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O aprendiz de relojoeiro que fundou uma empresa conceituada e exclusiva.
A trajetória de Adilson Zuanazzi mudou quando seus pais decidiram deixar uma vida já estruturada no Paraná para iniciar uma nova jornada no Mato Grosso. Ainda jovem, ele trocou o trabalho de aprendiz de marceneiro no Sul pelo ofício de consertador de relógios no Centro-Oeste. Com o tempo, descobriu no setor óptico um novo propósito. Hoje, além de comandar a AM Ótica, é idealizador da Inova Lab, uma indústria própria de lentes que produz mais de 500 unidades por dia.
Adilson Zuanazzi, natural de Palotina (PR), nasceu no ano de 1970. O filho do seu Avelino Zuanazzi e da dona Iracema Belusso Zuanazzi , migrantes gaúchos que haviam escolhido o Paraná para tentar uma nova vida, teve uma infância tranquila. Desse período, ele lembra de uma viagem que seu Avelino fez em 1979. Avelino, acompanhado dos irmãos, aventurou-se pelo Centro-Oeste com o objetivo de conhecer Sinop. Ele veio, gostou, mas decidiu não permanecer. Enquanto os irmãos adquiriram terras, Avelino retornou ao Paraná — e a vida seguiu seu curso.
Ainda em 1984, aos 14 anos, Adilson começou a trabalhar com o pai, que era proprietário de uma marcenaria na cidade. Metade do dia era dedicada aos estudos e, no contraturno, ele aprendia o ofício ao lado do pai.
Mas aquele ano se revelaria como um divisor de águas na vida dos Zuanazzi. O pai, incentivado por quem já estava no Mato Grosso, resolveu conhecer Sorriso. Gostou. A área plana o encantou. Entusiasmado, no ano seguinte, em 1985 Avelino Zuanazzi comprou terras para atuar na agricultura. A marcenaria em Palotina foi vendida, e em fevereiro de 1987, a família chegou em Sorriso. O pai se estabeleceu na fazenda para trabalhar – só vinha à cidade nos finais de semana.
Naquela época, Sorriso tinha menos de oito mil habitantes. Era uma cidade muito pequena e sem infraestrutura básica, como água encanada ou energia elétrica. Tudo era muito diferente da região Sul, de onde a família viera, já bem estruturada. “A luz vinha de geradores, que eram desligados por volta das 22 horas; e a água era retirada de um poço artesiano no quintal de casa”, lembra. Por outro lado, Adilson conta que sempre apreciou o contato com a natureza e a vida tranquila, por isso se identificou rapidamente com Sorriso. Diferente de Palotina, onde havia mais opções de lazer, os jovens que chegavam à Sorriso daquela época contavam basicamente com bailes e jogos de futebol, realizados em comunidades com campos improvisados nos fins de semana. Ainda assim, havia um charme especial em viver numa cidade que estava apenas começando.
Como a área adquirida pela família ficava distante do pequeno centro urbano que se formava, era difícil para Adilson continuar trabalhando com o pai e estudar. Aos 16 anos, cursava o ensino médio na Escola Estadual Mário Spinelli. Sem muitas alternativas, o jeito foi permanecer na cidade e buscar trabalho. Ainda naquele ano, logo após chegar, Adilson conseguiu emprego como aprendiz de relojoeiro, tendo Serafim Conte como mestre. “Gostei muito do trabalho. Para mim, era fascinante pegar um relógio parado e, de certa forma, trazê-lo de volta à vida”, lembra. Ver a satisfação no rosto de quem recebia a peça consertada também o motivava: “As pessoas ficavam muito gratas”, diz.
Nesse ofício, o rapaz permaneceu até 1988, data em que passou a trabalhar no banco Bradesco. Apesar de a cidade ainda estar começando, tudo acontecia muito rápido — especialmente na vida de Adilson. Foi nesse período que ele conheceu sua futura esposa, a gaúcha Lovaine Navarro Fernandez. Natural de Ronda Alta (RS), Lovaine havia se mudado para o Mato Grosso em busca de novas oportunidades. Inicialmente, morou com uma amiga e logo começou a trabalhar em um escritório de contabilidade, passando depois a atuar no banco Sicredi. Jovens, Adilson e Lovaine iniciaram o namoro.
A experiência de Adilson como bancário durou apenas dois anos. Com o início do Governo Collor e as mudanças significativas na economia brasileira, ele deixou a agência. Em 1990, decidiu retomar o ofício de relojoeiro.
