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1982
Edson e Celia Melozzi
“Ele se construiu do zero”
A afirmação não é da Fator MT. A frase entre aspas pertence a Celia Rodrigues Melozzi, que de forma suscinta conseguiu resumir a história de um jovem de 21 anos de idade, que chegou em Sorriso de carona, com 50 Cruzados emprestados no bolso, na esperança de ocupar uma vaga de emprego como vendedor de veneno, que tinha sido prometida ao seu primo.
“Self-made man”! Esse é o termo em inglês utilizado mundo afora para se referir a pessoas que se fizeram por si mesmas, construindo uma trajetória de sucesso com seus próprios méritos, sem a ajuda de riqueza herdada, conexões familiares ou vantagens iniciais. Ou seja: alguém que se construiu do zero. Ao longo da mesma história que fez o Norte de Mato Grosso ser um celeiro de grãos, a região também produziu uma safra de “Self-made men”. Algumas mais emblemáticas que outras. E a régua nesse caso valoriza quem começou com menos.
E o que pode ser menos do que chegar em um estado desconhecido, onde você não conhece ninguém? Acrescente à equação o fato de ter chegado de carona e com apenas 50 Cruzados no bolso, que se diga, de passagem foram pegos emprestados com um amigo. O propósito dessa viagem com mais de 1,6 mil quilômetros longe de casa era tentar barganhar uma vaga de emprego que havia sido prometida ao seu primo. Não era uma vaga de desembargador! Era uma vaga para ser “vendedor de veneno”, mais ou menos isso.
É assim que começa a trajetória do self-made man, Edson Melozzi, patriarca e fundador do Grupo Melozzi, um conglomerado empresarial com mais de 10 mil hectares de área plantada, mais de 6 mil cabeças de gado, armazéns, transportadora, loteamentos, indústria de ração, restaurante e uma pequena frota de aviões.
Seu sucesso econômico está diretamente ligado à atuação que teve junto ao agronegócio, colaborando no desenvolvimento desse que é o pilar do progresso no Nortão. Mas talvez seu maior patrimônio seja ser descrito pela sua esposa, com quem está casado há 36 anos, como “um homem de garra que se construiu do zero”.
Para entender o mito é preciso conhecer a lenda. Mas a origem dessa história é tão trivial como os grãos de soja que caem na beira da BR-163 durante o transporte: esquecidos, comuns, com ânsia de germinar, mas sem um solo fértil ao seu alcance.
Edson era uma entre as muitas crianças nascidas na década de 60, no interior do Sul do país, em uma família de pequenos agricultores que tentavam sobreviver com um curto espaço de terra.
Ele era o segundo dos 4 filhos de José Domingo Melozzi e Helena Camilo Melozzi. Edson nasceu no dia 28 de dezembro de 1967, mas só foi registrado no dia 2 de janeiro de 1968.
Quase 100 anos antes, seu “xará”, Thomas Edison, havia patenteado a lâmpada. Mas no sítio onde nasceu, no distrito de Vidigal, no interior de Cianorte (PR), sequer havia energia elétrica – a eletrificação só chegou em 1983.
José, Helena Melozzi e seus filhos viviam em uma propriedade de 9 hectares. Eram meeiros da terra que pertenciam ao pai de Helena. Nesse chão plantavam café, como quase todo paranaense da época. Entre as carreiras dos cafezais, semeavam arroz, feijão e abóbora. Não havia mecanização. As sementes eram cravadas no solo com a matraca.
A terra era arada com tração animal e a pulverização era feita com bombas costais. Era tudo no braço. Quantos mais braços para trabalhar, mais tinha na mesa para comer.
Com 7 anos de idade Edson já ia para roça. O estudo era em uma escola rural, que ficava a 3 quilômetros de distância do sítio.
Foi nessa época, em 1975, que uma forte geada praticamente dizimou os cafezais em toda região, dando início a um período de escassez. O grão era a principal fonte de renda para os agricultores do Paraná.
Com os cafezais abatidos pelo frio, a família partiu para culturas mais ligeiras, como o arroz e o milho, a fim de garantir a subsistência.
O trabalho no campo era árduo, mas o esteio familiar era sólido e calmo.
Com 17 anos de idade, Edson foi para Santa Cruz do Rio Pardo, interior de São Paulo, para estudar. A ideia não era nova. Seu tio, Mauro Melozzi, havia feito a mesma trajetória antes.
Edson foi matriculado na Escola Maria Joaquina do Espírito Santo, um internato em formato de escola agrícola, onde morava e estudava. Ele passou 3 anos na instituição, voltando a cada 3 ou 4 meses para ver a família.
No educandário recebeu lições de agronomia a agropecuária. Cada aluno recebia um setor da “Escola Fazenda” para cuidar. Edson pendeu para a pecuária, sendo encarregado de cuidar dos suínos e dos aviários.
Sair da roça e estudar foi a forma que Edson encontrou para buscar uma vida menos sofrida. Afinal, a caneta pesa menos que a enxada.
Quando, enfim, concluiu sua formação, não tinha caneta nem enxada. O interior do Paraná não era um exemplo de abundância de emprego nos idos de 1988. Edson oferece seus serviços de técnico agrícola na região, mas não consegue nenhuma vaga.
De volta para casa encontra a família se debatendo, tentando produzir algodão na unha, em uma terra arrendada. “A gente plantava mandioca e colhia pepino. Nada dava certo. Só prejuízo”, conta Edson.
Para agravar a situação, nesse meio tempo o avô de Edson, pai de sua mãe, morreu. Na partilha das terras, a família ficou com 2 hectares. Se os 9 hectares de antes eram pouco para o casal e seus 4 filhos, com uma fração disso a subsistência estava comprometida.
“Não havia nenhuma perspectiva lá no Paraná. Eu precisava trabalhar. Não tinha como continuar lá”, desabafa Edson.
A terra onde cresceu não era mais capaz de lhe prover. No seu entorno, nenhuma oferta pelos seus estudos. Edson, que nasceu e cresceu durante a Ditadura Militar, presenciava o momento da redemocratização brasileira desejando apenas falar um “sim” para qualquer proposta de emprego. E ela veio de um lugar bem inusitado.
O primo Ederaldo havia estudado no mesmo colégio agrícola, mas acabou fazendo umas matérias “extraclasse”. O primo tinha uma namoradinha que acabou se mudando com a família para Sorriso. O pé não quis ficar longe da semente e logo tratou de conseguir uma vaga de emprego para o amado no cerrado mato-grossense.
Paixões à parte, Ederaldo não topou, mas comentou com Edson sobre a vaga de técnico em agropecuária no fim do mundo. Edson abraçou a oferta como se fosse a última prenda no mundo.
Uma parte importante de contar a história dessas pessoas que partiram rumo a um território inóspito, cheias de esperança, é tentar explicar o que as motivou.
Olhar o hoje, com sucesso e fortuna, é avaliar a obra pronta. Mas há 30 ou 40 anos não havia qualquer indicação que essa vida de privações renderia frutos.
Por que Edson, um jovem de 21 anos de idade, depositaria os melhores anos da sua vida em um dos piores lugares do Brasil naquela época?
A resposta é uma mescla de necessidade com tola esperança.
Edson narrou à Fator MT, com certo entusiasmo, uma lembrança sua, ainda jovem, de uma propaganda da CBT (Companhia Brasileira de Tratores). O material publicitário trazia um largo campo sendo arado por tratores com um sol especialmente marcante ao fundo. Ou como conta Edson: “um sol encantador”.
Pode parecer tolo, mas para um menino que cresceu no campo, plantando com matracas, colhendo na mão e por vezes sendo surpreendido pelo frio, ver máquinas lavrando sob um tórrido sol era um vislumbre de esperança.
“E sempre que eu via esse anúncio eu pensava que o Mato Grosso era assim”, revela Edson.
Com a desistência de Ederaldo, Edson se ofereceu para ocupar a vaga. Para conseguir viajar, precisou pegar 50 Cruzados Novos emprestados — valor significativo, considerando que o salário-mínimo da época era de 63 Cruzados Novos, ainda que sob padrões bem diferentes dos atuais.
Em 15 de janeiro de 1989, um caminhão Mercedes-Benz 1313, vermelho, partiu de Cianorte rumo ao Norte de Mato Grosso. Na carroceria, seguia um Ford Willys F-75 azul; na cabine da picape, viajava Edson, que vinha literalmente como a carona da carona.
Edson só conhecia Sorriso pelo nome. A cidade emancipada há menos de 3 anos tinha algo em torno de 10 mil habitantes. Nenhum que Edson pudesse conhecer. Sua única referência era a empresa que teria ofertado uma vaga de emprego que seria ocupada pelo seu primo. É nela que Edson vai. Essa empresa era a Terra Forte, de propriedade de Paulo Roberto Ferreira, uma revenda pequena que estava começando.
Edson ganha o emprego e de quebra um espaço na casa do patrão para se estabelecer. Sem nada, na primeira noite em Sorriso Edson tinha um emprego e um teto, ainda que provisório.
A Terra Forte era uma empresa de insumos agrícolas. Edson foi contratado como técnico agrícola para vender semente de soja, arroz, calcário e adubo. Ele fazia a venda e as entregas. Carregava e descarregava os caminhões; às vezes até varria o chão. Praticamente um faz-tudo. “Vendia pouco defensivo agrícola na época”, conta Edson.
O holerite era bom: pouco mais de 4 salários-mínimos e meio. Mas para receber era preciso trabalhar um mês. “Eu tinha um sapato quando cheguei, e ele furou no primeiro dia. Fiquei um mês andando com o pé molhado. Era fevereiro, chovia muito. Quando recebi o primeiro salário, comprei uma botina”, lembra Edson.
E demorou muito para Edson tirar a botina do pé. O pisante se tornou parte da indumentária do jovem explorador. Montado na Fiat Fiorino vermelha da firma, Edson percorria as propriedades para vender e prestar assistência aos produtores.
No cerrado recém-desbravado via que todas as terras tinham tratores, bem diferente das roças do Paraná. “Se não der certo como vendedor, eu viro operador de trator, pensei”, revela Edson.
A “roça” de Sorriso no ano de 1989 era bem diferente. Segundo Edson, as lavouras do município somavam cerca de 80 mil hectares – pouco mais de 10% da proporção atual. A maioria eram pequenas propriedades, com 100 a 200 hectares plantados.
O jovem agrônomo arregalava os olhos com as propriedades mais vistosas da época, como de Darcy Potrick com 1,2 mil hectares, ou mesmo com as terras de Léo e Argino Bedin, com 800 hectares.
“Eu via lavouras enormes como ainda não havia visto, de grandes produtores. Ia até eles para negociar e era bem recebido. Isso é algo que me marcou. Desde o começo fiquei admirado com o acolhimento que recebi de todas as pessoas em Sorriso. Nunca tive uma retaliação por ser uma pessoa com poucas condições financeiras”, desabafa Edson.
O hoje empresário diz que Sorriso tinha uma “energia diferente”.
Mas na prática não tinha energia nenhuma. A única faísca de eletricidade que corria nas casas vinha de velhos motores a diesel, que ficavam ao lado do antigo Hotel Nacional. A “luz” movida a óleo funcionava das 16h às 22h e costumeiramente falhava. Água, só de poço.
Quando faltava energia, as casas ficavam sem água. “Nesses primeiros meses de Sorriso eu trabalhava até anoitecer. Corria as propriedades e voltava para casa no final do dia. Tudo era trabalho. Às vezes chegava em casa e não tinha água na caixa, porque faltou energia. Tinha que ir ao Posto Sorrisão tomar banho, para pelo menos tirar a poeira do corpo. Eu voltava para casa coberto de pó das estradas”, relembra Edson.
Aos 21 anos de idade, Edson trabalhava na Terra Forte e morava com o patrão. O trabalho dignifica o homem, mas o espírito precisa de mais.
A Sorriso de 1989 estava longe de ser um centro de atrações, mesmo para quem nasceu no final da década de 60. Tudo era precário. Se quisesse falar com a família, Edson teria que disputar espaço na única cabine de telefone que havia na cidade.
Para piorar, em Vidigal, onde sua família morava, também havia um único posto telefônico: ambos com uma fila interminável.
Mas as melhores coisas são encontradas em uma busca despretensiosa. Edson ainda estava se ambientando a Sorriso. Tirando seus clientes e colegas de trabalho, restava zero conhecidos.
Então decidiu fazer uma visita a tal namoradinha do seu primo, que de um jeito ou de outro acabou desencadeando toda essa história. E essa menina, cujo nome já se perdeu, acabou gerando a segunda oportunidade certeira na vida de Edson.
O antigo afeto do primo tinha uma vizinha. E ela se chamava Célia Rodrigues.
Filha de agricultores, Célia nasceu em Caarapó (MS), no ano de 1965. Ela é a quinta de 9 irmãos. Sua família plantava café em uma propriedade de 20 hectares.
No ano de 1985, seus pais vieram para Sorriso em busca de mais terras, negociando a pequena propriedade por uma área maior. Célia acabou não participando dessa migração. Ela ficou em Dourados, onde cursava o Ensino Médio, morando com um dos seus irmãos. Nessa época chegou a trabalhar em uma farmácia “natural”, que comercializava produtos fitoterápicos, desenvolvidos por um médico naturalista do Rio de Janeiro. O ofício despertava seu interesse, tanto que atuou na farmácia por 3 anos.
Mas em 1987, quando o ensino médio terminou, seu pai foi lhe buscar para se juntar à família em Sorriso. “A família sempre foi muito unida. Tanto que dos 9 filhos, 7 vieram para Sorriso. Meu pai foi me buscar porque acreditava ser perigoso uma mulher fazer essa viagem sozinha”, conta Célia.
A jovem saiu de uma cidade devidamente urbanizada para um local sem nada. Mas ela diz que nada a perturbou. Nem o calor.
“A gente vai se acostumando”, comentou. Como havia trabalhado em uma farmácia por 3 anos, Célia ficou feliz quando recebeu um convite para trabalhar como secretária no Hospital de Sorriso, assim que chegou. Parecia estar na mesma área. Só parecia.
Assim que ingressou no novo ofício, se deparou com uma nova realidade da saúde. Um hospital precário, com doentes de toda sorte, incluindo acidentados das madeireiras – comuns na época.
No tumulto do atendimento, logo percebeu que sua função ia além das atribuições de secretária. Mal cabendo, estava prestes a atender toda sorte de mazelas dos pacientes recepcionados pelo hospital. Era uma missão nobre, mas que não cabia para ela.
Uma semana depois Célia largou o emprego no hospital. Seu irmão trabalhava no Bamerindus – um banco conhecido da época – e a indicou para uma vaga no Bradesco, onde trabalhou por 5 anos. “Todas as transações eram no cheque ou no dinheiro. E para fazer a contabilidade era na ponta da caneta, enviando os malotes para Cuiabá ou Campo Grande”, conta Célia.
Naquele dia de fevereiro em que Edson foi visitar a namoradinha do primo, Célia já trabalhava no banco. Também já tinha ouvido sua vizinha comentar sobre o agrônomo que havia chegado do Sul. O terreno, por assim dizer, já estava semeado — e o encontro dos dois só confirmou isso: encontraram-se para nunca mais se separar.
