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1984
Sobre o lado bom da vida
Esse capitulo não remete somente à história de vida de Assis Diomar Ferreira – um homem que sabe viver o lado bom da vida. Nas linhas que seguem, ele pontua as lembranças dos primeiros quinze dias de Sorriso como município legalmente constituído e reconhecido, além de contar um pouco da sua própria trajetória e dos acasos do destino
Assis Diomar Ferreira, que ficaria conhecido somente pelo segundo nome, nasceu em Marmeleiro (PR) em 10 de outubro de 1970, o menino viveu ali até os seis anos de idade quando a família se mudou para o município vizinho de Francisco Beltrão. O novo endereço era a comunidade de São Roque. Foi lá que Diomar aprendeu a ler, escrever e a trabalhar.
Filho de agricultores, ia para a lavoura desde sempre. E ouvia os planos do pai acerca de mudar de vida. Em 1984, quando o garoto tinha 14 anos, corria à boca solta na comunidade a novidade de que no Mato Grosso, em uma cidade recém-iniciada de nome Sinop, estava se instalando uma usina de produção de farinha de mandioca. O nome de Ênio Pepino, um dos colonizadores da cidade era citado a toda hora. E junto com as novidades sobre Sinop, surgiam informações sobre Sorriso, outra cidade recém iniciada que já estava famosa. “Foi assim que meu irmão mais velho, o José Luís, acabou vindo para cá, de tanto ouvir propaganda e saber de conhecidos que vinham para trabalhar na lavoura, ele veio”, conta.
Dois anos depois, o caminho feito pelo primogênito dos Ferreira da comunidade São Roque, foi refeito pelos irmãos mais novos, Diomar e João Carlos. Para comprar a passagem dos filhos, o pai vendeu um boi e um porco gordos. O que sobrou após as passagens pagas deu para que os meninos se virassem na viagem. Da rodoviária de Francisco Beltrão partiram os dois jovens irmãos. Cada um com uma mochila nas costas, sem malas ou outros pertences, e uma sacola com mantimentos preparados pela mãe. Na bolsa, arrumada com muito zelo, um tanto de bolachas feitas por ela, farofa e salame artesanais, produzidos na casa da família. Os dois embarcam sem noção do que enfrentariam, enquanto a mãe estava aos prantos na rodoviária. “Eu não entendia aquele choro, para mim era uma aventura; ela, no entanto, sabia muito mais do que eu imaginava e se despedia de um filho, nos via como homens formados, justos e honestos e nos entregava ao mundo”, reflete.
Se para a mãe ficava o peso da saudade, para os meninos crescia a aventura. “No meio do caminho acabou o dinheiro, não passamos fome porque tínhamos o bornal bem arrumado e recheado pela mãe”, diz. Depois de três dias na estrada, enfim os dois chegaram. E o choque foi grande. “Não havia cidade, não do jeito que estávamos acostumados, era um deserto verde”. Os dois desceram do ônibus à noite e foram para o hotel mais próximo. “A rodoviária era perto de onde é o Posto Sorrisão”. No hotel, locaram a cama. Não se locava a diária do quarto. Era um quarto com três camas, uma já estava locada. Os irmãos ficaram com as outras duas, dormiram com um desconhecido de quem nunca mais ouviram notícias e nunca souberam o nome. E na manhã seguinte quem apareceu para pagar a diária das camas e resgatá-los foi Alcino Manfroi. Guiados pelo pioneiro, os dois foram para a casa de Alcino onde já estava instalado José Luís para, assim como o irmão mais velho, trabalhar nas lavouras do seu Manfroi.
Primeiro prefeito é eleito
Era 27 de outubro de 1986. Sorriso tinha sido elevado à categoria de Município em 13 de maio. A votação era em cédulas de papel. “Chegamos nos últimos dias da campanha eleitoral daquele ano, aquele pleito elegeu seu Alcino Manfroi a prefeito. Não lembro onde foi a apuração e nem como acompanhamos, mas lembro da emoção e do abraço que demos em seu Alcino”, conta. A disputa foi voto a voto, tanto Alcino quanto seu oponente fizeram pouco mais de 800 votos cada. “Sorriso tinha pouco mais de 1,6 mil eleitores na época”, frisa o empresário.
Prefeito eleito, na segunda-feira seguinte seu Alcino chama o filho Silvio e Diomar para o acompanha-lo à sede da Prefeitura. “Os primeiros 15 dias da história da Prefeitura de Sorriso foram construídos em cima da Loja Lenita da (Avenida) Brescansin, lá funcionava a subprefeitura e ali ficou a Prefeitura até ser transferida para um chalé mais ao fundo. Infelizmente, não tiramos fotos desses dias”, diz. A função de Silvio e Diomar era simples: limpar o espaço para que Alcino pudesse instalar o gabinete. Havia apenas uma escrivaninha e uma cadeira.
“Seu Alcino comprou tudo do bolso, maquinário, caçambas, o que a cidade apresentava como necessidade ele dava um jeito. Um homem incrível, dedicado à família e ao trabalho, ele era incansável”. Seu Alcino, primeiro prefeito, foi eleito para um mandado “tampão” de dois anos. Nas lembranças de Diomar estão as viagens que o prefeito fazia a Nobres atrás de documentação. Eram oito dias, entre a ida e volta, em uma BR-163 de terra e esburacada. “Assim que concluiu o mandato, eu parei de trabalhar com ele, havia acabado de completar 18 anos, mas nunca esqueci os ensinamentos e o cuidado com cada pessoa”. Dentre as obras de seu Alcino constam a chegada de telefone, energia elétrica, implantação do Banco do Estado e a vinda da Escola Estadual Mário Spinelli.
Nesse meio tempo, em janeiro de 1987, os pais e os irmãos mais novos de Diomar também haviam se mudado para Sorriso. A mudança veio em um caminhão pau de arara, carregando vaca de leite, cachorro, gato, além de seis crianças, tudo misturado. Além dos pais, vieram os seis irmãos mais novos – agora, toda a família residia no Mato Grosso.
Com a chegada da família e o fim do mandato de Alcino, o jovem inicia a procura por trabalho em outros pontos. “A cidade desenvolvia muito rápido, em 1988 já tinha mais empresas e tanto eu quanto meus irmãos começamos a trabalhar com a parte de mecânica e hidráulica de máquinas pesadas, além da parte de motores dos muitos geradores que mantinham a cidade”, relata. “O asfalto só chegava em uma única rua, na Brescansin e terminava na igreja”, lembra.
“Sempre gostei de comércio, de gente, de conversar, e assim que as coisas foram começando a dar certo, eu pensei em por meu próprio negócio”, relata. Assim, ainda no início dos anos 90, Diomar coloca uma loja, a “Lojão de Fábrica”, onde trabalhava com vestuário e calçados. A loja era tocada pela própria família. Ao lado do Lojão, funcionava uma loja de lingerie, a La Belle Lingerie.
Atuando na loja e acompanhando o crescimento da cidade, Diomar percebeu o tanto de serviço que um mecânico realizava na cidade. Então, junto com os irmãos João Carlos e Valmir, Diomar decidiu estabelecer uma oficina. “Abrimos em um banheiro; tinha um posto com um banheiro abandonado e pedimos ao dono para alugar a sala, ele disse que poderíamos reformar e usar por um ano sem pagar aluguel. Assim em um espaço de três metros de largura com 15 de comprimento – os irmãos quebraram uma das paredes do banheiro e seguiram com a empresa até o fim das instalações do prédio – abrimos a nossa oficina”, relata. Para atender os chamados da clientela, os três dividiam uma bicicleta velha em que carregavam a caixa de ferramentas. Mas até surgir clientes foram três longos meses em que os Assis amargaram prejuízos. Por fim, com a propaganda de boca em boca de que o serviço era bom, foram aparecendo os clientes. “A situação melhorou quando conseguimos instalar uma linha telefônica que atendia pelo número 544-3181 para as chamadas – o mesmo número segue ativo até hoje, com acréscimo do 3 no prefixo. O fato é que esse telefone nos endividou, pois naquela época você pagava o preço de um carro novo por um telefone”.
Endividados, os Ferreira não tinham opção: precisavam trabalhar com afinco, sem escolher clientes ou horários. A lida era tanto para pagar o telefone, como para tirar algum lucro. Maio de 1995 marcou o início das atividades oficiais da Hidráulica Sorriso.
E ser jovem na Sorriso de outrora não era fácil. Eram poucas opções de bares e restaurantes. “O ponto de encontro de todo mundo era o D’graus ou o Chapéu de Palha. Mas havia um porém: quase não havia moças na cidade. Então você saia para dançar e não tinha com quem dançar. Eu falava para minha mãe que não tinha como arrumar uma namorada”, ri Diomar.
Foi quando o destino entrou em ação. Diomar viajava de ônibus até o Braz, em São Paulo, para buscar as novidades que figuravam no Lojão de Fábrica. Uma viagem longa e cansativa de, no mínimo três dias para ida e mais três dias para volta. E numa dessas viagens, depois das compras feitas, um equívoco resultou na mesma poltrona vendida mais de uma vez. Era a poltrona ao lado em que Diomar estava. No fim, o motorista foi chamado para auxiliar e, Diomar, ouvindo que uma das donas do bilhete duplicado era de Sorriso, resolve a contenda e a convida a se sentar ao seu lado, enquanto a outro moça, de outra cidade mais ao Norte, foi para um banco mais ao fundo. Conversa vai, conversa vem, ele descobre que a moça ao seu lado chamava-se Angela Bedin e era a dona da loja de lingerie. Era fim de 1994. “Praticamente saí daquele ônibus casado, pois nunca mais larguei a Angela, minha alma gêmea”, conta. Por ironia do destino, o rapaz que tinha medo de ficar solteiro casou-se aos 24 anos de idade. Quando ela foi cursar Direito em São Paulo, ele a acompanhou. “Era o sonho dela”.
Angela havia chegado em Sorriso em 1979 com os pais, Luiz Carlos Bedin e Zulmira Granetto Bedin. A intenção era produzir uma ou duas safras e voltar para Renascença (PR). Mas em 1982, quando Luiz Carlos falou sobre o retorno, dona Zulmira foi enfática e disse que não retornaria. Ela escolheu ficar em Sorriso. Além de Angela, o casal também é pai de Cristiane e Adriana.
Com as lojas instaladas lado a lado na Rua Videiras, nº 805, Diomar seguia na hidráulica junto aos irmãos. “Trabalho nunca faltou”. Assim que retornaram de São Paulo, Diomar voltou aos plantões. A loja de vestuário, a essa altura, já fora vendida. “Todo o esforço passou a ser concentrado na hidráulica, e meu sogro nos auxiliou. Ele fez um bom preço e compramos uma F-100 para carregar o material e atender com mais agilidade; essa caminhonete foi uma mão na roda por muitos anos na hidráulica”, conta.
Enquanto isso, a vida pessoal da família também passava por transformações. Foi após a esposa ter se formado e estabelecer carreira que chegaram as filhas Luanna e Luna. “Hoje olho para elas e entendo o choro da minha mãe, jamais deixaria o que tenho de mais valioso se aventurar no mundo sem lenço nem documento”, sorri, ao citar o clássico da música popular brasileira, eternizada na voz de Caetano Veloso.
Da época em que iniciou e as filhas eram pequenas, ele lembra que não tinha dinheiro nem mesmo para fazer estoque de peças. “Tudo era muito demorado, não tínhamos como ter estoque porque faltavam recursos. Quando precisávamos de uma peça, aguardávamos duas semanas; agora, você comercializa com qualquer lugar do mundo e em dois dias, três, recebe os produtos”, avalia.
Hoje, além da Hidráulica Sorriso, que completou 30 anos em maio de 2025, Diomar cuida ainda da Fazenda São Luiz, da família de Angela, e da Transportadora Sorriagro, fundada em 2006. A transportadora, frisa, que veio da necessidade da própria fazenda. E para dar conta das outras frentes de trabalho, ele, parcialmente havia se afastado da hidráulica.
“Há pouco tempo, em 2018, enfrentamos uma grande crise na Hidráulica, porque meu irmão, o Carlos, queria fechar. Então voltei para cá, fui atrás do Charlinho (Charles, um dos antigos funcionários), que havia saído e ofereci uma parte na sociedade”, conta. Na época, o número de funcionários caiu para 11 pessoas. Charlinho topou voltar como sócio. Já para o irmão Valmir, de quem ele havia comprado a parte na empresa, fez a mesma proposta. “Comprei e dei parte na sociedade de volta porque meu irmão é um dos corações dessa empresa, ele que lida diretamente com o setor de montagem, conhece melhor do que ninguém todos os nossos colaboradores e clientes, põe a mão na massa”, diz.
A filha mais velha, Luanna, também é sócia. Cursando Administração de Empresas, é a responsável pelas finanças da Hidráulica Sorriso. “Tenho muito orgulho de estar aqui, de fazer parte da história da empresa e da vida dos meus pais. Meu pai é o modelo que quero sempre seguir”, frisa. E, completando o time, Thales, esposo da cunhada Cristiane, também é sócio. “Hoje somos uma grande equipe, delegamos as funções e assim fazemos dar certo, cada um sabe das suas responsabilidades”, destaca o empresário. A Hidráulica Sorriso conta hoje com 20 colaboradores e oferta a linha completa nos serviços de cromagem, montagem e mantém uma linha completa de fabricação de peças. “Como empresa, buscamos sempre estar atualizados e ofertar o melhor ao nosso cliente com respostas rápidas e soluções especificas para cada situação”, salienta.
