigos, o seu Toninho Dalsoquio, enveredou para a política. Ainda que Julita resistisse, o marido teve papel ativo em momentos cruciais, como a emancipação do município, a articulação de luz, telefonia e urbanização, o apoio à formação dos primeiros militares e o envolvimento com esportes e clubes comunitários.
Em 2012, seu Toninho, assumiu a presidência do Conselho Comunitário de Segurança de Sorriso (Conseg), período marcado por importantes avanços na área da segurança pública do município. Foi nessa gestão, que se consolidaram o início efetivo das atividades da Guarda Municipal de Trânsito (GMT) e a implantação da Coordenadoria Integrada de Operações Aéreas (Ciopaer). À época, a administração municipal era conduzida por Dirceu Rossato, tendo Xuxu Dal Molin como vice-prefeito. Toninho relembra o esforço coletivo para viabilizar a chegada do Ciopaer:
“Corremos muito atrás. Hoje vejo como uma grande conquista para o nosso município”, destaca, com orgulho, ao recordar sua participação nesse momento decisivo para o fortalecimento da segurança em Sorriso.
Envolvido com os assuntos da comunidade, Antonio Dalsoquio contribuiu, opinou e, anos depois, incentivou o filho Vergílio Dalsoquio, formado em Administração, a submeter seu nome ao crivo do voto. Eleito, a família comemorou com orgulho o fato de o filho ter se tornado o primeiro vereador nascido em Sorriso a ocupar um cargo eletivo. “Vergílio é filho desta terra, o primeiro sorrisiense nato a ser diplomado como vereador. Para nós, todos, foi motivo de muito orgulho e reconhecimento”, emocionam-se os pais.
Hoje, casado com Danúbia Giovelli e construindo sua própria família, Vergílio optou por não seguir carreira política. Ele cumpriu o mandato de vereador, entre 2013 e 2016, e chegou a ocupar o cargo de secretário de Governo de Sorriso. “Foi uma experiência boa, que molda, mas, por decisão própria, ele escolheu voltar seu olhar para outros caminhos”, explica o pai.
Com o passar das décadas, a cidade mudou — e a família Dalsoquio mudou junto.
Os quatro filhos seguiram carreiras nas áreas de direito, administração e afins, enquanto os netos ingressam em medicina, farmácia e outras formações. À medida que as gerações se fortalecem e se expandem, a presença da família em Sorriso continua evidente: nos bairros, nos templos, nas obras comunitárias, no esporte, na cultura e nas relações construídas ao longo de mais de 40 anos.
O casal acredita que, quando Sorriso celebrar 50, 60 ou 70 anos, será possível identificar facilmente os lugares marcados pela “mão” dos Dalsoquio — no Distrito de Caravaggio, na Linha 404, no Pontal do Verde e em tantos outros espaços, que ajudam a contar a história da cidade.
Orgulhosos, Julita e Antônio exibem na parede da empresa, os títulos de pioneiro e as homenagens recebidas, símbolos do reconhecimento de uma comunidade que acompanhou, de perto, as contribuições da família ao longo dos anos. Seu Antônio afirma que recebeu cada homenagem, com gratidão e com a tranquilidade, de quem não tem “mancha” em seu sucesso. “Se algum mal-entendido houve, não foi por falta de intenção limpa”, ressalta.
Toninho também foi padrinho da primeira turma de policiais militares a atuar em Sorriso e mantém a função no projeto social Bombeiros do Futuro. O empresário destaca que Sorriso é o berço estadual do programa, que nasceu em 2006 e já formou mais de 2,5 mil crianças e adolescentes desde então.
A cada semestre, os espaços do 5.º Batalhão de Bombeiro Militar, se tornam palco de aulas teóricas e práticas, que abordam temas como primeiros socorros, prevenção de acidentes domésticos, nós e amarrações, sexualidade, educação ambiental, consumo consciente de energia elétrica, boas maneiras e educação para o trânsito, entre outros. O projeto é realizado em parceria pelo Corpo de Bombeiros e pela Administração Municipal.
O dia de campo, momento em que os participantes colocam todo o treinamento em prática, é realizado desde 2006, na chácara da família Dalsoquio. “Para nós, é gratificante fazer parte desses momentos”, enfatiza o empreendedor.
Ao olhar para o passado, Julita resume tudo em poucas palavras, carregadas de significado: “Valeu a coragem. Valeu o sacrifício. Agradecemos a Deus e a todos que nos estenderam a mão e caminharam conosco.” Antônio complementa: “O sonho sempre foi o mesmo. E sempre caminhamos juntos pela mesma causa. Com certeza, faríamos tudo de novo; este é o nosso lar.”
Às gerações mais jovens, a família costuma ensinar que o entusiasmo se educa: ele se revela no cotidiano e nos almoços de domingo. Já para quem chega a Sorriso hoje, Toninho mantém a cartilha de sempre, a mesma que o guiou ao chegar na cidade: “Traga coragem, traga ofício, traga respeito. O resto é trabalho — e trabalho, por aqui, nunca andou sozinho”, finaliza Antônio Miguel Dalsoquio.
1980
ZAG Seguros
Três décadas de propósito, fé e amor por Sorriso
Chegar a Sorriso, no fim dos anos 1980, era abraçar o desconhecido. As ruas eram de chão batido, a energia funcionava por setores e o progresso se media pela coragem de quem acreditava no futuro. Foi nesse cenário que Márcia e José Augusto Brandt fincaram raízes, constituíram família e ergueram as bases do que, mais tarde, se tornaria a ZAG Seguros.
José Augusto Brandt nasceu em Salete (SC) e mudou-se com a família para Sinop (MT) em 1979, no auge do processo de colonização do norte mato-grossense. Em 1987, ingressou no Banco do Brasil. Dois anos depois, em 1989, casou-se com Márcia e, no mesmo ano, foi transferido para participar da implantação da agência do Banco do Brasil em Sorriso.
Nos primeiros meses, a rotina era intensa: trabalhava em Sorriso, levava os documentos para processamento em Sinop e, no dia seguinte, recomeçava a jornada. Em 1990, a família mudou-se definitivamente para Sorriso, já com a primeira filha, Suellen. Mais tarde, vieram Jean e Bárbara, completando a família.
Márcia, que havia trabalhado no Bradesco, deixou o banco e mergulhou no empreendedorismo para complementar a renda da casa. O carrinho de cachorro-quente prensado, instalado na Praça da Juventude, tornou-se símbolo de criatividade em tempos de aperto; depois veio a MM Vídeos, locadora que, por muitos anos, garantiu o sustento da família.
Com os três filhos — Suellen, Jean e Bárbara — e apenas uma moto Brandy para se locomover, a rotina exigia improviso e bom humor: “um atrás, dois na frente”. O expediente na locadora seguia até as 21 horas, e o balcão, muitas vezes, transformava-se em extensão da própria casa.