Eles se conheceram em fevereiro e, em setembro, já estavam casados. Edson provavelmente ainda pagava as prestações da botina que havia comprado. Mas a pergunta permanece: por que Célia decidiu embarcar nessa história?
A resposta é comovente: “Eu vi desde o começo que ele era um homem de garra, alguém com coragem e força. O Edson não tinha nada e se construiu do zero”, declarou Célia.
Edson havia achado uma companheira e tratou de preservá-la. Nos dias seguintes ao primeiro encontro, fazia questão de ir ao caixa do Bradesco “trocar cheques”.
Como ele mesmo conta, nessa época havia 15 homens em Sorriso para cada mulher. A maioria das pessoas vinha à nova cidade para trabalhar, e essa massa operária era formada de homens. Incluindo Edson. Deus tem seus favoritos.
Célia e Edson se casaram e, em fevereiro de 1990, nasceu Celimara. A precariedade da estrutura de saúde local, que Célia já havia presenciado de perto, gerava insegurança. Além disso, o hospital da cidade impunha várias restrições ao plano de saúde da família. Por isso, o casal decidiu que o parto seria realizado em Sinop.
Mesmo na cidade vizinha, porém, o acompanhamento pré-natal não foi completo. O médico responsável não solicitou o exame de toxoplasmose — doença transmitida por gatos e outros felinos, capaz de atingir o feto, mas tratável durante a gestação. Devido a essa negligência, Celimara nasceu com um problema ocular.
Com duas bocas para sustentar, o self-made man, intensificou o ritmo de trabalho para seguir se moldando à própria força.
Em 1991, recebeu uma proposta da Agro Amazônia — uma grande distribuidora de insumos agrícolas fundada em 1983, em Cuiabá, e que, na época, buscava expandir sua clientela para o Nortão. Edson foi contratado como funcionário da região de Sorriso, mas sua tarefa era pegar a estrada. Como ferramenta tinha uma picape Saveiro, uma pasta com os itens e preços, a cara e a coragem.
A Agro Amazônia sequer tinha uma loja em Sorriso. A meta estabelecida era vender 300 mil dólares em insumos naquela safra. Edson vendeu 800 mil dólares.
Frente ao resultado, a empresa montou uma unidade na cidade de Sorriso em 1992.
Edson atendia Sorriso, Lucas do Rio Verde, Nova Mutum, Tapurah e Sinop. Ele estava voando. Atendia muitos produtores e vendia tanto quanto. Nessa corrida por conquistar a clientela do campo, disputava com Ângelo Maronezzi, um jovem vendedor que trabalhava na concorrente Agro Rural.
Foram 3 anos duelando para saber quem era o melhor, em uma espécie de Romário e Roberto Baggio da Copa de 94.
Nos idos de 1995, a Dow AgroSciences, multinacional referência em defensivos agroquímicos, queria estabelecer uma revenda em Sorriso, mas exigia exclusividade. A primeira oferta foi para a Agro Amazônia, que não quis renunciar às marcas que já representava. A empresa acabou recusando a Dow.
Foi uma oportunidade passando na frente de Edson. Mas faltava cacife para bancar.
Sozinho não dava. Mas talvez desse para formar um elenco para competir. Edson e Ângelo se unem e encontram um terceiro sócio, com capital para garantir as compras que seriam necessárias e iniciar a operação. Com Décio Locatelli, um produtor rural de Sorriso, os dois vendedores abrem a Agro Norte, revenda autorizada Dow AgroSciences.
Tanto Edson, quanto Ângelo eram “peões” — trabalhadores dedicados, porém de poucas posses. Edson lembra que um ex-patrão costumava dizer que tinha curiosidade em ver o que “dois burros” seriam capazes de fazer puxando a mesma carroça.
A metáfora era evidente: os dois, vistos como animais de carga, vendiam insumos e atendiam produtores, mas sempre atuaram como concorrentes. A dúvida era inevitável: o que aconteceria se esses dois brutos finalmente puxassem para o mesmo lado?
Cada um dos “burros” pegou um carro de Décio e foi para a estrada. Em Sorriso, montaram um pequeno escritório de apenas 25 metros quadrados na Avenida W2.
A carroça traçada atropelou o mercado. No primeiro ano, Edson e Ângelo fizeram a Agro Norte vender 1,3 milhão de dólares em insumos. Além da Dow, entram no portfólio da nova empresa a ICI Seeds (Syngenta), a Agroceres, Adubos Manah e Monsanto.
E com um ano de atividade, em 1996, eles deixaram a portinha de 25 metros quadrados e abriram uma loja nova na BR-163.
Em meados de 1997, Décio pediu para deixar a sociedade. Temeroso, o sócio patrimonial se assustou com o volume de vendas que a carroça traçada promoveu – e que de certa forma teria que ser calçada pelo seu patrimônio.
“O fato é que a Agro Norte nunca cancelou um pedido com nenhum produtor”, revela Edson.
A empresa dos dois “burros”, não estava tendo sucesso, porque navegava em um horizonte sem competidores. Na época, operavam em Sorriso outras empresas de insumos como a Jabur, Chacrinha, Rossato, Campo Bom, Casa Rural, Agrofel, Flamboyant e a própria Agro Amazônia, catapultada por Edson.
Nessa fase da atividade, Sorriso contava com pouco mais de 140 mil hectares de lavouras consolidados.
A soja começava a despontar através das variedades Doka e Cristalina – a primeira desenvolvida pela Embrapa ainda na década de 80 e a segunda, do mesmo período, desenvolvida pela FT Sementes.
Ambas cultivares foram desenvolvidas para o Cerrado e ajudaram a consolidar a sojicultura no Médio Norte de Mato Grosso. “Era um tempo diferente. Os agricultores faziam duas aplicações na lavoura, uma contra lagarta e outra contra percevejo. Não fazia fungicida. Hoje são 5 aplicações.
Além disso, toda a soja era escoada pela BR-163 para o Sul, até o Porto de Paranaguá, com caminhões truck”, conta Edson.
Em junho de 1997, a Agro Norte abre sua primeira filial, em Sinop. No ano de 1998 eles expandem a sociedade para ir além de vender insumos. Edson e seu sócio constroem um armazém com capacidade para 400 mil sacas de arroz, com um secador e duas pré-limpezas.
No mesmo ano, o irmão de Ângelo, José Maronezzi, entrou na sociedade para ajudar a administrar a Fazenda Cabana, de 2,6 mil hectares, comprada pela Agro Norte onde seria plantado arroz. O plano não era fazer comida. Era fazer semente.
Em 1999, eles estabelecem a Agro Norte Pesquisas e Sementes. A empresa recupera um banco de germoplasma que anteriormente pertencia à Cooperlucas, de Lucas do Rio Verde.
Nesse “banco” havia amostras de materiais genéticos que guardavam as características de algumas espécies de vegetais. Entre elas o Cirad-141, variedade de arroz adaptada ao plantio em terras altas (sequeiro), conhecida por sua rusticidade.
O grão “pé-de-boi” foi semeado na segunda safra da Fazenda Cabana, que passou a multiplicar o material genético que seria empacotado na primeira bolsa de sementes com o rótulo Agro Norte.
A empresa, pioneira em pesquisa e desenvolvimento de cultivares de arroz no Norte do Mato Grosso, anos depois desenvolveria variedades que manteriam a rizicultura na região para além da abertura de áreas, como o popular Cambará e a atualmente mais usada ANA 8001.
As variedades de arroz multiplicadas pela Agro Norte ajudaram a abrir o Cerrado nos arredores de Sorriso com viabilidade econômica.
Embora os negócios estivessem cadenciando para mais ao Norte e suas filhas terem todas nascidas em Sinop, Edson só se muda de Sorriso no ano de 2000.
Nessa época, a filha Celimara estava com 10 anos de idade, Marcos, o segundo, com 8 anos de idade e Gabrieli, a caçula com 5 anos.
A engenharia com as sementes era a paixão de Maronezzi. Melozzi apoiava, mas o “pé-de-boi” que ele gostava era o do bovino.
A pecuária estava em seu trato desde o colégio. Em 2002 ele compra uma propriedade de 10 mil hectares localizada em Tabaporã. Nela estabelece a Fazenda Santa Fé para criação de gado.
Edson adquire matrizes e reprodutores, montando um sistema de cadeia fechada, criando os bezerros, multiplicando plantel e fazendo engorda.
Em alguns anos acumula um rebanho de 6 mil cabeças de gado.
Para complementar a alimentação do seu rebanho, ele começa a fabricar rações com um moedor de grãos instalado na propriedade. A princípio era para suprir o consumo da sua fazenda, até que outros pecuaristas começam a pedir sua ração.
Vendedor nato, vê na situação uma oportunidade. Em 2008 ele funda a Agro Norte Nutrição Animal, fabricando rações para bovinos semiconfinados.
No mesmo ano, a Agro Norte se afastou de sua atividade original. A empresa, que havia surgido com dois vendedores especializados em defensivos agrícolas, encerrou a comercialização de agrotóxicos em 2008.
Com Ângelo dedicado ao desenvolvimento de sementes e Edson concentrado na pecuária, a “carroça traçada” já não contava mais com nenhum dos dois para puxá-la.
Não demorou para que ambos se desvinculassem de vez.
Em 2013, a dupla encerrou a sociedade: Ângelo permaneceu com o negócio de sementes, enquanto Edson apostou na empresa de nutrição animal.
“Fizemos o distrato da sociedade em um único dia. Cada um ficou com a parte da empresa que já administrava. Nós dois crescemos com a separação”, relata Edson.
Apostar na pecuária e nos negócios diversificados mais perto do seu alcance não foi apenas uma estratégia comercial, mas também familiar.
Desde 2004 Edson tratou de trazer seus entes familiares para o Norte de Mato Grosso, mantendo um ritmo de progresso, mas também de realização pessoal, com as pessoas que lhe são caras por perto.
Nos anos seguintes, Edson adquiriu um Centro de Eventos em Sinop. Ele também montou uma sociedade para implantar o Ditado Popular, barzinho tradicional de Cuiabá, no centro de Sinop.
Em 2021, comprou em sociedade um segundo Centro de Eventos. Ambos devem se tornar um loteamento em breve.
Na agricultura, Edson iniciou a produção de algodão em 2021, em uma área de 330 hectares. Já na safra de 2025, essa extensão alcançou 2,1 mil hectares.
Em 2022, fundou a Melozzi Transportadora, criada para suprir as próprias demandas logísticas, com uma frota de 28 caminhões.
No mesmo ano, a marca que ajudara a construir foi definitivamente abandonada: todos os negócios de Edson passaram a integrar o Grupo Melozzi, que se tornou a identidade principal do conglomerado.
Ainda assim, um traço da empresa que nasceu representando a Dow permanece na Agro Norte NA – Nutrição Animal. A unidade produz 18 mil toneladas de ração por ano e registra faturamento de R$ 45 milhões.
Edson ainda mantém 10,5 mil hectares de lavouras.
Na pecuária, seus pastos ocupam outros 2,2 mil hectares. Em seus galpões, além de maquinários modernos, encontram-se três aeronaves: um Cessna utilizado para pulverização, um Bonanza para deslocamentos pessoais e um Artrack 402V — conhecido como a “Ferrari da aviação agrícola”.
Mais de 145 pessoas atuam no Grupo Melozzi atualmente. Alguns com mais de 20 anos de casa. Na equipe também estão os sucessores de Edson.
Seu filho Marcos se tornou agrônomo e atua no negócio da família. A filha Gabrieli faz o financeiro e a gestão no Grupo Melozzi. Aos 58 anos, Edson preserva um humor leve e um entusiasmo raros para sua geração.
Circula pelos corredores da empresa com alegria, conversando com funcionários e clientes, sempre transmitindo uma energia revigorante — um comportamento que parece nascer de um profundo sentimento de gratidão.
“Fui muito bem recebido nesta região. Cheguei em condições muito mais difíceis e, ainda assim, me deram oportunidade. No Paraná, não seria simples crescer como foi no Norte de Mato Grosso. Aprendemos muito com esses colonos que vieram para cá viver debaixo de lona, catando raiz, até prosperar. Terras que no passado foram compradas por 8 sacas por hectare, porque ninguém queria, hoje valem mil sacas por hectare. E a cada dia a terra está melhor: produz mais, vale mais. Tivemos que pôr o pé no barro, comer poeira, mas o resultado veio. Quanta gente trabalhou duro a vida inteira e não viu o progresso? Aqui, eu — e não só eu — consegui construir uma nova realidade”, reflete Edson.
Do barro e do pó, do nada e sem dó, um dom se moldou.
1982
Dilva Koczinski e Vilson Lucas Machado - Elétrica Lucas
Dona Dilva e o olhar que conduziu a Elétrica Lucas
Dilva Koczinski e Vilson Lucas Machado migraram do Paraná para o Mato Grosso a pedido do pai dela. No início, a intenção era permanecer em Sinop, mas dada a procura de serviços, o casal buscou um posto no meio do caminho para atender aos clientes. Sorriso foi a escolha, e assim surgiu a Elétrica Lucas
Descendente de poloneses, Dilva Koczinski nasceu em 1953, na comunidade de Jardinópolis — hoje município, mas à época pertencente a Coronel Freitas (SC). Ali viveu os primeiros anos e as aventuras da infância até 1956, quando a família se mudou para Vitorino (PR).
Filha de Félix e Malvina, agricultores dedicados à lavoura, Dilva cresceu em uma região marcada pela atividade de serraria, onde o cultivo agrícola também estava presente. A cerca de 3,5 quilômetros da cidade, percorria diariamente esse trajeto para estudar, experiência que se estendeu apenas até o 4º ano. Na compreensão dos pais, “menina não precisava estudar”. Ainda assim, Dilva aproveitava cada momento em sala de aula, prestando especial atenção às lições ministradas pelas irmãs Odila e Mariazinha, freiras responsáveis pela escola.
Foi em Vitorino que Dilva viveu a adolescência e a juventude, além de se casar com o vizinho Vilson Lucas Machado. O matrimônio ocorreu em 1975 e, pouco tempo depois, o jovem casal mudou-se para Pato Branco (PR). Vilson, que havia concluído um curso de eletricista em Palmas, transferiu-se para a cidade para exercer a profissão, onde conquistou uma oportunidade de trabalho.
Dilva, por sua vez, passou a atuar como balconista na Comercial Fidalski, especializada em roupas e calçados. A rotina seguiu normalmente até 12 de julho de 1977, quando nasceu o primeiro filho do casal, Evandro, marcando uma nova etapa em suas vidas.
Naquele ano, o pai de Dilva, seu Félix, motivado pela política de expansão territorial, decidiu conhecer Sinop (MT), onde adquiriu terras. O plano era mudar-se acompanhado da filha Mercedes, que se casaria em janeiro de 1978. Contudo, uma fatalidade interrompeu os projetos da família: em setembro de 1977, a jovem faleceu aos 20 anos, vítima de um Acidente Vascular Cerebral (AVC).