A empresa, que iniciou no fundo de um banheiro, está instalada em um espaço amplo com mais de 1,6 mil metros quadrados, em via perimetral à BR-163. Diomar recorda que, quando iniciaram, havia apenas duas hidráulicas na cidade. “Muitos dos proprietários das hidráulicas de hoje foram nossos funcionários, saíram daqui e temos muito orgulho de dizer isso, que fizemos história, que inspiramos outras pessoas, que, de algum modo, ensinamos alguém”, pontua. O empreendedor destaca que 80% dos sorrisenses já devem ter feito serviços com a Hidráulica Sorriso.
“Nunca mais voltei para São Roque. Até queria levar as meninas para conhecer, mas não sei o que encontrarei. Acho que hoje o nosso lugar é aqui”, diz. Como pai, Diomar se preocupa em deixar um legado de amor às filhas e também aos sobrinhos, em especial às pequenas Maria de dois anos e Amélia, de cinco, filhas de Thales e Cris, com quem ele convive diariamente. “Crianças aprendem pelo exemplo, por isso é tão importante cerca-las de amor e ensinar o caminho do bem”, frisa.
Diomar é espírita. Há dez anos apresenta o Momento Espírita na televisão local e há sete em uma emissora de rádio. Para dar conta de todas as funções, ele delega algumas. “Na terça, por exemplo, gravo todos os programas de rádio, então eu confio plenamente nas decisões que meus sócios tomam aqui. Todo mundo é adulto e sabe de seus deveres. Eles sabem que confio neles e eu posso fazer meu trabalho de forma tranquila”, frisa. E em nome do ensinar e espalhar boas mensagens, também se tornou palestrante. “Viajo o estado todo”, conta.
Diomar faz questão de destacar que toda religião é boa quando se consegue acalmar o coração e tirar bons ensinamentos. “Para mim, todas são essenciais. Mais vale um ateu digno do que um religioso hipócrita”, afirma, parafraseando Divaldo Franco. Para ele, o adágio popular exemplifica que nossas ações precisam corresponder às palavras e gerar bons frutos: “de nada adianta pregar o bem que não se faz. Para ser verdadeiro, precisa ser acompanhado de ações práticas”, reforça.
Dentre as muitas facetas, o palestrante é o autor da música “O lado bom da vida” em que canta “ama, trabalha, perdoa, espera... tudo vai acontecer, esse é o lado bom da vida pra se viver....”, como uma oração. E na sequência, segue com “você levanta sua mão pro céu e faz sua prece, não espera que façam por você” que canta com a cunhada Cristiane.
A própria música, frisa ele, é uma ode de amor e bons ensinamentos. Amar, orar, trabalhar, perdoar, fazer a sua própria prece. “Há muita beleza neste lado da vida, só precisamos viver de forma que possamos reproduzir e ver o quanto há de belo em cada novo dia”, aconselha. E assim como na letra da música, fazer a sua própria prece. “Há muita beleza nessa oração”, completa.
Cantar, inclusive, é um dos dons de Diomar. No momento desta entrevista, ele preparava para o fim do ano de 2025 a canção “Tem dias que tá tudo bem”, do compositor Nando Cordel, que já embalou várias trilhas sonoras de romances da televisão. “É do Nando em parceria com o incrível Dominguinhos a composição de ‘Isso aqui tá bom demais’”, diz. “Conheci ele pessoalmente há alguns anos e vi o ser humano incrível que ele é”, conta.
Para Diomar a vida é feita disso amigos, responsabilidades, cuidado com o outro e leveza para seguir adiante. “Estamos sempre no lugar que devemos estar, Deus nos dá aquilo que precisamos e o livre arbítrio para o justo e o bom, cada passo, cada decisão só depende de nós”, aconselha com um sorriso calmo e a segurança de quem sabe que suas ações condizem com aquilo que ensina, e, mais do que isso, seguem a trilha daquilo que tem plantado no coração. Afinal, para fazer diferença na vida do outro, precisamos iniciar mudando a nós mesmos. “Brinco que sou mil e uma utilidades, juntando tudo sou o pai, marido, filho, um cidadão que busca fazer a diferença”, salienta.
“Digo sempre a mim mesmo: quanto custa um sorriso? Para mim é simples, é o fato de que mesmo vivendo em dias em que tudo é corrido, tenhamos o instante e o dom de olhar para o outro, observar sua necessidade e estender a mão, mas, antes disso dar um sorriso”, diz. “acho que por isso eu e a cidade nos escolhemos: para mim, foi aqui que a vida sorriu”, encerra.
1984
Como nasce uma empreendedora
O olhar sempre buscou formas de tornar o ambiente mais belo; as mãos, que gesticulam e entregam sua descendência italiana, estão habituadas ao trabalho minucioso e cuidadoso que costuma dar nova vida a móveis e ambientes; a curiosidade e a força de viver alimentam os sonhos e desejos dessa mulher que literalmente se reinventa, quer seja diante de dificuldades ou nos bons momentos. O nome dela é Vera Lúcia Cavaletti e a sua história é motivada pela resiliência
Foi em Gaurama no Rio Grande do Sul, uma cidade nomeada com a junção de duas palavras de origem na língua tupi-guarani, em que Gau significa "barro" e Rama" terra", que Vera Lúcia Cavaletti nasceu em 17 de agosto de 1959. Talvez, ter nascido na “terra do barro”, diria muito sobre a personalidade da mulher que sempre teve seus olhos voltados para o belo. Em Gaurama, permaneceu até um ano de idade. Os pais, Eurides Cavaletti e Maria Bruschi Cavaletti, moravam junto com os pais de Maria na região de Gaurama. Com dois filhos pequenos, o primogênito Luiz Carlos e a pequena Vera Lúcia, decidiram se mudar para Santa Catarina onde adquiriram uma área própria em Lajeado Grande, na época distrito de Xaxim, em Santa Catarina.
As lembranças de infância e adolescência que Vera guarda são todas de Lajeado Grande. Na comunidade que anos mais tarde – em 12 de dezembro de 1991- a menina frequentou a escola e construiu as primeiras amizades. No grupo escolar era a primeira da classe. Tanto que era escolhida pela professora do grupo, Maria Noeli Faé, como coautora de livros de redações que a professora publicava. Os textos de Vera também serviam de base para que as professoras trabalhassem o desenvolvimento da escrita com os colegas. Naqueles tempos, ela guardava o sonho de ser jornalista. Chegou a repetir de ano – não porque tivesse reprovado, mas sim porque queria continuar na escola, mesmo tendo terminado o colegial. Foi também no grupo escolar que conheceu Justino Matiello que no futuro desempenharia um papel importante em sua vida.
Já em casa Vera era apelidada de “luxenta” pelos irmãos. Única mulher – Luiz Carlo, o mais velho e Dulcimar e Márcio os dois mais novos; a menina gostava de andar arrumada e os irmãos a acusavam de ser muito vaidosa. “Lembro que meus pais faziam o sabão caseiro, de soda, para lavar a louça, a casa, a roupa e para nosso banho”, diz. No sabão costumavam usar a gordura animal, o sebo, do gado bovino e muitas vezes pedaços de ossos. Quando tomava banho e sentia o osso incomodando a pele, Vera tinha certeza que queria mudar o curso de seus dias. “Eu pedia para minha mãe licença para vender o excedente dos ovos, do queijo, das nozes pecans, das frutas da época mesmo”, lembra. Com o dinheiro conquistado nas vendas ela comprova seu próprio sabonete, shampoo para o cabelo e algum outro mimo quando possível. Já nascia ali a força do empreendedorismo que a marcaria.
Além de cuidar dela mesma, a adolescente queria que tudo a sua volta fosse belo. Cuidar da aparência da casa, da propriedade em que a família residia era uma de suas funções preferidas. Ela costumava fazer caminhos de pedra que pintava com cal na entrada do lar. “A cal era um material barato e misturávamos com água, ficava lindo, cuidado”, aponta. Tudo na propriedade seguia essa linha: a grama era aparada, o jardim florido, as árvores do pomar cheias de frutos. Dessa época ela também guarda uma lembrança que durante muito tempo a limitou: o pai havia assinado de avalista para uma cooperativa que faliu, tanto ele quantos outro avalistas sofreram as consequências. “Durante muito tempo ele pagou conta que não era dele”, reflete.
Com 18 anos Vera mudou para Xaxim. O ano era 1977 e o objetivo era estudar. Na cidade havia duas opções: cursar o antigo Normal e ser professora ou cursar Técnico em Contabilidade. Ela não queria ser professora e sim jornalista. Mas naquela época ser jornalista não era bem visto para uma mulher e nem havia onde realizar o curso. Então foi cursar Técnico em Contabilidade e imediatamente começou a atuar em uma loja como vendedora. Na loja era comercializado um pouco de tudo, havia a oferta de roupas e de móveis no mesmo ambiente. Sempre à disposição, chegou a viajar três vezes com a antiga patroa para São Paulo para fazer compras.
Outra mudança na vida veio em 1980 quando a jovem casou com o antigo colega, Justino Matiello. Na época ele exercia a função de bancário no hoje extinto Banco Sul Brasileiro. Em 1983 o casal teve a primeira filha, Jaqueline. No ano seguinte Justino viajou acompanhado de um amigo, Moacir Domingos Busatta, odontólogo, para conhecer Sorriso. Os amigos se encantaram pelas áreas planas e de imediato se imaginaram grandes produtores de soja. No retorno a Xaxim descreveram uma terra cheia de esperança e convidaram as esposas para mudar. Tanto Vera quanto Neida Busatta concordaram com os maridos na hora. Quem não gostou foram os pais de Vera. Seu Eurides e dona Maria se preocupavam de que forma a filha se mudaria para o meio do nada, em um lugar sem hospital, sem energia elétrica com a netinha de apenas um aninho. “Tínhamos aquela gana de desbravar, coisa própria da juventude e não víamos as dificuldades”, detalha. Os amigos também tentaram alertar. Mas os dois jovens casais e mais uma terceira família empreenderam a mudança. De Xaxim saiu um caminhão extremamente pesado, a carga, muito alta, chamava a atenção. Os homens estavam no caminhão. Acompanhando a mudança em um opala bege seguiam as mulheres com quatro crianças a bordo. A motorista era Neida Busatta.
Vera lembra de cada detalhe daquela viagem. “Eu que sou adepta de alimentação saudável, que cuido tanto hoje, cheguei a dar mamadeira com coca-cola para minha filha na viagem”, relembra. No caminho, estranhou a paisagem. Primeiro ao passar por Juscimeira e Jaciara, às margens da BR-163 levou um grande susto. “Eu imaginava mato por todo lado e estava vendo uns cachorros magros, poucas casinhas. Vinha de um lugar com muita cor. Bateu o desespero”, diz. Conforme a comitiva se aproximou de Várzea Grande o desespero foi diminuindo. Era 17 de agosto de 1984. Aniversário de 25 anos de Vera. A data foi celebrada com uma galinhada preparada pelos viajantes. A alegria tomou conta de todos e a celebração foi em baixo de um grande pé de manga no pátio de um posto de combustível. “Acho que foi a melhor galinhada da vida”, sorri. No dia seguinte a comitiva chegou em Sorriso com Vera no esplendor de seus 25 anos recém-feitos. Assim que abriu a porta do carro a jovem mergulhou um dos pés, calçado com um chinelo havaianas, em vários centímetros de poeira. A poeira subiu como um talco. Com um pé fora do carro e um dentro, ela olhou para frente e viu uma casinha de madeira pintada de branco, varanda, jardim e gramado cuidados, cerca baixa, a visão remeteu às casas do Sul, realidade a que estava habituada. “Naquele momento tive certeza de que esse era o meu lugar”, lembra.
Busatta havia vendido tudo em Xaxim: consultório, casas, bens. Justino e Vera haviam vendido a única casa. Agora sócios o dentista e o ex-bancário arrendaram uma terra em Sorriso. Só que a área era distante do local em que a vila se formava e exigiria ainda mais do que eles imaginavam: sem dominar corretamente as técnicas de manejo e plantio e sem pensar em realizar a correção do solo, os dois faliram no primeiro ano. Busatta voltou ao exercício de odontólogo e Justino foi procurar emprego na Cooperativa Copacel, na área administrativa. Ele também trabalhou como garçom do restaurante da então rodoviária. “Morávamos perto de onde hoje é a Praça da Juventude e ele trabalhava todas as noites na rodoviária, ia a pé, não tínhamos nem bicicleta. Ele chegava por volta das 22 horas e trazia o que havia sobrado do restaurante. Mas nunca era sobra, aquilo era comida boa e muito boa. Eu e minha filha ficávamos esperando-o chegar toda à noite e nos deliciávamos”, lembra. Nessa época, o sonho da jovem mãe era ser dona de uma casa com uma grande escada. Dizia para si mesma que se chegasse a ter uma casa de dois pisos com uma escada bem grande “estaria feita na vida”.
Presenciando o fracasso do plantio e com criança pequena, Vera resolveu empreender. Conversou com uma amiga e propôs sociedade. Sem recursos financeiros, pediu ajuda aos pais. “Mesmo falidos não pensamos em voltar, havia toda a questão de terem nos avisado antes, então não queríamos ter nosso orgulho e ímpeto da juventude abalados”, confessa. Os pais a atenderam: venderam para uma tia um pedaço do sitio que já era pequeno, e par ao bem de todos a tia permitiu que eles continuassem plantando a terra. Enviaram um cheque de R$ 150 mil para a filha que assim que recebeu o valor embarcou para São Paulo com a sócia para fazer as compras. “Éramos duas meninas, duas crianças, eu tinha 27 anos e ela por aí também”. Assim que chegaram em São Paulo e procuraram o banco para trocar o valor o gerente ficou espantado. “Como duas meninas estavam em pleno Braz com tanto dinheiro?”. Logo ele recomendou que guardassem o dinheiro e se ofertou para guardar o chegue no banco. Ele as instruiu a comprar uma pochete e levar R$ 10 mil de cada vez. Feitas as compras com esse valor, as duas deveriam acomodar tudo e retornar ao banco para buscar mais R$ 10 mil e mais R$ 10 mil... assim sucessivamente até todo o valor ser comercializado. O ônibus veio lotado. E não foi o suficiente, a pilha de compras era alta e muitas compras precisaram ser despachadas chegando ao destino dias depois. Com o valor subsidiado pelos pais ela abriu a Verline – uma junção dos nomes Vera e Jaqueline, uma loja de confecções. Logo desfez a sociedade e por 12 anos manteve o mesmo ritmo: enfrentava viagens de ônibus de até três dias e peregrinava pelo Braz, Bom Retiro e 25 de Março para a compra dos produtos. A Verline chegou a ter 200 metros². “Na época havia a Verline e a Lenita, da dona Helena, fazíamos muito sucesso”, reforça.