Em alguns meses de dezembro, foi necessário recorrer a empréstimos para garantir o pagamento do décimo terceiro salário dos funcionários. “Era uma família”, resume Márcia, ao se referir à equipe e aos clientes que, ao longo dos anos, fizeram parte dessa trajetória.
A MM Vídeos transformou-se em um verdadeiro ponto de encontro da comunidade. As prateleiras repletas de fitas VHS e as conversas animadas sobre os lançamentos da semana criavam laços que iam muito além do simples aluguel de filmes. “A gente sabia o gosto de cada cliente. Quando chegava um filme novo, já separava para quem sabíamos que ia gostar”, lembra Márcia, com um sorriso nostálgico.
A empresa também foi uma escola de trabalho para os filhos, que cresceram aprendendo, na prática, sobre responsabilidade, atendimento e resiliência. “Foi ali que a gente entendeu o que é batalhar, o que é dar valor ao que se conquista com esforço”, recorda Jean.
Entre desafios e conquistas, aquele pequeno balcão tornou-se o alicerce de um sonho maior: a semente de uma mentalidade empreendedora que, mais tarde, daria origem à ZAG Seguros, onde o cuidado com as pessoas continuaria sendo o verdadeiro negócio da família.
A partir de 1993, ainda no Banco do Brasil, Zé passou a se aprofundar no segmento de seguros e logo percebeu seu potencial. Em 1995, aderiu ao programa de desligamento incentivado e deixou para trás a estabilidade do banco. “No começo, não; no futuro, muito mais”, disse a Márcia, pedindo confiança no novo caminho.
Em 1996, após regularizar os registros, nasceu oficialmente a Zé Augusto Corretora de Seguros. A primeira sede era uma pequena “portinha” na Rua das Videiras. Para reduzir custos, a corretora funcionava nos fundos da MM Vídeos, separada apenas por uma divisória.
O time inicial era formado por Zé, um amigo e mais dois colaboradores — Marcelo e Poliana — que se tornariam pilares dessa trajetória. Os dias começavam cedo e terminavam tarde, com Zé visitando clientes em empresas, fazendas e escritórios, enfrentando o sol forte, com a pasta de propostas debaixo do braço. “Era um trabalho de formiguinha. Cada cliente conquistado era uma vitória”, relembra.
A rotina era intensa, mas marcada por propósito. Enquanto Márcia cuidava da locadora e das crianças, Zé se dedicava a construir uma base sólida de confiança e relacionamento. Os contratos ainda eram preenchidos à mão, as ligações feitas em telefone fixo, e a propaganda era o “boca a boca” — o melhor marketing possível numa cidade em crescimento.
A cada apólice vendida, havia uma história de confiança. Muitos dos primeiros clientes, agricultores e comerciantes locais, continuam com a empresa até hoje. “Nosso negócio sempre foi gente. Seguro é consequência”, define Zé.
A semente do que mais tarde se tornaria a ZAG Seguros estava lançada: um negócio familiar, nascido da coragem de recomeçar, sustentado por valores que o tempo só reforçaria a fé, a honestidade e o amor por Sorriso.
Em 1997, Zé assumiu a presidência do Sorriso Esporte Clube, levando o time ao 5º lugar no estadual, mas acumulando dívidas pessoais. Para honrar compromissos, a família vendeu a casa e voltou ao aluguel. “Eu quebrei em 1997. O que eu fiz? Acordei mais cedo e dormi mais tarde.”
Foram meses de desgaste físico e emocional. O casal chegou a ser internado por exaustão; Márcia recebeu diagnóstico de pneumonia durante visita ao marido. Some-se a isso o luto pela perda de uma filha, tema que ela prefere não detalhar. O remédio foi continuar.
Mesmo nos momentos de incerteza, quando o movimento diminuía e as contas apertavam, o casal manteve a fé e a convicção de que o trabalho sério daria frutos. Aos poucos, a pequena “portinha” foi ganhando espaço, novos clientes, e o nome Zé Augusto Corretora começou a se espalhar pela cidade como sinônimo de proximidade e credibilidade.
Os dias eram longos, mas o propósito nunca vacilou. Mesmo diante de tantas dificuldades, Zé e Márcia mantiveram o negócio em funcionamento — revezando-se entre o balcão da locadora e as visitas aos clientes da corretora. “Não dava para parar. Se a gente parasse, tudo desabava”, lembra Zé.
A fé tornou-se o principal pilar. Em meio à crise, o casal se agarrou à espiritualidade e à esperança de recomeçar. O apoio da comunidade, dos amigos e até de alguns clientes foi fundamental. “Teve gente que apareceu só para dizer: ‘não desiste, Zé, isso vai passar’”, conta Zé Augusto, com os olhos marejados.
Pouco a pouco, a vida foi se reequilibrando. As noites insones deram lugar a novos planos, e a mesma garra que os havia feito começar do zero transformou-se em combustível para reconstruir. “A gente aprendeu que perder não é o fim — é o começo de um novo jeito de fazer”, define Márcia.
A partir daquele momento, o casal prometeu a si mesmo que cada decisão seria guiada pela fé, pela responsabilidade e pelo propósito. A Zé Augusto Corretora renasceu fortalecida, mais madura e mais humana. Dali em diante, o trabalho deixou de ser apenas uma fonte de renda e passou a ser uma verdadeira missão de vida: cuidar de pessoas, proteger sonhos e seguir adiante, mesmo quando o caminho parecesse impossível.
A virada veio no início dos anos 2000. Zé ingressou na vida pública e exerceu o mandato de vereador entre 2003 e 2004, período em que apresentou nove projetos de lei, além de diversas indicações e moções voltadas ao desenvolvimento urbano e social de Sorriso. A experiência no Legislativo ampliou sua visão sobre gestão e responsabilidade pública, reforçando valores que já trazia do empreendedorismo: ética, transparência e compromisso com as pessoas.
Nesse mesmo período, a MM Vídeos encerrou seu ciclo. A locadora, que por mais de uma década havia sido o coração financeiro e afetivo da família, foi vendida. A decisão foi difícil, mas necessária para abrir espaço a um novo tempo. Márcia, com a coragem que sempre a caracterizou, despediu-se das fitas VHS e mergulhou definitivamente no universo dos seguros.
Com dedicação e sensibilidade, passou a assumir parte da administração da corretora, fortalecendo o atendimento e o relacionamento com os clientes. Enquanto Zé se dedicava à expansão e às negociações externas, Márcia tornou-se o rosto acolhedor do escritório — a presença constante que recebia, ouvia e tratava cada cliente como parte da família.