“Foi repentino, devastador”, recorda Dilva. A partir dessa perda, a família precisou se reorganizar e reconstruir a própria história. Diante disso, Félix convidou Dilva e Vilson a se mudarem para Sinop. Assim, em 1978, quando Evandro tinha apenas 11 meses, a mudança da família foi descarregada na nova cidade. “A Mercedes era para vir primeiro; mas, por ironia do destino, foi a única a ficar”, pontua Dilva, ao lembrar que, com o passar do tempo, os irmãos Aldino, Crélio, Ilário e Marilene também migraram para o Centro-Oeste.
Em Sinop, Vilson iniciou sua trajetória profissional trabalhando como eletricista ao lado de um dos cunhados. Juntos, deram início à história da Koczinski Auto Elétrica de Sinop. Além de atender a cidade, Vilson também prestava serviços em Sorriso. “Muitos agricultores do Distrito de Primavera iam até Sinop para buscá-lo. De tanto ir e vir, ele resolveu mudar”, relata Dilva.
A decisão foi motivada pela busca de um local mais centralizado, que permitisse atender a um número maior de clientes. Assim, a escolha recaiu sobre Sorriso. “Ele dizia: ‘vamos ficar no meio do caminho’, e em 1982 mudamos para cá”, recorda Dilva.
Após a mudança, Vilson construiu um pequeno barracão de madeira, com 24 metros quadrados (6 x 4), onde funcionaria a oficina. Para auxiliá-lo, contratou um menino de apenas 11 anos, responsável por buscar peças sempre que necessário. Todo o estoque ficava acomodado sobre um beliche.
“Ele saía para atender e eu ficava cuidando. Às vezes, levava o guri junto, e de repente aquele menino voltava correndo: ‘dona Dilva, seu Vilson quer tal peça!’. Eu não sabia, não conhecia peça nenhuma — e ele também não. Pegávamos o que achávamos que era e lá ia ele levar. Muitas vezes voltava para trocar, porque nós dois não tínhamos acertado”, relembra Dilva, sorrindo.
“Não tinha telefone, nada que agilizasse o serviço. No começo, o Vilson ficava muito nervoso, porque perdia tempo com isso. Com o tempo, porém, aprendemos tudo — eu e o guri — e passamos a tirar de letra”, conta.
Vilson realizava toda a parte elétrica de motores de tratores, colheitadeiras, plantadeiras e geradores utilizados por empresas e fazendas que surgiam na região, além de atender também a elétrica automotiva. “Não tinha hora para nada. Se um trator quebrasse no meio da lavoura, tarde da noite ou no fim de semana, vinham buscá-lo. Muitas vezes, levava um dia inteiro só para ir, seja pela distância, seja pelas estradas, que eram puro buraco. Ficava lá atendendo um ou dois dias e levava mais um para voltar”, relata.
Em diversas ocasiões, as peças levadas não eram suficientes ou não eram as corretas para o conserto. Nesses casos, era preciso encaminhar o pedido a Cuiabá e aguardar mais de uma semana até a chegada do material. Diante da demora e da urgência do trabalho, a alternativa mais comum era a rebobinagem dos motores. E serviço não faltava: naquela época, a cidade era movida por geradores, que garantiam o fornecimento de energia sempre que o sinal era interrompido.
“Viemos antes mesmo de Sorriso se tornar município, sem asfalto, sem energia elétrica e sem água potável. Eu tinha uma bicicleta para ir de um lado a outro e até para fazer entregas. No período das chuvas, a lama tomava conta; na estiagem, era só poeira”, conta.
Em certa ocasião, dona Dilva chegou a medir a quantidade de pó que se acumulava na rua. “Dava cerca de 15 centímetros. Eu lavava a roupa e precisava escondê-la para secar, porque era poeira demais. Nessas épocas, tinha que abandonar a bicicleta”, relembra.
Apesar das dificuldades, ela afirma que nunca achou ruim. “A gente foi ensinada, desde pequena, a trabalhar e a enfrentar o que viesse. Por isso, não achei ruim quando cheguei. Eu sabia que isso aqui iria despontar, crescer; só nunca imaginei o quanto”, completa a matriarca.
Foi ainda em 1982 que a Elétrica Lucas — nome que leva o sobrenome do meio da família — abriu as portas em um novo endereço, na Rua Foz do Iguaçu, esquina com a Tancredo Neves, onde permanece até hoje. O novo barracão, também de madeira, foi construído com dimensões de 10 x 15 metros, totalizando 150 metros quadrados — uma ampliação significativa em relação ao primeiro espaço, cerca de seis vezes maior.
Nesse mesmo período, a família também cresceu com o nascimento da filha caçula, Daiane. Com o barracão instalado na parte da frente do terreno, a família passou a morar nos fundos. Essa configuração permitia que Dilva conciliasse o cuidado com os filhos, já que, naquela época, não havia creches nem pessoas com quem pudesse deixá-los enquanto cuidava da oficina.
“Minha mãe dizia que devíamos morar mais longe, para não sermos acordados ou chamados fora de hora. Mas eu sempre achei melhor morar junto; assim eu ficava com um olho no gato e outro no peixe”, relembra.
Com o passar do tempo, a freguesia aumentou, e cidade e empresa cresceram lado a lado. Evandro, criado dentro da elétrica, seguiu naturalmente os passos do pai. “Desde sempre me lembro de trabalhar na oficina, de aprender”, relata.
Ao chegar à juventude e ao momento de escolher um curso de graduação, restavam poucas dúvidas: optou por Engenharia Elétrica na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), em Cuiabá. “Nunca pensei em fazer outra coisa”, afirma. Já universitário, Evandro passou a trabalhar na capital, onde permaneceu após a formatura.
No entanto, assim que concluiu o curso, decidiu voltar para casa. “Meu pai dizia: ‘por que você vai voltar? Você está bem empregado’. Mas, para mim, não havia outra possibilidade: meu lugar era na Elétrica Lucas”, conta. Em 2000, Evandro retornou definitivamente.
Enquanto Evandro retornava já formado, dona Dilva deixaria para trás os medos e as incertezas do início da trajetória. Com o passar dos anos, tornou-se o alicerce administrativo da Elétrica Lucas.
Pedidos de peças, organização dos serviços e responsabilidades com os funcionários: tudo passava por suas mãos e por seu olhar atento. “Eu preenchia à mão aquelas listas de pedidos, fazia as notas fiscais, ligava para fornecedores de fora, gerenciava tudo. Só deixei de fazer quando o sistema se tornou informatizado, o que, para mim, acabou sendo mais difícil do que antes”, relembra.
“E sempre com cuidado, respeito pelos colegas colaboradores e pelos clientes, além de um sorriso no rosto. Essa é a minha mãe. Ela nunca reclamou do serviço, sempre foi dedicada em cada detalhe, tanto no trabalho quanto em casa”, completa o filho.
Nesse meio tempo, Daiane iniciou Jornalismo, mas, sem ter se identificado com o curso, migrou para Pedagogia, assim que se formou ela optou por exercer a profissão atuando como professora de inglês. No ano de 2003 Daiane se torna mãe de Camila e em 2004 dá à luz ao segundo filho Felipe.
Com a Elétrica Lucas já como referência no mercado, se inicia uma nova fase na empresa. “No começo falavam a Elétrica do Vilson, com o tempo vi meu nome atrelado e virou a Elétrica do Evandro”, pontua o herdeiro da profissão dos pais.
A vida pessoal de Evandro também passou por uma reviravolta quando ele conheceu Marilei Jordani, a Mari. Natural de Chopinzinho (PR), ela havia se mudado para Sorriso em 1996, após a perda da mãe, que lutara bravamente contra um câncer. No ano seguinte, em 1997, o irmão Vanio Jordani deixou o Paraná para morar com Mari.
Os dois passaram a dividir uma casa no bairro Benjamin Raiser. “Não tinha nem forro. Viemos sem nada e trabalhávamos no que aparecia”, relembra. Durante sete anos, Mari trabalhou na Colonizadora Feliz, onde se acostumou a vender sonhos — o do terreno, da casa própria. “Eu vendia felicidade para os clientes”, pontua.
O destino uniu o casal em 2004. À época, Mari cursava Administração na FAIS — Faculdade de Sorriso, hoje Universidade de Cuiabá (Unic) – campus Sorriso — e se preparava para apresentar o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC).
Foi nesse período que passou a trabalhar com Evandro. “No começo foi um susto. A Elétrica tinha uma lista com cerca de nove mil peças, e eu pensava que nunca daria conta de decorar tudo, de saber o que era cada item e para que servia. Achei que nunca conseguiria fechar um pedido. Mas o Evandro e a dona Dilva me ensinaram tudo — ela, em especial, sempre teve muita paciência comigo. Para mim, a dona Dilva foi um grande presente do destino na minha vida”, afirma.
De forma natural, a Solar Elétrica Lucas tornou-se o tema do Trabalho de Conclusão de Curso. “Era 2006, e elaborei o projeto para que, em 2007, pudéssemos dar entrada no Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste (FCO)”. Com o projeto aprovado em 2007, iniciava-se uma nova fase. A Elétrica Lucas passou então a contar com um prédio de alvenaria de 698 metros quadrados, um espaço muito mais amplo do que os antigos 150 metros quadrados.
Dilva comemorou a conquista. “Foi um dia especial. Só quem já passou por tantas fases e percalços consegue entender esse sentimento. Saímos de um espaço de 24 metros quadrados, em que o depósito era um beliche, para um prédio de concreto, novo e lindo. Esse dia foi de uma felicidade imensa”, relembra.Mari também celebrava essa conquista. “Com o tempo, passei a tirar de letra os pedidos, as listas e o entendimento de que eu já não vendia mais sonhos, mas soluções. Quem procurava a Elétrica chegava com um gerador, um motor, um trator ou uma máquina quebrada, em busca de uma resposta urgente. A pressão era intensa; precisei me adaptar a essa nova realidade e acabei fazendo a transição de vendedora de sonhos para solucionadora de problemas”, relata.
Assim como a sogra, Mari passou a conhecer cada detalhe da empresa. “Costumo brincar que, se consultarmos os arquivos daqui, encontraremos cadastrados os CPFs de praticamente todos os pioneiros. A empresa cresceu junto com eles”, frisa.
Com o retorno de Evandro de Cuiabá, a família ampliou os negócios. Vilson passou a se dedicar à abertura de uma elétrica automotiva no Posto Redentor, a Elétrica Redentora, onde permaneceu até 2005, quando vendeu a empresa. Nesse período, Vilson e Dilva se separaram, e coube a ela dar continuidade à Elétrica Lucas.
Vilson, então, mudou-se para Sinop. “A minha mãe sempre foi a alma da Elétrica. Ele cuidava do trabalho prático, mas ela era quem dava vida ao negócio, quem corria atrás de cada detalhe”, destaca o filho. “Dona Dilva sempre foi a retaguarda; todas as novas decisões e investimentos eram debatidos com ela”, reforça a nora.
Incentivado pela esposa, que desejava voltar a vender sonhos — e não apenas soluções — e contando com o apoio da mãe, Evandro decidiu iniciar um MBA voltado à energia solar. “Há tempos eu pesquisava esse mercado, e a Mari já vinha dizendo que precisávamos diversificar. Ela sempre foi muito ligada à sustentabilidade, e eu já havia tido contato com essa área na faculdade; era algo que me interessava”, recorda.
Assim, dois projetos passaram a ser gestados pela família. Enquanto Mari viajava a Cuiabá, onde realizava tratamento para tornar realidade o sonho que guardava no coração — o de se tornar mãe —, Evandro a acompanhava e frequentava o MBA.
O ano era 2013. Paralelamente, após enfrentar muita dor e inchaço, Dilva recebeu o diagnóstico de espondilite anquilosante e iniciou tratamento em Cuiabá.
O ano de 2014 trouxe boas notícias para a família. Em junho, Mari e Evandro deram as boas-vindas aos gêmeos Sofia e Davi. “São crianças muito amadas, muito desejadas, cercadas de carinho. Elas nos deram um novo ânimo, força e esperança, e passaram a preencher os dias da nossa família — e da minha sogra — com amor”, reflete a nora.
Em meio a essas transformações, em 2017 a empresa passou a se chamar Solar Elétrica Lucas, inaugurando uma nova fase com a oferta de serviços em energia solar. Desde então, a Solar Elétrica Lucas já assinou mais de 500 projetos de energia sustentável em Sorriso e região, incluindo empreendimentos de grande porte, entregues com êxito.
Atualmente, são mais de 40 mil módulos em operação e mais de 20 MWp instalados. Mari voltou a vender sonhos — agora, associados à sustentabilidade — e a atuar em causas ambientais. Em 2021, a empresa iniciou a importação direta de insumos da China para a implantação das usinas. “Hoje, porém, em razão das taxas de importação, trabalhamos com distribuidores nacionais”, explica.
A Solar Elétrica Lucas é responsável por todas as etapas do processo, desde o estudo e a análise das necessidades até a elaboração dos projetos e a instalação das placas. “Nosso diferencial no mercado é oferecer também a manutenção das usinas instaladas e estar no mesmo endereço há mais de 40 anos, o que nos confere credibilidade e confiança”, completa.
Com a Solar crescendo em um mercado aquecido, a família começou a preparar um dos colaboradores para garantir a continuidade da Elétrica Lucas. No plano pessoal, o coração da família também se mantinha aquecido. O pai de Mari retornou do Pará para residir em Sorriso e acompanhar de perto o crescimento dos netos. O irmão Vanio cursa Medicina e voltou a morar com a família, enquanto a irmã Marisete permaneceu na fazenda em Sorriso. Maristela e Valduir residem em Lucas do Rio Verde, e Valcir permanece no Sul. Vilson, pai de Evandro, também voltou a residir em Sorriso.
A normalidade dos dias foi interrompida logo no primeiro dia de janeiro de 2020, quando Mari perdeu o pai. No sábado, 10 de julho de 2021, o casal chegou à oficina — “ainda chamávamos a empresa assim” — para trabalhar e, infelizmente, foi surpreendido com a morte de Vilson, pai de Evandro, que morava ao lado. Dois dias depois, em 12 de julho, Evandro completaria 44 anos. A partir desse momento, ele assumiu o legado dos pais com ainda mais dedicação e afinco.
Também em 2021, dona Dilva decidiu se afastar definitivamente da empresa. Com o tratamento, conseguiu recuperar a qualidade de vida e se livrar das dores. “Mas como tudo ficou informatizado, resolvi me afastar; já não era a mesma coisa de fazer as notas à caneta”, brinca ela. Ainda assim, quase todos os dias, visita o filho, a nora e a neta Camila, filha de Daiane, no trabalho.
Para a família, 2021 foi um ano intenso, especialmente em julho. Após anos de preparação para passar o bastão, Evandro vendeu a Elétrica Lucas a um dos funcionários mais antigos, Júnior. O novo proprietário manteve o nome, cuja história já está registrada na cidade, e continuou atendendo no mesmo endereço. Enquanto isso, Evandro e Mari passaram a concentrar suas energias na Solar Elétrica Lucas, buscando mão de obra especializada e oferecendo um serviço de ponta no mercado.
Em maio de 2024, a Solar Elétrica Lucas inaugurou um novo espaço. O segundo prédio em alvenaria foi edificado no mesmo local do antigo barracão de madeira de 150 metros quadrados, na esquina da Avenida Tancredo Neves com a Foz do Iguaçu, agora com mais de 1.400 metros quadrados.