O trabalho ocupava praticamente todo o tempo de Adilson. Além de atuar como relojoeiro das 7h30 às 18h, à noite ele administrava uma lanchonete junto com o cunhado, Marcos. Muitas vezes trabalhava até meia-noite ou uma hora da manhã e, no dia seguinte, às 7h30, já estava novamente na relojoaria.
Paralelamente, a vida pessoal de Adilson e Lovaine também tomava novos rumos. Em 1992, nasceu a primeira filha do casal, Alana. No ano seguinte, em 1993, eles inauguraram a AM Ótica, inicialmente em sociedade com Marcos. “Combinamos o A de Adilson e o M de Marcos, e deu certo”, lembra. Marcos permaneceu na sociedade por um ano, saindo em 1994 — mesmo ano em que nasceu a segunda filha do casal, Aline.
Com a AM Ótica instalada em 1995, Lovaine também passou a atuar definitivamente na empresa da família. “Antes, ela se dividia entre o trabalho no banco e a ajuda na ótica”, conta Adilson. As meninas cresceram dentro da loja e, desde muito pequenas, aprenderam a identificar as necessidades dos clientes e oferecer soluções. Desde a inauguração, Adilson sempre buscou entregar um atendimento que fosse além do básico.
Com a AM instalada, o casal passou a investir em novas coleções, incluindo joias e óculos de sol. Aos poucos, Adilson percebeu o mercado que se abriu para um produto em especial: o mercado dos óculos de grau. Em 1996, ele passou 30 dias em Sinop aperfeiçoando o ofício que impulsiona a ótica, trabalhando e estudando cada etapa da fabricação de óculos de grau. “Foi nesse período que percebi o quanto me identificava com a área óptica. Eu sempre fui entusiasta do trabalho como relojoeiro, mas foi no mundo óptico que realmente me encontrei.”
Os anos 2000 encontraram Adilson em pleno ritmo de trabalho e determinado a se aperfeiçoar ainda mais no ofício. Foi nesse período que ele iniciou o curso de Técnico em Óptica no Senac, na unidade de Cuiabá.
Uma vez por mês o empresário viajava para a capital e permanecia uma semana em curso. A rotina se manteve dessa forma até 2002, quando Adilson concluiu o curso técnico em óptica. Enquanto isso, em Sorriso a empresa ia tomando novas proporções. Aumentando a clientela e a oferta de novos produtos no mercado. Naturalmente, as filhas também já iam dominando a área e auxiliando os pais.
O casal sempre teve espírito empreendedor. Observando as oportunidades do mercado, em outubro de 2018 eles inauguraram, em Sorriso, a Inovalab — uma indústria própria de fabricação de lentes de grau — em sociedade com o sobrinho Willian .Incialmente, destaca Adilson, foi um grande desafio. “Como trabalhamos somente com a nossa própria marca, foi um grande desafio conquistar espaço e posição no mercado, mostrar a nossa credibilidade”, explica. Foram quase três anos para alcançar esse objetivo. Quando a empresa se posicionou no mercado, Adilson e Willian perceberam que precisavam mudar de endereço para atender a grande demanda. Assim, em 2020, o Inova Lab foi transferido para Sinop, devido à logística de mercado.
Hoje, a Inovalab atende mais de 300 lojas no Mato Grosso e nos estados do Pará, São Paulo e Rondônia. Diariamente, produz cerca de 500 lentes e mais de 250 armações, que seguem para diversos destinos, contribuindo para melhorar a qualidade de vida — e de visão — de muitas pessoas. “A mudança para Sinop ocorreu justamente para atendermos melhor o mercado. A cidade conta com voos diários para vários destinos, o que facilita muito nossa logística de entrega”, destaca o empresário.
O dia a dia de Adilson é corrido. Três vezes por semana, costuma auxiliar a esposa e filhas que assumiram o processo de sucessão frente à AM ÓticaDois dias da semana são dedicados ao trabalho na Inovalab, em Sinop. Os fins de semana pertencem às netas Lívia, de seis anos, e Luísa, de quatro, filhas de Aline. Além disso, a cada 15 dias Adilson viaja ao Pará, onde, em sociedade com o amigo Rodrigo Benassi, instalou uma pousada em Jacareacanga, às margens do Rio Cururu Açu. “Lá é o meu momento de desligar da correria daqui. Lembra a Sorriso de antigamente, com muito mato por todos os lados”, diz, sorrindo.