A Zé Augusto Corretora crescia de forma orgânica, impulsionada pela confiança construída ao longo dos anos e por um atendimento humano que se tornaria sua marca registrada. “A gente não vendia só seguro; vendia tranquilidade. E isso se conquista olhando no olho, estando presente”, resume Márcia.
O início dos anos 2000 marcou, portanto, não apenas uma reviravolta profissional, mas também uma consolidação pessoal. A família, agora mais madura, via os filhos crescerem e começarem a trilhar seus próprios caminhos dentro do negócio. O que nasceu de um sonho simples — sustentar a casa e oferecer um futuro melhor aos filhos — começava, aos poucos, a se transformar em legado.
Com a expansão para outras cidades e estados, a marca já não podia depender apenas da presença física do fundador. Entre 2018 e 2019, a Zé Augusto Corretora passou a se chamar ZAG Seguros — uma abreviação moderna de “Zé Augusto”, que preserva a identidade original e, ao mesmo tempo, simboliza solidez, proximidade e confiança. A mudança representou mais do que um novo nome: foi um marco de profissionalização, de transição geracional e de consolidação da cultura que sempre sustentou o negócio — o cuidado com as pessoas.
O rebranding trouxe uma identidade visual contemporânea, uma nova postura digital e a ampliação dos serviços. A ZAG passou a investir fortemente em tecnologia, atendimento remoto e capacitação da equipe, sem perder o calor humano que a tornou referência. “A essência continua a mesma — proteger pessoas e sonhos. Só mudamos a forma de chegar até elas”, explica Jean, que assumiu a gestão executiva da empresa ao lado dos pais e das irmãs.
Atualmente, a ZAG é reconhecida como uma das maiores corretoras de seguros de Mato Grosso, contando com uma equipe de quase 60 colaboradores, filiais em diferentes regiões e prêmios recorrentes concedidos por seguradoras parceiras de renome nacional. São conquistas que refletem não apenas o volume de produção, mas, sobretudo, o respeito construído ao longo de décadas de atuação pautada pela ética, transparência e compromisso com as pessoas.
O portfólio da empresa é amplo e diversificado, abrangendo seguros auto, moto, aeronáutico, náutico (cargas e embarcações), agrícola, transportes, saúde e planos, vida, consórcios e seguros corporativos. A ZAG também se destaca pela atenção personalizada oferecida a cada cliente, com soluções sob medida para produtores rurais, empresários, famílias e profissionais liberais.
Mais do que uma corretora, a ZAG tornou-se uma história de confiança construída geração após geração. Uma marca que nasceu em uma pequena “portinha” nos fundos de uma locadora e hoje se consolida como referência regional, sem jamais perder a simplicidade, a fé e os valores que inspiraram seus fundadores.
Ao longo de sua trajetória, a ZAG Seguros tem sido amplamente reconhecida por sua qualidade de atendimento, inovação e compromisso ético. A empresa coleciona premiações que reforçam seu protagonismo no mercado e o respeito conquistado junto a seguradoras e clientes.
Entre os principais destaques, em outubro de 2025, a empresa foi homenageada na 9ª edição do Troféu Paiaguás, a principal honraria do mercado segurador de Mato Grosso, promovida pelo Sindicato dos Corretores de Seguros de Mato Grosso (Sincor-MT), consolidando seu nome entre as empresas mais relevantes do setor no estado.
Na ocasião, a empresa conquistou o título de “Destaque no Segmento Automóvel” e figurou entre as finalistas em diversas outras categorias, durante o 5º Workshop do Mercado de Seguros de Mato Grosso, evento que reconhece e celebra a excelência, a inovação e a atuação ética das corretoras e dos profissionais do setor.
Além do reconhecimento setorial, a corretora também já recebeu homenagens públicas em Sorriso e em diferentes municípios do estado, em virtude de sua contribuição para o desenvolvimento econômico local e do apoio constante a iniciativas sociais, culturais e esportivas — reflexo de uma trajetória construída com seriedade, responsabilidade e empatia ao longo de mais de três décadas.
Para além dos números, a ZAG mede seu sucesso pelo impacto real na vida das pessoas. Entre os casos emblemáticos estão a loja de roupas que conseguiu reconstruir seu prédio após um incêndio graças à indenização recebida; a família de um colaborador falecido, amparada financeiramente em um momento de profunda dor; e o cliente inicialmente reticente que, apenas uma semana após contratar o seguro, foi vítima de um assalto e conseguiu evitar um grande prejuízo financeiro.
No somatório de anos e ramos de atuação, a empresa estima já ter devolvido à sociedade mais de R$ 1 bilhão em indenizações. A filosofia que sustenta esse trabalho é simples e inegociável: “o certo é certo”, com suporte permanente ao cliente, 24 horas por dia, especialmente nos momentos mais delicados, como o do sinistro.
Além disso, a instituição apoia inúmeras iniciativas sociais e comunitárias em Sorriso. Entre elas, campanhas solidárias, projetos culturais, eventos esportivos e ações voltadas à saúde e à educação, reafirmando seu compromisso com o desenvolvimento humano e social da cidade.
A sucessão familiar ocorreu de forma orgânica e natural. Jean Augusto Brandt iniciou sua trajetória na empresa aos 14 anos, em 2004, auxiliando no arquivo, organizando documentos e apoiando o atendimento operacional. Cresceu observando de perto o ritmo dos pais — o comprometimento incansável do pai com o trabalho e o acolhimento sensível da mãe no trato com os clientes. “Aprendi vendo. Eles nunca precisaram me dizer o que fazer; bastava observar como faziam”, relembra
Com o passar dos anos, Jean passou por todos os setores da empresa — do suporte ao comercial, da administração à gestão de pessoas. Essa vivência completa o preparou para compreender a ZAG em sua totalidade. Entre 2017 e 2018, decidiu buscar novos horizontes: trabalhou em startups e vivenciou a cultura da inovação e da tecnologia, experiências que mais tarde se tornariam diferenciais no retorno à empresa.
De volta à empresa, trouxe um olhar renovado: digitalização de processos, ampliação da presença online e novas estratégias de relacionamento com o cliente. “Entendi que a ZAG é mais que uma empresa. É uma família, um propósito. É o prazer de vir trabalhar e saber que estamos cuidando de pessoas.”
Desde 2020, Jean integra oficialmente a gestão compartilhada ao lado dos pais, dando início a uma nova fase — marcada pelo equilíbrio entre tradição e modernidade. Ele costuma resumir a cultura da ZAG em duas chaves: conexão e dosagem — saber ouvir, apaziguar e acelerar conforme a necessidade.
Ao longo dos anos, a ZAG deixou de ser apenas uma corretora de seguros para se tornar o reflexo de uma trajetória construída a muitas mãos, guiada por um princípio simples e poderoso: cuidar de pessoas é o melhor investimento que existe.