Além da Elétrica e da Solar, o novo prédio abriga 10 salas alugadas. “É um marco para mim, um lugar especial”, reflete Dilva, que vê a família crescer e prosperar em Sorriso. Hoje, Daiane, casada com Gabriel, é também proprietária de um centro de aprendizagem, o Evolução, onde oferece atendimento personalizado e lúdico. Camila, por sua vez, atua na Solar. “Sempre brincamos que estamos preparando a Camila para passar o bastão. Ela ri, mas sempre há uma verdade nisso. Ela é muito esforçada e vai dar conta”, afirma Mari, com confiança.
Enquanto isso, Mari e Evandro cuidam de cada detalhe da empresa ao mesmo tempo em que acompanham de perto Davi e Sofia. “Toda noite, a Sofia me diz que ama viver aqui, que nunca vai querer ir embora”, conta a mãe. “Eu acho que aqui é o lugar ideal para brincar, crescer e estudar”, completa a menina. Já Davi, aos 11 anos, ressalta que Sorriso é uma cidade que oferece a tranquilidade do interior, aliada às oportunidades de grandes centros em termos de cursos e estudos. “É uma linda cidade”, diz ele.
Ao ouvir o neto, dona Dilva resume o sentimento de toda a família: é lar. “São mais de 40 anos que esta cidade é nosso lar. Ela nos acolheu, nos fortaleceu e fez com que nosso nome, nosso trabalho e nosso legado ficassem registrados na história. Por isso, esta é a nossa casa”, finaliza.
1982
Elpidio e Ivone Daroit
O legado da terra e da chuva
1969. Antes mesmo de qualquer registro de ocupação ou de visitas técnicas ao coração do Mato Grosso, há mais de 1,8 mil quilômetros de distância, um adolescente de 14 anos de idade, ouvia atentamente um professor. Sotaque carregado, o interlocutor não era brasileiro, disso o menino tinha certeza. Tampouco, lembra o nome do dono da voz. O que ficou marcado para sempre foi a conversa: havia no Brasil um local com seis meses de estabilidade de chuva. A informação despertou curiosidade em relação à época de estiagem. Anos depois, o menino realizou o sonho. Elpidio Daroit, foi um dos primeiros sulistas a acreditar no potencial de Sorriso – antes mesmo do local receber um nome, ele decidiu mudar e convenceu a jovem esposa, Ivone Bedin Daroit, a acompanhá-lo.
Elpidio Daroit é paranaense, de Renascença. Só nasceu em Pato Branco – em 26 de março de 1955 - porque onde a família residia, não tinha hospital. Mas foi ali, no Distrito de Buriti, em Renascença, que o filho do seu Evaldo Daroit e da dona Nair Carlott Daroit, cresceu.
A infância foi entre o trabalho na lavoura e a fita na serraria que o pai mantinha com os sócios, os irmãos Bedin. Cursou as séries iniciais na comunidade mesmo, percorria a pé os cerca de três quilômetros para ir e voltar. A sala era multisseriada e comportava todas as crianças da comunidade que aprendiam a ler, fazer contas e escrever sob o comando da professora Lurdes. “A infância foi de muito trabalho e também de muita correria livre, pelos potreiros”, sorri.
Entre o pátio da madeireira e as idas e vindas para a escola, Elpidio convivia com Ivone Bedin, a menina era filha de Adolino Bedin e Edilia Zandoná Bedin, sócios dos pais dele na fita. Nascida em 30 de janeiro de 1957, Ivone era quase dois anos mais nova do que ele. Cresceram juntos, vivenciando o dia a dia do trabalho em parceria, desenvolvido pelos pais e a vida tranquila na comunidade. O encanto de um pelo outro, cresceu conforme despertavam para a adolescência e a vida adulta. Os amigos estavam enamorados e a relação evoluiu para o casamento, celebrado em 20 de março de 1976, com a presença da comunidade do Distrito e a benção dos pais. Ele tinha 21 anos e ela 19. A sensação era que desde sempre, Elpidio e Ivone, estavam predestinados a viver como família.
Contudo, antes daquele março de 76, outros acontecimentos haviam moldado a alma do rapaz. Ele lembra bem de estar no campo, trabalhando na roça, quando um visitante passou pela fazenda, Elpidio tinha por volta de 14 anos.
O visitante conversava com seu Evaldo e o menino acompanhava tudo atentamente. Pela conversa, Elpidio lembra que o homem era conhecedor da geografia brasileira: apresentava informações precisas, tinha confiança no que dizia. Afirmava com precisão técnica, que havia uma região no país onde chovia seis meses e no restante do ano, fazia seca. “São seis meses de estabilidade de chuva, ele disse. ‘E nos outros seis?’ eu perguntei”, recorda-se 57 anos depois. “Nos outros seis, na época da estiagem, tudo floresce”, ouviu como resposta.
Conforme o relato, havia um lugar do Brasil com uma região estável, talvez uma das melhores no planeta, principalmente em relação à chuva. “Eu tinha uns quatorze anos de idade, pedi ‘que local é esse?’ e ouvi que ficava no Mato Grosso. Não tinha nem noção de onde era o Mato Grosso, mas fiquei pensando sobre esse local, mesmo que na época só houvesse a mata, mesmo sabendo que ainda não havia formação de cidades, povoados.
Lembro bem que esse professor falou até mesmo sobre a extensão da área que poderia ser plantada”, acrescenta. A visita se foi. A conversa ficou na cabeça do garoto. Interessado, passou a ler e ficar de olho em toda a informação que recebia acerca do tal Mato Grosso. O homem do sotaque diferente, havia falado ao jovem, que havia três regiões no mundo onde prevalecia o clima tropical com estação seca, com temperaturas elevadas o ano todo, alta umidade no verão (outubro a abril) e um inverno seco e definido (maio a setembro), ele queria conhecer uma delas, em especial a que ficava no Brasil.
Em 1975, uma nova visita bateu à porta dos Daroit, de Renascença. Desta feita, o visitante era Anarolino Ceola, vizinho de Francisco Beltrão, que na época atuava como corretor de imóveis da Colonizadora Sorriso. Dentre as ofertas de venda, Anarolino trazia à região a novidade de uma terra no Mato Grosso. No coração do Estado e por nome Sorriso. O lugar começava a ganhar forma, revelando seus primeiros contornos ao longo do traçado de terra recém-aberto da BR-163. Anarolino destacava, com entusiasmo, as possibilidades de plantio e o regime de chuvas abundantes, que se estendia por cerca de seis meses ao ano. Ao ouvir essas informações, Elpídio não teve dúvidas: aquele era o lugar com o qual sonhava desde os 14 anos de idade.
O jovem estava noivo de Ivone e já pensava em ter o próprio pedaço de terra, era uma boa oportunidade de prospectar um futuro para os dois e a família que formariam. Pediu permissão aos pais, e seguiu com Anarolino para conhecer o tal local. Na expedição, também estavam os irmãos Antônio, Santo e Saul Cappelari. No terceiro dia de viagem, o quarteto deixou Cuiabá com destino ao cerrado. “Conforme saímos, eu fui avistando umas plantas de longe e pensei ‘quanto figo! Que coisa boa’”, conta.
De perto, Elpidio viu que a árvore que chamou sua atenção, não era o figo europeu que estava habituado a se deliciar e sim, o figo do cerrado, uma vegetação caracteristica da região, que só na aparência lembrava a saborosa fruta das compotas do Paraná. Passada a região do Posto Gil, ele se deparou com a planície. “Coisa bonita de se ver”. Ali, a terra que até então só existia em seus sonhos, começava a tomar forma.
Assim que a expedição chegou em Sorriso, Elpidio constatou a presença de pouquíssimas famílias: havia um restaurante, que também fazia às vezes de rodoviária, tocado por Nelson e Catharina Francio e os filhos pequenos; Ivo Raiser abria a terra; Helmuth Seidel estava se instalando.
“Eram poucas famílias ainda. Uma região vasta com mata fechada e com a dificuldade da estrada de acesso para se chegar, mas ainda assim, vi que era um local com muito potencial”, relata. De um barranco, coletou um pouco de terra já com a intenção de levar para análise no Sul e aproveitou a viagem para conferir de perto as áreas já abertas com o plantio do arroz e para aprender um pouco sobre o povoado que se formava.
Assim que retornou ao Paraná, o pai e os sócios o chamaram para uma reunião. Seu Evaldo e os irmãos Adolino Bedin, que seria o futuro sogro de Elpidio, Leonel Bedin, Orélio Bedin e Ugolino Bedin, integravam o grupo. Leonel quis logo saber das impressões do jovem sobre a terra e foi logo perguntando “e aí, o que tu achou guri?”.
Elpídio, aos 20 anos de idade, respondeu: “seu Leonel, se o senhor investir Cr$ 60,00 em Renascença e Cr$ 2,00 no Mato Grosso, qual o senhor acha que vai dobrar primeiro?” E na voz cantada de Leonel, ouviu de volta “aí guri, menino inteligente!”. “Lembro bem de como o Leonel falou: alto e como se estivesse cantando, em uma voz feliz de verdade, me marcou muito”. Tanto seu Evaldo, como os demais sócios, os irmãos Bedin, confiaram na resposta do jovem e todos compraram terras, sem nem mesmo conhecer o lugar, tamanha era a convicção de Elpidio.
Já a amostra de solo recolhida por ele, foi encaminhada para avaliação de um agronômo. Com a terra na mão, o profissional decretou: aqui não dá nada, não tem nutriente. Cheio de esperança, o jovem questionou “e se eu corrigir com calcário, colocar adubo?”. Diante do plano expressado pelo jovem, o agrônomo assentiu. “Esse é o caminho, se você fizer isso, essa terra há de produzir muito”, disse. Era tudo o que o jovem Daroit precisava ouvir para dar sequência aos sesus sonhos.
Inicialmente, conta Elpidio, a Colonizadora Sorriso limitava o tamanho da área comercializada, vendia até 300 hectares por comprador. Anarolino, encarregado de comercializar a terra com os conterrâneos, ofertou um espaço na atual Linha 404.
Elpidio, que havia assuntado todas as áreas durante a visita, aconselhou o pai a não aceitar. “Sabia que eles tinham uma área na linha da BR-163 e falei para o meu pai, que essa era a área ideal, que acabariam nos ofertando”. Evaldo confiou no filho, e logo veio a oferta nas proximidades da BR. “Fechamos o negócio, nós e os Bedin”, conta. Era fim de 1975, início de 1976. “Foi mais ou menos na virada”.
Terras adquiridas no Mato Grosso, as famílias continuaram trabalhando e residindo mais um tempo no Paraná. Em março de 1976, veio o casamento de Elpidio e Ivone. Em 7 de agosto de 1977, nasceu Cristiane, a primeira das quatro herdeiras do casal. Nessa época, dona Nair aconselhava a nora. “Ivone, fala para o Pidio, que tu não quer ir para o Mato Grosso”, dizia.
Dona Nair sabia que se Ivone falasse não, o filho não sairia de forma alguma de Renascença. E o conselho ficava na cabeça da nora. Quando Nair se deu conta de que o próprio Evaldo queria comprar mais terras, decidiu ela mesma conferir o local de perto para ver o que os atraia em terras tão distantes e acompanhou o marido e o filho em uma viagem. “Deve ter sido em 1978”, lembra Ivone. Ao ver as planícies, Nair viveu as mesmas sensações do filho e entendeu o encantamento vivido por ele.
Contudo, Elpidio não contava com um grande imprevisto: assim que chegaram ao povoado, se depararam com um homem assassinado. Logo imaginou que a mãe seria taxativa na decisão de que a família não mudaria. Mas Nair já fora cativada pela terra. “Ela virou pra mim e disse ‘que isso te sirva de exemplo, de nunca deixar tua mulher em casa, para sair atrás de bodega e bebida’”. Junto com o conselho, o assentimento de que poderia dar certo mudar, desde que ele trabalhasse e nunca descuidasse da família. No retorno ao Paraná, dona Nair deu a benção para a mudança.
Aliás, no Paraná, a vida continuava seu curso normal com a labuta na madeireira e na lavoura. Na vida pessoal, o casal foi agraciado com o nascimento da segunda filha, Fabiane, em 19 de maio de 1980. Pouco mais de um ano depois, em 18 de julho de 1981, nasceu Claudia, a terceira herdeira.
“Logo depois que a Claudia nasceu, decidimos que era hora de mudar”, conta o pai. Ivone queria conhecer a nova terra, antes de vir. Mas o pai, seu Adolino Bedin, a fez desistir do propósito. “Como que tu vai viajar com três bebês, só para ver a cidade? Já vai de mudança”, aconselhou. Ivone ouviu o pai e confiou na descrição que o marido lhe fazia das paragens do novo lar.
A bordo de um passat verde, a família Bedin Daroit, iniciou a viagem em 08 de junho de 1982. A mudança seguia em um caminhão volvo, dirigido por Elírio Daroit, o Nini, irmão de Elpidio. No passat, Elpidio, Ivone, as meninas e as malas. “A Claudia era uma bebê de dez meses, tínhamos que parar para trocar, amamentar; dar comida para as maiores”, lembra a mãe. Mesmo assim, Ivone classifica a viagem como tranquila.
O único susto vivido pela família, foi praticamente na chegada. Na época, uma ponte de madeira, a ponte velha, ligava Sorriso a Lucas do Rio Verde. Era época de estiagem e a família vinha na poeira de um caminhão. “Não dava para ver nada, vínhamos atrás e a estrada era tomada por essa poeira, como uma nuvem marrom”, conta ele. Elpidio falou à esposa que iria acelerar para passar à frente do caminhão. E acelerou. “De repente, abriu um clarão, não tinha mais poeira, nem caminhão e nem ponte”, lembra. Foi quando ele se deu conta de que a ponte velha estava em obras e o caminhão havia seguido por um desvio.
“Estrada de chão com muito pó e eu com o pé no acelerador”, lembra. Imediatamente desacelerou, freou e passou a jogar o volante com uma mão das mãos de um lado para o outro, com a outra segurava as meninas, que eram arremessadas para a frente, toda vez que manobrava. “Foi um susto. No fim, consegui parar há uns cem metros de onde a ponte deveria estar”, recorda. Passado o susto, a família chegou ao povoado, em 10 de junho de 1982. “Puro pó”, lembra Ivone.
Além da mudança de Elpidio e Ivone, Elírio também trazia os pertences de Diva e Abidon. Irmã de Elpidio, Diva mudou com a família. Ela era casada com Abidon Vladimir Pereria de Souza, o Nego. “O Elírio e o Nego se davam muito bem, eram muito parceiros. Então, quando decidiu que era hora de mudar, ele nos convidou e o Nego ficou entusiasmado, viu como uma oportunidade da família toda crescer”, recorda a irmã.
Diva e Nego, eram pais de Andressa, com dois anos de idade à epoca; ela fez a viagem a bordo do caminhão de Elírio, grávida da segunda filha, Vanessa, que nasceria em Sorriso, no início de 1983. “Como viemos no caminhão, nós chegamos quatro dias antes que o Elpidio, coloquei meu pé em solo sorrisense em 06 de junho de 1982. No dia antes, 05 de junho, fora aniversário da minha mãe que havia ficado no Paraná”, detalha.