Hoje, a AM Ótica conta com 18 colaboradores; na Inovalab são mais 36 pessoas trabalhando. Recentemente, em 2022, o espaço da AM Ótica foi todo remodelado. Da loja inicial, Adilson expandiu o negócio para um espaço de 150 metros quadrados. Com a nova ampliação realizada em 2022, a estrutura passou a contar com mais de 450 metros quadrados, incluindo salas individuais e exclusivas para oferecer o melhor atendimento possível. No portfólio, há coleções de óculos de grau, óculos de sol, bolsas da linha Victor Hugo e joias. Cada ambiente foi planejado com cuidado e requinte para atender às expectativas dos clientes.
A segunda geração
À frente da sucessão do processo de sucessão dos pais nas empresas, estão Alana e Aline. “Esse é um processo que estamos fazendo aos poucos; nossos pais nos orientam, delineiam o caminho, e juntos, tomamos as decisões finais. Creio que esse é um processo natural em uma empresa familiar que foi construída com tanto amor e cuidado”, avalia a primogênita.
Alana ressalta que o conceito central das irmãs no processo, é dar continuidade ao atendimento de excelência que a AM Ótica oferta ao público desde a fundação. A empresária destaca que tanto ela quanto seus colaboradores, participam de momentos que marcam uma família para sempre, como a escolha de uma aliança de casamento. “É um momento muito especial e aqui fazemos de tudo para atender com delicadeza e tornar única essa escolha. Esse mesmo olhar se estende para os demais atendimentos, independente do que o cliente procura”, acrescenta.
“Toda pessoa que entrar aqui terá um atendimento exclusivo e será tratada de forma única, afinal, toda pessoa é exclusiva e única”, frisa a herdeira. Alana acrescenta que a partir do momento que ela e a equipe recebem alguém, o trabalho começa entendendo a necessidade, o estilo e a identidade de cada pessoa. Alana conta que muitos clientes dizem que “não têm estilo”. “Ouço muito: ‘só uso camiseta e calça jeans’. E isso também é estilo — uma vertente mais despojada, por exemplo.” Para ela, identificar esse perfil e compreender quem é o cliente é fundamental. “Por isso, valorizo muito o contato, a conversa e um atendimento realmente exclusivo. Vejo que tudo se sustenta em um tripé: atendimento, qualidade do produto e preço justo. Esses três elementos precisam ser bons”, destaca.
Responsável também pela escolha das coleções presentes na AM Ótica, Alana frisa que tudo é feito a partir de uma análise minuciosa. A empresária costuma acompanhar tendências, lançamentos em eventos de moda e combina a isso, as planilhas de vendas que refletem o gosto do cliente local. “Acompanho também as redes sociais que hoje são um grande nicho de tendências”. É necessário analisar com cuidado. “Hoje a própria ferramenta tecnológica é uma aliada nossa e um desafio; uma aliada, porque nos auxilia na identificação do que pode agradar ao público, mas também um desafio por ser tudo muito rápido, por acontecer em uma velocidade assombrosa”, opina. Pelo olhar crítico, passam tendências de cor de lentes, armações, coleções inteiras.
Criada dentro da ótica, Alana ressalta que sempre se identificou com o ambiente. Faz curso de visagismo e Colorimetria para ofertar um serviço ainda mais completo e voltado a auxiliar o cliente a auto conhecer-se e identificar-se. Colorimetria, a ciência que estuda, quantifica e analisa as cores e suas propriedades, é utilizada em diversas áreas como beleza, moda e indústria para determinar a harmonia entre as cores e a pele/ambiente, aliada ao visagismo, a consultoria busca por passar uma imagem pessoal que harmonize com as características físicas e a personalidade de cada indivíduo, revelando a sua beleza interior e exterior de forma única e personalizada. “Digo que hoje a cor da lente escolhida, o modelo da armação, dizem muito sobre a pessoa e a nossa função aqui dentro é auxiliá-la nesse processo de reconhecer-se e sentir-se bonita com a escolha”, reflete.
“Se hoje estou aqui e nesta função, é culpa dos meus pais. Foram eles que me fizeram amar esse ambiente”, sorri. Alana relata que o pai sonhava em ter uma filha oftalmologista. “Se ele não tem, é por culpa dele mesmo. Ele sempre passou tanto amor pela ótica, pelo trabalho aqui dentro que nem eu, nem minha irmã, nunca sonhamos em estar do outro lado, nosso habitat natural é a ótica”, avalia. A filha acrescenta que o pai é a base das empresas da família, enquanto a mãe é o cérebro por trás de todas as decisões.