Os filhos — Suellen (1988), Jean (1990) e Bárbara (1993) — e os netos — Luíza, Ana Clara, Isaque, Miguel, José Neto e Levi — são o eixo das decisões e o verdadeiro patrimônio da família Brandt. Cada escolha, seja pessoal ou profissional, passa por esse núcleo afetivo que dá sentido a tudo o que foi construído.
Todos os anos, a família reserva um tempo para o que considera sagrado: uma viagem de 10 a 12 dias, muitas vezes internacional, mas sempre com a mesma regra — todos na mesma casa. Nada de quartos separados ou programas individuais. É o momento de reconexão, de risadas, de conversas demoradas e de planos para o futuro.
Dinheiro é meio; o fim é viver momentos juntos. No mundo de hoje, reunir a família não é fácil, mas é isso que dá sentido à vida”, diz Márcia, com a serenidade de quem aprendeu que sucesso é, sobretudo, poder estar perto de quem se ama.
Mãe aos 19 anos, ela olha para trás com ternura e lucidez. “Talvez hoje eu espaçasse as gestações, fizesse tudo com mais calma. Mas fiz o melhor que pude naquele tempo — com amor e fé.” A reflexão resume não apenas sua experiência como mãe, mas também a maneira como sempre conduziu a própria vida: entregando-se por inteiro a cada etapa, sem reservas.
Entre tantas lembranças, uma permanece especialmente viva. O dia em que, grávida, caminhou a pé até a rodoviária para resolver uma pendência. Anos depois, essa memória transformou-se em gesto cotidiano: o hábito de oferecer carona a gestantes, idosos e mães com crianças, como forma de retribuir o cuidado que um dia desejou ter recebido.
Para Márcia e Zé, a verdadeira herança não está nos bens materiais, mas nos valores. E entre todos eles, um se repete em suas falas, decisões e atitudes: cuidar de pessoas é o maior legado que se pode deixar.
Quando a família Brandt chegou, Sorriso tinha mais poeira do que asfalto e funcionava à base de motores de luz. As ruas eram poucas, os vizinhos se conheciam pelo nome e a esperança era o principal combustível do progresso. Hoje, a cidade é reconhecida como a Capital Nacional do Agronegócio, símbolo de prosperidade e referência em desenvolvimento econômico e social.
Para Zé, Sorriso é mais do que um endereço — é uma biografia viva. “Antes era pó, motor e improviso; hoje é prosperidade e trabalho”, afirma, com o brilho nos olhos de quem acompanhou cada etapa dessa transformação: do chão batido às avenidas iluminadas, das lavouras pioneiras às grandes empresas. Visionário, projeta a cidade com 400 a 500 mil habitantes nas próximas décadas, convicto de que o mesmo espírito empreendedor que moveu os primeiros moradores continuará guiando as futuras gerações.
Jean, atento às transformações da nova era, enxerga Sorriso como “um bebê em formação” — uma cidade jovem, que cresce em ritmo acelerado e precisa de cuidado, orientação e limites. “A ZAG quer ser o adulto responsável, aquele que oferece segurança para que esse crescimento não se perca em um tropeço”, explica. Para ele, a empresa não é apenas um negócio, mas parte de um ecossistema que promove estabilidade e confiança em meio à rápida expansão urbana.
Márcia, sempre equilibrando razão e afeto, acrescenta uma visão essencial: prosperidade precisa caminhar junto com humanidade. “Prosperidade sem cuidado com gente não se sustenta”, afirma. Para ela, o verdadeiro sucesso de Sorriso não está apenas nas cifras ou nos recordes do agronegócio, mas na capacidade de preservar o espírito acolhedor que marcou os primeiros anos — aquele mesmo sentimento de vizinhança e solidariedade que uniu os pioneiros e continua dando sentido ao crescimento da cidade.
A família Brandt enxerga Sorriso como espelho de sua própria trajetória: nascida do esforço, moldada pela fé e fortalecida pela união. Assim como a cidade cresceu sem perder suas raízes, a ZAG também se expandiu sem abrir mão de seus valores. Ambas carregam a mesma essência: crescer, sim — mas sempre cuidando de pessoas.
O legado dos Brandt se sustenta em três pilares: trabalho, família e serviço.
“Quebrou? Trabalhe mais. Acorde mais cedo, durma mais tarde”, sintetiza Zé.
Márcia complementa: “Não desistam. E, ao mesmo tempo, vivam o presente com quem está ao seu lado. O dinheiro é importante, mas quem dá sentido a ele são as pessoas.”
Da “portinha” às modernas instalações, da moto apertada às viagens em família, das noites sem luz às indenizações que reconstroem histórias, a ZAG Seguros é, sobretudo, sobre plantar e cuidar: plantar empresa, equipe e comunidade; cuidar de pessoas, patrimônio e memórias.
ZAG Seguros — Pessoas cuidando de pessoas.
1980
Padre Valdir Luiz Koch
O legado da fé
Desde pequeno, Valdir Luiz Koch dava mostras de que seguiria a vocação sacerdotal. Sua devoção, fé inabalável e os frequentes momentos de oração deixavam claro que o menino mantinha uma profunda ligação espiritual com o Divino Mestre. Ainda na adolescência, decidiu dedicar a própria vida ao serviço e à pregação da Palavra de Deus. Há 25 anos, em 29 de junho de 2000, reafirmou seu amor a Deus ao assumir o sacramento da Ordem.
Hoje, padre Valdir preenche seus dias com palavras de acolhimento à comunidade, testemunhando sua fé e sua constante devoção ao Criador.
Valdir Luiz Koch nasceu em 26 de novembro de 1970, nas proximidades do Rio Peperi-Guaçu, em São Miguel do Oeste, Santa Catarina. Filho do mestre de obras Laurindo Emílio Koch, conhecido na região, e de Teresinha Lourdes Koch, desde cedo demonstrou uma fé inabalável. Criado em um lar onde a espiritualidade era presença constante, manteve, desde a infância, uma forte ligação com as coisas de Deus.
Seguindo o propósito de educá-lo de acordo com os valores que cultivavam, seus pais matricularam o pequeno Valdir no Colégio Peperi, mantido pelos Irmãos Lassalistas. Entre 1976 e 1979, ele cursou do 1.º ao 4.º ano do ensino fundamental.
Daquele período, ficaram registradas frases que ecoavam entre professores e familiares: “esse menino vai ser padre!”, “gosta tanto de oração e do ambiente da igreja, temos um futuro padre!”, “que linda a fé desse menino!”.
Com o tempo, porém, Valdir pediu que deixassem de especular sobre seu futuro. Afinal, ainda era criança: queria brincar, jogar bola e… rezar. Em novembro de 1980, Valdir completou dez anos de idade e, naqueles mesmos dias, recebeu o sacramento da Primeira Comunhão.