Na vila, Elpidio havia alugado uma casa nas proximidades do Posto Sorrisão. A residência, inclsuive, era de um dos irmãos Cappelari, com quem ele havia viajado em 1975. Antônio Santo Cappelari havia mudado com a família para a fazenda e durante um ano e meio, a casa dos Cappelari, foi o lar dos recém-chegados. Toda a família Daroit permanceu unida. Quem morava ao lado, era Saul, casado com Arlete, a primeira professora de Sorriso. “Quando chegamos, a Cristiane foi estudar no Mário Spinelli e quem me ajudava com as tarefas, a ensinar ela e as mais novas, era a Arlete”, conta Ivone.
A matriarca diz que fora a poeria, que a incomodava muito e a saudade dos familiares, para ela Sorriso era muito parecida com Buriti. “Morávamos há sete quilômetros do centro, na roça, por lá éramos só nós e um que outro vizinho”, diz. À noite, a luz vinha do liquinho, o lampião a gás, “bem parecido com o que já havíamos vivido, quando crianças no Sul”. A água vinha do poço do próprio posto.
“Também instalamos um gerador. Eu fazia de tudo em casa, todo tipo de comida, pães, já era essa a rotina que eu vivia no Paraná: não tinha mercado do lado de casa”, explica. A parte ruim, era a poeira mesmo. “Eu tinha pena da Ivone, ela costumava lavar o cabelo à noite e de manhã acordava com o cabelo duro, puro pó, era uma camada de pó; ela sofreu bastante com a poeira”, diz o esposo.
Assim que chegaram, Elpidio iniciou a construção da casa da família – endereço em que criaram as meninas e raízes. “Era uma casa de campo, parte madeira, parte alvenaria, com um sistema de ventilação muito bem planejado: o teto era aberto e o vento corria de todo o lado, não passávamos calor”, conta. Em um ano e meio, o lar ficou pronto. E durante todos os dias de obra, Ivone serviu lanche para os pedreiros. O cheiro do pão fresco era famoso na vila: diariamente ela sovava e assava seis pães caseiros, feitos a base de fermento natural, tudo preparado por ela.
“Fazia seis, porque era o que cabia no forno, mas fazia todos os dias”, diz. Logo, a fama de boa cozinheira e a forma carinhosa com que acolhia as pessoas, se espalhou. “Nossa casa era conhecida como o “Hotel da Ivone’”, sorri Elpidio. Era ali, no endereço dos Daroit, que famílias vindas do Sul, eram acolhidas. “Na época veio muita gente da nossa região, os próprios familiares para ver terras e eu recebia todos. Também teve períodos em que meu irmão e uma irmã do Elpidio moraram conosco. A casa era sempre cheia, com vida”, relata a matriarca.
Ainda em 1982, Elpidio enfrentou várias viagens entre Sorriso e Rosário Oeste, sede da unidade do Banco do Brasil responsável pelos financiamentos agrários da época. Fez o cadastro e passou a apresentar a documentação. Em cada viagem, feita mensalmente, era informado de que necessitava apresentar mais documentos. Por rádio amador ou pelo posto telefônico, fazia os pedidos ao Paraná.
Em 1983, um ano após ter iniciado o processo, recebeu a informação de que estava apto ao financiamento. Almejava pegar empréstimo para plantar 500 hectares. Ficou frustrado quando o gerente do banco informou, que como ele era produtor inicial, só financiariam 100 hectares. Desistiu na hora, e resolveu seguir a empreitada por conta própria. Em 1969, no Paraná, a família Daroit já plantava 400 hectares, uma área considerada grande para os padrões paranaenses. “100 hectares no Mato Grosso, não eram nada”, avalia.
Concomitante à construção da casa, Elpidio seguia abrindo a lavoura. Usava dois tratores e uma corrente para limpar a área, depois iniciava fase de fazer as leiras e preparar o solo para o plantio. Tudo era trabalhoso e exigia dedicação. Quando uma peça de maquinário quebrava, não havia como continuar. “Muitas vezes ficavámos 40 dias esperando para repor a peça”, explica. Tudo era encomendado via posto telefônico e aguardado com ansiedade.
Tanto as peças, como a farinha que Ivone usava para fazer o pão, vinham na carroceria do volvo de Valdir. “Durante muito tempo, o Valdir ficou nesse caminho, no vai e vem, trazendo peças para trabalharmos na lavoura, adubo, calcário e também o rancho completo, vinha de tudo o que a Ivone pedia, no caminhão; ele vivia na estrada, entre Sorriso e o Sul”, conta o irmão. No volvo de Valdir, também vinham as visitas da família e as mudanças de quem escolhia seguir o casal. “O Valdir percorreu muito chão, trouxe peça, trouxe alimento, trouxe vida”, se emociona Elpidio.
Na época, o agricultor também havia iniciado a construção de um armazém com capacidade de 1,5 milhão de sacas, mais de 100 mil toneladas. A intenção era ter um local próprio para acondicionar a produção da lavoura da família. O armazém ficou pronto em 1984, e segue de portas abertas até hoje, bem em frente à casa da família, agora um edíficio de alvenaria projetado para receber as filhas, genros e netos na Perimetral Sudoeste.
Elpidio não parava. E nem Ivone. Ambos participaram de lutas importantes para o desenvolvimento da vila, como a instalação da rede de telefones – “compramos em conjunto com outros pioneiros, mais de 500 linhas para viabilizar a instalação”, diz; da energia elétrica; da rede de água; do asfalto; do sistema bancário e da própria instalação do município.
Em meio ao trabalho e as pautas comunitárias, nasceu em 24 de setembro de 1985, Patrícia, a filha sorrisense do casal. “Patrícia nasceu no Hospital Fátima, fui assistida pelo médico Carlos Frison, ela é genuinamente sorrisense”, pontua a mãe. No ano seguinte ao nascimento da filha, em 13 de maio de 1986, a família comemorou a emancipação do município.
Infelizmente, 1986 não foi somente um ano de boas novidades. Em 05 de março de 1986, um acidente automobilísitco vitimou Nego, marido de Diva. Andressa, com seis anos, Vanessa com três anos e grávida de dois meses, Diva ficava viúva. Com a notícia, seu Evaldo e dona Nair, viajaram para Sorriso para apoiar a filha e as netas. Ao chegar na cidade e ver a filha, seu Evaldo nem pestanejou:
“não vamos mais voltar para o Paraná”. E ele ficou. Quem retornou para buscar a mudança, foi a esposa. Dona Nair foi acompanhada do filho Elírio, buscar os pertences. O mesmo caminhão que em 1982 acondicionou a mudança dos irmãos Daroit, fazia agora o percurso com a mudança dos pais.
“A decisão do meu pai em ficar em Sorriso, para de alguma forma, me apoiar foi fundamental. Eu era muito apegada è ele e ele à mim. Creio que a perda tão repentina do Nego, fez ele querer ficar mais perto dos filhos e netos, e isso fez bem à toda nossa família. Ter o pai e a mãe perto novamente, trouxe segurança e carinho”, avalia.
Em setembro, aplacando um pouco da dor pela perda repentina do pai, nasceu Abidon Filho. O nome, uma homenagem ao pai, foi proposto pela avó. “Com o tempo percebemos que não foi só o nome Abidon que ele herdou do pai; mas, assim como meu marido, ele virou o Nego, da mesma forma carinhosa com que o pai dele era chamado”, detalha a mãe.
O apoio para recomeçar, também veio de um tio. “Meu tio me estimulou a focar nas crianças e no trabalho”, conta. Pensando em como animar a sobrinha, o tio falou sobre a possibilidade de colocar uma franquia da perfumaria Boticário na cidade. Como a Sorriso de 1986, ainda não atendia todos os pré-requisitos e não comportava a instalação da franquia, o tio se empenhou e foi atrás de conhecidos para concretizar o sonho.
No fim de 1986, Diva inaugurou a loja do Boticário em Sorriso, agora ao lado dos filhos, e na loja ela tentava tornar seus dias mais doces. Com o tempo e retomando aos poucos sua vida, ela viveu um novo relacionamento com Ilson Cassenotte, com quem teve o filho caçula, Kleber Daroit Cassenotte. A loja pertenceu à Diva até 2017, quando, acompanhada dos filhos, ela fez o caminho inverso e mudou para Santa Catarina.
Unidos, os Daroit apoiaram Diva em 1986 e a família se reergueu. Além disso, o trabalho continuava. Na lavoura, Elpidio se desdobrava. Ainda nos anos 80, chegou a ser o maior produtor individual da região: 28 mil hectares eram plantados sob seu CPF e o olhar minucioso com que percorria as lavouras, com o cultivo de soja e milho. O feito foi repetido nos anos 90. Por volta de 1987, Elpidio lembra que dois homens, o visitaram no escritório do Armazém: representavam o Banco do Brasil e vinham ofertar crédito. “Educadamente, os lembrei que recusaram apoio quando mais precisei, não seria naquele momento que eu assinaria um contrato com eles”, diz.
Mas a história de 1983, havia marcado. Ele sabia que o município precisava da instituição, então em 1989, construiu um prédio de dois andares, com mais de 1,1 mil metros quadrados na W1, a atual Avenida Brescansin. Por 15 anos, o prédio de Elpidio Daroit, abrigou o Banco do Brasil. “Queria que a cidade crescesse e sabia que era o certo a se fazer”, justifica. De um jeito simbólico, Elpidio pode chamar de seu, o banco que um dia o rejeitou.
Visionário, sempre empreendeu em mais de uma vertente. Em 1987, tornou-se o primeiro associado da Associação Comercial e Empresarial de Sorriso (Aces), fundada por um grupo de empresários do município. A Aces havia sido recentemente fundada pela iniciativa do comerciante Dorival Brandão e tornou-se uma das principais instituições representativas do empresariado local, um marco para o comércio sorrisense.
Entre os anos de 1990 e 1991, Elpidio atuou em outras frentes: pensando na necessidade do esporte na comunidade, foi presidente do Sorriso Esporte Clube, o SEC. Durante o período, o SEC viveu seu tempo áureo e levantou a taça de campeão estadual. “Foi um feito que me marcou, depois disso, o SEC não venceu nenhuma final, infelizmente”, diz. Para angariar recursos e garantir a participação, Elpidio e os demais integrantes da diretoria do SEC, organizaram muitas promoções.
Diversos almoços foram organizados sob a sombra das árvores da família Daroit, com o objetivo de arrecadar recursos e fortalecer o entusiasmo da torcida e da comunidade. Em dias de jogo, Ivone e suas filhas marcavam presença constante nas arquibancadas. “As meninas até preparavam cartazes para levar ao estádio, era uma verdadeira festa. A cidade inteira apoiava os jogadores”, relembra a matriarca.
Enquanto a lavoura crescia, a família também criava cenários próprios. Cristiane lembra que quando construiu a primeira casa, o pai também instalou uma piscina. Elpidio também era incentivador do ensino e comprou a enciclopédia Barsa completa para as filhas. “Então tínhamos o lazer e o conhecimento, nossa casa vivia cheia de crianças da nossa idade, que vinham para brincar e para estudar”, relata. Todas acolhidas por dona Ivone, que adorava servir lanches para as filhas e os amigos. “Além da piscina, havia o monte de soja no armazém em que deslizávamos. Vivíamos longe dos centros urbanos, mas a vida aqui era uma festa”, diz a filha.
A primeira vereadora
Ivone, além da casa e das filhas, se dedicava à comunidade. No Paraná, já fora catequista. Assim que chegou em Sorriso, logo foi procurar a Paróquia São Pedro Apóstolo, para se colocar à disposição, foi com muito amor que integrou a Pastoral da Criança por 12 anos seguidos. “Éramos todas voluntárias, uma vez por semana pegavámos um carro, colocávamos um botijão de gás dentro, os ingredientes para a multimistura a balança e visitávamos os bairros”, lembra. Em um endereço escolhido nos bairros e já avisado anteriormente para todos, elas ligavam o botijão, preparavam os ingredientes e ensinavam as outras mães a preparar a multimistura. Patrícia acompanhava a mãe. “A Patrícia amava a multimistura, quando ficava pronta, ela e as outras crianças pegavam na mão mesmo e comiam, ela era a maior incentivadora das crianças a provar”, sorri a mãe. “Lembro do gosto e do cheiro até hoje, era muito bom”, confessa Patrícia.
Em 1998, Ivone foi além do serviço prestado na Pastoral. Eleita no pleito de 1997, Ivone Bedin Daroit, foi a primeira mulher a exercer a função de vereadora, no município de Sorriso. O mandato iniciou em 1.º de janeiro de 1998 e encerrou em 31 de dezembro de 2001. “Sempre tive um grande envolvimento com as causas sociais, meu mandato prezou por esse envolvimento e pela busca de infraestrutura básica, como forma de melhorar Sorriso”, conta a pioneira na política sorrisense. Hoje, ela continua exercendo um papel social na comunidade: segue como ministra de eucaristia da Igreja Católica.
Já o marido, sempre manteve o espírito empreendedor e inovador. Visionário, abriu vários caminhos de atuação para a família. Chegou a investir na rede hoteleira “mandei duas filhas estudar Hotelaria”, conta, sorrindo ao falar de Cristiane e Fabiane. “Falta filha para tudo o que ele inventa”, brinca Cristiane. O projeto deu certo por um tempo, depois ele arrendou o hotel. “Um dos nossos sonhos futuros quando concluirmos o contrato de arrendamento, é abrir como uma casa de permanência e atendimento para idosos”, adianta Cristiane, que tem o sangue empreendedor do pai, correndo nas veias.
Além disso, Elpidio sonhava em ser dono de um “poço de petróleo”, o que pela legislação brasileira, não é possível. O jeito então foi de certa forma adaptar o sonho, sem deixá-lo de lado. “Foi aí que eu tive o estalo: vou investir em algo do ramo de combustível, como uma usina de álcool”, relata. O primeiro projeto foi feito em 1990, mas não saiu do papel. 19 anos depois, em 2019, fez mais uma tentativa, dessa vez em sociedade, mas o projeto também não foi adiante. “Resolvi investir sozinho, na proporção e velocidade com que conseguia fazer. Fui a São Paulo e comprei uma destilaria velha, mas em vez de álcool, percebi que era mais voltada à produção de cachaça. Então, fiz algumas mudanças, adaptei e ampliei a estrutura e isso possibilitou que em 2014, iniciássemos a produção de álcool combustível”, conta. Não era um poço de petróleo, mas Elpidio comemorou – e muito, a abertura das portas da Usina Aysú, às margens da BR-163, sentido Sorriso/Sinop. “Montei a Aysú a partir de estruturas já utilizadas por outras semelhantes, o que gerou economia”, acrescenta.
Hoje, a Aysú, produz cerca de 300 mil litros de etanol de milho e 100 mil litros de álcool de cana. Para que tudo flua e a produção não pare, é essencial o cuidado com a manutenção de cada peça. Inicialmente projetada para a cana, que ele mesmo produz – “sou o único produtor de cana de açúcar da região, beneficio o que vem da minha própria lavoura”, detalha – a Aysú, também passou a produzir o etanol de milho.