Para Lovaine, esposa de Adilson e mãe de Alana e Aline, também não há outro cenário. Ela atua na empresa há 33 anos. “Amadureci, cresci profissionalmente aqui dentro”, diz. Lovaine fala que não mudaria nada em suas escolhas. “Ter vindo para Sorriso, mesmo que sozinha na época, foi a decisão mais acertada. Construí família, empresa, criei raízes; minhas filhas são sorrisienses e minhas netas sorrisienses já são da segunda geração”, destaca. “Para mim, definitivamente é lar”.
Adilson acrescenta que mesmo quando chegou, diante das dificuldades, nunca se imaginou retornando ao Paraná ou partindo para um novo destino. “Sempre houve um espírito contagiante de trabalharmos e crescermos de forma coletiva. Aqui, para mim, foi possível sonhar e realizar cada sonho”, diz. “Essa é minha cidade, a cidade da minha família”, reforça.
O empreendedor conta que a história da sua família e da cidade se mesclam. Infelizmente, há oito anos, em 2018, dona Iracema faleceu. “Antes disso, foi muito feliz em Sorriso, ela gostava muito daqui, deixou um legado de amor à essa cidade e à família”, pontua. Já o pai, seu Avelino, participou na criação de várias entidades e serviços do município. Foi por muito tempo vice-presidente da cooperativa de crédito Sicredi, com participação decisiva em várias frentes do agronegócio local. O envolvimento de seu Avelino com a comunidade ia além disso, de fé inabalável, exerceu por muitos anos a função de ministro na Paróquia São Pedro Apóstolo. “Ele segue firme, continua com o mesmo olhar acolhedor, o tempo dedicado à família; meu pai é um ser humano incrível”, diz.
Adilson reforça que “tudo iniciou com a vontade dele de mudar, de buscar uma nova perspectiva para a família. Meus pais foram visionários na época: tinham uma vida estável no Paraná, mas apostaram na mudança”, destaca. “Vieram e viveram a epopeia do início, da transformação na Sorriso contemporânea que temos hoje”.
Ao rememorar o passado, o empreendedor acrescenta que nunca imaginou o tamanho que a pequena banca tomaria. O trabalho foi aumentando, a proporção dos projetos também. A família contabiliza que nos 33 anos de ótica já foram confeccionadas mais de 100 mil lentes; são mais de 50 mil armações somente de óculos de grau. “Para mim esses dados não são números somente. Penso que são pessoas e que de alguma forma, nós auxiliamos na melhoria da qualidade de vida de quem passou por aqui”, destaca. São pessoas que voltaram a ver o mundo com cores intensas e vibrantes. “Sou apaixonado por esse universo, é minha forma de contribuir com um mundo melhor. E quando você ouve de alguém “nossa, com esses óculos estou vendo melhor”, é uma sensação única, você, verdadeiramente fez algo por aquela pessoa”, aponta.
“Estamos presentes em momentos bons, especiais na vida do cliente. Eles vêm aqui para escolher a aliança, símbolo do noivado e do casamento, esses são momentos marcantes para todo casal e nós buscamos tornar cada detalhe especial, digo que estamos presentes na maioria dos casamentos sorrisienses”, brinca.
Com 33 anos de atuação, com certeza os profissionais da AM Ótica já viveram e compartilharam muitas histórias com os clientes. Histórias únicas, bonitas, inspiradoras como o ambiente que prepararam para recebê-los.
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Da união, nasce a COACEN
Diante das dificuldades, surgem as boas ideias. Essa é uma das premissas que levou à criação da Cooperativa Agropecuária e Industrial Celeiro do Norte (COACEN), em 2005. Na época, o setor do agronegócio passava por uma grande crise financeira, foi quando a iniciativa de um grupo de produtores, já organizados em um condomínio, levou à criação da cooperativa. A semente de tudo – inclusive do condomínio – foi o resultado de uma ideia que surgiu nos corredores do curso de Agronomia da Faculdade de Lavras, em Minas Gerais.
A história da Cooperativa Agropecuária e Industrial Celeiro do Norte (COACEN), iniciou há 20 anos. Em 2005, a necessidade fez com que produtores rurais se unissem para adquirir os insumos com preços mais acessíveis.