Em 1987 a empresária teve o segundo filho. Juliano é sorrisense, nascido no hospital do doutor Ari Brandão e do doutor Petry, ambos já falecidos. “Não lembro o nome do hospital”, pontua. Quando Juliano nasceu as coisas já andavam bem melhores. Mesmo sem energia em tempo integral, a família contava com um gerador o que facilitava - e muito, a vida agora com duas crianças pequenas.
Vera conta que o casamento com Justino chegou ao fim em um processo doloroso e desgastante para ambos em 1997. “Foi falta de maturidade, sofremos nós, sofreram os filhos e as nossas finanças”, detalha. “Hoje quando alguém fala em separação eu aconselho a fazer uma lista de ganhos e perdas, sei que em muitos casos é inevitável sim, mas em outras situações é falta de maturidade mesmo”, avalia.
No ano seguinte, em 1998, ainda abalada e com várias dificuldades financeiras, Vera vendeu a loja. “Amarguei um período horrível. Devia cerca de R$ 200 mil em impostos”, lembra. A empresária pontua que depois compreendeu que carregava consigo muitas crenças limitantes de que sendo empresária não conseguiria “vencer na vida. Isso se devia aos traumas de infância em que havia visto de perto pessoas queridas, familiares, que apostaram no empreendedorismo perder tudo. Sucumbi à essas crenças, paguei um preço alto e precisei me reinventar”, diz.
Com a loja fechada, ela precisava buscar outra alternativa. Se tornou representante comercial de uma empresa de fornos e móveis de jardim. Saia com o catalogo nas mãos de porta em porta ofertando os produtos. Sem recursos, assim que fechava uma venda, pedia ao cliente um cheque nominado para a empresa. Enviava o cheque para a matriz e só então eles enviavam o produto. “Eu não tinha saldo, nem nome limpo, então eu dependia do cliente me passar o cheque para concretizar a venda”, conta. De dona de loja, agora ela estava na rua, de porta em porta e a pé. “Não tinha nem uma bicicleta pra andar, era no sol quente de segunda a segunda e a pé”. Em uma dessas visitas ela entrou na Floricultura Mariná de Marisa Baggio. “A Marisa me falou “desculpa, Vera, não posso te atender direito agora. Olha minhas mãos, nem unha tenho mais de tanto trabalhar”. Eu olhei para as mãos dela e vi as unhas roídas, ela estava rodeada de plantas para decorar eu desejei “Deus, que um dia eu esteja assim como a Marisa com tanto serviço que nem possa sobrar tempo pra cuidar da minha unha”. Em poucos meses, Deus ouviu o pedido. E ela passou a fazer a unha à noite. “Ainda sou vaidosa como quando criança”, sorri.
Renasce uma nova Vera
A empresa que Vera representava a chamou e detalhou que para ela continuar atuando precisava abrir um showroom. Mesmo que fosse pequeno. Mas era necessário. Vera procurou o escritório de contabilidade que era responsável pela documentação da Verline. Pediu orientação para negociar os impostos atrasados. “Saí de lá com a dívida negociada para quase 20 anos”, brinca. E no mesmo dia fez um pacto consigo mesma e com a equipe: abriria uma loja com showroom, porém se em um ano ainda estivesse com dívidas astronômicas ou acumulasse novos credores, ela fecharia para não virar uma “bola de neve”. A Vera Móveis foi aberta em uma sala de 3X10 metros² na Avenida Brescansin em um corredor na altura do antigo mercado Rovaris, hoje Del Moro. Vera residia no fundo e na frente instalou o showroom. No dia em que a atividade completou um ano, nem ela, nem o pessoal do escritório de contabilidade lembrou do pacto inicial. “A loja havia dado certo”, avalia.
Nessa altura, havia refeito a vida pessoal convivendo com outra pessoa, Porfírio Cohen Vilas Boas, o Paraguai, brinca ela. Com Porfírio, Vera divide a vida, dores, alegrias e conquistas há 28 anos. “Meu parceiro de vida”, declara. Como tanto Vera quanto Porfírio já tinham filhos e profissão bem estabelecida, ambos decidiram que não misturariam negócios e amor. Porfírio seguiu sua profissão na área de pintura imobiliária e Vera com a loja. “Como sou bem ousada nos negócios, não tenho medo de inovar e empreender, decidimos que nunca seríamos sócios, cada um seria financeiramente independente e lutaria com suas próprias mãos. Tem dado certo. Há 28 anos estamos compartilhando nossas trajetórias e sendo amparo e alegria um na vida do outro partilhando vivências e experiências”, pontua.
Com o tempo, adquiriu um terreno próprio também na Brescansin, mas agora já perpassando o espaço da Igreja São Pedro Apóstolo, evidenciando o quanto ela e a cidade haviam crescido. A intenção era abrir uma academia para a filha Jaqueline que cursava Educação Física na Universidade Estadual de Londrina (UEL) em Londrina, no Paraná. A intenção de Vera era abrir a academia para Jaqueline e ficar auxiliando a filha. Porém, todos esses sonhos foram interrompidos. No fim de 2005 Juliano viajou para Londrina para prestar vestibular na mesma faculdade em que a irmã estudava. Jaqueline iria se formar naquele fim de ano e, com colegas e professores, foi comemorar a conquista de uma maneira que gostava muito: com um banho de cachoeira. A turma de formandos lotou um ônibus e foi acampar com alguns professores. Juliano acompanhou, afinal, era um fim de semana. Era a cachoeira Chicão 2, com cerca de 80 metros de altura na cidade de Faxinal, região próxima à Londrina. Logo na chegada, Jaqueline que era experiente nadadora e atleta da modalidade, foi apreciar a vista. Contudo, uma fatalidade ocorreu e a jovem acabou deslizando e caindo da cachoeira. Infelizmente, Jaqueline não resistiu à queda.
Como era fim de semana, Vera não estava na cidade. “Já existia celular, mas o sinal não era bom”, lembra. Assim que retornou e o sinal melhorou, contou 40 ligações recebidas e não atendidas de um número com código de Londrina. Retornou na hora. “Ouvi que havia acontecido um acidente com meus filhos e eu precisava ser forte”. A ligação caiu e não completou mais nenhuma chamada. Ela seguiu em desespero até em casa para chegar a um telefone fixo. “Durante o trajeto tive a certeza de ter perdido meus dois filhos, vivi o pior pesadelo de uma mãe”, pontua. Assim que conseguiu ligar do aparelho fixo para o número que havia feito as ligações ouviu a voz de Juliano. “Ouvir ele falando “mãe” foi um afago no coração, mas aí ele completou: mãe, a Jaque morreu”. O mundo de Vera veio à baixo. Andando freneticamente no gramado de casa ela tentava entender o que havia acontecido e pensava em maneiras de dar a triste notícia para a própria mãe, dona Maria, que era extremamente ligada à neta Jaqueline. Dona Maria era hipertensa. Por fim, Vera pediu que um familiar primeiro levasse dona Maria ao hospital para só dar a noticia com apoio médico. Ainda dando voltas no gramado, chorava a perda da filha e agradecia pela vida do filho. “É uma dor que você não explica, não esquece, aprende a viver”, diz. “Eu só sabia que queria trazê-la de volta, mas sem recursos, não sabia como”, lembra. O corpo de Jaqueline seguiu de ambulância até Campo Grande enquanto isso, em Sorriso, se espalhava a história da tragédia e as mãos amigas foram surgindo. Assim que a ambulância chegou em Campo Grande já havia um avião de propriedade de um empresário sorrisense aguardando para o translado. “Aqui não tinha aeroporto, o avião com o corpo dela pousou na pista de uma fazenda. Foi triste para mim e foi triste para o Juliano que acompanhou tudo desde o começo”, detalha. Vera, que adorava cachoeiras, ficou 12 anos sem olhar ou entrar em nenhuma.
Contudo, era preciso se reerguer. Até mesmo pela filha que não admitiria vê-la naquelas condições. Os sonhos precisaram ser remodelados. Juliano retornou e cursou Agronomia na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) no campus de Sinop. Foi aluno da 1.ª turma. E o terreno de Vera passou a abrigar a sede própria da Vera Móveis. “Hoje digo que a Jaque chegou lá em cima e falou Deus, você me buscou, eu vim, agora dá jeito de manter minha mãe muito ocupada, manda muito trabalho pra ela!”.
Enquanto tudo ia acontecendo, Vera foi estudar, se informar. Ultrapassar seus limites e crenças. Com a cabeça mergulhada nos estudos entendeu que poderia sim viver do empreendedorismo. Que essa era uma vertente que poderia dar muito certo e que ela poderia ganhar dinheiro. Construiu a casa com a escada grande. “Subo umas 40 vezes por dia, mas não reclamo, faz bem para a saúde, né?”, brinca. Aos poucos foi ampliando o espaço inicial da loja que hoje chaga aos dois mil metros² - e na loja também construiu uma escada longa. “É uma escada linda, em cada degrau há uma palavra que trata da importância de viver bem e cercada de amigos e da força de acreditar, de ter esperança, emanar essa esperança”, diz. Cada degrau, um estimulo a continuar a vida com resiliência e persistência.
E na luta por seu lugar ao sol, Vera foi criando estratégias. Foi a primeira a trabalhar em Sorriso com o condicional de móveis. “Claro que a nossa equipe visita o espaço, mede, analisa o que melhor cabe e tenta entender um pouco da identidade do cliente, depois disso voltamos para a loja, buscamos as peças que mais se enquadram, embalamos tudo e vamos levar o condicional na casa do cliente”, explica. Muitas vezes, as peças levadas já passam a figurar de imediato na casa do cliente. Outras, com a peça instalada no cômodo é possível ver que o móvel inicialmente levado não “casou com o ambiente”. Nesses casos, a peça é reembalada, carregada e volta para a loja e se inicia o processo de curadoria por uma outra peça. “Temos um marceneiro maravilhoso que avalia cada peça em seu retorno porque essa ação é trabalhosa e não queremos danificar nenhum móvel”, frisa.
A empreendedora conta que recentemente recebeu um casal que não acreditou que ela faria o condicional. “O marido disse: nós moramos no 8.º andar”. Vera explicou o funcionamento da ação e foi com o sofá até o 8.º andar. Nesse caso, a análise anterior foi certeira e a peça não desceu. “Também trabalhamos com o Plano Safra, com o parcelamento, para mim é gratificante o sonho de decorar, transformar um lar”, pontua.
A empresária explica que em toda situação busca conversar com o cliente. “Faço uma radiografia de quem ele é, da família, do estilo que gostam e vou no local para entender o que vai funcionar para eles”, salienta. É um trabalho minucioso. Muitas vezes, peças que a família já tem são recuperadas a partir de um trabalho artesanal. “Temos parceiros especialistas em patine, em curadoria, restauradores são ações que garantem uma cara nova, totalmente diferente e que trazem à tona a identidade dos proprietários”, frisa. Nessas situações, a pessoa gasta menos e ainda conserva algo que tem valor sentimental para ela. “É o que mais gosto no meu trabalho: repaginar algo, tornar mais contemporâneo, mas ao mesmo tempo garantir que continue com a identidade do proprietário, conservando uma história por traz de uma peça. É um trabalho cuidadoso e cheio de significado ressignificar algo para alguém”, conta.
Hoje os dois mil metros² da Vera Móveis acomodam muita beleza e delicadeza. Diariamente, 15 pessoas atuam na loja. E esporadicamente esse número sobe de acordo com a necessidade. “Quando é preciso nós contratamos mais gente para fazer diárias, auxiliar, fim do ano por exemplo, é um momento em que a demanda aumenta consideravelmente”, frisa.
No espaço tudo passa pelo olhar minucioso de Vera. É ela quem vai nas feiras de design, pesquisa, analisa o mercado. Ambientes como a Casa Cor e o diálogo constante além da feira da Associação Brasileira das Indústrias de Móveis de Alta Decoração (ABIMAD) são essenciais nesse garimpo. Feiras internacionais, como a de Milão, também estão no radar da curadora. “A ABIMAD por exemplo, é a maior feira de móveis e acessórios da América Latina, em um único espaço você tem o que nós, latino-americanos, ofertamos e buscamos com um diferencial único, um olhar muito apurado, é alto design”, destaca. A próxima edição já está programada para janeiro de 2026, em São Paulo, e com certeza Vera estará lá. O trabalho desenvolvido no Salão de Gramado também traz o requinte contemporâneo aliado à busca pela identidade de cada cliente. “São espaços inspiradores”, diz.
Vera relata que todo dia se reconstrói. Escolhe viver com felicidade. “Passei por muitas coisas difíceis e ruins, mas sempre busco sorrir. Há vida e muita vida bonita após a tristeza e busco levar essa mensagem”, defende. Hoje Juliano vive em Minas Gerais. Também é empreendedor. “Ele diz que não quis ficar comigo na loja porque sou ousada demais e a conta sempre chega, os boletos vencem”, sorri ao contar que hoje não tem medo de investir, traçar novas estratégias e planos de negócios. No catalogo da vida, não há mais nenhuma crença que limite a vontade de desbravar. “Só não vale ficar parada, se vitimizando, isso realmente não combina comigo”, conta.