“Migramos para o milho, ao levar em conta a produção local, aqui, o milho é passível de produção o ano todo, enquanto a cana é produzida apenas durante um semestre”. A alteração possibilita que a Aysú atue o ano inteiro, e não somente no período de sazonalidade da cana.
Tudo ao redor da usina, requer olhar atento, por isso mesmo no espaço em que está instalada há infraestrutura para manutenção das instalações com oficina, mecânicos, caldeireiros, tornos, manutenção elétrica e hidráulica, bem como pessoal capacitado para a operação dos sistemas operacionais e automatizados. Procedimentos que exijam cuidado mais especializado, são feitos fora da fazenda ou até mesmo do estado, como em São Paulo.
Além de usineiro, o empreendedor também já cultivou algodão. “Hoje meu foco está na soja e no milho”, explica. O agricultor salienta que também diminuiu muito os números da lavoura, alugando grande parte das terras. Mantém ativa sete lavouras, em que atuam mais de 80 colaboradores, somados os colaboradores do Armazém, mais de 200 famílias, atuam diretamente com os Daroit.
Na safra, esse número sobe para 240. Além de todas as filhas, claro. Cristiane, formada em Direito, Hotelaria e Marketing, é a responsável pelos Recursos Humanos do Grupo Daroit; Fabiane, formada em Administração, responde pelo Comercial da empresa; Claudia, a filha formada em Administração e Hotelaria, atua na Controladoria, empreendedora como o pai, também é proprietária da Lavanderia Amazonas; já à Patrícia, a filha sorrisense, coube o cuidado com os setores Administrativo e Financeiro do grupo. “Todas trabalham conosco, estão na luta diária”, orgulham-se das sucessoras, os pais. “Essa é uma empresa com núcleo familiar, quando contrato alguém, algum engenheiro, gerente, já vou logo avisando ‘nosso calendário segue as datas comemorativas da família, aniversário dos meus avós, dos meus pais, são datas essenciais e não trabalhamos’”, conta Cristiane, ao frisar a importância de a família estar e manter-se unida.
Ao falar de família, Cristiane conta da saudade que sente das filhas Paula Daroit Alvarenga, 23 anos, e Bruna Daroit Alvarenga, 21 anos, ambas estão fora cursando Medicina, Paula em Belo Horizonte e Bruna em Campinas. “As duas sonham em voltar para cá, esse é nosso lar”, frisa a mãe orgulhosa. Fabiane também enfrenta a saudade de Júlia Daroit, de 23 anos, a jovem cursa Relações Internacionais, em São Paulo, já a mais nova, Carolina Daroit de Moraes, reside com ela em Sorriso. Claudia é mãe de Rafaela Daroit Cordenonsi Buchmann de 18 anos, que está cursando Administração pelo Management Experience Program (MEP) da FAE Centro Universitário de Curitiba, “ela segue meus passos, o mesmo curso”, diz; a terceira filha de Elpidio e Ivone, também é mãe de Pedro Daroit Cordenonsi Buchmann, 15 anos que estuda no Colégio Regina Coeli e Manuela Daroit Cordenonsi Buchmann de 8 anos, que estuda na Maple Bear, ambos residem com a mãe e o pai, o empresário Rodrigo Buchmann. Patrícia, casada com Felipe Binotto, é mãe de Felipe Daroit Binotto, de 18 anos, acadêmico de Administração em Sorriso e de Otávio Daroit Binotto, de 14 anos que está no colegial. “Quando estão todos em Sorriso, é um entra e sai muito bom”, sorri a avó.
“Aqui é tudo sob o olhar do vô: para namorar, tem que ter o aval do vô”, entrega Cristiane. Elpidio ouve a filha e sorri, confessa que é um avô coruja e que hoje o que o faz feliz, é ver e viver a vida junto com os netos. Faz questão de ter toda a família na mesa, no almoço de domingo, em que sempre há um quitute preparado com carinho por dona Ivone. “É o Botequim do seu Elpidio”, diz Cristiane.
São nesses momentos de lazer, que Elpidio e Ivone contam aos netos, um pouco da vida e do início de Sorriso. “Sempre tentamos mostrar para eles que tudo é esforço e consequência; todos os nossos atos, tem consequências. Nossa vida hoje é resultado de muita luta, de dedicação, de persistência e de sempre fazer o certo para nós e para os outros”, frisa Elpidio. “Cada pedacinho de Sorriso, é resultado de muito esforço coletivo, de uma comunidade que escolheu crescer em conjunto”, avalia Ivone. Para ambos, Sorriso é “esse lugar de crescer, de acolhimento e de família unida”, decretam.
1982
De Subprefeitura ao Futebol: A Construção da Identidade de Sorriso
- É instalada a subprefeitura de Sorriso, marcando um passo importante na organização administrativa do distrito. O pioneiro Genoíno Spenassato é nomeado subprefeito, contando com Rosana Cappellari como secretária. Nesse mesmo ano, Sorriso conquistou representatividade política ao eleger seu primeiro vereador para a Câmara Municipal de Nobres: Celito Barbieri. Esses avanços reforçaram a presença do poder público local e impulsionaram o desenvolvimento da região.
- A Escola Estadual Mário Spinelli foi a primeira instituição de ensino estadual implantada em Sorriso, tendo como diretora Marli Catarina Francio. Criada para atender à demanda educacional da região, tornou-se referência no ensino público local.
- Alberto Francio e Benedito Rennó deixam a Colonizadora Sorriso para fundar uma nova empresa em Cuiabá, enquanto os sócios remanescentes seguem o projeto urbano com a criação da Colonizadora Feliz, responsável pela expansão imobiliária na região.
- Em Sorriso, foi inaugurado o Posto de Serviço da Telemat, marcando o avanço nas comunicações com o primeiro telefone público da cidade, funcionando diariamente das 6h às 22h e operado por Vechia e Irene Lodi.
- A Exatoria de Rendas Estaduais foi instalada em Sorriso em 31 de outubro de 1982, tendo como primeiro exator chefe Belizio Ferreira Andrade. Em 1991 foi denominada Exatoria Estadual de Sorriso.
- Com a aprovação da implantação de uma unidade da Emater (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Mato Grosso) em Sorriso, a população local organizou a Festa da Agricultura para comemorar a conquista. O evento celebrou a chegada do órgão, que representava um importante apoio ao desenvolvimento da agricultura familiar e ao fortalecimento das atividades rurais no município.
- Os primeiros dentistas a chegarem em Sorriso foram o casal Cézar e Cleide Zottis. Recém-formados, vieram ao município em busca de uma oportunidade para aplicar os conhecimentos adquiridos durante a vida acadêmica e contribuir com o desenvolvimento da saúde bucal da comunidade local.
- Após encerrar sua participação na sociedade com o Supermercado Sorriso, a família Dalsóquio deu início a um novo empreendimento, instalando a loja de materiais de construção Casa do Construtor.
1982
CTG Recordando os Pagos
Para recordar os pagos
Com informações históricas fornecidas pela tradicionalista Marcileia Capitanio Muller de Souza e informações da Revista Recordando os Pagos
Foi uma mulher, com saudade dos pagos em que havia nascido, que sugeriu a criação de um Centro de Tradição Gaúcha (CTG), em Sorriso. O local passou a ser ponto de encontro das famílias, de união e de celebração. Foi dali que surgiu a Festa do Chimarrão e da Soja, feito que deu origem à Exporriso. Hoje, mais do que um nome na cidade, o CTG concentra títulos nacionais e segue como palco vivo da cultura sorrisense
Jurema Terezinha da Rosa e Silva – e depois Picolli; era jovem, vinda de Carazinho, Rio Grande do Sul. Era a responsável por organizar os cultos, à época rezados no pátio da Escola Estadual Mário Spinelli, muitas vezes faltava espaço e era necessário ir para baixo das árvores da escola.
Daí, nasceu a necessidade de um espaço maior e a constatação de que era necessário criar opções de lazer aos jovens que residiam no Distrito, primeiro pertencente à Chapada dos Guimarães e depois à Nobres. Com saudades de Carazinho, Jurema sugeriu a criação de um Centro de Tradição Gaúcha (CTG).
Sugestão aceita pela comunidade local. E que levou à organização de uma reunião em 07 de abril de 1982, que deu origem ao CTG Recordando os Pagos, do Distrito de Sorriso. “Nasceu antes de virarmos município”, pontua Jurema.
Os seus fundadores foram Jurema Terezinha da Rosa e Silva, Celito Barbieri, Sadi Plentz, Arlindo Francisco dos Santos, Erni Loeblin, Benedito Abadio da Silva, Antonio Santos Capelarri, Genoíno Spenassato, Valdocir Paulo Rovaris, José Francisco Jacob Costa, Luís de Morais, Nelson Bender, Protásio Bender, Valmor Vascovi, Elio Barbieri, Admir Antonio Zen, Ildo Antonello, Ademar Raiter, Darci Berti, Osni Francisco Santos, Antenor Picinini, Manoel Luiz Rosa e Silva, Edgar Grade, Romildo Grade, Ludovico Sauer, Luís Dalmoro Silva, Ignácio Rogoski, Liborio Hilário Land, Laura Berti, Nair M. da Silva, Ilda Land, Adelmo Lucion, Antônio Flávio de Mello, Arlindo Marchioro, Carlos Pedro Rogoski, Enildo Groff, Erni Leoblein, Etzon Leoblein, Henrique Adolfo Ferronatto, Idali Maria Francio, Isidoro Ziemniczak, Ivo Raiser, João Baptista Francio, José João Valdameri, Leonildo Barbieri, Neivo Antônio Destri, Oscar Loeblein, Plincio Euclidio Land, Vilson Marchioro e Wilson Lucas Machado.
Para escolher o nome do CTG que nascia, todos escreveram sugestões em pequenos pedaços de papel que foram lidos em vos alta. “Recordando os Pagos”, sugestão de Sadi Plentz, foi o escolhido.
Afinal, o CTG surgiu como um lugar de encontro de quem sentia saudade e para manter viva a cultura sulista. Recordar, no caso, era a esperança de um futuro cheio de amizade na terra que ora escolhiam viver.
Para fortalecer o momento, Jurema organizou um desfile com carros alegóricos. Os carros foram então enfeitados com os arreios dos cavalos e o desfile de apresentação, percorreu a W1, atual Avenida Natalino João Brescansin. Para arrecadar fundos para o desfile, Jurema foi até Sinop e comprou vários metros de seda branca e vermelha.
De volta à vila, costurou lenços nas duas cores, para representar os maragatos e chimangos e, vendeu-os. “Seu Ângelo Dal Molin, comprou uma caixa fechada, ele tinha muitos meninos, colocou um lenço no pescoço de cada um”, recorda. Jurema fez mais de 50 lenços, todos comercializados. “Não lembro quanto deu no fim, mas abrilhantamos o desfile”, garante.
Foi nesse desfile em 16 de abril de 1982, na rua principal do então Distrito de Sorriso, que foi empossada a primeira patronagem do CTG Recordando os Pagos, sob o comando do patrão pioneiro indicado, Walmir Domingos Locatelli. “Na época, não se falava em mulher na patronagem, então apesar de eu ter sugerido, nem me passou pela cabeça estar na patronagem. Era um pouco no sentido de tu é bom nisso, então vai tomar conta dessa área e o Locatelli era o homem ideal, um entusiasta do CTG”, lembra.
Locatelli, proprietário de uma madeireira, não media esforços para o CTG dar certo. Costumava usar o maquinário e a experiência da madeireira nos arranjos do Centro.
O primeiro passo após a eleição da patronagem, foi justamente construir um galpão de fandangos, em terreno doado pela Colonizadora Sorriso, próximo à área verde, bem no centro do vilarejo. Todo de madeira bruta, cortada sob o comando de Locatelli que sabia como aproveitar melhor cada tora, o galpão foi levantado ao estilo dos galpões gauchescos e passou a sediar os primeiros fandangos, sempre com grande participação da comunidade.
Foi ali que surgiu o primeiro grupo de dança. Nas lembranças de Jurema, esse grupo figurou em uma festa organizada em Nova Mutum. Nesse tempo, o filho de Orlando Fiori, um dos fundadores e o primeiro capataz do CTG, Wanderley Fiori, exercia a função de professor de dança.
Entusiasta do movimento tradicionalista e do trabalho ora desenvolvido pelo filho, Orlando que era proprietário de um caminhão, levou cerca de dez casais na carroceria para se apresentar em Nova Mutum.
“Nós mesmas costuramos os vestidos, ensaiávamos no galpão da Elétrica Loeblein; foi uma apresentação muito linda”, destaca Jurema. E a viagem na carroceria do caminhão de Orlando, ficou na história do CTG e dos pioneiros naquele 1982.
Em 1983, Ângela Manfroi foi eleita a Primeira Prenda Adulta do CTG Recordando os Pagos, à época escolhida pelos tradicionalistas da entidade. A jovem era filha de um dos primeiros sócios da entidade e primeiro prefeito da cidade, Alcino Manfroi (in memorian). Ter uma prenda para representar, ser o rosto do CTG dava fôlego à entidade.
Em 02 de setembro de 1983, uma nova família do Sul, desta feita de Espumoso, chegava à vila e reforçava a estrutura do CTG. Eram Leonir Paulo Capitanio e a esposa Nerly Pagnassuti Capitanio, o jovem casal tinha dois filhos pequenos, Marciléia e Jorge, logo depois ainda no fim daquele ano, chegou Marcos o primogênito que havia ficado no Sul para terminar o ano escolar. Anos mais tarde, a presença dessa família marcaria a história do CTG. Mas isso é causo para anos futuros.
Daquele início, Marcileia lembra que seu primeiro contato com o CTG, foi meio mágico. Assim que chegaram, a mãe soube que haveria uma missa de Natal no Recordando os Pagos e tratou de fazer uma saia com um tecido estampado, bem delicado para a filha usar na data. Ali o CTG ganhou o coração e grande parte da vida da menina, que passou a crescer dentro do espaço.
Nessa época, sob o comando de Walmir Domingos Locatelli, foi aberta uma clareira na área doada pela Colonizadora Sorriso e construída uma cancha de bocha. “Era um esporte acessível e que conhecíamos do Rio Grande”, conta o gaúcho de Butinga, região serrana do estado sulista.
“Era tanta gente para jogar ao redor da cancha, que jogávamos uma partida e cedíamos o lugar para o outro. Foi uma época muito boa, joguei muita bocha, marquei muitos pinos no CTG e pela seleção também”, recorda sorrindo. Ali, em meio às árvores, na clareira aberta por várias mãos, na cancha recém-construída, surgia a invernada esportiva do Recordando os Pagos.
Como a patronagem ocorre sempre de um ano para o outro, entre 1984 e 1986 ela esteve sob a liderança de Sadi Plentz (in memoriam), conhecido entre os amigos pela alcunha de “Diabo Loiro” — apelido pelo qual fazia questão de ser chamado. Entre, 1986 e 1987, Alcino Manfroi, o primeiro prefeito da cidade assumiu o cargo.
Fato é que a então vila de Sorriso cresceu e se tornou município, com data celebrada em 13 de maio de 1986. Ao mesmo tempo em que a cidade se desenvolvia, o CTG também ampliava seus horizontes, impulsionado pela chegada de novos sócios. De 1987 a 1988, assumiu o posto de patrão Antônio Balbinot Simon Soares.