Sócio fundador, Fernando Pozzobon, fala do processo que levou à idealização da futura cooperativa. A semente inicial da COACEN foi plantada em 1999, nos corredores do curso de Agronomia da Faculdade de Lavras, em Minhas Gerais. Fernando, aluno do curso, lançou a proposta da criação de um condomínio de produtores aos também sorrisienses, Márcio Potrich, Evandro Bedin e Ivan Bedin, todos alunos de agronomia. Juntas, as quatro famílias tinham um volume expressivo de produção para a venda e aquisição de insumos. “Assim, como quem não quer nada, mas arriscando no futuro, lancei essa ideia para esses amigos. Ao retornar para Sorriso, tínhamos certeza de que iríamos trabalhar com nossas famílias. Foi quando pensei que deveríamos atuar de forma conjunta”, lembra.
Formados, Márcio, Ivan e Fernando, retornaram à cidade natal. Evandro ficou cursando mestrado. A correria era tanta, que ninguém conseguia parar para pensar na proposta de Fernando, até ele sentar com o pai, seu Ilo, e falar sobre seus anseios. Seu Ilo, imediatamente comprou a ideia. Iniciou ali o levantamento de uma lista de produtores que seriam convidados. Uma ideia que levaria à formação de um condomínio e anos depois à constituição da cooperativa COACEN.
“A partir disso, comecei a fazer visitas para cada produtor da lista para explicar o que seria a ideia de trabalharmos em conjunto para a compra dos insumos e a venda da produção. Inicialmente, na primeira reunião, 13 famílias compareceram. Das 13, ficaram 11 famílias com o condomínio em sua forma inicial”, lembra Fernando. Na época, as 11 famílias chegavam a cerca de 70 mil hectares de área cultivada. Já na primeira reunião, foram eleitos seis representantes para visitar Campo Novo do Parecis e um condomínio instalado em Marechal Rondon, no Paraná. O objetivo era conhecer o modelo de gestão e os benefícios de atuar no formato de associação.
Após essas visitas, o grupo permaneceu organizado como condomínio por quatro anos, entre 2001 e 2005. Na sequência, como um caminho natural desse processo de amadurecimento, em 2005 nasceu a COACEN.
Junto do filho, seu Ilo Pozzobon lembra que aquela era uma época com várias dificuldades. Nesse quesito, além da questão financeira entrava a questão tecnológica também. “Não existia muita coisa, então a gente ia fazendo aquilo que podia com os recursos que tinha”, lembra. Para ele, as ideias surgem exatamente quando se tem dificuldades. “Foi na dificuldade que o Fernando teve a ideia”, diz. Sem muita tecnologia e trabalhando praticamente sozinho, já que o filho estudava fora, seu Ilo recorda que “tinha que chutar no gol, defender no campo, no escanteio e ainda voltar para cuidar da própria trave”. Foi nesse contexto desafiador que a proposta de Fernando passou a transformar a realidade.
Com a nova dinâmica, serviços como a pesquisa de onde comprar e onde vender, além do acesso a informações de mercado, tornaram-se mais simples e eficientes. Antes, atuar em todas as frentes ao mesmo tempo, não era tarefa fácil. À época, seu Ilo exercia a presidência do antigo condomínio.
“Em 2005 e 2006, vivemos anos de preços muito baixos e próximos da inviabilidade do setor agrícola. Mas esse grupo permaneceu ativo, trabalhando sob esse CNPJ da cooperativa e isso trouxe muitos benefícios para todos os cooperados daquela época”, pontua o filho Fernando.
Pioneiro do município, seu Argino Bedin, foi um dos produtores visitados pelo jovem Fernando Pozzobom, no início de tudo. “Ele estudava junto com meu filho, Ivan, lá em Lavras”, conta. O sobrinho de Argino, Evandro, também era colega de faculdade. Proposta apresentada, seu Argino respondeu no ato: tem um espaço no meu escritório. Foi ali, na sala de Argino, que iniciaram as tratativas do condomínio. O produtor também participou das viagens para conhecer o condomínio em Marechal Cândido Rondon, no Paraná.
“Atuamos como condomínio por um tempo. E achamos por bem mudar para uma cooperativa que teria melhores benefícios para o associado. Foi criada essa cooperativa com regras em que cada um é responsável pelo seu ato de venda e de compra, de livre e espontânea vontade”, faz questão de deixar claro.
Pensando no coletivo, seu Argino sempre acreditou que a COACEN não deveria ter em seu seio somente grandes produtores. “Convidei agricultores de menor porte para dar a mesma oportunidade que nós tínhamos dentro da COACEN”, conta. Orgulhoso, acrescenta que todos os nomes que sugeriu conseguiram se consolidar no mercado agrícola. Argino, por sua vez, recorda que chegou a Sorriso há 46 anos, antes mesmo da emancipação do município, quando ainda não havia praticamente nada.