Na semana seguinte, sua vida passou por uma grande transformação: seu pai, desejando investir no ramo da agricultura, decidiu migrar para o Mato Grosso. O destino escolhido foi a Gleba Sorriso, uma pequena vila que começava a se formar em meio à mata. Convicto, seu Laurindo não teve dúvidas: ali floresceria uma cidade.
O caminhão com a mudança da família Koch chegou à Gleba Sorriso em 29 de novembro de 1980. Ainda naquele ano, Valdir foi matriculado na Escola Estadual Mário Spinelli, onde permaneceu até 1985, cursando do 5.º ano do ensino fundamental (antiga 5.ª série) ao 1.º ano do ensino médio (antigo segundo grau).
Dois anos após a chegada da família Koch, em 1982, a Gleba Sorriso foi elevada à categoria de Distrito de Nobres. Com 12 anos na época, Valdir lembra-se bem da comemoração. Os festejos duraram dois dias. “Era uma época bonita. A cidade ainda não tinha infraestrutura, mas os moradores possuíam um forte espírito de união e uma fé inabalável”, relembra.
No ano seguinte, em 1983, outra comemoração marcou profundamente o coração do menino. A vila celebrava a instalação da Paróquia São Pedro Apóstolo. Em 26 de fevereiro daquele ano, o padre Gaspar José Goldschmidt assumiu a jovem paróquia.
Para recepcionar o novo pároco e o bispo Dom Henrique Fröelich — que, em 1973, havia celebrado a primeira missa católica em terras sorrisenses —, um jipe foi ornamentado e aguardava sua chegada. Uma carreata seguiu desde a altura da BR-163 até a pequena igreja de material, ainda apenas chapiscada.
À porta da igreja, quatro meninas vestidas de anjos aguardavam o padre e o bispo. Entre elas, estava Marisa Beatriz Koch, irmã de Valdir. O menino observava tudo tomado por uma alegria indescritível, um sentimento bom que lhe invadia a alma. Com a paróquia oficialmente instalada, a população celebrou com uma festa que durou três dias. “Foi muito bonito”, recorda.
Posteriormente, sempre ligado à Paróquia, Valdir passou a integrar o grupo de escoteiros fundado pelo padre Gaspar, que utilizava o contraturno escolar para promover encontros e reflexões sobre Deus com as crianças. Valdir destacou-se pelo entusiasmo, chegando a tornar-se chefe da patrulha Falcão.
Em 1985, aproximou-se ainda mais das atividades da Igreja: aos 15 anos, passou a atuar como secretário paroquial. Entre suas atribuições, estava acompanhar o padre nas visitas às comunidades da paróquia, incluindo deslocamentos até as localidades que hoje formam as paróquias Santa Luzia e Nossa Senhora Aparecida, no município de Nova Ubiratã (MT).
Naquele período, os trajetos eram realizados por estradas de chão, de difícil acesso.
“Mas, quando chegávamos às casas, era emocionante. Ainda adolescente, eu via a alegria das pessoas em receber o sacerdote; elas esperavam ansiosas por aquele momento”, recorda.
Ao concluir os trabalhos na Secretaria Paroquial, o jovem costumava dirigir-se à nave central da igreja, onde, diante da imagem de Nossa Senhora Aparecida, rezava diariamente o terço. Em uma dessas ocasiões, sentiu pulsar com mais intensidade uma força interior — um chamado à vida religiosa e ao serviço a Deus.
Ao final daquele ano, comunicou aos pais o desejo de ingressar no seminário. A decisão, já esperada desde a infância em razão de seu comportamento e dedicação, trouxe grande alegria à família, que há muito reconhecia a vocação sacerdotal do filho.
Ainda em 1985, no dia 15 de novembro, recebeu o sacramento da Crisma, em celebração presidida pelo padre João Salarini. Era mais um passo em sua caminhada de fé.
Em 2 de janeiro de 1986, Valdir ingressou no Seminário Menor Maria Mãe da Igreja, em Presidente Prudente (SP). Logo sentiu a diferença em relação aos demais colegas, que já frequentavam o seminário e possuíam contato com línguas como o latim, o grego e o hebraico — áreas com as quais ele ainda não tinha familiaridade.
Por essa razão, o período inicial exigiu-lhe maior dedicação e tempo de estudo. “Eram, no mínimo, dez horas de estudos diários”, recorda. Para alcançar o mesmo nível, precisou renunciar a um de seus passatempos favoritos: o futebol aos domingos.
Foi no Seminário Menor Maria Mãe da Igreja que concluiu o segundo grau. A dedicação valeu a pena: entre os seminaristas ingressantes naquele ano, foi o único a ser aprovado diretamente.
Aquele 1986 também comemorou a emancipação de Sorriso. Com o filho em São Paulo, no Município que surgia, o pai do seminarista assumiu como primeiro presidente da Câmara de Vereadores. Laurindo cumpriu mandato tampão de dois anos entre 1986 e 1988, sendo eleito para um segundo mandato em 1988 para a gestão 1989/1992. Laurindo também foi presidente do Sindicato Rural que dava os primeiros passos na cidade.
Enquanto isso, nas Faculdades Unidas Católicas de Mato Grosso (FUCMAT), em Campo Grande (MS), Valdir dava continuidade aos estudos e à sua formação para o sacerdócio, integrando o Seminário Regional Oeste I–II Maria Mãe da Igreja. Na instituição, cursou Filosofia entre os anos de 1988 e 1990, consolidando mais uma etapa de sua caminhada vocacional.
Já em 1996, Valdir retomou os estudos e reafirmou o caminho para o sacerdócio. Entre 1996 e 1999, frequentou a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), em Porto Alegre (RS). Durante esse período, residiu no Seminário São Lucas, da Diocese de Caxias do Sul (RS). Ainda nesse ciclo de formação, e por incentivo de outros sacerdotes, concluiu uma pós-graduação em Comunicação Social, como especialista teórico, pela Universidade São Francisco, na capital paulista.
O ano de 1999 marcou de forma especial a trajetória de Valdir. Em 18 de dezembro de 1999, foi ordenado diácono na Paróquia Santo Antônio, em Sinop (MT). Logo após, até 28 de junho de 2000, exerceu o diaconato na Paróquia São Pedro Apóstolo, em Sorriso. Em janeiro de 2000, também passou a exercer a função de diretor espiritual do Seminário Maior São João Maria Vianney, em Várzea Grande (MT), cargo que desempenhou até 2005.