A mãe e empresária passou muito tempo – 12 anos – sem conseguir passar por uma cachoeira. Hoje o trauma está superado, não a saudade da filha que é presença diária. Voltou a fazer as pazes com a natureza e realizou até mesmo um rapel sobre uma cachoeira. Também, em 2025, conquistou a cidadania italiana. Não pretende ir embora de Sorriso. Só tomou para si a realização de alguns sonhos interrompidos da filha. “Minha filha tinha uma ligação muito grande com a Itália, então fiz isso por ela, tento realizar algumas cosias que ela deixou para traz e sinto que ela está em paz e comigo e o irmão de onde estiver”.
Vera é resiliente. Supera desafios diários entre um afago e outro no cão Joaquim, seu fiel escudeiro. Pelo telefone e nas viagens de um estado a outro, supera a saudade de Juliano. “Aprendi a ser feliz, a agradecer e vencer um leão por dia”, ressalta a empresária que fez de Sorriso seu lar. “Aqui é a minha casa”, reforça. “Há um tempo vi o pé de manga em que comemorei meus 25 anos, talvez volte lá para um novo aniversário para lembrar àquela garotinha que tudo deu certo”, diz. E que como uma fênix todos os dias, ela escolhe se reinventar.
1984
Visionários, os Zanella foram pioneiros de dois municípios
Ademir e Clarice Zanella foram protagonistas de uma trajetória marcada pelo espírito pioneiro e pela coragem de sonhar. Jovens, aceitaram duas propostas ousadas: estabelecer-se em regiões ainda em processo de formação, contribuindo diretamente para a consolidação da então vila de Sorriso e, posteriormente, para a criação do Distrito de Boa Esperança, hoje município de Boa Esperança do Norte.
Clarice destacou-se como a primeira professora, abrindo as portas da educação para as crianças do antigo Distrito de Sorriso e lançando as bases do ensino na localidade. Ao lado do marido, não mediu esforços em prol do desenvolvimento comunitário: implantaram diferentes atividades comerciais e engajaram-se na luta por melhores condições de infraestrutura. Unidos por uma mesma visão de futuro, Ademir e Clarice construíram uma história pautada na inovação, sem jamais perder o vínculo com suas origens.
O moinho é um engenho destinado à moagem de cereais, como trigo e milho, geralmente composto por duas mós: uma fixa e outra móvel, responsável pelo movimento. Muito comum no passado, sobretudo nas pequenas comunidades do interior, onde predominava a agricultura de subsistência, o moinho constituía um ponto de referência coletiva, local onde o trigo se transformava em farinha e o milho em alimento básico, como a polenta.
Foi nesse ambiente que nasceu Vergílio Zanella. O menino que, anos mais tarde, seria pai de Ledilho Martins Zollet Zanella, seguiu a tradição do trabalho braçal herdada da família. Ledilho fez seus dias na forja: era ferreiro, um artesão essencial, responsável por moldar o metal e produzir ferramentas, utensílios, peças agrícolas e carroças. Sua atuação representava uma das formas mais antigas da metalurgia, sendo indispensável à vida econômica e social de vilas e pequenas cidades.
Ainda jovem, Ledilho casou-se com Irene Lodi Zanella e, em 15 de agosto de 1960, tornou-se pai de Ademir Zanella. Com o filho ainda pequeno, o casal mudou-se para a comunidade de Nova Santa Ana, no Paraná. Ali, deram continuidade à vida simples, marcada pela lida na roça e pelo pequeno comércio. O cultivo dos grãos assegurava a subsistência da família, enquanto o excedente era comercializado na própria região, fortalecendo os laços econômicos e comunitários locais.
Aos 16 anos, Ademir foi enviado para o município de São João com o objetivo de dar continuidade aos estudos, cursar o então 2.º grau e ingressar no mercado de trabalho. Rapidamente alcançou essas metas e, impulsionado pela curiosidade e pelo desejo de crescimento, foi além do que inicialmente se esperava.
Em 1980, durante um encontro de Missões Populares promovido pela Igreja Matriz de São João, Ademir inscreveu-se em um curso especial voltado para jovens. Foi nesse contexto que conheceu Clarice de Fátima Piovesan Basso, por quem se encantou. A partir desse encontro, seus pensamentos passaram a se dividir entre o sonho de iniciar um relacionamento com a jovem e o desejo de desbravar novos horizontes, especialmente o Mato Grosso — região que um de seus professores do 2.º grau costumava apontar como terra de grandes oportunidades, sobretudo para aqueles dispostos a enfrentar desafios e o trabalho árduo.
Movido pelo entusiasmo, Ademir chegou a convidar um familiar para juntos, conhecerem esse novo território. O convite, porém, foi recusado, e, sozinho, ele acabou adiando os planos de mudança. Permaneceu, então, em São João, onde continuou atuando no comércio local, trabalhando como vendedor de móveis em uma loja de eletrodomésticos.
Ademir, enfim, tomou coragem e pediu Clarice, filha de João Fortunato Basso e de Inaira Piovesan Basso, em namoro. O casamento ocorreu em 24 de outubro de 1981, quando Ademir tinha 21 anos e Clarice, 22. No ano seguinte, em 1982, tornaram-se pais de Marlon. O antigo sonho de conhecer o Mato Grosso permanecia adormecido, enquanto a vida, por si mesma, assumia novos rumos e responsabilidades.
Contudo, um novo capítulo estava prestes a ser escrito. Em uma manhã de 1984, Ademir foi surpreendido pela presença do sogro na varanda de casa, logo cedo, com semblante sério. Imediatamente, pensou consigo: “Será que veio exigir a filha de volta? Será que não estou cuidando bem dela?”. Para sua surpresa, não se tratava disso. Ao contrário, a proposta que ouviria definiria o destino do casal e marcaria profundamente suas trajetórias.
João Fortunato Basso, conhecido como Jango, olhou para o genro e anunciou: “Vendi a fazenda. Estou indo para o Mato Grosso. Querem ir junto?”. Sem hesitar, e sem sequer consultar a esposa, Ademir respondeu prontamente: “Eu é que quero”. Diante da decisão, Jango orientou que o genro pedisse demissão imediatamente. Ademir seguiu o conselho.
Pouco tempo depois, organizou-se uma expedição para que sogro e genro conhecessem a nova região. Percorreram diversas localidades e ouviram falar de Sorriso. Jango decidiu que iriam até lá. O impacto foi positivo. Retornaram ao Paraná entusiasmados e, para confirmar as expectativas, realizaram uma segunda viagem, desta vez acompanhados por dois filhos de Jango. A escolha foi definitiva.
A terra adquirida localizava-se na Fazenda Gleba Gaúcha, em Alto Ronuro, além do território que hoje corresponde ao município de Boa Esperança do Norte — à época, uma extensa área de mata pertencente ao então Distrito de Sorriso. A mudança ocorreu em fevereiro de 1984, marcando o início de uma nova etapa na vida da família.
“A terra era muito boa. Uma boa escolha. Uma área muito grande, porém distante de Sorriso, onde a vila ainda se iniciava”, recorda Ademir. Os sogros e cunhados mudaram-se para a propriedade e deram início ao processo de abertura da área. Ademir também integrou essa força-tarefa. “Comprar foi o primeiro passo e, com certeza, a parte mais fácil”, comenta, com um leve sorriso. “Abrir a área, fazer as leiras, catar as raízes… isso, sim, era muito trabalhoso”, relembra.
Segundo Ademir, a família contava com um trator, o que facilitava parcialmente o serviço. Mesmo assim, após a derrubada e limpeza, ainda era necessário aplicar inúmeras cargas de calcário para a correção do solo e, só então, iniciar o plantio. A terra precisava ser cuidadosamente preparada para receber a semente e garantir a produção.
Nesse período, Ademir ia e vinha, pois a família morava na vila de Sorriso. Pouco tempo após a chegada, Clarice descobriu que estava grávida. O segundo filho do casal foi aguardado com grande expectativa e afeto. Em 7 de julho de 1985, nasceu Marcos Antônio. No momento do parto, porém, os pais foram surpreendidos por um diagnóstico difícil: Marcos nasceu com hidrocefalia. Iniciava-se, ali, uma dolorosa e intensa luta pela vida.
O bebê foi operado em Cuiabá, mas, diante da gravidade do quadro, necessitava de atendimento em um centro clínico mais especializado. Com o apoio da comunidade que se formava e dos primeiros clubes de serviço, os pais conseguiram contato com uma equipe médica em Curitiba e mobilizar recursos para o tratamento. Marcos seria levado para lá. No entanto, em 28 de novembro de 1985, no momento em que a família se preparava para embarcar no avião, o pequeno não resistiu.
Desolados, retornaram para Sorriso, onde Marcos foi sepultado. “É uma dor que nunca se supera; aprende-se a conviver com ela”, dizem os pais, emocionados. “Não há um único dia em que não nos lembremos dele, em que não rezemos por ele. Foi um bebê muito esperado, muito amado. Devolvemos a Deus o que Ele nos deu e conservamos esse amor no coração.” Diante de toda a experiência, o casal chegou a ser aconselhado a não tentar uma nova gravidez.
Clarice precisava seguir em frente. Por si mesma, por Ademir, por Marlon. Não foi fácil, mas era necessário. Como forma de reconstruir a rotina e encontrar forças no cotidiano, em 1986 assumiu uma turma como professora na Escola Estadual Mário Spinelli. A docência já fazia parte de sua trajetória desde o Paraná. Havia estudado durante toda a vida na escola das irmãs, em São João, onde concluiu o magistério e, aos 17 anos, iniciou a carreira profissional lecionando para uma turma do ensino primário. Dar aulas sempre foi mais do que uma profissão: era uma vocação.
Marlon ainda era muito pequeno quando, após tornar-se mãe, Clarice retornou à sala de aula, ainda em São João. Ele tinha poucos meses de vida quando, como ela própria recorda, “passou a integrar o grupo escolar”. “Havia uma moça que cuidava do Marlon e, na hora do intervalo, eu aproveitava para amamentá-lo. Na escola ele dormia em um bercinho improvisado com cobertores; desde bebê me acompanhava no serviço”, relembra a mãe.
Sempre atenta à educação do filho, ainda em 1986 Clarice o matriculou no jardim de infância do Centro Educacional São José, reafirmando, na prática, a centralidade que o ensino ocupava em sua vida pessoal e profissional.
No final de 1986, conhecendo o trabalho de Clarice como professora e ciente de que parte de sua família residia em Alto Ronuro, Alberto Francio, um dos sócios da Colonizadora Sorriso, procurou-a com uma proposta decisiva: pretendia fundar uma vila na região que daria origem a Boa Esperança e necessitava de uma professora para iniciar a escola. Considerava Clarice a pessoa ideal para assumir essa missão e estruturar os primeiros passos da educação local.
Clarice aguardou a chegada de Ademir e compartilhou a proposta. O casal refletiu e concluiu que aquele poderia ser um bom caminho. “Não mudava muito”, recorda Clarice. “Em Sorriso ainda não havia energia elétrica, as ruas eram só poeira na estiagem e lama no período das chuvas. Pelo menos, em Boa Esperança, ficaríamos mais próximos da minha família.”
Após a chegada ao Mato Grosso, em 1984, a família permaneceu cerca de três anos em Sorriso e, em 1987, efetivou a mudança para Boa Esperança. Foi nesse novo cenário que Marlon, acompanhando diariamente a rotina da mãe em sala de aula, acabou sendo alfabetizado precocemente, aos cinco anos de idade. Do jardim de infância, seguiu diretamente para o 1.º ano, dando início à sua trajetória escolar de forma antecipada e singular.
Em Boa Esperança
Em Boa Esperança, em 1987, Clarice iniciou o ano como a primeira professora da localidade, então uma extensão de uma escola de Sorriso. O espaço era pequeno e funcionava no mesmo local onde hoje se encontra a Escola Municipal Boa Esperança. Em uma pequena sala, com apenas seis crianças, Clarice deu início ao trabalho em uma turma multisseriada. “Tenho muito orgulho em dizer que minha mãe foi a primeira professora de Boa Esperança”, relata Marlon.
No fim de 1987, Clarice e Ademir continuaram inovando e abriram o primeiro comércio de Boa Esperança: uma sorveteria com cancha de bocha. Na cancha, segundo Clarice, eram frequentes algumas rusgas. Para evitar conflitos mais graves, estabeleceram uma regra: todos que chegassem armados deveriam entregar o revólver, que ficava guardado embaixo do balcão. “Nunca contei, mas o balcão enchia. Todos eram acostumados a andar armados. Havia desavenças, mas dentro do nosso estabelecimento se respeitavam”, recorda.
O movimento era intenso. Clarice deixou a escola e passou a se dedicar ao comércio. Cozinhava, preparava muita Matrinchã, bistecas bovinas e suínas, além de pão caseiro, para atender a população que chegava para conhecer a nova localidade. “Não havia outro lugar; os compradores acabavam parando ali e, por necessidade, acabamos abrindo um restaurante”, frisa. Os produtos, principalmente o sorvete, eram armazenados em uma geladeira a gás.
Contrariando as recomendações médicas, Clarice engravidou. A gestação foi marcada pela constante apreensão em relação ao momento do parto, mas também profundamente sustentada pela fé. Diante das incertezas, os pais fizeram uma promessa: levar a criança que nasceria ao Santuário de Nossa Senhora Aparecida, em Aparecida, São Paulo.
