Comodoro

A bola da vez do agronegócio

Áreas cultivadas com soja e milho têm crescido exponencialmente no município, fortalecendo a economia local

Técnico agrícola, ex-bancário, advogado e oficial do registro de imóveis, títulos e documentos, Rogério Vilela está em seu primeiro mandato à frente da prefeitura de Comodoro e é um apaixonado pela cidade. 

Eleito com 65% dos votos válidos, cabe a ele comandar pelos próximos quatro anos os destinos administrativo e político do município, que completa 35 anos no dia 13 de maio e tem um PIB anual de R$ 696 milhões, com uma renda per capita de R$ 33,9 mil por ano. 

E se depender da vontade e da confiança de Vilela no futuro de Comodoro, dentro de 10 anos ou menos o município será um dos mais progressistas de Mato Grosso e uma grande potência econômica do estado. “Comodoro é a bola da vez”, diz ele. “Temos tudo para ser uma grande cidade num futuro bem próximo”, completa.

Toda essa confiança está alicerçada no avanço de uma das atividades que mais tem apresentado resultados positivos ao longo dos últimos anos no Brasil e segurado a balança comercial do país: a agricultura.   

Localizada em uma área de transição entre o relevo do Chapadão dos Parecis e o Vale do Guaporé, já próximo à divisa entre Mato Grosso, Rondônia e Bolívia, Comodoro, tem ainda uma grande área a ser ocupada por lavouras e pela pecuária, que, integrada à agricultura, pode proporcionar ao produtor a chamada “terceira safra”, com o gado sendo engordado nas áreas onde foi cultivado o milho em consórcio com a braquiária ou outro volumoso.

 

Vale do Guaporé: uma nova fronteira agrícola

Com uma área territorial de 21.774 quilômetros quadrados boa parte são terras indígenas, Comodoro ainda tem uma grande área a ser explorada pelo agronegócio. A nova fronteira agrícola do município é o Vale do Guaporé, próximo à Bolívia e a Vila Bela da Santíssima Trindade. 

Com 150 mil hectares já abertos e apenas 40 mil sendo cultivados, o Vale pode ampliar a área produtiva de Comodoro, onde grandes fazendas estão substituindo gradativamente o gado pela soja e pelo milho.

Gerente de uma fazenda no Vale, onde são cultivados 2,8 mil hectares com soja e milho, Emerson Rogério dos Santos destaca a fertilidade do solo, fator preponderante para garantir a viabilidade do cultivo na região. 

Com uma produtividade média de 55 sacas por hectare conseguidas em áreas que durante anos foram utilizadas apenas para pastagem, os únicos problemas apontados por quem cultiva no Vale são a falta de silos para o armazenamento da produção e as condições das estradas durante o período da colheita. 

Quanto à logística, pelo menos no que diz respeito à responsabilidade do Poder Público, a tendência é que os problemas sejam resolvidos a médio prazo. 

“A agricultura é uma nova oportunidade de renda para o Município e a nova gestão tem o objetivo de dar esse apoio aos produtores rurais facilitando o escoamento dos seus produtos. Querendo ou não, o futuro do nosso Município é em torno do agronegócio e hoje o Vale do Guaporé é um grande produtor de soja”, reconhece Igor Theodoro de Souza, secretário municipal de Desenvolvimento Agrícola e Meio Ambiente de Comodoro. 

 

Outra região que também tem experimentado o avanço da agricultura em Comodoro é a porção Sul do Município, já no Chapadão dos Parecis, e onde são cultivados 110 mil hectares com ótima produtividade. 

Para o prefeito Rogério, o aumento da área cultivada em Comodoro é só uma questão de tempo. “Se abrir um pouquinho mais o Vale nós podemos totalizar aí 380 mil, quem sabe até 400 mil hectares de área a ser cultivada”, acredita o prefeito. Um salto considerável.

Agricultura, a alavanca que vai impulsionar a economia de Comodoro

Presidente do Sindicato Rural, Amir Agostinho Signor, também avalia que Comodoro tem muito a avançar com o crescente aumento da agricultura. “Aqui é uma região pujante, mas não se desenvolveu como as outras”, observa. 