Conhecedor das dificuldades, viveu momentos bons e ruins, mas sempre buscou integrar grupos com o propósito do crescimento coletivo. Participou de viagens a Miritituba e Santarém em busca de alternativas para o desenvolvimento. “Sempre houve um objetivo comum”, frisa.
“Hoje nós temos o Reginaldo, temos o João, que fazem essa parte de consulta de fertilizantes químicos; o Leandro e o Alexandre no comercial, nas vendas. Estamos sempre bem-antenados sobre eles, para ver o melhor momento de compra de fertilizantes defensivos e venda de produtos. Fazemos a compra casada. Eu comprei o fertilizante hoje, vendi o grão para pagar isso”, detalha. Isso é segurança na balança comercial. Para o pioneiro, a COACEN é um retrato do município que é a Capital Nacional do Agronegócio. “Há na nossa cooperativa muito trabalho coletivo e espaço para todos”, defende. “Uma andorinha só, não faz verão”, sorri.
Pedro Riva, também sócio fundador, foi o primeiro presidente da COACEN, respondendo pela função no período de 2005/2007, justamente na época em que o setor agrícola brasileiro enfrentou uma grande crise econômica. Riva conta que a ação inicial da COACEN, já visava a compra de produtos agroquímicos, adubos, sementes e também a comercialização final dos grãos. “A negociação sempre foi por melhores preços, quer seja para comprar ou vender”, explica Riva.
Com a criação da COACEN, uma nova dinâmica se estabeleceu em Sorriso. Cada novo nome sugerido, precisava ter a aprovação de 100% do grupo, já instituído para entrar. “Quando um novo nome era sugerido, levávamos o nome do candidato para a reunião. Se todos aprovassem, o produtor em questão, era procurado e convidado a participar. “Essa é uma regra válida até hoje”, completa Riva.
A ideia prosperou e apresentou resultados tão positivos que, em pouco tempo, o grupo passou a contar com 18 sócios. Em apenas três anos, a COACEN já reunia 25 famílias participantes. Hoje, duas décadas depois, são 257 cooperados vinculados a 55 troncos familiares.
“Decidimos parar por aqui. Não precisamos crescer mais, para não comprometer o atendimento aos associados. Vamos manter a qualidade do serviço”, avalia o primeiro presidente.
No início, apenas quatro colaboradores eram suficientes para atender à demanda. Atualmente, a cooperativa conta com 65 profissionais distribuídos entre os departamentos de compras, vendas, financeiro, contábil e a equipe operacional.
Riva pontua que desde o princípio, foram criadas regras básicas. A cooperativa não tem ganho sobre a compra ou a venda. Para se manter, cobra uma taxa de manutenção de acordo com a área plantada de cada associado. “Se ele plantar 1500 hectares, vai pagar pela participação desse volume e do cultivar plantado. Por exemplo, soja, milho, algodão... Então a taxa é proporcional ao benefício que ele tem dentro do grupo. Mas a decisão de comprar ou de vender, é de cada um, é individual. A cooperativa só compra se o associado ofertar”, detalha.
Com o início das operações da COACEN, Riva acredita que a cooperativa balizou o mercado de agroquímicos. Porém, o começo foi difícil. A dificuldade persistiu até que os próprios fornecedores passaram a compreender o novo modelo de negócios e a seriedade com que ele era conduzido, algo ainda inédito no mercado à época.
Foi durante a crise de 2006 que surgiu o prêmio de equalização. A cooperativa realizou toda a operação sem cobrar qualquer valor dos associados. Em ações realizadas fora da cooperativa, o produtor acabava pagando R$ 2,00, o que pesava no bolso, especialmente considerando que o prêmio recebido era de R$ 6,00. “Era uma ajuda e tanto”, relembra Riva.
Após a administração de Riva, o segundo presidente foi o pioneiro Argino Bedin, que já fora presidente do condomínio. Argino esteve à frente da COACEN no período de 2007 a 2009, sempre com a mesma garra e afinco que demonstrou no condomínio e em todas as outras ações que assumiu na comunidade sorrisiense.