Seis meses após aquele dezembro de 1999, em 29 de junho de 2000 — dia de São Pedro Apóstolo —, Valdir recebeu a ordenação presbiteral das mãos de Dom Gentil Delazari, em uma celebração realizada em frente à Paróquia São Pedro Apóstolo, em Sorriso.
A cerimônia reuniu cerca de sete mil pessoas, além de quarenta e dois padres e três bispos: Dom Gentil Delazari, Dom Henrique Fröelich e Dom Canísio Klaus. Padre Valdir foi ordenado com o lema: “Senhor, tu sabes que eu te amo” (Jo 21,17).
Foi o primeiro vocacionado de Sorriso a ser ordenado padre. “Na verdade, havia mais dois jovens que seguiram para o seminário antes de mim, mas desistiram. De modo que sou o primeiro padre ordenado de Sorriso”, explica.
A escolha da data também teve um significado especial. Aos 15 anos, Valdir foi secretário da Paróquia São Pedro; foi vocacionado na mesma paróquia e estudou no Rio Grande do Sul, cujo primeiro nome registrado na história foi Província de São Pedro do Rio Grande. “Era muito Pedro na minha vida, então a escolha da data foi natural”, afirma, sorrindo.
No dia da ordenação, celebrada por toda a comunidade emocionada com a ordenação do primeiro padre sorrisense, Valdir foi nomeado vigário da Paróquia São Pedro Apóstolo, função que desempenhou até março de 2001, quando foi nomeado pároco da mesma paróquia, cargo exercido até fevereiro de 2008.Concomitantemente ao trabalho pastoral, Valdir manteve sua dedicação aos estudos. Em 2002, concluiu a pós-graduação em Psicopedagogia pela Universidade de Cuiabá (UNIC). Em 2006, concluiu a especialização em Direito Canônico Matrimonial pelo Instituto de Teologia de Santa Catarina (ITESC), em Florianópolis (SC).
“Sempre fui aplicado aos estudos e desejava continuar. No entanto, dentro da Igreja desempenhamos diversas funções. Houve um período em que cheguei a exercer sete atividades ao mesmo tempo, e a Igreja precisava de pessoas para servir. Por isso, aguardei o momento oportuno para retomar os estudos. Naquele período, em especial, eu precisava me dedicar integralmente à Igreja”, relata.
Assim que iniciou suas atividades como vigário em Sorriso, o trabalho foi intenso. Ainda em 2001, o então padre Valdir participou ativamente da construção da Igreja Santíssima Trindade, na Gleba Barreiro, em Sorriso. Por ter sido a primeira, a igreja do Barreiro ocupa um lugar especial em sua trajetória. “Sempre me emociono ao lembrar desse tempo”, recorda.
No ano seguinte, em 2002, contribuiu para o início da construção da Igreja São José, no bairro Bela Vista, lançando a pedra fundamental. “Sempre digo que não faço nada, absolutamente nada, sozinho. Todo o meu trabalho é realizado em parceria com a comunidade, com a Diocese de Sinop e com os fiéis leigos que atuam com fervor nessas obras, por meio dos Conselhos Paroquiais”, destaca.
Trabalho nunca faltou. Ainda em 2001, padre Valdir atuou na conclusão da construção da Associação Casa de Apoio Santa Maria, iniciativa iniciada pelo padre João Carlos Minozzo. Inaugurada naquele ano, a instituição passou a oferecer leitos de retaguarda para pacientes em tratamento no Hospital Regional de Sorriso.
Com o lema “Estive doente e me ajudaste” (cf. Mt 25,36), a Casa atende pessoas de toda a região, independentemente de religião. “Nosso compromisso é com a vida humana. Nunca perguntamos a religião dos pacientes; estamos abertos ao acolhimento e ao cuidado para que a saúde seja restabelecida”, reforça.
No local, são oferecidos café da manhã, almoço, jantar, lanches, hospedagem e transporte gratuito ao Hospital Regional, realizado quatro vezes ao dia.
Dando continuidade ao serviço à comunidade, em 2003, padre Valdir fundou e assumiu a presidência da Associação dos Amigos da Criança e do Adolescente de Sorriso (AACAS). Localizada na Rua Peixoto de Azevedo, n.º 2.400, a instituição atende crianças de quatro a dez anos de idade no contraturno escolar, oferecendo acompanhamento pedagógico, psicológico e assistência social.
Por meio da Escola de Música Sinfonia dos Anjos, são ministradas aulas de teclado, violão, bateria e flauta doce, contribuindo para o desenvolvimento cultural das crianças. Mais recentemente, em 2025, a AACAS implantou o Centro Dia, com a finalidade de atender idosos das 7h às 17h. No local, são oferecidos serviços de fisioterapia, acompanhamento de duas cuidadoras, atendimento psicológico e social, além da participação em oficinas de artesanato.
Os frequentadores também recebem café da manhã, almoço e lanches. Para garantir sua manutenção, a Associação realiza a venda de medicamentos fitoterápicos, pães e bolachas artesanais.
Dando continuidade à missão de evangelizar, o padre voltou seu olhar para todos os cantos da cidade e suas comunidades. Em 2004, inaugurou a Igreja Santo Antônio, na Linha Pontal do Verde. Ainda naquele ano, com o apoio da paróquia, foi reinaugurado o Ginásio de Evangelização São Pedro Apóstolo (GESP), espaço que passou a abrigar as celebrações até a conclusão da nova igreja matriz.
Em 2005, o jovem pároco foi fundador e presidente de uma obra especial: a Associação Santuário Nossa Senhora do Sorriso, fundada em 31 de maio de 2005. Padre Valdir conta que uma devota, Maria Salete Somensi, o procurou em 2004 e lhe apresentou a história de Nossa Senhora que auxiliou Santa Teresinha do Menino Jesus na cura da depressão.
Santa Teresinha nasceu em Alençon (França), em 2 de janeiro de 1873, e faleceu em 30 de setembro de 1897, aos 24 anos. Filha de Luís e Zélia, foi a caçula de oito irmãos, criada em uma família de fé e boas condições. Sua história revela um caminho de amadurecimento marcado por sofrimentos: aos quatro anos perdeu a mãe em decorrência de um câncer; depois, viu suas irmãs ingressarem no Convento do Carmelo; mais tarde, precisou separar-se do pai, que desenvolveu problemas psiquiátricos. Por fim, enfrentou a tuberculose e outras enfermidades nos últimos anos de vida
Segundo a história, após a morte da mãe, a menina desenvolveu grande sensibilidade. Passou a viver entristecida, abatida e a chorar com frequência. Porém, aos dez anos de idade, teve uma experiência marcante com Nossa Senhora. No dia 13 de maio de 1883, festa de Pentecostes, de seu leito fitou a imagem da Virgem Maria e, de repente, a imagem lhe pareceu de uma beleza jamais vista. Seu rosto transmitia uma bondade e uma ternura inefáveis, mas o que mais a tocou foi o sorriso encantador da Santíssima Virgem.