Porém, segundo ele, esse cenário está mudando. “Nós estamos desenvolvendo a região no agronegócio. A agricultura está se deslanchando cada vez mais, então, com isso vão se abrindo essas fronteiras agrícolas do Vale do Guaporé, onde estão saindo as áreas degradadas com pastagens e passando para a agricultura de lavouras de milho e soja”, aponta Amir, que também é comerciante e produtor rural.

Essa mudança no campo é visível. Segundo o presidente do SR, de acordo com os números do INDEA, em 2020 a área plantada com soja e milho em Comodoro aumentou em 10 mil hectares. 

Olho: “A agricultura está se deslanchando cada vez mais, então, com isso vão se abrindo essas fronteiras agrícolas do Vale do Guaporé”, Amir Agostinho Signor, presidente do SR de Comodoro

E se o campo se desenvolve, a cidade também cresce, destaca Amir. “Aonde entra a agricultura, o dinheiro gira. Todos os setores vão ganhar, o dinheiro vai estar circulando aqui dentro”, ressalta. 

O aumento das áreas ocupadas pela agricultura, que tem proporcionado o crescimento e o fortalecimento do agronegócio em Comodoro, vai refletir direta e indiretamente em outros setores, como o comércio e a prestação de serviço. 

Morando há 32 anos na cidade, Amir é categórico ao afirmar que Comodoro e o Vale do Guaporé são a “bola da vez” no agronegócio. Segundo ele, as outras regiões do estado já estão consolidadas e não existem mais áreas boas para serem cultivadas. “Se as pessoas estão pensando em vir buscar terras baratas, ainda tem aqui”, destaca, acrescentando que o preço do hectare está em torno de 100 a 500 sacas de soja. 

Se a agricultura está ganhando corpo em Comodoro a pecuária ainda continua forte no cenário econômico local. São cerca de 20 mil animais criados em sistema de confinamento e em torno de 300 mil criados à pasto.

E planejando bem o plantio da soja e do milho, o produtor pode produzir também muita carne nas áreas ocupadas por essas culturas fazendo a integração lavoura pecuária (LP). 

 

MT-235: Pavimentar para avançar

Mas se há perspectiva de crescimento com a expansão do agronegócio, existem também entraves a serem resolvidos. Um deles, conforme já foi citado, é a retirada da produção, principalmente no período das chuvas. 

Para resolver esse problema, a solução, de acordo com o prefeito Rogério Vilela, é a pavimentação da MT-235 num trecho de aproximadamente 100 quilômetros entre a sede do Município e o Rio Guaporé. 

A realização dessa obra é o gatilho que vai disparar a economia do Município. “Seria o destravamento de muitas atividades por aqui, inclusive com a instalação de empresas ligadas ao agronegócio e ao turismo”, ressalta o prefeito Rogério Vilela. 

As tratativas para que a pavimentação da rodovia possa ser concretizada já estão em andamento. Uma das propostas é realizar a obra por meio de uma parceria público-privado, envolvendo o Município, a Associação dos Produtores do Vale do Guaporé e o Governo do Estado por meio da Secretaria de Infraestrutura e Logística. 

“Se alcançarmos essa pavimentação, aí é que eu falo que a gente vai destravar, porque não é só a agricultura, mas a pecuária também vai ser favorecida, os pequenos produtores, os sitiantes, que são muitos. Nesta linha [são] mais ou menos uns mil pequenos proprietários rurais”, aponta o prefeito. A proposta é que a obra seja realizada em três etapas.  

 

Agricultura familiar também tem espaço para crescer

 

Se ao longo dos últimos dez anos o agronegócio vem registrando um crescimento significativo, a agricultura familiar em Comodoro é outra atividade ligada ao campo que tem muito espaço para avançar e se tornar um segmento de grande relevância no cenário econômico do município.

São cerca de 4 mil propriedades rurais com áreas que vão de 25 a 40 hectares espalhadas por todas as regiões do Município, inclusive no Vale do Guaporé. 