O terceiro presidente, Gilberto Peruzi, também faz parte do grupo que integrou o condomínio em 2002. Período em que os produtores dependiam muito do mercado local, que enfrentava precariedades na época. “A gente produzia bem na fazenda, no campo, mas na hora de comercializar, faltava. Faltava alguma coisa para melhorar”, lembra. Peruzi, reforça que o começo não foi fácil, pois ninguém tinha experiência no mundo cooperado. Ele assumiu a presidência da COACEN, por dois mandatos, iniciando em 2009 e concluindo a última gestão em 2015.
“É bom olhar para trás e para o presente e comparar. Ver que hoje o Grupo COACEN planta soja, milho, feijão, arroz, algodão. Houve uma diversificação grande dentro das famílias, dentro do negócio de cada família”, avalia. Peruzi defende que a COACEN é gigante. “E com credibilidade no Brasil inteiro”, completa. Diariamente, a cooperativa comercializa na compra e venda, centenas de milhares de toneladas. O volume é alto e a credibilidade também.
Destaca que a realidade alterada pela COACEN, não diz respeito somente aos mais de 200 cooperados. A realidade do município também foi afetada. “Na área urbana, estamos falando de milhares de funcionários das famílias associadas ao grupo COACEN”, aponta. Afinal, para tocar mais de 100 propriedades rurais, haja força de trabalho! E não é só Sorriso que teve a realidade impactada. As 55 famílias, troncos dos cooperados, tem lavouras em outros 17 municípios mato-grossenses. Unidos os troncos, a COACEN conta com uma capacidade de armazenamento estático de 1,6 milhões de toneladas.
Produtor local, Evandro Lermen, assumiu a presidência após Peruzi. Esteve à frente da Coacen, de 2015 a 2019. Lermen conta que foi um dos convidados por Fernando Pozzobon, desde o início. “Partimos da ideia de uma compra em conjunto”, detalha. Havia alguns problemas de compra. Muitas vezes, o produtor fazia o pedido e não recebia o produto que tinha comprado. No meio da negociação, surgiam problemas de fornecimento pelo fato do distribuidor não ter feito uma boa negociação e automaticamente repassava a situação, que geralmente gerava prejuízos, para o produtor. Inicialmente, Lermen lembra que houve resistência ao modelo de cooperativa, pois a maioria dos cooperados já havia dito experiência negativa com alguma cooperativa. “A partir disso, a COACEN foi modulada com algumas premissas como não comprar a prazo, não vender a prazo e não ter posição em aberto no mercado e isso fez toda a diferença”, analisa. Além disso, a cooperativa sempre manteve como princípio de que o comitê de compras fosse — e continua sendo até hoje — formado exclusivamente por cooperados. A lista de compras parte diretamente do produtor; não há intermediários comercializando essa demanda. O responsável pela lista é o próprio produtor, que é o consumidor final. “A lista vem do campo”, frisa.
Na apuração final, nenhum produtor paga pelo outro. Tudo é cuidadosamente analisado e corretamente distribuído. A fazenda de Lermen, por exemplo, fica a 70 quilômetros de distância, o que implica uma logística diferente daquela de quem possui propriedade próxima ao centro. Para evitar prejuízos, toda essa análise é realizada de forma criteriosa. Cada produtor administra a própria conta e arca com os custos conforme a distância, o tipo de cultivo e a área plantada.
Lermen, que é parte da história, refaz o caminho do grupo. As 11 famílias iniciais, logo viraram 22. Na sequência veio a necessidade do espaço maior porque o número subiu para 44. “A gente era uma assembleia de verdade”. Hoje são 55 famílias, troncos familiares que chegam a mais de 200 cooperados. “Desses 55 troncos, você tem três gerações trabalhando juntas. Há a geração dos fundadores da cooperativa, que ainda permanece no negócio; a segunda geração, que hoje conduz as atividades e conviveu de perto com a fase inicial da COACEN; e, por fim, uma terceira geração que começa a chegar. São jovens que ingressam nos negócios das famílias já com uma sólida bagagem tecnológica”, analisa. Esses serão os responsáveis por assumir os desafios do futuro.
Outro ex-presidente, Eduardo Zorzi, relata que fazer parte da COACEN foi — e continua sendo — um grande aprendizado. “Cresci muito pessoalmente e os negócios da minha família também evoluíram. Na COACEN, aprendi a conduzir negociações e a analisar o mercado de forma minuciosa. Acredito que cresci em muitos aspectos”, afirma. Zorzi esteve à frente da cooperativa no período de 2019 a 2021.