Seu Leonir Capitanio conta que no fim de 87, dois peões colocaram os nomes à disposição para assumir a patronagem.
Um deles, foi Clóvis Krzyzanski. “O Clóvis fez a campanha dele prometendo que se fosse o patrão, faria uma exposição, uma festa para movimentar a cidade”, detalha. Eleito, promoveu em 1988, a 1.ª Festa do Chimarrão e da Soja, realizada sempre em maio, próxima à data de emancipação política de Sorriso. “Para essa festa, viramos a noite trabalhando, organizando e cozinhando”, detalha dona Nerly.
Leonir acrescenta que por muitos anos, os integrantes do CTG, deram continuidade à festa. “Trabalhávamos todos pilchados e começaram a nos chamar de ‘gaúcho grosso’, como o termo ficou pejorativo, imaginamos juntos, o que fazer para mudar, foi aí que tive a ideia de transformar a festa em uma exposição, acabou sendo a Exporriso, a exposição oficial do município. Todos concordaram”, relata.
Capitanio pontua que tudo no CTG sempre foi feito dessa forma: quando alguém tem uma ideia, compartilha com os demais para que seja validada e endossada por todos. Clóvis coordenou a patronagem até 1990.
Nos anos de 1990 a 1991, quem respondeu como patrão foi Natalino Rubin Piccin. Cargo ocupado por Carlos Luiz Corlassoli, entre 1991 e 1993. Em 1992, sob a patronagem de Corlassoli, foi realizado o 1.º concurso de prendas, em que foram eleitas Sirlei Martins e Raquel Vailatti como 1.ª e 2.ª Prenda Adulta da entidade.
Em 05 de setembro desse mesmo ano, sob a coordenação do Patrão Carlos Corlassoli, a entidade inaugurou sua primeira sede campeira, localizada na atual sede do CTG Recordando os Pagos, toda arborizada e com amplo espaço para receber os campeiros que vinham para participar dos Rodeios Crioulos realizados pela entidade. “Foi um dos primeiros da região a ter sede campeira, então foi um rodeio bonito, reuniu gente de todo o lado”, recorda-se Locatelli.
Marciléia Capitanio Muller de Souza, pontua que em 1993, foi realizada a eleição do segundo prendado da entidade. Ser primeira prenda da entidade era um sonho de todas as meninas e suas famílias. Para ser prenda, não era qualquer prova enfrentada pelas meninas: o desafio era duro. Após três dias de provas, com testes de conhecimento de História e Cultura do Rio Grande do Sul, Gilmara Zatti, foi eleita primeira prenda da entidade, juntamente com as prendas Marcileia Capitanio e Sonia Rossato, que foram eleitas 2.ª e 3.ª Prenda, respectivamente. Criada dentro do CTG, assim como as outras duas, Marcileia conta que foi um sonho realizado.
Sob o olhar atento das três prendas adultas e com sua organização, em 1994 foram eleitas, pela primeira vez, as prendas mirim e juvenil da entidade.
Na categoria Mirim, participaram do concurso Francieli Nissola, Francieli Corlassoli e Rose Rogoski. Já na categoria Juvenil, concorreram Marina Turra, Rubia Mara De Cezar e Maristela Fedrizzi.
A iniciativa ocorreu durante a segunda patronagem de Walmir Domingos Locatelli, iniciada em 1993 e encerrada em 1995.
É do segundo mandato de Locatelli uma homenagem recebida pelo CTG local. A fama da organização e do trabalho coletivo, ultrapassou fronteiras: em meados dos anos noventa, o Grupo Musical Sinuelo da Serra, homenageou o CTG Recordando os Pagos, com a música intitulada “Recordando os Pagos”, segundo depoimento do fundador do grupo, Élio Bernadon, a música foi composta em homenagem aos CTG’s Recordando os Pagos, das cidades de Francisco Beltrão no Paraná, terra natal do grupo e Sorriso no Mato Grosso, local onde eles mais tocaram fandango, fora do estado do Paraná. A homenagem marcou época e a história do CTG sorrisense.
Entre os dias 25 e 27 de novembro de 1994, ainda sob o comando de Locatelli, o CTG Recordando os Pagos fez história ao sediar o primeiro Festival Mato-grossense de Arte e Tradição Gaúcha (FEMART); a primeira Festa Campeira do Mato Grosso (FECAMT) e os Primeiros Jogos Tradicionalistas.
Nesse mesmo ano, a entidade conquistou com a prenda Gilmara Zatti o título de 1.ª Prenda Adulta do Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG) do Mato Grosso. Vale ressaltar que foi a primeira vez que foi feita a escolha do prendado, no Estado.
O FEMART, contou com a participação do violonista brasileiro Yamandu Costa, considerado hoje um dos maiores violonistas do Brasil e do mundo, que naquele momento, despontava no cenário gaúcho e mais tarde no cenário nacional, e de seu pai, o multi-instrumentista e professor de música, Algacir Costa.
No ano seguinte, 1995, a entidade participou na cidade de Cascavel, no Paraná, no CTG Estância Colorada, com a prenda Gilmara Zatti do Festival Nacional de Arte e Tradição Gaúcha (FENART) e do concurso da mais prendada prenda do Brasil.
Também em 1995, na cidade de Água Boa, no CTG Coração Gaúcho, os sorrisenses participaram pela primeira vez, com o grupo de danças tradicionais da categoria adulta no FEMART. “1995 foi um ano intenso, de muito trabalho e de muitas conquistas que nos marcaram profundamente”, emocionasse o patrão da época.
Quando Locatelli findou o mandato, em 1995, Jovino Toledo assumiu e seguiu até 1997. Entre 1997 e 1999, Celito Barbieri (in memorian), foi eleito patrão. Foi sob o comando do patrão Celito Barbieri, que foi realizado o 1.º Sarau de Prendas do CTG Recordando os Pagos e o 4.º Sarau de Prendas da 3.ª Região Tradicionalista (RT), que contou com a participação de prendas dos CTG´s Estância da Amizade, Sentinela da Tradição, Porteira da Amazônia, entre outros.
O Sarau de Prendas, teve como padrinhos, Renilson João Freitas e esposa e Leonir Paulo Capitanio e esposa, a dona Nerly. Os oradores do evento foram o peão Roman Drews e a prenda Gilmara Zatti.
Durante o Sarau que teve uma bela programação, foi realizado o chá das prendas, tendo como padrinhos, o Walmir Domingos Locatelli e sua esposa, dona Lorena (in memorian).
Participaram do Sarau, as prendas Alexandra Sganderla, Ana Lúcia Turra, Ana Paula Ritter, Andreia Segner, Carla Suele Meotti, Clariciane Dalmaso, Cristiane Bedin, Daiane Barbieri, Daiane Lavrati Alves, Eliane Couto, Eliane Pinheiro, Emily Cristiani Zanella, Fabiana Bressan, Fernanda Ventura, Fernanda Vitali, Francieli Corlassoli, Francieli Nissola, Francielly Ludwig, Graciele D. Frick, Jaqueline Bueno (in memorian), Juliana Andrim, Karine Silva, Marcela Dapont, Nádia Conte, Patrícia Viapiana, Priscila Faria, Renata C. Barbosa, Roberta K. Barbosa, Rose Rogoski, Rubia Mara De Cezar, Sonise Riedi, e Yara Zanchet Ribas.
Entre 1999 e 2001, assumiu a patronagem Victório Nissola. Foi uma época boa. Entre os anos de 1999 e 2002, a entidade conquistou vários títulos estaduais, tanto nas provas artísticas, como campeiras e esportivas. Nesse mesmo período, a entidade realizou vários Fandangos, Rodeios Crioulos, inaugurou e aumentou sua sede administrativa.
Ainda em 2001, assumiu a patronagem, o seu Erzídio Zavareze (in memorian) que conduziu o Recordando os Pagos em três momentos: 2001 a 2004; 2006 a 2008 e de 2019 a 2020.
Em 2003, sob a coordenação de Zavareze, o Recordando os Pagos sediou o maior evento do tradicionalismo gaúcho no país: o VII Festival Nacional de Arte e Tradição Gaúcha (FENART), o I Jogos Tradicionalistas, o XI Rodeio Crioulo de Campeões e o I Encontro Nacional de Jovens Tradicionalistas, com a participação de diversas Federações filiadas à Confederação Brasileira da
Tradição Gaúcha (CBTG).
A Invernada Cultural, foi destaque dentro do estado de Mato Grosso e do Brasil. A prendinha Ritielli Barbieri de Souza, 1.ª Prenda Mirim da CBTG, gestão 2002/2004, e 1.ª Prenda Juvenil da CBTG gestão 2006/2008 e a prenda Daiane Lavratti Alves, 1.ª Prenda Adulta da CBTG 2004/2006, foram rostos e vozes de eventos que enalteceram a entidade.
Entre 2004 e 2006, Luiz Antônio Lodi, foi o patrão. Durante o período, em 2005, na Cidade de Santiago do Boqueirão, a entidade participou do VIII Festival Nacional de Arte e Tradição Gaúcha, trazendo para o estado de Mato Grosso, o inédito título de Campeão Brasileiro de Danças Tradicionais, na categoria adulta. O feito foi ainda maior: os sorrisenses também trouxeram na mala, outros títulos e premiações individuais, dentre eles, o de Intérprete Individual Mirim Masculino, com João Pedro Machado; Intérprete Individual Juvenil Feminino, com Gabriela Adelaide Pinto de Oliveira, Declamação Juvenil Feminino, com Ritieli Barbieri de Souza.
Além de participar do FENART com os grupos de dança mirim, a entidade também conquistou o título de campeã. A Invernada Juvenil alcançou o 3.º lugar, enquanto a Veterana obteve, ainda, premiações nas modalidades esportivas e campeiras.
O destaque foi tão significativo que, ainda em 2005, a entidade foi convidada para uma participação especial no Encontro de Arte e Tradição Gaúcha (ENART), realizado em Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul.
Dois anos após, em 2007 na cidade de Pato Branco, a entidade conquistou o troféu de bicampeão brasileiro consecutivo de danças tradicionais, na categoria adulta, bem como alguns outros títulos e premiações individuais e ainda premiações Esportivas e Campeiras. Além de ter participado com os grupos de danças Mirim, Juvenil e Veterana.
O patrão, à época, era novamente Erzídio Zavareze. Marcileia recorda que acompanhou de perto as apresentações dos irmãos Jorge e Janaína.
A família Capitanio também marcou forte presença, contribuindo para que a entidade conquistasse o prêmio de Maior Família Tradicionalista no FENART. Estavam presentes os pais, Leonir e Nerly, e os quatro filhos: Marcos — que posteriormente se mudou para Sorriso —, Marcileia, Jorge e Janaína, esta última já nascida em Sorriso.
Os pioneiros do CTG sorrisense, pontuam que a entidade sempre se manteve ativa dentro do Movimento Tradicionalista Gaúcho do Estado de Mato Grosso (MTG/MT), realizando e participando dos Rodeios Artísticos, Campeiros e Esportivos, assim como das etapas do FEMART, da FECAMT e dos Jogos Tradicionalistas do estado.
Em 2009, sob a patronagem de Darci Sganderla (in memorian), o Recordando os Pagos, participou mais uma vez, do Festival Nacional de Arte e Tradição Gaúcha, Rodeio Crioulo Nacional de Campeões e Jogos Tradicionalistas. Em quase todas as provas e modalidades, destacou-se mais uma vez no cenário tradicionalista gaúcho nacional.
A conquista, rendeu prestígio e respeito dos gaúchos espalhados por todas as querências, que fazem parte do imenso “Brasil de Bombachas”. Sganderla, também apaixonado pelo CTG, foi patrão entre 2008 e 2011, repetindo o posto, nos anos de 2016 a 2017 e de 2019 a 2020.
No estado, Sorriso sempre participou de forma ativa da diretoria do Movimento Tradicionalista Gaúcho, tendo dentre os integrantes, peões e prendas, que exerceram as funções de coordenadores de região, diretores campeiro, esportivo, cultural e artístico do MTG-MT, além claro da diretoria executiva, nos cargos de tesoureiro, secretário e vice-presidente.
Sob a direção do patrão Arlindo de Almeida, que coordenou entre 2011 e 2013, o CTG Recordando os Pagos, participou do Rodeio Crioulo Nacional de Campeões e Jogos Tradicionalistas, destacando-se mais uma vez.
Já em 2012, os gaúchos sorrisenses foram convidados, pela primeira vez, a participar de um festival internacional de folclore. Arlindo aceitou o desafio e, juntamente com a coordenação artística e o instrutor Diego Moresco, levou um grupo de 23 adolescentes que desembarcou na província de Taiwan, na China, para participar do maior festival infantojuvenil de folclore do mundo, o “Yilan International Children’s Folklore & Folkgame Festival”.
“Foi um evento que marcou profundamente todos os participantes, uma grande oportunidade de mostrar nossa cultura e conhecer outras, vivendo experiências enriquecedoras”, destaca Marcileia, que acompanhou o grupo.
No ano seguinte, em 2013, buscando renovar suas bases, o CTG Recordando os Pagos levou ao FENART, apenas o seu grupo de danças da categoria adulta; já no Rodeio Crioulo Nacional de Campeões e Jogos Tradicionalistas, participou de quase todas as provas e modalidades, onde em vários momentos e modalidades, os sorrisenses foram destaque.
Ainda em 2013, em um movimento de incluir mulheres e reconhecer seu valor, Marcileia Capitanio de Souza, foi eleita diretora artística do MTG do Mato Grosso. Ocupou o cargo por 12 anos consecutivos.
No ano de 2014, o CTG percorreu o vasto território de Mato Grosso, participando das etapas que compõem o circuito classificatório do FEMART. Em meados de outubro, na cidade de Nova Mutum (MT), na sede social do CTG Porteira da Amazônia, a Invernada Juvenil conquistou uma vaga para representar o MTG/MT na XIII FENART — Festival Nacional de Arte e Tradição Gaúcha —, realizada na cidade de Piratuba, em Santa Catarina.
No dia 06 de dezembro do mesmo ano, a entidade sediou o Congresso e Convenção Tradicionalista do MTG/MT. Durante o período, Sorriso foi sede do próprio MTG/MT, já que durante o Congresso a entidade anfitriã concede sua estrutura física para ser o galpão o MTG.
No mesmo fim de semana e concomitantemente ao Congresso e à Convenção, é realizado o Concurso Estadual de Prendas e Peões, para escolha dos representantes do MTG/MT para o 16.º Concurso Nacional de Prendas e Peões (CBTG – Confederação Brasileira da Tradição Gaúcha), que viria a se realizar no CTG Chama da Tradição da Cidade de Sapezal no fim de 2015.
O jovem Daniel Morelo comandou o CTG no período de 2013 a 2014.
Entre 2014 e 2015, a patronagem esteve a cargo de Ludovico Gandolfi. Na sequência, Leonir Capitanio assumiu a condução da entidade, permanecendo até 2016.
Em fevereiro de 2015, já sob a gestão do patrão Leonir Capitanio, o CTG Recordando os Pagos participou, mais uma vez, do XIII FENART, deslocando-se até a cidade de Piratuba, em Santa Catarina, com sua invernada juvenil.