Embora o número de pequenas propriedades seja grande, a produção de hortifrutigranjeiros ainda é pequena e insuficiente para atender a demanda local. “Dá pra entender você com uma enormidade de sítios desse tamanho comprar alface de Vilhena, tomate de São Paulo? Não dá pra aceitar isso”, diz o prefeito.

Mas esse cenário é outro que tende a mudar. Uma das ações da administração municipal será fomentar os agricultores familiares locais para que aumentem a produção e também atrair pequenos agricultores interessados em investir nas pequenas propriedades. 

Além da produção de hortifrutigranjeiros, a pecuária leiteira é outra atividade que deve ser incentivada nas pequenas propriedades.

A proposta é implantar ações que possam melhorar a alimentação e a genética dos animais, aumentando consequentemente a produção, que pode ser absorvida pelas duas indústrias de laticínios instaladas na cidade. 

 

Localização e logística favoráveis

 

Comodoro está localizado em uma região bastante favorável para a implantação de uma série de atividades que vão desde o agronegócio àquelas ligadas ao setor industrial, ao comércio e à prestação de serviços.

A cidade está no entroncamento de duas importantes rodovias federais, que são as BR´s 364 e 174, por onde trafegam em média mil caminhões por dia e está a 800 quilômetros do porto fluvial de Porto Velho, em Rondônia. Essa localização favorece o recebimento de matéria prima e a exportação da produção local, reduzindo os custos com o frete.

Outro fator que torna Comodoro atrativo para novos empreendimentos devido à sua logística é a passagem dos trilhos da Ferrovia de Integração do Centro-Oeste (FICO) pelo território do município. “Não tem como chegar a Porto Velho sem passar por aqui”, observa Rogério. “Não tem como direcionar a produção para o Peru se não passar por aqui essa ferrovia”, completa. 

Para atrair empresas, o Município possui programas de incentivos que contemplam a isenção de impostos e a concessão de terrenos por um prazo de dez anos, renováveis por mais dez.

Atualmente, de acordo com a Prefeitura, existem cerca de 40 terrenos disponíveis no Distrito Industrial e mais 17 hectares localizados à margem da BR-364 para serem repassados a empresas que tenham interesse em se instalar em Comodoro. 

E os investimentos já começaram a chegar. O Grupo Amaggi foi um dos que, incentivado pela localização e por benefícios concedidos pelo Poder Público Municipal, investiu na implantação de uma indústria de adubo na cidade. 

A planta, inaugurada em 2017, é a primeira do gênero instalada em Comodoro e tem capacidade para expedir 60 toneladas de elemento simples em bag ou a granel por hora, e até 90 toneladas de fertilizantes formulados em sacas ou a granel por hora.  

Outro segmento que tende a crescer naturalmente aproveitando o aumento da área ocupada pela agricultura é o de armazenamento de grãos. 

Com o crescimento da área cultivada e da produção, a expectativa é que as grandes tradings que atuam no Brasil implantem unidades de recebimentos no município. 

Embora a Administração Municipal tenha intenção de desenvolver um programa de incentivo mais atrativo para a instalação de empresas, o prefeito Rogério Vilela, mais uma vez, reconhece que a pavimentação da MT-235 é fundamental para que novos negócios sejam implantados na cidade.

Ele acredita que em um curto espaço de tempo, algo em torno de 6 a 7 anos, esse entrave da pavimentação esteja solucionado. “E o Município possa colher os frutos desse progresso”, enfatiza.

Planejar agora a Comodoro do futuro

Depois de viver nos últimos dez anos uma evasão de moradores, Comodoro vislumbra agora uma situação inversa, com o aumento populacional sustentado pela evolução do agronegócio e de outras atividades econômicas. “Comodoro, eu creio, que vá bater a casa de 30 mil habitantes nos próximos anos”, projeta o prefeito. 

Esse crescimento já começa a ser registrado, embora em ritmo ainda pequeno. Em 2010, de acordo com o IBGE, a cidade contava 18,1 mil habitantes. Em 2020 o número de moradores era de 21 mil. 

E para atender a esse aumento populacional projetado é preciso que haja planejamento e investimentos por parte da Administração Municipal em setores essenciais, como saúde, educação, saneamento básico, pavimentação, segurança e habitação. 