A esperança e a gratidão tomaram conta do casal quando, em abril de 1988, nasceu Maicon, o filho caçula, sem apresentar nenhum problema de saúde. O parto foi realizado no Hospital e Maternidade Nossa Senhora de Fátima, em Sorriso. No entanto, chegar até o hospital não foi tarefa fácil. Com a estrada tomada pela lama, a camionete atolou. Clarice precisou ser carregada nos braços, passando entre carretas, para conseguir sair do atoleiro. Caminhoneiros que transitavam pelo local se uniram e, solidariamente, tornaram-se os heróis daquele momento: desatolaram a camionete e a sustentaram erguida por vários metros, até retirá-la da lama.
Três dias após o nascimento de Maicon, mãe e filho receberam alta. Ao chegarem a Boa Esperança, Ademir logo percebeu que havia muitas pessoas esperando para almoçar. Clarice mal havia colocado o bebê no berço quando já voltou à rotina. “Arrumei ele e corri para o fogão; o Ademir foi me ajudando, picando carne e legumes, eu fui fritando e ele servindo. Naquele momento, já voltei à rotina de antes do Maicon nascer. Minha sorte é que sempre tive uma saúde de ferro”, recorda Clarice.
Com um olho nos filhos e outro nas panelas, Clarice seguiu conciliando maternidade e trabalho. Nesse mesmo período, os pais de Ademir, Ledilho e Irene, mudaram-se do Paraná para o Mato Grosso, assim como seus demais irmãos. Com a chegada da família, a cancha de bocha e a sorveteria foram vendidas para Ledilho e Irene, marcando uma nova etapa na trajetória familiar.
Em 1990, movidos pela necessidade — companheira constante ao longo de toda a trajetória —, o casal Basso Zanella abriu um hotel em Boa Esperança. O ponto foi alugado da Colonizadora. Em tudo, eram pioneiros.
Nesse mesmo ano, diante das dificuldades no cultivo da terra, seu Jango e dona Inaira decidiram vender a Fazenda Gleba Gaúcha, local que permanece vivo na memória dos netos, repleto de lembranças de uma infância feliz. O casal mudaria para Sorriso, município recém-emancipado em 1986.
Ademir, no entanto, filho de ferreiros e profundamente ligado à terra, fez um pedido ao sogro: “Pedi que deixassem um pedacinho para nós”. O pedido foi prontamente atendido. “Sozinho, com tanta coisa, senti na pele como era difícil continuar desbravando”, confessa. Ainda assim, não desistiu. Agora pai de dois filhos pequenos, seguiu firme.
Ao contrário de recuar, ampliou ainda mais suas frentes de trabalho. Além da lavoura e das demais atividades que já exercia, em 1992 o casal abriu o primeiro bazar de Boa Esperança, que no ano seguinte, em 1993, foi transformado em supermercado. No ramo, atuaram por 25 anos; somados a outras iniciativas comerciais, foram 35 anos dedicados ao comércio, consolidando uma trajetória marcada pelo empreendedorismo e pela persistência.
“Foi uma luta muito grande. Não tinha nada. Demos o pontapé inicial em muita coisa em Boa Esperança. Para tudo houve um preço”, analisa Clarice. Para implantar o mercado, por exemplo, enfrentaram inúmeras dificuldades, especialmente pela falta de abastecimento da vila com produtos básicos. Ademir precisava se deslocar até Sorriso, onde carregava a camionete, e então retornava.
“Não havia energia elétrica; os geradores eram desligados às nove horas da noite. Desde pequeno, eu via o esforço dos meus pais para não perder as mercadorias perecíveis”, recorda Marlon.
Diante das constantes ausências do marido — fosse para buscar mercadorias em Sorriso ou Cuiabá, fosse na lida com a abertura da fazenda —, Clarice assumiu a linha de frente. Passou a administrar o mercado, elaborar as listas de compras, negociar com fornecedores, buscar melhores preços e avaliar o que era viável ou não para o comércio.
Do trabalho incansável e da força de vontade de Clarice veio grande parte do crescimento da família. A matriarca destaca que o Supermercado Zanella se tornou uma empresa de referência no então Distrito de Boa Esperança. Por meio do comércio, estruturaram a vida familiar, realizaram sonhos e garantiram os estudos dos filhos, consolidando um legado de trabalho, perseverança e empreendedorismo.
“Foi uma luta muito grande. Não tinha nada. Demos o pontapé inicial em muita coisa em Boa Esperança. Para tudo houve um preço”, analisa Clarice. Para implantar o mercado, por exemplo, enfrentaram inúmeras dificuldades, especialmente pela falta de abastecimento da vila com produtos básicos. Ademir precisava se deslocar até Sorriso, onde carregava a camionete, e então retornava.
“Não havia energia elétrica; os geradores eram desligados às nove horas da noite. Desde pequeno, eu via o esforço dos meus pais para não perder as mercadorias perecíveis”, recorda Marlon.
Diante das constantes ausências do marido — fosse para buscar mercadorias em Sorriso ou Cuiabá, fosse na lida com a abertura da fazenda —, Clarice assumiu a linha de frente. Passou a administrar o mercado, elaborar as listas de compras, negociar com fornecedores, buscar melhores preços e avaliar o que era viável ou não para o comércio.
Do trabalho incansável e da força de vontade de Clarice veio grande parte do crescimento da família. A matriarca destaca que o Supermercado Zanella se tornou uma empresa de referência no então Distrito de Boa Esperança. Por meio do comércio, estruturaram a vida familiar, realizaram sonhos e garantiram os estudos dos filhos, consolidando um legado de trabalho, perseverança e empreendedorismo.
Ademir faz questão de ressaltar que sua vinda para Sorriso foi possível graças ao apoio dos sogros. “Tenho uma gratidão imensa por tudo o que os dois fizeram por mim, pela Clarice, pelos guris”, afirma. Já do lado dos Zanella, foi o próprio Ademir quem serviu de inspiração. Ainda no início da década de 1990, seu Ledilho e dona Irene mudaram-se para Sorriso, assim como os outros seis irmãos de Ademir. “Aos poucos, fomos nos ajudando e nos instalando”, recorda Clarice.
Como pioneiros, engajaram-se na luta por melhorias para a região. A instalação da energia elétrica, a construção de pontes e a abertura de estradas eram pautas constantes nas reuniões e conversas da comunidade. Também batalharam pela implantação de diversos serviços públicos no distrito, pela pavimentação das vias e participaram ativamente da idealização da MT-140, estrada que se tornaria fundamental para o desenvolvimento local.
“Antes do asfalto, eram horas e horas na estrada. Os meninos lembram bem das dificuldades. Teve uma vez que o Maicon caiu e quebrou o ombro; ficou em casa esperando carona para ir ao hospital em Sorriso. Voltou para casa usando colete”, relata Ademir, evidenciando as limitações de acesso e os desafios enfrentados pelas famílias naquele período.
Ademir e Clarice sempre atribuíram grande importância à educação dos filhos. Aos 15 anos, Marlon foi enviado para estudar em Cuiabá. Tendo iniciado a vida escolar muito cedo, ingressou, ainda nessa idade, no curso de Direito da Universidade de Cuiabá (Unic). “Com 21 anos, peguei minha carteira da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). A ideia era ficar em Sorriso, mas voltei para Boa Esperança e comecei a perceber, e a falar para o meu pai: precisamos de uma estrutura mínima aqui”, recorda.
Em 2009, empenhado na busca por melhores condições para o então distrito, Marlon tornou-se empreendedor ao lado de Simone Royer, com quem teve as filhas Isabele e Isadora Rover Zanella. Paralelamente, assumiu a função de assessor adjunto da subprefeitura do Distrito de Boa Esperança. “Eu organizava de carnaval a velório; fazia o que era preciso”, relata. Nesse período, passou a vivenciar, de forma ainda mais direta, a carência de infraestrutura: a ausência de asfalto, de posto de saúde e de serviços básicos. A cada dia, ampliava-se a lista de reivindicações para o distrito.
Quando percebeu, estava lançado como candidato a vereador. Pioneiro, assim como os pais, tornou-se o primeiro vereador eleito por Boa Esperança, obtendo a maioria dos votos do distrito. A expressiva votação em Marlon abriu caminho para que outros representantes locais também conquistassem posições como suplentes. Ele assumiu a vaga na Câmara Municipal em 2012.
“Lembro de acompanhar a apuração pela Rádio Sorriso e, conforme iam anunciando os votos, o locutor perguntou: ‘quem é esse tal de Marlon Zanella que nunca ouvi falar?’. No fim da apuração, eu e minha família fomos surpreendidos com 802 votos”, relembra.
A partir de então, o jovem intensificou sua atuação em defesa do distrito, desempenhando papel fundamental na consolidação de serviços públicos, na pavimentação das primeiras ruas e na ampliação do conforto para os moradores. A eleição de um vereador alterou significativamente os rumos de Boa Esperança. Com Marlon no Legislativo municipal, o nome do distrito passou a figurar de forma constante nas sessões da Câmara. Suas necessidades, assim como suas conquistas, passaram a ter voz e representação.
Ter alguém no parlamento significou mais do que avanços em infraestrutura: representou presença política, articulação e luta permanente em favor da comunidade. Foi uma porta aberta para a implementação de melhorias nas áreas da saúde, obras, serviços e estradas, além da aprovação de leis e projetos que beneficiaram o então distrito — hoje município — cuja busca por reconhecimento e autonomia sempre esteve no cerne da trajetória e das lutas da família Zanella.
Eleito vereador por Boa Esperança, Marlon foi reeleito pela população do distrito — e também por outros sorrisenses — por mais duas vezes, encerrando seu último mandato em 31 de dezembro de 2024. Ao longo de sua trajetória política, assumiu ainda as funções de secretário de Governo e de secretário de Agricultura Familiar e Segurança Alimentar de Sorriso.
“Vejo tudo na vida como missão. Alguns têm a missão de abrir uma terra, outros de cuidar da saúde. Eu tive a missão de legislar em nome da minha terra e sou muito grato a todos que depositaram essa missão tão especial em minhas mãos. Boa Esperança depositou esperança e confiança em mim. Hoje, esse ciclo se encerrou e demos início a um novo ciclo”, reflete.
Maicon, por sua vez, aos 14 anos, também se mudou para Cuiabá para estudar, mas retornou aos 17, quando iniciou o curso de Administração. Foi em um baile de Páscoa, em 2005, no salão comunitário de Boa Esperança, que notou uma jovem diferente no meio do salão. Tratava-se de Cristiana Inês Klein, natural de Marechal Cândido Rondon, no Paraná.
Cristiana havia conhecido Boa Esperança em 2004, quando, acompanhada de uma irmã, veio visitar duas irmãs que já moravam no Mato Grosso. Encantada com o lugar, quis permanecer, mas os pais não permitiram. Obediente, voltou para Curitiba, onde passou a morar com a irmã que a acompanhara na viagem. A semente, porém, já estava plantada.
No ano seguinte, em 2005, ao saber da abertura de concurso para o Banco do Brasil, inscreveu-se para o estado de Mato Grosso. Avisou a irmã e viajou novamente para Boa Esperança. Faria a prova em Sinop, em um domingo pela manhã, mas, no sábado, uma forte chuva impossibilitou o deslocamento durante a madrugada. “Pensei: já que perdi o concurso, pelo menos aproveito o baile”, relembra.
Foi assim que, aos 17 anos, Maicon e Cristiana tiveram seus caminhos entrelaçados. Conheceram-se naquela noite, iniciaram o namoro e, mais tarde, se casaram. “Sempre digo que meus sogros são meus segundos pais, terminaram de me criar”, brinca Maicon. Pouco tempo depois, Cristiana passou a trabalhar no supermercado da família, ao lado da sogra, integrando-se à rotina e à história dos Zanella.
“Foi o destino”, sorri Maicon. O jovem faz questão de ressaltar que Boa Esperança do Norte — município mais novo do Brasil desde 1.º de janeiro de 2025 — é o seu lar. “A história da minha família está ligada a essa terra: Sorriso, Boa Esperança. Tive uma infância intensa, com muita liberdade, marcada pelo trabalho no mercado e pelas partidas de bets na rua, e quero isso para os meus filhos”, confessa o atual proprietário do Atacado Zanella. O mesmo sentimento é compartilhado pela esposa, Cristiana, que não se imagina vivendo em outro lugar. “Hoje temos tudo o que precisamos em Boa Esperança”, completa.
Maicon destaca ainda que, desde 2015, está à frente de um armazém de grãos, cujo principal mercado consumidor é a China. “O armazém é mérito do Maicon; ele se dedicou e trabalhou muito para colocá-lo de pé”, frisa a mãe, com orgulho.
“Atuamos na comercialização de pulses, como gergelim, feijão e pipoca. Nunca imaginei que um dia negociaria com o outro lado do mundo, e justamente com esses produtos. Mas o mercado vai nos moldando, as coisas vão acontecendo naturalmente e os caminhos vão se abrindo”, explica o caçula dos Zanella, hoje responsável pelos negócios de exportação da família.
Cristiana e Maicon cursaram Administração em Boa Esperança. Atualmente, ele se dedica ao mercado de pulses e ao armazém de grãos, enquanto ela está à frente do Atacado Zanella, dando continuidade à trajetória empreendedora iniciada pelos pais e consolidando a presença da família no desenvolvimento econômico do município.
Com os filhos e a nora, Ademir e Clarice deram continuidade à ampliação dos serviços da família. Chegaram a implantar um abatedouro, com sistema próprio de engorda de até 500 bois, destinado ao abastecimento do mercado. No entanto, por determinação da Vigilância Sanitária, precisaram encerrar as atividades do abatedouro e estabelecer parcerias com grandes fornecedores — que, com a estrada já asfaltada, passaram a realizar a entrega regular da carne.
Em parceria com o primogênito, Marlon, o casal também montou uma indústria de laticínios para beneficiamento de leite, mas o empreendimento foi interrompido devido à escassez de fornecedores. Tiveram ainda uma distribuidora de gás de cozinha. “Abríamos os empreendimentos conforme a necessidade de que vivíamos no distrito”, reforça Ademir.