A partir desse momento, a menina foi curada da dor e da depressão. Assim, Nossa Senhora recebeu mais um título: Nossa Senhora do Sorriso. Em Sorriso (MT), uma fiel e um sacerdote se debruçaram sobre essa história, fortalecendo a devoção. “Com o título de Nossa Senhora do Sorriso, a Virgem Maria é invocada para a cura da depressão”, destaca o padre.
Essa Associação foi criada com dois objetivos principais: divulgar a devoção a Nossa Senhora do Sorriso e construir uma igreja dedicada a esse mesmo título, fato que se concretizou em 01 de outubro de 2025 com a dedicação desta igreja pelo bispo Diocesano Dom Canísio Klaus.
“Na Igreja Matriz sempre houve uma capela menor dedicada a Santa Teresinha do Menino Jesus”, conta. Intrinsecamente ligada a ela está a história de Nossa Senhora do Sorriso. “Junto com a comunidade, compreendemos a importância de uma igreja dedicada a esse título. Na época, adquirimos uma área de 50 mil metros quadrados, que inicialmente abrigou um pequeno capitel, marcado pelas visitas, missas e pela devoção dos fiéis”, frisa o sacerdote.
“O sorriso de Nossa Senhora dedicado à menina Teresinha aconteceu em 13 de maio, data que, 103 anos depois, coincide com o dia da emancipação de Sorriso. Para nós, fiéis, não é apenas uma coincidência, mas uma providência divina, pois Deus age de maneiras inexplicáveis”, afirma. Enquanto a semente de Nossa Senhora do Sorriso era semeada, o padre continuava empenhado na messe.
Em 2006, foi inaugurada a Igreja São Miguel Arcanjo, no bairro Jardim Alvorada. “Sorriso era uma comunidade em formação...”, recorda o sacerdote. Ainda naquele ano, participou da inauguração da Igreja Nossa Senhora do Carmo, na Linha Tropical.
O mesmo ano também foi marcado por outra grande obra: a inauguração do Centro Catequético Divino Mestre, localizado na região central da cidade. “Tudo começa pela catequese, nela a Palavra de Deus prospera no meio das crianças”, salienta.
Também em 2006, o pároco sorrisense participou de um projeto especial: a instalação da Escola das Religiosas da Instrução Cristã (RCI) em Sorriso (MT). Foi cofundador da Escola Regina Coeli, nome por ele sugerido, e acompanhou o projeto desde a implantação da pedra fundamental.
As Religiosas da Instrução Cristã possuem o carisma de revelar a face de Cristo Educador aos jovens. Com presença em 14 escolas no Brasil, abraçam o propósito de educar para inspirar pessoas e transformar o mundo. Impulsionado por esse carisma, o instituto bicentenário tem a missão de formar a pessoa humana com base em valores cristãos, éticos e acadêmicos, de forma participativa e comprometida, encarnando a face atual do Cristo Educador na construção de uma sociedade mais justa e sustentável.
“Participei desde o começo, ainda na implantação da pedra fundamental. A irmã Fabiana Maria, superiora provincial, pediu que eu sugerisse um nome para o colégio. Pensei em Regina Coeli, Nossa Senhora como Rainha do Céu. Em Sinop (MT) temos o Regina Pacis — Rainha da Paz — e, em Maringá (PR), o Regina Mundi — Rainha do Mundo. Aqui, temos a Rainha do Céu”, conclui, sorrindo.
Em 2007, coordenou a construção da Igreja Nossa Senhora Aparecida, no bairro São José.
Em fevereiro de 2008, Padre Valdir — o menino catarinense que dedicou a vida à evangelização no Mato Grosso — recebeu o Título de Cidadão Sorrisense, concedido pela Câmara Municipal de Vereadores. Na sequência, atendendo ao chamado do bispo diocesano Dom Gentil Delazari, assumiu a Paróquia Catedral Sagrado Coração de Jesus, em Sinop, onde permaneceu até agosto de 2012.
Durante seus anos de devoção e trabalho na Diocese de Sinop, atuou como presidente da Câmara de Instrução Processual entre 2010 e 2012. Também foi membro do Conselho dos Presbíteros e do Conselho dos Consultores. Além disso, exerceu a função de diretor do jornal impresso da Diocese, Sagrado Coração de Jesus, em Sinop, e foi vigário foranial, nas Foranias de Sinop e Vera (MT).
Em setembro de 2012, motivado pelo desejo de aprofundar seus estudos, foi liberado por Dom Gentil para frequentar o Colégio Pio Brasileiro, em Roma, na Itália, onde cursou dois anos do Mestrado em Teologia Bíblica na Pontifícia Universidade Gregoriana. “Foi um período de profundo silêncio, contemplação, devoção e muito estudo”, destaca.
Ao final de 2014, em dezembro, enfrentando um quadro de estafa mental, optou por não concluir o mestrado e retornar ao Brasil. Naquele mesmo mês, reassumiu a função de pároco da Paróquia São Pedro Apóstolo. Em 2016, passou também a exercer o cargo de presidente da Câmara de Instrução Processual da Diocese de Sinop, função que ocupa até os dias atuais.
Com o retorno a Sorriso como pároco, em 2015 foi retomado o sonho da construção da igreja dedicada à Nossa Senhora do Sorriso. No mesmo ano, teve ainda a alegria de inaugurar o Centro Catequético Nossa Senhora de Guadalupe, no bairro Pinheiros II.
Em 2017, foi inaugurada a Secretaria Paroquial da Paróquia São Pedro Apóstolo. “A secretaria foi uma obra muito planejada. Até então, funcionava em anexo à Igreja Matriz. No entanto, a Matriz passou a apresentar falhas estruturais no telhado, com risco de comprometimento da edificação. Após reuniões com a comunidade e avaliações técnicas, optamos por demolir a antiga igreja e iniciar uma nova construção”, explica o padre.
Ele recorda que Sorriso teve, ao longo de sua história, uma pequena igreja em alvenaria que também precisou ser derrubada. “Por muitos anos foi uma igreja apenas chapiscada, entre 1981 e 1991, quando foi reformada pelo padre João Carlos. Foi nesse período que também foi criada a capela dedicada a Santa Teresinha do Menino Jesus. Ao longo do tempo, o prédio passou por várias reformas, mas já não comportava novas intervenções, principalmente na estrutura do telhado e nos pilares, que exigiam mudanças profundas”, ressalta.
Em 2018 deu-se início à construção da Igreja Rainha da Paz, fruto da dedicação dos fiéis no Arraiá da São Pedro. Ela foi concluída e dedicada no ano de 2020.