Assim como Zorzi, os vários troncos ligados à COACEN têm histórias de desenvolvimento e crescimento. Um dos exemplos, é o produtor Roberto Sviech que recebeu o convite para integrar a COACEN em 2015. Naquela época, ele já fazia parte de outra cooperativa e sabia dos benefícios da cooperação. “Na COACEN, entramos comprando insumos, fertilizantes, sementes. O convite foi uma grande oportunidade para melhorarmos a nossa compra, melhorarmos a nossa venda e ter a segurança de que o produto que nós estávamos pedindo, a molécula que nós pretendíamos aplicar na nossa cultura, chegaria”, lembra.
Roberto foi diretor comercial da COACEN por quatro anos e presidente no período de 2021 até março de 2025. Já naquele ano de 2015, assumiu como diretor comercial. Ele detalha que a administração da cooperativa é formada pelo presidente, pelo diretor comercial e pelo diretor financeiro. No comercial, viveu um grande aprendizado. “Nossa indústria (a lavoura) é à céu aberto, sempre tem dificuldades, cada plantio, cada safra, cada ano, você lida com situações diversas”, pontua. São variações de clima, preço.
Além disso, no período em que Roberto foi presidente, o mundo viveu a pandemia da covid-19. “Os fretes marítimos subiram muito pelo ocorrido, estávamos também num período de construção. Estávamos construindo o armazém, fizemos uma reforma preparando a cooperativa para os próximos dez anos”, detalha. Assim que o setor começou a se recuperar dos prejuízos da pandemia, veio a guerra Rússia/Ucrânia que também interferiu diretamente nos preços. “Estamos em constante alerta não só pelas variações de clima, doenças ou pragas, mas pelas mudanças no mapa mundial. Cada ação gera diretamente um reflexo no campo”, diz.
É aí que está a chave do sucesso da COACEN: ao comprar em grande escala e com maior volume, a cooperativa consegue preços mais competitivos. “Além disso, a cooperativa compra sempre à vista, o que oferece grande segurança para quem vende e para nós, que adquirimos os insumos. Temos a certeza de que vamos receber exatamente o produto cuja demanda foi apresentada ao setor comercial. Mesmo diante de crises mundiais, esse modelo de compra nos garante uma segurança produtiva no campo”, explica.
Hoje, sementes que requerem câmaras frias, são estocadas diretamente nas fazendas. Já para defensivos agrícolas, há um depósito próprio na COACEN. Há ainda mais três armazéns que prestam esse tipo de serviço aos cooperados.
Nelson Piccoli assumiu as rédeas da COACEN, em março de 2025. Para Piccoli, a cooperativa foi um divisor no mercado sorrisiense e brasileiro. Foi uma das primeiras empresas a começar a trabalhar com compras à vista, moralizando o mercado. Atua como uma baliza direta no mercado do agronegócio.
Piccoli, junto aos demais cooperados, vivencia o momento da sucessão nos negócios — um desafio significativo por si só. O desejo é que os jovens assumam as rédeas dos troncos familiares com confiança. Afinal, hoje eles contam com muito mais tecnologia, seja no campo, com maquinários avançados, seja nos escritórios, com a ampla oferta de informações por meio de sistemas digitais.
“A COACEN, de certa forma traz vida, traz alimento, coloca o alimento na mesa das famílias brasileiras. São suores diários de quem atua no campo que vai para a mesa de cada família”, frisa ao lembrar que o Brasil é um grande exportador de matéria-prima de soja, de farelo, de óleo. Nesse sentido mesmo, salienta que dentre os grandes desafios, está a globalização que cobra, diariamente, o preço da atualização junto ao mercado.
Hoje, em razão da dimensão alcançada pela COACEN — que reúne mais de 250 mil hectares de produção, 55 grupos familiares e 267 cooperados ativos —, desde 2011 a cooperativa está instalada às margens da MT-242. O espaço amplo garante qualidade no atendimento às famílias cooperadas.
O trabalho da COACEN se entrelaça com a história da Capital Nacional do Agronegócio. É nesse ambiente de cooperação que mulheres e homens do campo constroem suas trajetórias, fortalecem os negócios das famílias e, diariamente, projetam o agronegócio no cenário nacional e mundial. Na Capital Nacional do Agronegócio, o trabalho coletivo e bem-organizado faz com que a força do agro se renove e se fortaleça no campo todos os dias. Afinal, como lembra o pioneiro Argino Bedin, “uma andorinha sozinha não faz verão”. São muitas mãos unidas que constroem, juntas, o próprio caminho de sucesso.