Em 2019, Maicon alugou o mercado dos pais e adquiriu o estoque. Permaneceu por seis anos no prédio alugado, até que, ao lado de Cristiana, passou a atuar em sede própria, consolidando uma nova fase do negócio.
Já em 2020, Marlon, o filho mais velho, firmou uma nova sociedade com os pais e deu início à Construtora e Incorporadora Zanella. O grupo já entregou um edifício, o Lago Sul, localizado na Avenida Blumenau, no bairro Rota do Sol. A segunda torre encontra-se em fase final de construção, e há ainda outro projeto em andamento, com lançamento previsto para o próximo ano.
Atualmente, Marlon é o administrador da construtora e atua diretamente com os pais e com a filha Isabele. Aos 18 anos, a jovem é acadêmica de Direito e trabalha na empresa ao lado do pai. “É uma forma de aprender e honrar a história dos meus pais, dos meus avós e das minhas bisavós, que sempre foi pautada em muito trabalho”, destaca, reafirmando a continuidade do legado familiar.
“Tenho muito orgulho da história da minha família e um amor imenso por cada um deles: meu pai, minha mãe, meus avós, meus tios, minha irmã”, completa Isabele, emocionando a avó, que relembra com carinho que a neta esteve sob seus cuidados desde o primeiro mês de vida. “A mãe dela precisava trabalhar e eu fiz o cantinho dela no mercado”, recorda Clarice.
O afeto é recíproco. “Eles são únicos. Quando eu era criança, pedi uma boneca reborn e meu vô falou: ‘te dou um cavalo, você vai ter um bom amigo e aprender a cuidar de uma vida’”, conta Isabele. O avô lhe deu Lambari, que mais tarde foi comercializado. Atualmente, a jovem é dona da égua Minissaia.
A irmã mais nova, Isadora, de 10 anos, também recebe o carinho e os cuidados da família. “Cada uma tem seu próprio cavalo”, diz Ademir, orgulhoso. “A Isadora é muito comunicativa, não para quieta”, completa a avó, sorrindo.
Para o pai, Marlon, Isabele e Isadora representam a continuidade de um legado construído sobre luta, trabalho, união e amor. “Toda a minha família se envolve na criação delas, e eu sou muito grato por isso. Nessa caminhada de orientar e cuidar das meninas, hoje, além da minha família, conto também com o apoio do Igor Albuquerque, parceiro na vida e nos empreendimentos”, afirma. E conclui, emocionado: “Minhas filhas são presentes de Deus na minha vida”.
Gratidão é, inclusive, uma das palavras-chave na trajetória da família Zanella. “Sou profundamente grato à coragem e ao apoio dos meus sogros, que abriram o caminho e nos guiaram até aqui. Tudo o que construímos foi fruto de muita luta e trabalho, mas foram eles que abriram as portas para que isso fosse possível”, reflete Ademir.
Clarice recorda que ambos faleceram em 2020, aos 93 anos. “A mãe partiu primeiro e, três meses depois, o pai. Foram juntos, como viveram: com muito amor, guiando-nos sempre e deixando esse exemplo como legado”, completa. O pai de Ademir, seu Ledilho, também já é falecido; sua mãe, dona Irene, reside atualmente no município de Boa Esperança do Norte.
Para Clarice, Ademir e Marlon, Sorriso foi o primeiro lar ao chegarem ao Mato Grosso. Com a mudança para Boa Esperança, uma nova e bela história se abriu nos caminhos da família. O retorno a Sorriso, anos depois, configurou-se como uma espécie de volta às origens, um reencontro com a própria casa.
“Sorriso é o lugar onde a gente recarrega as energias e encontra motivação para continuar. Entendo que este é o espaço da nossa missão, dos ciclos que se iniciam, se encerram e voltam a se renovar, construindo novas histórias no legado da minha família. Seja em Sorriso ou em Boa Esperança do Norte, se estivermos todos juntos, estaremos em casa”, finaliza Marlon.
1984
Infraestrutura, Fé e Comunidade: A Consolidação da Vida Urbana em Sorriso
- Foram perfurados os dois primeiros poços artesianos na área verde localizada à esquerda da Avenida Natalino João Brescansin, no sentido da BR. A partir desses poços, a água era distribuída para todas as residências.
- Tem início a colonização do Distrito de Boa Esperança, impulsionada pela venda de lotes voltados à agricultura e pecuária, promovida pela Colonizadora Sorriso Ltda.
- Durante o governo de Júlio Campos, foi inaugurado o asfaltamento de cerca de 330 km da BR-163, entre o Posto Gil e Sinop, realizado pelo programa "Carga Pesada" com recursos federais, financiamento internacional e apoio do embaixador Roberto Campos.
- A família Vigolo implanta a Funerária São Jorge, passando a oferecer os primeiros serviços funerários organizados à comunidade do então distrito de Sorriso.
- Foi criada a Congregação Evangélica Luterana Bom Jesus, que teve como primeiro pastor Valdi Redel.
- Por determinação do governador Júlio Campos, a CEMAT assumiu a distribuição de energia em Sorriso, viabilizada por uma parceria com empresas locais e a comunidade, que doou postes e geradores. A primeira termelétrica foi instalada, fornecendo inicialmente 8 horas de energia diárias, ampliadas depois para 12 horas.
- Em fevereiro, a Igreja Assembleia de Deus inicia suas atividades em Sorriso, na residência de Nelson e Jaira Klimek, com apenas quatro membros. Pouco depois, é construída a primeira igreja, sob a liderança do pastor Bernardo Batista, que permaneceu à frente da instituição até 1991.
- A Polícia Civil do Estado de Mato Grosso passou a contar com cargos efetivos e carreira estruturada após a instituição do concurso público por meio da Lei Estadual nº 4.721/84, que marcou o ingresso formal dos servidores nas carreiras de Delegado, Escrivão e Investigador de Polícia.
- Foi inaugurado em Sorriso o Ginásio de Esportes São Pedro Apóstolo (GESP), importante espaço para a prática esportiva, eventos comunitários e integração social no município.
- Em 24 de agosto, Emílio Brandão cria uma escolinha infantil de futebol com seus filhos e filhos de amigos, iniciativa que perdurou até 1990. Nesse ano, Benedito Furquim (Poli) assume como chefe do Departamento de Esportes da Prefeitura e passa a coordenar as escolinhas esportivas do município.
1984
A força e a resiliência do homem que ousou acreditar
Jocondo. Um nome, um homem, um vinho. Uma homenagem e uma história cujo legado é lembrado com amor, sorrisos e boas lembranças. O vinho Jocondo, exclusividade da marca Del Moro, foi uma homenagem especial planejada pelos filhos para o pai, senhor de uma história de superação, trabalho e luta, que fazia frete de charrete, vendeu três juntas de bois para abrir uma sociedade – e se tornou um dos maiores empresários do ramo de supermercados de Mato Grosso.
Jocondo chegou ao mundo em 7 de setembro de 1941, em Siderópolis (SC), à época distrito de Urussanga, filho dos agricultores Duílio Luiz Del Moro e Laura Savi. A família produzia um pouco de tudo, e os produtos excedentes eram comercializados na comunidade local. A família seguia o mesmo ritmo que os demais moradores da comunidade. Em 1957, quando tinha em torno de 16 anos, a vida de Jocondo passou pela primeira guinada. O pai abriu uma vendinha de secos e molhados em Urussanga. Jocondo era o responsável pelas vendas. Ali, ainda criança, tomou gosto pelos negócios e pelo comércio.
Quando tudo parecia tranquilo em Santa Catarina, a família se mudou para o Paraná em 1963, e o novo endereço foi a comunidade de Laranjita, interior de São Miguel do Iguaçú, município recém-fundado e que Duílio acreditava ter mais oportunidades para os filhos. Eram 10 crianças. A família se mudou atraída pelas políticas de expansão de assentamentos rurais. Não foram os únicos a sair de Siderópolis. Outra família, os Rosso, também percorreu o mesmo caminho.
E apesar de conhecer Maria de Lourdes desde criança, foi em Laranjita que o amor desabrochou. “O nono Duílio tinha um sítio, e assim que terminava o sítio dele passava um riozinho e na sequência vinha o sítio do nono Emílio”, conta Mari, caçula, assim como o irmão gêmeo Mauri, da união entre Jocondo e Maria de Lourdes. O futuro nono Emílio era casado com Idalina Porton, pais de Maria de Lourdes Rosso.
O casamento entre Jocondo e Maria de Lourdes, ou simplesmente dona Lurdes, aconteceu em 17 de junho de 1964. Recém-casados, os dois foram cultivar a terra e, assim como seus pais, passaram a produzir milho e trigo. O excedente era comercializado na sede do município, em São Miguel do Iguaçu ou em Medianeira, já que a comunidade de Laranjita ficava no caminho entre as duas cidades.
Dois anos após a união nasce Marli. A gestação da primeira filha foi complicada, e Maria de Lourdes não estava conseguindo auxiliar na lavoura. Foi então que Jocondo, que havia tomado gosto pelo comércio ainda em Urussanga, resolveu abrir um pequeno armazém que funcionava na própria casa do casal – uma bodega que, no dialeto italiano, era um pequeno armazém com a fabricação e oferta de produtos como vinho. Por lá, além do vinho, Jocondo vendia pinga, fumo em corda, cachaça, querosene, cerveja quente, um pouco de tudo. A clientela era formada pelos próprios vizinhos. Com o tempo, as vizinhas passaram a fazer encomendas para Lourdes. E ela, que já tinha sido picada pelo bichinho da venda e da conversação com os outros, foi orientando Condo – como só ela podia chamar o marido – sobre o que comprar.
Com o tempo, Jocondo foi percebendo que na ida para a sede do município também podia fazer uns fretes. Ele ia de charrete, puxada por um cavalo bem cuidado. Nela levava o milho e o trigo excedentes que vendia em São Miguel do Iguaçu. “Ele passou a carregar os grãos dos vizinhos também revendendo para todo mundo”, conta Mari. Sem se dar conta, Jocondo foi expandindo os negócios. O ponto alto das vendas de Jocondo era a cerveja, muitas vezes, consumida quente mesmo pela falta de energia ou motores para resfriamento. Bom de vendas e de tino, ele passou a armazená-las em um balde dentro do poço na tentativa de resfriá-las. Quando chegava um cliente, o produto era içado por uma corda. A venda funcionava aos sábados e domingos – durante a semana era dia de labuta na roça.
Em uma das idas a São Miguel, Jocondo se encantou com uma novidade: uma geladeira a gás. Ao saber do preço (1,5 mil réis), recuou. Contudo, o vendedor já havia percebido a empolgação e foi listando os benefícios para o negócio. O primeiro da lista era a possibilidade de ampliar as vendas tendo à disposição cerveja gelada. Jocondo foi seduzido de imediato. Voltou para Laranjita com a geladeira nova carregada na charrete, feliz da vida. Logo a novidade se espalhou pela comunidade, os frequentadores passaram a aumentar as visitas à bodega em nome da cerveja gelada. Dentre eles estava um vizinho, seu Maganin, extremamente interessado na geladeira. Até que um dia tomou coragem e fez uma proposta: “oh, Jocondo, me venda essa geladeira!”. Jocondo respondeu que não podia vender, havia pago três mil contos de réis nela. Maganim oferta quatro e o negócio é fechado na hora. De volta à São Miguel do Iguaçu, Jocondo compra uma nova geladeira e aplica o lucro da venda da primeira em cerveja. A continuidade dos negócios estava garantida.
Uma charrete, três juntas de bois e uma sociedade
A fama da bodega e da arte de Jocondo em negociar – ele amava uma boa prosa e um bom negócio – chegou aos ouvidos de José Sangaletti, o Bépi Sangalletti. Bépi, dono de mercado em Iguaçu, propôs uma sociedade com o bodequeiro de Laranjita. Jocondo vende a charrete, três juntas de bois, o excedente da produção agrícola e fecha o negócio. Agora sócios, eles abrem a Casa Aurora em São Miguel do Iguaçu. O comércio de gêneros alimentícios foi oficialmente inaugurado em 1974. O nome Aurora era uma homenagem à filha de Bépi. E a parceria deu muito certo. No Paraná, o sócio majoritário era Bépi. Nesse meio tempo, Pedro Sangalletti, o filho mais velho de Bépi, chegou a trabalhar com a dupla. Mas, por temor do pai em ampliar os negócios e medo de inovar, Pedro acabou se afastando e abrindo um negócio próprio com o auxílio do sogro, Pedro Eisele, em Flor da Serra (PR).
Dois anos depois da sociedade, em 1976, Jocondo pega dois fretes para fazer: levaria duas mudanças até Sinop e na volta traria o caminhão carregado – havia quem veio e não gostou, procuravam freteiro para retorno. A diferença foi que para retornar ao Paraná o empresário carregou três mudanças.
Contudo, antes do retorno, ele decide fazer um tour pela região. Jocondo, que conhecia bem Ariosto Riva, colonizador que estava atuando na região de Alta Floresta, decide esticar a viagem e ver de perto o amigo. Ali, ele se viu encantado com a possibilidade de desenvolvimento da região. Como ele trouxe duas mudanças para Sinop, mas também agendou três fretes para o retorno, concluiu que era melhor não investir em Sinop e sim em Alta Floresta. Na volta, em 1977, chama Bépi para uma conversa. “Tinha muita gente, muitos conhecidos deles que estavam migrando para o Mato Grosso. Meu pai falou para o Bépi que seria bom eles virem também”, relata Mari. Mas Bépi não gostou da proposta. Ele temia trocar um lugar estruturado e com clientela formada pelo duvidoso. Por fim, Bépi aceita a proposta com uma condição: no Mato Grosso o sócio majoritário seria Jocondo. Assim, se houvessem prejuízos, estes seriam em sua maior parte contabilizados no bolso dos Del Moro. Foi nesses termos que Jocondo se enveredou pelo Centro-Oeste brasileiro e o sócio continuou com as atividades no Paraná.