Em Santa Catarina, a invernada juvenil conquistou o título de melhor coreografia de saída de palco, destacando-se com seus jovens, tendo um dos seus sócios tradicionalistas, Francisco de Souza, compondo a equipe técnica do festival, juntamente com o professor Toni Sidi Pereira e o então vice-presidente artístico do MTG do Rio grande do Sul, José Fishiborn (in memorian). Sorriso também participou do Rodeio Crioulo Nacional de Campeões e dos Jogos Tradicionalistas.
Ainda naquele ano, a entidade participou novamente de todas as etapas do circuito classificatório do FEMART e da etapa regional da 3.ª RT, se deslocando às cidades de Sapezal e Querência, com os grupos de danças tradicionais Mirim, Adulta e Veterana, e nas provas individuais como chula, danças gauchescas de salão, declamação, violão, gaita e intérpretes vocais.
Os Jogos Tradicionalistas Estaduais, o Circuito de Rodeios Campeiros Regionais, também receberam integrantes do Recordando os Pagos.
No fim de 2015, representado pelo peão Diogo Vicentini, Sorriso trouxe para casa, o título de 1º Peão Juvenil da CBTG -Confederação Brasileira da Tradição Gaúcha, gestão2015/2017, durante o 16.º Concurso Nacional de Prendas e Peões (CBTG - Confederação Brasileira da Tradição Gaúcha), que se realizou no CTG Chama da Tradição de Sapezal.
Em 2016, novamente sob o olhar de Darci Sganderla, Sorriso sediou o Rodeio Crioulo e Concurso de Prendas e Peões para a gestão 2016/2018.
Foram finalistas como prenda mirim em 1.º lugar Nathalie Schiefelbein; 2.º Geovana DillyRudell e 3.º Isabely Stefany Ferreira; prendas juvenis em 1.º Thaynara Pegoraro Santos; 2.ºStephanie Schiefelbein e 3.º Isabela C. Campos; já prendas adultas, ficou com 1.º lugar Jakeline Schneider; 2.º Elizandra Assis e 3.º Laís Sartori; o peão juvenil foi Raphael Capitanio de Souza.
Também em 2016, a entidade participou de todas as etapas do circuito classificatório do FEMART, realizadas nas cidades de Tangará da Serra, Canarana e Sapezal, com os grupos de danças tradicionais Mirim, Adulta e Veterana.
Além disso, marcou presença nas provas individuais — como Chula, Danças Gaúchas de Salão, Declamação, Violão, Gaita e Intérprete Vocal —, bem como nos Jogos Tradicionalistas Estaduais, no Circuito de Rodeios Campeiros Regionais e na FECAMT (Festa Campeira do Mato Grosso).
Em todas essas frentes, os sócios tradicionalistas se destacaram nos diversos departamentos da entidade.
O ano de 2016 também ficou marcado pelo fato de o CTG sorrisense ter sediado o Congresso e a Convenção Tradicionalista do MTG/MT. Na ocasião, foi realizado o Concurso Estadual de Prendas e Peões, responsável por escolher os representantes do MTG/MT para o 17.º Concurso Nacional de Prendas e Peões, promovido pela CBTG (Confederação Brasileira da Tradição Gaúcha), que ocorreu no fim de 2017, na cidade de Foz do Iguaçu, no Paraná.
Nesse contexto, a prenda Jakeline Schenider conquistou o título de 3.ª Prenda Adulta do MTG/MT, na gestão 2016/2018.
Em 2017, impulsionado pelo progresso da Capital Nacional do Agronegócio, o CTG Recordando os Pagos prosseguiu em natural crescimento, participando ativamente das atividades desenvolvidas pelo MTG/MT, levando suas três invernadas Artística, Esportiva e Campeira, a participar dos eventos tradicionalistas desenvolvidos pelo movimento tradicionalista organizado.
Novamente, Sorriso integra as etapas do circuito classificatório do FEMART e na etapa inter-regional da cidade de Sapezal, a entidade conquistou com os grupos de danças tradicionais Mirim, Adulta e Veterana, o primeiro lugar em todos as categorias. Sganderla continuava na coordenação, função que seguiu até 2020.
E em julho de 2017, o CTG participa do XIV FENART e do 18.º Rodeio Crioulo Nacional de Campeões e 8.º Jogos Tradicionalistas, trazendo para o estado de Mato Grosso, os títulos de vice-campeão Brasileiro de Danças Tradicionais nas categorias adulta e mirim e o 4.º lugar na categoria veterana, destacando-se ainda nas provas individuais, conquistando ainda, premiações nas invernadas Esportivas e Campeiras.
No final de outubro desse mesmo ano, a entidade sediou a etapa final do FEMART recebendo tradicionalistas de todo estado e transformando a Capital do Agronegócio, na sede mato-grossense do tradicionalismo gaúcho.
Na oportunidade, a participação da invernada esportiva nos Jogos Tradicionalistas Estaduais e da invernada campeira no Circuito de Rodeios Campeiros Regionais, renderam louvores dentro do meio tradicionalista.
No primeiro semestre de 2018, o CTG realiza o maior concurso de prendas e peões dos seus 36 anos de história, contando com a participação de mais de 19 (dezenove) jovens e crianças tradicionalistas, filhos de sócios da entidade. Após três dias de provas escritas, artísticas, campeiras e de vivências tradicionalistas. Para a gestão 2018/2020, foram escolhidos os representantes da entidade para a fase regional.
Na categoria bonequinhas, foram eleitas Haíssa Soffiati, Gabriela Zuanazzi Capitanio e Marina Rader. Como prendinhas mirim, destacaram-se Valéria Zuanazzi Capitanio, Nicoli Gebhardt Correa e Maria Eduarda Sena. Na categoria juvenil, foram escolhidas Aimê Oliveira, Mariana Luisa Pazini e Heloisa Poleto Bergamini.
A prenda adulta foi Emily Beatriz Dutra da Silva, e a prenda veterana, Claudinéia Aparecida de Oliveira. Entre os piazitos, foram selecionados Matheus Facin Padilha de Souza e Miguel Delima.
Na categoria peão mirim, os representantes foram Pedro Afonso Dillyrudell, Caetano Poleto Bergamini e Luiz Henrique Santos. O peão juvenil foi Luiz Henrique Dutra da Silva. Já na categoria adulto, os escolhidos foram Peterson Dalmagro Brescansin e Raphael Capitanio de Souza.
Neste ano de 2018, a invernada cultural da entidade participou do Projeto/Campanha Lacre do Bem, que tinha por objetivo a conscientização coletiva da importância da preservação ambiental e do ato solidário, através do recolhimento do lacre, convertendo o valor em cadeiras de rodas a serem doadas a uma entidade de cunho social.
Atuando sempre de forma muito ativa dentro do Movimento Tradicionalista organizado do estado, a entidade mais uma vez, participou de todas as etapas do circuito classificatório do FEMART, nas cidades de Sapezal, Querência e Tangará da Serra.
O sucesso junto ao FEMART foi tanto, que o CTG foi convidado a participar do Festival Internacional de Folclore de Cáceres (Fifolk). O grupo de danças adulto, levou aos cacerenses, o melhor do seu repertório e fez muito sucesso na noite da sua apresentação no palco do festival.
Ao fim de 2018, os sorrisenses participaram, em Cuiabá, do Congresso e da Convenção Tradicionalista, levando seus representantes ao Concurso Estadual de Prendas e Peões.
Nessa ocasião, destacaram-se as bonequinhas Gabriela Zuanazzi Capitanio e Haíssa Soffiati; a prendinha mirim Nicoli Gebhardt Correa; a prenda juvenil Aimê Oliveira; o piazito Matheus Facin Padilha de Souza; e os peões mirins Caetano Poleto Bergamini e Pedro Afonso Dillyrudell.
No Congresso, foram anunciados os representantes do MTG/MT para a XV edição do FENART, na cidade de Criciúma, Santa Catarina. Durante o anúncio, os sorrisenses vibraram com a classificação dos grupos de danças tradicionais das categorias Mirim, Adulta e Veterana, e ainda, as provas individuais de Chula, Dança Gaúcha de Salão, Declamação, Gaita e Intérprete Individual.
Em 2019, mantendo o ritmo de participações, os sorrisenses conquistaram o título de campeões gerais do FEMART. O destaque ficou por conta dos grupos de dança, sempre apoiados e liderados pelos instrutores Claiton Brauner, Peterson D. Brescansin e Rubens Capitanio de Souza. Este último, inclusive, participou de seu primeiro fandango com apenas 25 dias de vida, quando a mãe, Marcileia, o levou a uma bailanta. “Tomou gosto”, comenta ela, sorrindo ao falar de Rubens.
Também marcaram época, a participação da invernada esportiva nos Jogos Tradicionalistas Estaduais e a invernada campeira no Circuito de Rodeios Campeiros Regionais.
Ainda em 2019, durante o Congresso Tradicionalista e Eletivo do MTG/MT, realizado na cidade de Lucas do Rio Verde, Francisco José Muller de Souza, tradicionalista sócio do CTG Recordando os Pagos, foi eleito presidente do MTG, para a gestão do biênio 2019/2021.
Um reconhecimento do trabalho feito com excelência pelo Recordando os Pagos. Já Marcileia, a menina que cresceu no CTG Recordando os Pagos, integrou a coordenação da Confederação Brasileira da Tradição Gaúcha (CBTG), como secretária cargo que ocupou até 2023.
Cléber Bello foi o patrão que enfrentou a pandemia de Covid-19, entre os anos de 2020 a 2022. Por questões de preservação de saúde pública, foi necessário, o afastamento social dos tradicionalistas. Diante da necessidade, durante seis meses a entidade permaneceu parcialmente fechada.
Em novembro de 2020, mesmo com a pandemia, a entidade organizou seu concurso de prendas e peões para a gestão 2020/2022: sendo 1.ª, 2.ª e 3.ª colocadas respectivamente, as bonequinhas Giovana Klein Machado da Silva e Ana Facin Padilha de Souza; a prendinha Mirim Valéria Zuanazzi Capitanio; as prendas Juvenis Geovana Caroline Dilly Rudell, Gabriela Klein Machado da Silva e Evelyn Ferreira Nardes, a prenda adulta escolhida foi Larissa Kaminski, e como prendas veteranas Susana Graciela Zuanazzi Capitanio e Marcileia Capitanio Muller de Souza; o peão mirim Matheus Facin Padilha de Souza e o peão Juvenil Pedro Afonso Dilly Rudell.
O distanciamento social, seguiu em 2021. Mas, mesmo com tantas notícias tristes que nos assolaram em mais de um ano de pandemia, maio foi um mês que o Recordando recebeu excelentes notícias: o CTG foi agraciado pelo Ministério da Cidadania com o reconhecimento de Ponto de Cultura.
O reconhecimento veio por meio do projeto da Primeira Prenda Veterana (gestão 2020/2022) e Diretora Cultural da mesma gestão, Susana Graciela Zuanazzi Capitanio, através do portifólio e cartas de referências cadastrados junto ao Ministério da Cidadania.
Com isso, o Poder Público Federal, reconheceu o CTG sorrisense como entidade social existente, que realiza atividades de fomento e divulgação da cultura popular. Um marco para a entidade e para o município.
Em setembro de 2021, o mês do gaúcho, depois de mais de 18 (dezoito) meses de afastamento social, a saudade era grande, e a patronagem juntamente com o Departamento Cultural, organizou a Semana Farroupilha que contou com Missa de Benção das Sementes, Missa Crioula, Tertúlia Livre e jantar para os sócios.
Ao fim de 2021, o CTG local, participou do Congresso Tradicionalista e Eletivo do MTG/MT, realizado na cidade de Primavera do Leste, em que Francisco José Muller de Souza, foi eleito presidente do MTG para a gestão do biênio 2021/2023.
Também em 2023, em 20 de novembro, no encerramento do 24.º Congresso Tradicionalista da Tradição Gaúcha do Brasil, realizado em Gravataí, no Rio grande do Sul, Marciléia Capitanio Muller de Souza e o CTG Recordando os Pagos, fizeram história: Marcileia, então representante do MTG do Mato Grosso, assumiu papel fundamental como a 1.ª vice-presidente eleita da Confederação Brasileira da Tradição Gaúcha (CBTG) para o biênio 2023-2025.
Com uma trajetória rica no tradicionalismo gaúcho, Marciléia, advogada, ex-secretária da CBTG, diretora artística há 10 anos do MTG do Mato Grosso, originária do CTG Recordando os Pagos de Sorriso, 3ª Região Tradicionalista do MTG do Mato Grosso, marcou o nome da mulher brasileira na história da CBTG.
“Essa eleição veio para fortalecer o trabalho da dona Jurema, da minha mãe e de todas as mulheres que fizeram e fazem esse CTG”, sentencia ela.
Já em Sorriso, no ano seguinte,de 2024, assumiu a patronagem do recordando os Pagos, Jorge Leandro Capitanio, fortalecendo os laços da família com a entidade.
Sob a patronagem de Jorge, o CTG passou por um processo de modernização, com a instalação de energia solar para reduzir um dos principais gargalos da entidade: o alto custo da conta de energia elétrica, que, em alguns meses, ultrapassava os R$ 12 mil.
Outra iniciativa foi a construção de uma galeria, ainda em andamento, que contará com 14 salas destinadas à locação.
Sob a patronagem de Jorge em 2025, o Recordando os Pagos, foi destaque no 16.º Festival Nacional de Arte e Tradição Gaúcha, realizado em Cristalina, Goiás.
Dentre os destaques, está a invernada mirim do CTG Recordando os Pagos, que se sagrou a grande campeã nacional no quesito Danças Tradicionais. A invernada também conquistou o 2.º lugar na coreografia de saída de palco.
Já a invernada veterana, conquistou a terceira posição na coreografia de entrada em palco e o 5.º lugar em Danças Tradicionais. Durante o 16.º Fenart, a prenda mirim, Elisa Dresch de Sousa, arrematou o primeiro lugar na declamação categoria mirim. As invernadas foram conduzidas pelo professor de dança, Claiton Brauner.
A equipe esportiva também se fez presente. Os atletas participaram das modalidades de bocha campeira, bolão, bocha mundial, truco cego, bocha 48, Tava e Tetarfe.
Sorriso ficou com o 3.º lugar na bocha mundial categoria individual; 3.º lugar na bocha mundial categoria duplas e 3.º lugar no bolão masculino por equipes. A delegação sorrisense somou 120 representantes no FENART de 2025.
“Foram muitos e muitos quilos de macarrão, muitos jantares feitos com carinho para que essa entidade se mantivesse ativa, com a chama acesa. Foram centenas de mãos unidas nesse propósito”, destaca dona Nerly, ao falar dos 42 anos do CTG de Sorriso. Instalado em uma área de 12 hectares — sendo que parte da área inicial foi posteriormente comercializada —, o CTG sorrisense segue firme como um importante ponto de cultura.
Nascido da saudade e da necessidade de um espaço de encontro, o Recordando os Pagos permanece como um símbolo vivo de união, mantendo a cultura tradicionalista ativa ao entrelaçar histórias e aproximar antigas e novas gerações em terras sorrisenses.