Um dos setores que já está recebendo atenção da Prefeitura é o de saneamento básico. Com 30% da área urbana com rede de esgoto instalada, mas ainda inoperante, um convênio firmado entre a Prefeitura e a Fundação Nacional de Saúde garantiu os recursos para que o restante da cidade seja contemplado com a melhoria. 

Haverá também, conforme afirmou o prefeito, melhorias na estrutura de atendimento da saúde de atenção básica. “Daqui a dez anos eu vejo uma saúde de excelência em Comodoro”, prevê. 

A organização e a melhoria da cidade, além de proporcionar mais qualidade de vida aos moradores é fator importante também na atração de novos empreendimentos. 

“Comodoro vai ser uma cidade mais estruturada, mais organizada, bem arrumada, com seu cartão de apresentação prontinho para que todo mundo que aqui chegar tenha o interesse de aqui permanecer ou de pelo menos parar e visitar. Comodoro é um lugar bacana para se morar, uma cidade para o futuro e que tem tudo para se desenvolver”, diz o prefeito. 

 

O turismo e o Rio Guaporé

 

Localizado a 100 quilômetros da área urbana, o Rio Guaporé, que separa o Brasil da Bolívia, é o grande atrativo natural de Comodoro e é apontado também como um produto capaz de fomentar o turismo no município.

Por ser um rio onde há grande oferta de peixes, como cachara, pacu e matrinchã, o Guaporé é muito procurado por pescadores e por famílias que querem passar o fim de semana em contato com a natureza.

Essa busca por momentos de lazer por parte da população local e por visitantes de outras regiões, fez com que surgissem no entorno do Porto Municipal Joaquim Marques Neves, diversas casas usadas nos finais de semanas e feriados. 

A região do Porto Municipal é apontada como uma excelente oportunidade para empreendedores que queiram investir na construção de hotéis, pousadas e outras atividades ligadas ao turismo. 

A prova de que o local tem vocação para o turismo é o Festival de Pesca de Comodoro, realizado até 2019. Em 2020 o evento não aconteceu devido à pandemia do novo coronavírus, mas deve ser retomado quando a Covid-19 for controlada. 

Morando há dez anos próximo ao rio Guaporé, “Cabelo”, que é dono do único estabelecimento comercial do local, lembra de quando o festival era realizado. “Era sempre no mês de agosto e já contou com mais de 50 barcos participando”, conta. 

Otimista, o prefeito Rogério Vilela acredita que por sua beleza natural e pela piscosidade o rio Guaporé pode ser o destino de turistas não só do Brasil, mas também de outros países. “Nós pensamos o turismo em Comodoro para, no futuro, ele estar no circuito nacional e ser visto fora do nosso país, ele ser visitado por estrangeiros que querem vir aqui”, diz Rogério Vilela.

 

Expansão urbana

 

Como o fortalecimento do agronegócio, o crescimento urbano é inevitável e muito bem vindo, pois o surgimento de novos bairros fomenta uma cadeia de atividades importantes no contexto econômico.

Em Comodoro, o mercado imobiliário tende a crescer. Há no município, de acordo com a Prefeitura, um loteamento já consolidado com 1,5 mil lotes vendidos e outro em fase de projeto, com mais 900 lotes. 

 

Comodoro em números

População: 21 mil

PIB: R$ 696 milhões 

PIB per capta: R$ 33,9 mil

Área territorial: 21,7 mil km2

Área explorada com agricultura e pecuária: 150 mil hectares

Rebanho bovino: 320 mil cabeças

Área cultivada com soja: 75 mil hectares*

Área Cultivada com milho: 36,5 mil hectares*

(Dados de 2018)

 

Evolução das áreas de plantio em Comodoro entre 2013 e 2018

 

Milho

2013: 20 mil

2014: 18,5 mil

2015: 25 mil

2016: 32,2 mil

2017:35,5 mil

2018: 36,5 mil 

Soja

2013: 68 mil

2014: 62,2 mil

2015: 65 mil

2016: 68 mil

2017: 65 mil

2018: 75 mil

(fonte: agrolink.com.br