A primeira Casa Aurora em terras mato-grossenses foi inaugurada em Alta Floresta em 1978, como uma sociedade entre os irmãos Jocondo Del Moro, Dernei Olindo Del Moro, Antônio Del Moro, Paulo Del Moro e Clecino Del Moro, além de Bépi Sangaletti.
E o tino de Jocondo para os negócios se revelou certeiro: na virada dos anos 70 para os 80, a saga do ouro fez ferver Alta Floresta, Matupá, Peixoto de Azevedo e toda a região. O caminhão de suprimentos mal chegava e os produtos nas prateleiras sumiam. Muita coisa nem chegava a figurar na prateleira, já era comercializada no ato da descida do baú. Diante do cenário, Jocondo teve certeza: deveriam ampliar a loja em Alta Floresta e investir em outros pontos da região. Ele fazia as compras em São Paulo e em outros pontos. Os produtos mal chegavam e já era necessário pedir uma nova encomenda. Quem seguia com Jocondo no Mato Grosso era o irmão Dernei Olindo. “Brincávamos que era o ‘tio Nei, o lindo’ por causa do nome, ele ria muito”, conta a sobrinha. Nei, era o responsável direto pelas finanças, a mão que segurava Jocondo na hora de investir, de expandir o mercado.
Em 1984, cansado das muitas viagens entre o Paraná e Mato Grosso, Jocondo decide trazer a família para morar em Cuiabá. Até então ele ficava por meses sem ver a esposa e os filhos – muitas vezes quatro, cinco meses, já que era o responsável pelas lojas no Mato Grosso. No Paraná, ficava Lourdes, agora com Marli, Mariliza e os gêmeos Mauri e Mari. Mário, outro filho do casal, infelizmente havia contraído meningite e faleceu no dia do batizado. Lourdes também havia sofrido algumas perdas gestacionais e sentia falta da família unida. Apesar de tudo, ela se mantinha firme cuidando da família, educando os filhos e trabalhando. A matriarca atuando diretamente nas vendas e as crianças também. Em São Miguel do Iguaçu, todos trabalhavam.
Por sua vez, Jocondo também se ressentia da falta e distância da família. Além disso, ele tinha certeza que os negócios em Mato Grosso iriam expandir. Ele desejava investir todas as economias no Centro-Oeste. Mas esse não era o desejo de Bépi. Então, em 1985, os dois desfazem a sociedade. Bépi ficaria com 100% dos negócios no Paraná e Jocondo com as atividades no Mato Grosso. “O pai conta que assim que se acertaram com o que cada um ficaria, o Bépi abriu o cofre e sacou um valor alto e entregou para ele como agradecimento pelos anos de parceria e pelo entusiasmo em sempre buscar mais”, revela Mauri. Antes de ser sócios, eram amigos. Um desejava que o comércio do outro desse certo, ambos se apoiavam.
Agora, com a família instalada na capital, Jocondo seguia carreira solo no Mato Grosso. As lojas já abertas passaram a se chamar DelMoro Supermercados e seguiram em franca expansão. Ainda em 1985, Jocondo recebe uma visita inusitada em Alta Floresta: Pedro, o filho de Bépi, o procura. Ele conta que estava pensando em se mudar para o Mato Grosso, já que agora o mercado que havia aberto em Flor da Serra enfrentava a concorrência da antiga Cooperativa Três Fronteiras (hoje a Cooper Lar), que outrora fora fornecedor de Pedro. Desanimado com a concorrência, ele resolve excursionar pelo Mato Grosso e mais uma vez a história dos Del Moro e dos Sangaletti trilha o mesmo rumo.
Após visitar Jocondo, ele segue atraído pela linha do garimpo e escolhe Matupá para implantar um mercado. Contudo, havia um detalhe: o terreno escolhido já estava no radar de Jocondo e a imobiliária em questão teve que conversar com o patriarca dos Del Moro. Ao saber quem desejava a área, Jocondo não pensa duas vezes e libera a venda. Em 1986, Pedro Sangaletti e o sogro Pedro Eisele iniciam a obra da Casa Aurora de Matupá. Anos depois, o caminho de Pedro volta a surgir nas trilhas dos Del Moro.
Em Cuiabá, onde havia ficado para garantir que os filhos estudassem, Lourdes resolve abrir uma mercearia. Ela temia que os filhos perdessem o gosto e o amor que já nutriam pelo comércio. “Ela falou: ‘Condo, vou pôr alguma coisa aqui, assim eles não perdem o costume e vão continuar trabalhando’. Ela temia que a gente virasse vagabundo”, ri Mari. Jocondo concordou. E assim, ela inicia uma mercearia na frente de casa. Também compra uma máquina giratória para assar frangos que eram recheados pela família. “Recheei e costurei tanto frango na adolescência...”, conta a filha. Tudo funcionava sob a supervisão da mãe.
Mari conta que era a responsável por passar o fax para o pai com a lista de produtos que Lourdes precisava tanto para vender na mercearia como na casa. O pai sempre ria muito, brincava muito ao receber os fax. “Nesse dia ele falou: ‘mas Lourdes, isso não é um rancho, é um barracon inteiro que tu tá pedindo’”, frisa ao contar que o pai sempre se orgulhou do sotaque que denunciava suas origens rurais e sulistas. “Eles eram assim, brincavam um com o outro o tempo todo, digo que meu pai era a emoção, o coração; ela a base, o equilíbrio; ele totalmente manteiga derretida dos Del Moro, ela o lado Rosso, o equilíbrio”, pontua.
Nesse tempo, Marli se forma em contabilidade e assim que retorna ao Mato Grosso já segue para Alta Floresta, onde desde então é a responsável pelas compras da rede, indo trabalhar diretamente com o tio Nei. Mariliza, formada em Engenharia Florestal, logo seguiu a irmã. Em Cuiabá, ficaram os caçulas para estudar e auxiliar a mãe na mercearia. “O pai falava para ela fechar, mas ela seguia trabalhando e nos ensinando. Só vendeu o negócio depois de sofrer o terceiro assalto à mão armada”, diz Mari. E os gêmeos deviam fazer faculdade. Mauri e Mari iniciaram o curso de Economia. Contudo, o pai descobriu que Mauri estava cabulando as aulas. Assim, em 1998, ele deu duas opções para o filho: arrumar a mala e mudar com ele para Alta Floresta, onde iria trabalhar no mercado, foi a primeira opção. “A segunda foi a mesma coisa, eu não tinha como escolher”, relembra Mauri aos risos. Aos 23 anos ele assumiu a função de gerente.
O pai, com o apoio de Nei, seguia abrindo lojas pelo Mato Grosso. Com Alta Floresta estabelecida, foram surgindo pontos em Apiacás (1987), Peixoto de Azevedo (1990), Lucas do Rio Verde (2002, primeira loja; segunda em 2011), Sorriso (2003 primeira unidade; 2014 segunda loja, 2019 o Atacarejo DelNorte e 2023 a quarta loja), Nova Mutum (2009), Tapurah (2012), Paranaíta (2014) e Guarantã do Norte (2014). Em 2015, a primeira loja de Alta Floresta é totalmente remodelada passando a ser a maior do grupo. Na sequência foi inaugurada uma unidade em Terra Nova do Norte (2018). Em cada inauguração o discurso de Jocondo era único: ele sempre agradecia a oportunidade que José Sangaletti havia lhe dado. Em muitas das lojas, o próprio Bépi ou o filho Pedro estavam presentes para aplaudir. E em todas elas, Jocondo cortou o laço e entrou de mãos dadas com sua Lourdes.
“O pai era a emoção. Ele falava: ‘vi um terreno bom, vamos abrir mais um mercado em tal lugar’. Tio Nei dizia: ‘não, não temos dinheiro e nem capital de giro agora, Jocondo’. Mas o pai ia e vinha e via de novo o terreno em questão. Lembro bem de Tapurah, ele viajava a região inteira e ficou sabendo de um mercado que estava à venda por lá. Quis porque quis comprar, tio Nei falou não”, lembra Mauri. Dois meses depois dessa conversa, Jocondo voltou à Tapurah e fechou o negócio. “Ele me ligou pra contar e eu pedi: ‘o senhor falou com o tio Nei?’. Ele disse que não. Liguei pro tio e falei: ‘meu pai fechou Tapurah’. Era uma quinta-feira, ele resmungou, xingou, mas no domingo estava lá limpando tudo e arrumando prateleira”. Quando viu de perto, Nei sentenciou: “Condo, vamos antes reformar”. “Ele resistia, trazia o pai para a razão, mas depois do negócio feito, ele entrava de cabeça. Com o negócio fechado, o tio Nei passava a ser o cérebro da operação, resolvia todas as pendências”, reflete o sobrinho. “Claro que aprendi muita coisa na faculdade”. Depois de instalado em Sorriso, Mauri seguiu o conselho do pai e cursou administração – mas foi na prática, no dia a dia com o pai e o tio, que aprendeu a se virar de verdade.
Mari acrescenta a mãe à lista do irmão. “Ela foi minha primeira inspiração, minha luz, aprendi muito com ela e com eles”, detalha. A filha também conta mais do ímpeto do pai e do quanto era visionário. Sempre na estrada entre Alta Floresta e Cuiabá onde Lurdes continuava enquanto Mari cursava economia, Jocondo decidiu investir em Sorriso. “Da BR ele via esse terreno – do Del Moro da Belo Horizonte; e começou a perturbar o tio Nei para comprar aqui; o tio falava que não. Mas ele foi e comprou, toda vez ele falava assim: ‘comprei, se não der certo, tu desconta da minha parte na sociedade, o prejuízo fica comigo, se der certo o lucro é de todos’”, frisa o filho.
Uma mudança chega em Lucas
Comprado o terreno, o grupo inicia a obra. Mas no meio do caminho entre Alta Floresta e Cuiabá tinha outra cidade: Lucas do Rio Verde. Lá, o comerciante passa e vê um mercado para alugar. Automaticamente, liga para Nei, que o lembra das obras iniciadas em Sorriso. Mas Jocondo não sossegava e nem dormia no ponto. Ele amava negociar. “Na hora ele foi informado que não havia mais interesse em alugar, só em vender”. Claro que essa era a linguagem preferida do comerciante. Logo fez proposta. A contraproposta veio em um número estabelecido em sacas de soja. “Ele disse: ‘vamos converter em arroba de boi que eu tenho gado e não soja, proprietário que era na época de 15 mil cabeças de bois’”. Negócio fechado, Plínio Shuntz acabou recebendo bem mais do que havia pedido, já que em 2002 o valor da arroba de gado rendeu bem mais que a saca da soja. O grupo inicia as obras de reforma e ampliação em Lucas. Para isso, foi preciso parar a obra do mercado em andamento em Sorriso.
Nesse meio tempo, com o fim da obra em Lucas, Mari se forma em Economia. O ano era 2003 e assim que terminou a faculdade, o pai a encarrega de tomar conta do mercado em Lucas, recentemente aberto. A viagem de Mari para Lucas é feita em um VW Gol roxo e a bagagem, além de uma mala com roupas, era constituída por um colchão enrolado no bagageiro. “Mudei para uma casa com oito homens – todos encarregados de algum setor e da obra que estava em fase final ainda. Fiquei duas semanas e liguei para o pai falando que aguentava qualquer coisa, dormir em um colchão, dividir a casa com os meninos, mas não dava mais para dividir o banheiro com eles”. Foi quando Jocondo transferiu a filha para um hotel, e depois para uma casa alugada. No mesmo período, Dona Lourdes vai para Lucas. Ela vendeu a casa e a mercearia em Cuiabá, estrategicamente instalada no bairro Boa Esperança, nas proximidades da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). “O ponto foi, por anos, a Mercearia do Seu Manoel’, e que hoje atende por ‘Bar do Comendador Arcanjo Ribeiro’, sendo um dos points da galera universitária”, diz Mari.
Com a decisão de Lourdes em mudar, Jocondo construiu uma casa em Lucas. Ali, Jocondo recebia os amigos para o carteado, para tomar uma pinga, fazer churrasco, tomar vinho e celebrar a vida. No poderio da casa grande, dona Lourdes organizava as recepções mais íntimas, reservadas aos familiares, aos netos. E quando os netos chegavam, virava festa. “A Amanda é a mais velha, ela gosta de bolo de cenoura, então ela fazia esse bolo; aí vinha o Bruno que preferia de coco, ela fazia. No fim, para cada pessoa havia um sabor de bolo. Essa era a forma de receber, acolher e amar da minha mãe, uma pessoa incrível”, lembra a filha.
Dentre as lembranças especiais da família está a de uma viagem ao Sul. Muitos parentes ainda moravam no Paraná. “Teve uma vez que fomos para uma festa de casamento em Laranjita. Na estrada, encontramos um vendedor de vassouras. O pai parou a caminhonete e perguntou o preço. O moço respondeu que tinha 10 e custavam cerca de R$ 25 cada uma”, sorri Mauri. Jocondo ofereceu então R$ 20 a unidade e ficou com todas. “Depois, em cada parente que chegávamos, ele pegava uma vassoura e dizia: ‘te trouxe um presente, agora tu me dá alguma coisa em troca, um queijo, umas bolachas pintadas’”, ri o filho. Conhecendo Jocondo, os parentes riam, agradeciam o presente e atendiam o pedido, sabendo a pessoa simples e com os mesmos gostos de quando havia residido por ali. E assim, desdobravam-se as histórias sobre Jocondo.