A evangelização em todos os bairros sorrisenses sempre foi uma meta constante na missão de Padre Valdir. Em janeiro de 2021, um de seus grandes sonhos começou a se concretizar com o lançamento da pedra fundamental da Igreja Nossa Senhora do Sorriso, no bairro Mont Serrat.
Esse mesmo espírito de renovação e crescimento da fé também motivou a reconstrução da Igreja Matriz São Pedro Apóstolo. A antiga matriz, que tinha capacidade para cerca de 800 fiéis, já não comportava a comunidade nem atendia às exigências estruturais. Após avaliações técnicas e reuniões com a comunidade, amadureceu-se a decisão de iniciar uma nova construção no mesmo terreno. A nova Matriz, projetada para acolher mais de duas mil pessoas em sua nave principal, contará ainda com uma capela especial dedicada a Santa Teresinha do Menino Jesus.
“Era preciso melhorar a Casa de Deus. Quando cheguei, as casas da cidade eram de madeira, pequenas. Com o tempo, tudo foi sendo melhorado e a paisagem urbana mudou. Também era hora de renovar a Casa de Deus.” Afirma.
Em 2022, Padre Valdir inaugurou o Centro de Evangelização Sagrado Coração de Jesus, no bairro Rota do Sol. Já em 2023, foi a vez do Centro Catequético Santíssima Trindade, na Gleba Barreiro.
O ano de 2024 marcou a abertura de dois novos espaços de formação: o Centro Catequético Santa Catarina de Alexandria, no bairro Jardim Kaiaby, e o Centro Catequético Sagrado Coração de Jesus, também no bairro Rota do Sol.
O ano de 2025, em que comemorou 25 anos de ordenação sacerdotal, foi especialmente significativo para Padre Valdir. Nesse período, concluiu o mestrado em Direito Canônico pelo Pontifício Instituto Superior de Direito Canônico — extensão da Pontifícia Universidade Gregoriana (Roma) — em Londrina (PR).
Como trabalho final, apresentou a dissertação intitulada A relevância do bonum coniugum desde a perspectiva personalista da atual codificação latina. Com a conclusão do curso, passou a integrar o Tribunal Eclesiástico Interdiocesano do Estado de Mato Grosso, assumindo a função de juiz adjunto.
“A função que desempenhamos no Tribunal é avaliar pedidos de nulidade matrimonial. O objetivo da nulidade é curar feridas e possibilitar a celebração de um matrimônio válido, por meio do qual o casal possa buscar sua santidade e salvação.” Explica.
“Cada caso precisa ser profundamente e minuciosamente analisado e deve partir da vontade de um dos cônjuges em regularizar sua situação diante da Igreja.” Acrescenta.
O trabalho desenvolvido em nome da fé rendeu a Padre Valdir reconhecimento e estima da comunidade. Em abril de 2025, recebeu o Certificado de Distinção Honorífica de Autoridade Eclesiástica, concedido pela Câmara Municipal de Vereadores de Sorriso (MT).
No mês seguinte, em maio, foi agraciado com o Título de Cidadão Mato-grossense, concedido pela Assembleia Legislativa do Estado de Mato Grosso, por meio da Resolução n.º 10.030, de 15 de maio de 2025.
Com 25 anos de sacerdócio, celebrados no dia de São Pedro Apóstolo, o outrora menino dedicado à vocação e à oração segue desenvolvendo um trabalho diário voltado à evangelização de seu rebanho, por meio da celebração da Eucaristia e dos demais sacramentos.
Entre os anos de 2000-2008 e 2015-2025, somente na Paróquia São Pedro Apóstolo, celebrou 3.913 batismos. Outros 400 foram realizados na Catedral Sagrado Coração de Jesus, em Sinop, entre 2008 e 2012. Ao todo, são 4.313 batismos.
No mesmo período, Padre Valdir celebrou 8.345 Primeiras Eucaristias, todas em Sorriso. Além disso, assistiu a 788 matrimônios no município e a outros 81 em Sinop (MT), totalizando 869 casamentos celebrados. Esses números expressam, em dados concretos, uma missão marcada pela dedicação, pelo serviço e pelo amor à Igreja.
Neste mesmo período coordenou a construção de dez igrejas, sete centro catequéticos, dois centros de evangelização e uma secretaria paroquial.
“É uma vida de entrega e compromisso com Deus e com a comunidade. Escolhi servir. Há 25 anos celebro diariamente essa escolha, pautada no amor a Deus. Percorreria todos os caminhos novamente para continuar na missão”, emociona-se o padre.Seu lema de vida traduz-se nas palavras que escolheu no momento do sacramento da Ordem: “Senhor, tu sabes que eu te amo” (Jo 21,17).
1980
Sorriso em Construção: Saúde, Trabalho e Sonhos dos Pioneiros
- A Lei Municipal nº 4.728, sancionada em 13 de maio, criou oficialmente o distrito de Sorriso, ainda vinculado ao município de Nobres. A medida reconheceu o crescimento da região, organizando sua estrutura administrativa e facilitando a implantação de serviços públicos. Essa etapa foi fundamental para a emancipação de Sorriso, que se tornou município em 1986.
- Os médicos Carlos Frison e Derly Simão fundaram o Hospital e Maternidade Nossa Senhora de Fátima, que iniciou suas atividades com um importante papel na saúde local. No primeiro ano de funcionamento, a instituição atendeu a 320 pacientes e realizou 21 partos, marcando um início promissor na assistência à saúde da comunidade.
- O processo de mecanização agrícola na região da Gleba Sorriso teve um marco importante com a chegada de Ignácio Schevinski, que trouxe a primeira plantadeira de soja. Esse feito representou um avanço significativo nas técnicas de cultivo da época, permitindo maior eficiência no plantio e incentivando outros produtores a adotarem tecnologias agrícolas modernas.
- O casal Auti e Angelina de Bona deixou Santa Catarina após vender seu restaurante, com o objetivo de investir na nova região da Gleba Sorriso. Com espírito empreendedor, construíram o Hotel São Miguel, o primeiro da localidade, oferecendo hospedagem aos pioneiros e trabalhadores que chegavam em busca de oportunidades.
- Gerhard Divo foi responsável por abrir a primeira oficina mecânica da região da Gleba Sorriso, em um período em que o povoamento e a atividade agrícola ainda estavam em fase inicial. Sua oficina prestava serviços essenciais de manutenção e conserto de tratores, caminhões e outros maquinários agrícolas, fundamentais para o desenvolvimento das lavouras e o escoamento da produção.
- Na década de 1980, é fundado o "São Paulo Futebol Clube" de Sorriso, sob a presidência de Egídio José Preima (in memoriam). A equipe se destacou no cenário esportivo regional, conquistando diversos campeonatos e realizando amistosos com grande repercussão.