O grupo crescia. Os negócios também. Inicialmente, Marli e Mauri estavam em Alta Floresta, Mariliza em Cuiabá e Mari em Lucas, com a Dona Lourdes. E o pai tocava a obra em Sorriso. “Ele dizia que no Del Moro da (Avenida Belo Horizonte) BH gastou mais em churrasco do que em tijolo, que durante a obra foi fazendo churrasco para atrair os clientes”, detalha o filho.
Hoje, das 12 cidades em que o grupo está instalado e 20 lojas no total, Sorriso é o município que concentra mais lojas. São cinco unidades: o DelMoro da BH de 2003; a antiga unidade do supermercado Rovaris (hoje o Del Moro da Brescansin, adquirida em 2014). “Em 2019 essa unidade sofreu um grande incêndio. Nunca imaginei que a cidade nos acolheria nesse momento: as pessoas foram espontaneamente nos auxiliar, nossos colaboradores, nossos clientes. Outros empresários nos acudiram, enviaram caminhões-pipa, gente para auxiliar. Os bombeiros foram incansáveis, a Prefeitura também nos auxiliou. Sorriso nos abraçou naquele 24 de abril de 2019, somos muito gratos a isso”, pontua Mauri. Também em 2019 é inaugurado o Atacarejo DelNorte e o Centro de Distribuição (CD) do Grupo Del Moro, que funciona em anexo. Recentemente, em 2023, foi inaugurada mais unidade, ampla, localizada no bairro Rota do Sol.
O CD era um sonho antigo de Nei. “O tio sempre falava que precisávamos montar um Centro de Distribuição para comprarmos todos os itens em um único CNPJ e conseguirmos melhores preços, ter poder de negociação, e a partir daí distribuir para as demais unidades. Ele era visionário, empreendedor nato e esse CD é a realização de um dos principais sonhos dele”, reflete Mari, emocionada.
Segurando as lágrimas, Mari adianta que, infelizmente, Nei não viu o sonho concretizado. Transformá-lo em realidade coube aos sobrinhos. “Concretizar essa meta foi uma forma de homenagear o legado dele também, a dedicação, força, a pessoa incrível que foi o nosso tio Nei, o lindo”, sorri.
Mari conta que a perda de Nei afetou muito Jocondo. Antes ainda, ele havia sofrido outro baque. Lourdes havia ido para Santa Catarina no casamento da sobrinha Karina, filha do irmão Mário. Mari, casada com Donato Cinto, estava grávida de três meses e havia sofrido descolamento de placenta. Os pais foram e ela ficou em Lucas. A família retornou e a mãe foi ver a filha no quarto, chegou a reclamar de dor, mas disse ser leve. Atenta, a sogra de Mari, Hélia, confidenciou à nora que a dor de dona Lourdes era intensa. “Minha sogra disse que ela vinha me ver, mas quando saia gemia de dor. Me levantei muito mal, sem poder, estava expressamente proibida de sair da cama sob risco de vida dela e da bebê, e fui ao quarto, pedi que ela fosse para o hospital. Eu estava fragilizada, não sabia se conseguiria chegar ao fim da gravidez. Liguei para o Mauri, por sorte ele estava em Lucas e a levou para o hospital”, detalha.
Mauri, na época, morava em Sorriso. Ele levou a mãe ao médico e ela imediatamente foi transferida para Cuiabá. Era uma quinta-feira. No domingo, 27 de maio de 2011, dona Lourdes faleceu. Donato retirou todos os telefones do quarto da esposa, sabia o quanto ela estava fragilizada. Mas esqueceu do celular. “Tocou e era meu tio do Sul, o Mário”, pontua. Mário, chorando muito, pedia para a sobrinha dizer que era mentira que a irmã havia partido. Foi assim que descobri que minha mãe havia falecido, e eu nem podia sair da cama para tentar salvar minha filha”, se emociona. Jocondo, então providencia que Lourdes seja velada na casa de Mari para que ela pudesse se despedir. Sete meses depois, em 22 de setembro de 2011, Mari dá à luz a Maria de Lourdes, a neta que dona Lourdes não embalou, mas que carrega seu nome e que salvou a mãe no momento do luto.
“Quando fizeram 46 anos de casados, ela colocou na cabeça que queria uma festa. Fizemos a festa. No fundo, acho que ela sentia, algo soprava no coração dela que seria assim. Graças a Deus, fizemos a festa”, consolasse Mari. As bodas de alabastro são ilustradas por um mármore translúcido, conhecido por sua beleza e delicadeza, simbolizando a força e a beleza da união após tantos anos. Para os filhos, a descrição perfeita da união dos pais.
O baque foi grande para Jocondo. Quem segurou as pontas e lembrou o irmão e os sobrinhos de que precisam seguir adiante foi Nei. “Ele nos trouxe para dentro do grupo, mostrando que a vida continuava e que precisávamos reagir”, diz a sobrinha. E quando Jocondo se recuperou, sem aviso prévio do destino, perde Nei em 13 de abril de 2005. Nei era o irmão mais novo. Cardíaco, faleceu de repente. “Meu pai se acabou”, reflete. E foi a vez dos filhos fazerem o papel de Nei e o chamarem de volta. “Também precisamos ser o esteio dos nossos primos e seguir adiante, tirar o sonho do tio Nei do papel”, frisa Mari. “Acho que hoje o nosso Nei, a nossa voz equilibrada é o próprio Felipe”, acrescenta. Felipe é o filho mais novo de Nei e cuida da parte jurídica do grupo. Mari é mais o pai, o tio de Felipe, adora uma prancheta, uma obra. “Me larga que mergulho nesse universo, o Mauri, a Marli, a Mariliza me chamam de volta”, brinca. Além de Felipe, Nei era pai de Paula e Camila. Paula atua no setor de recursos humanos do grupo. Camila segue outros rumos, fora das empresas da família.
Jocondo foi o responsável por apresentar o mundo do carteado para a neta mais nova. “Canastra, bisca, truco. Ele ensinou para Maria de Lourdes; com os netos ele pode ser uma presença bem forte e marcante, na nossa época trabalhava demais”, reflete a caçula. “Teve uma vez, em Tapurah, em que eu estava dirigindo e ele me mandou parar em um boteco. Havia reconhecido um amigo das épocas do Paraná”.
Já no mundo dos negócios, o Jocondo empreendedor acompanhava a sina de Pedro Sangaletti, que havia pedido Recuperação Judicial do grupo Casa Aurora em 2016 e torcia pela recuperação do amigo – fato que o grupo conseguiu atingir em 2020. E assim que a Casa Aurora se recuperou, o grupo decidiu pela venda. Mas havia um porém: Pedro só venderia a marca para Jocondo; caso contrário, preferia fechar a empresa. No fim de 2020, os dois acertam o negócio de compra e venda. Em março de 2021, a proposta é apresentada aos credores.
Contudo, no dia 15 de março daquele 2021, Pedro passa a apresentar sintomas de Covid-19. A família vive a agonia pela falta de leitos. Finalmente, internado no Hospital Santo Antônio em Sinop, Pedro é entubado. Mas em 4 de abril de 2021 ele não resiste. Jocondo chora mais uma perda significativa. Em maio, a assembleia de credores aprova a venda da Casa Aurora. Em agosto, Bépi, pai de Pedro e de Aurora – a menina que emprestou o nome ao grupo iniciado pelo pai – falece aos 90 anos de idade. No mês seguinte, em setembro de 2021, a direção da Casa Aurora passa oficialmente para o grupo DelMoro. “Não há cláusula no contrato, mas eles acertaram que meu pai manteria o nome Casa Aurora. Para nós, no fundo, essa é a principal cláusula: jamais cogitamos trocar o nome. A história da Casa Aurora continua e é única, assim como a história de vida e de amizade do meu pai, do Pedro e do Bépi”, reforça Mari.
Um brinde ao vinho
E foi assim, depois de uma sequência de perdas e tristezas que os filhos organizaram uma homenagem que foi o grande orgulho de Jocondo, o homem. “Pensávamos em estratégias para alegrá-lo, foi quando surgiu a ideia do vinho. Entramos em contato com a Vinícola Capeletti e encomendamos um vinho único, o vinho Jocondo. Ele não sabia de nada”, lembra Mauri. No dia do lançamento, em 2021, o brilho no olhar de Jocondo voltou com força. “Ele dizia que sua história de vida havia sido honrada nesse momento”, completa.
A própria história da vinícola estava ligada à dele – da época em que vendia vinho sem rótulo. “Então começou a fiscalização e seu Capeletti disse que iria fechar, pois não tinha como regulamentar. O pai falou: ‘te empresto o dinheiro, tu regulariza e depois me paga em vinho’”. E assim foi feito. Por isso, quando pensaram em homenageá-lo, Mauri já sabia quem iria produzir e engarrafar o vinho Jocondo: a vinícola Capeletti de Caxias do Sul (RS). O vinho Jocondo, lançado em 2021, é embalado em garrafas de 750 ml e oferta as opções de tinto seco Merlot, tinto fino seco Cabernet Sauvignon e tinto de mesa suave e seco Bordô.
O vinho foi premiado com o selo de ouro na 15ª edição da Seleção de Vinhos de Farroupilha (RS). Esta seleção, realizada no Rio Grande do Sul, reconhece anualmente os melhores vinhos, espumantes, frisantes e sucos. O feito foi repetido em 2022, 2023 e 2024, consagrando a história do homem que lhe emprestou o nome.
A mão de Jocondo se estendeu para outros parceiros. Além dos Capeletti, a mesma proposta foi feita aos proprietários do Arroz Rampinelli, amigos do Rio Grande do Sul. “Te ajudo, tu embala e eu vendo no Mato Grosso”. Proposta aceita, as cargas do Rampinelli chegam fechadas ao grupo DelMoro. A bolacha De La Serra também recebeu o apoio. “Ele dizia que era uma bolacha pintada muito boa para só ele comer e foi lá oferecer apoio; todas as nossas lojas têm a bolacha pintada De La Serra”, orgulha-se Mari.
Jocondo tinha orgulho em dizer que todos os filhos estudaram: Marli fez Administração e Contabilidade; Mariliza, Engenharia Florestal; Mauri, Administração e Mari, Economia. Ele tinha cursado até a 4ª série, para como na música de César Passarinho, “aprender a fazer contas e algum bilhete escrever”. Colono, cuidador e artesão da terra, se tornou o dono da maior rede de supermercados do médio e do norte de Mato Grosso.
Marli continua morando em Alta Floresta, e é mãe de Bruno e Isabela. Mariliza reside em Sorriso e é mãe de Maria Eduarda. Mauri, em Lucas com mudança para Sorriso. Ele é pai de Amanda, Mateus e Gabriela. Mari, também escolheu Sorriso para criar Maria de Lourdes.
Em 2023, em plena pandemia, Jocondo passou mal. Cardíaco assim como Nei era, precisava passar por uma cirurgia de marcapasso. “Mas tudo estava parado com a pandemia”. O patriarca chega a ficar três meses internado em São Paulo, no Albert Einstein. “Ele tinha medo de morrer”. Durante todo o período foi acompanhado dos filhos e netos. Chegou a ser entubado e extubado. “Para todo mundo ele pedia: ‘tu toma vinho?’ Se recebia um sim de resposta já abria um sorriso; se ouvia um não, falava: ‘então vai dar para alguém porque tem um vinho com o meu nome e tu vai ganhar uma garrafa’. E foi assim que liguei para o Agnaldo que trabalha em uma das lojas de Sorriso e pedi que enviasse para o nosso box da Ceasa em São Paulo uma caixa de cada vinho”, lembra Mari. Lá, Jocondo distribuiu o seu vinho para médicos, enfermeiros, faxineiros, zeladores, cozinheiras, pacientes. O hospital inteiro. De volta recebeu sorrisos e carinho. “Ele lutou muito, mas teve um dia que falou: ‘o pai cansou’. E nós falamos: ‘pode ir, pai, vai em paz, ficaremos bem’. Nós trabalhamos juntos o fato de que era hora dele partir”. Jocondo escolheu uma sexta-feira, 10 de novembro de 2023, para partir. Tinha 82 anos e foi sepultado em Lucas do Rio Verde ao lado de sua dona Lourdes.
“Quando me passou o bastão ele disse: ‘agora é contigo’. E eu respondi: ‘pai, o senhor construiu tudo isso, eu só quero ter a sabedoria de manter, não quebrar e honrar seu nome’”, se emociona Mauri. “A Marli mora longe, não teria como estar aqui hoje”.
Mari relata que hoje as empresas são geridas por uma diretoria. Muitos dos primos participam da administração. Mauri é o presidente. As irmãs e sobrinhos integram vários dos conselhos – os primos também. “Cresceu demais, meu pai nunca imaginou. Eles iniciaram sozinhos, eram ele e minha mãe. Hoje são mais de 4 mil funcionários. Quando ele foi passar o bastão, eram mais de 3,7 mil, ele se espantou quando falei o número”, salienta o filho. Mari diz que eles buscam levar o exemplo do pai adiante. “Se alguém aqui precisar de uma mão estendida, sempre terá. Muitas vezes não conseguimos enquanto CNPJ, mas como mais de quatro mil CPFs unidos somos emoção, equilíbrio e razão”. A mistura de Jocondo e Nei.
“Hoje, o grupo oferta três marcas no mercado”, diz para Mari ao citar o DelMoro, o Atacarejo DelNorte e a Casa Aurora. Haverá ainda uma homenagem a Jocondo na fachada da nova unidade Del Moro Supermercados em Sinop, prevista para ser inaugurada em 2026, que será chamada de Loja do Joca e venderá exclusivamente produtos da marca DelMoro. Dentre eles, na área central, em exposição brilharão os vinhos Jocondo. Em tudo, um brinde à vida.
