Arraste para o lado para navegar
1963
1969
1970
1971
1972
1973
1974
1975
1976
1977
1978
1979
1980
1981
1982
1983
1984
1985
1986
1987
1988
1989
1990
1991
1992
1993
1994
1995
1996
1997
1998
1999
2000
2001
2002
2003
2004
2005
2006
2007
2008
2009
2010
2011
2012
2013
2014
2015
2016
2017
2018
2019
2020
2021
2022
2023
2024
2025
Deixe sua Sugestão
Envie para nós fotos e dados históricos para enriquecer nossa Linha do Tempo.
1984
Vera Lúcia Cavaletti
Como nasce uma empreendedora
O olhar sempre buscou formas de tornar o ambiente mais belo; as mãos, que gesticulam e entregam sua descendência italiana, estão habituadas ao trabalho minucioso e cuidadoso que costuma dar nova vida a móveis e ambientes; a curiosidade e a força de viver alimentam os sonhos e desejos dessa mulher que literalmente se reinventa, quer seja diante de dificuldades ou nos bons momentos. O nome dela é Vera Lúcia Cavaletti e a sua história é motivada pela resiliência.
Foi em Gaurama no Rio Grande do Sul, uma cidade nomeada com a junção de duas palavras de origem na língua tupi-guarani, em que Gau significa "barro" e Rama" terra", que Vera Lúcia Cavaletti nasceu em 17 de agosto de 1959.
Talvez, ter nascido na “terra do barro”, diria muito sobre a personalidade da mulher que sempre teve seus olhos voltados para o belo. Em Gaurama, permaneceu até um ano de idade.
Os pais, Eurides Cavaletti e Maria Bruschi Cavaletti, moravam junto com os pais de Maria na região de Gaurama. Com dois filhos pequenos, o primogênito Luiz Carlos e a pequena Vera Lúcia, decidiram se mudar para Santa Catarina onde adquiriram uma área própria em Lajeado Grande, na época distrito de Xaxim, em Santa Catarina.
As lembranças de infância e adolescência que Vera guarda são todas de Lajeado Grande. Na comunidade que anos mais tarde – em 12 de dezembro de 1991- a menina frequentou a escola e construiu as primeiras amizades.
No grupo escolar era a primeira da classe. Tanto que era escolhida pela professora do grupo, Maria Noeli Faé, como coautora de livros de redações que a professora publicava.
Os textos de Vera também serviam de base para que as professoras trabalhassem o desenvolvimento da escrita com os colegas.
Naqueles tempos, ela guardava o sonho de ser jornalista. Chegou a repetir de ano – não porque tivesse reprovado, mas sim porque queria continuar na escola, mesmo tendo terminado o colegial.
Foi também no grupo escolar que conheceu Justino Matiello que no futuro desempenharia um papel importante em sua vida.
Já em casa, Vera era apelidada de “luxenta” pelos irmãos. Única mulher – Luiz Carlo, o mais velho e Dulcimar e Márcio os dois mais novos; a menina gostava de andar arrumada e os irmãos a acusavam de ser muito vaidosa.
“Lembro que meus pais faziam o sabão caseiro, de soda, para lavar a louça, a casa, a roupa e para nosso banho”, diz. No sabão costumavam usar a gordura animal, o sebo, do gado bovino e muitas vezes pedaços de ossos.
Quando tomava banho e sentia o osso incomodando a pele, Vera tinha certeza de que queria mudar o curso de seus dias. “Eu pedia para minha mãe licença para vender o excedente dos ovos, do queijo, das nozes pecans, das frutas da época mesmo”, lembra.
Com o dinheiro conquistado nas vendas ela comprova seu próprio sabonete, xampu para o cabelo e algum outro mimo quando possível.
Já nascia ali a força do empreendedorismo que a marcaria.
Além de cuidar dela mesma, a adolescente queria que tudo a sua volta fosse belo. Cuidar da aparência da casa, da propriedade em que a família residia era uma de suas funções preferidas. Ela costumava fazer caminhos de pedra que pintava com cal na entrada do lar.
“A cal era um material barato e misturávamos com água, ficava lindo, cuidado”, aponta. Tudo na propriedade seguia essa linha: a grama era aparada, o jardim florido, as árvores do pomar cheias de frutos.
Dessa época ela também guarda uma lembrança que durante muito tempo a limitou: o pai havia assinado de avalista para uma cooperativa que faliu, tanto ele quantos outro avalistas sofreram as consequências. “Durante muito tempo ele pagou conta que não era dele”, reflete.
Com 18 anos Vera mudou para Xaxim. O ano era 1977 e o objetivo era estudar. Na cidade havia duas opções: cursar o antigo Normal e ser professora ou cursar Técnico em Contabilidade. Ela não queria ser professora e sim jornalista.
Mas naquela época ser jornalista não era bem-visto para uma mulher e nem havia onde realizar o curso. Então foi cursar Técnico em Contabilidade e imediatamente começou a atuar em uma loja como vendedora.
Na loja era comercializado um pouco de tudo, havia a oferta de roupas e de móveis no mesmo ambiente. Sempre à disposição, chegou a viajar três vezes com a antiga patroa para São Paulo para fazer compras.
Outra mudança na vida veio em 1980 quando a jovem se casou com o antigo colega, Justino Matiello. Na época ele exercia a função de bancário no hoje extinto Banco Sul Brasileiro.
Em 1983 o casal teve a primeira filha, Jaqueline. No ano seguinte Justino viajou acompanhado de um amigo, Moacir Domingos Busatta, odontólogo, para conhecer Sorriso. Os amigos se encantaram pelas áreas planas e de imediato se imaginaram grandes produtores de soja.
No retorno a Xaxim descreveram uma terra cheia de esperança e convidaram as esposas para mudar. Tanto Vera quanto Neida Busatta concordaram com os maridos na hora. Quem não gostou foram os pais de Vera. Seu Eurides e dona Maria se preocupavam de que forma a filha se mudaria para o meio do nada, em um lugar sem hospital, sem energia elétrica com a netinha de apenas um aninho.
“Tínhamos aquela gana de desbravar, coisa própria da juventude e não víamos as dificuldades”, detalha. Os amigos também tentaram alertar. Mas os dois jovens casais e mais uma terceira família empreenderam a mudança.
De Xaxim saiu um caminhão extremamente pesado, a carga, muito alta, chamava a atenção. Os homens estavam no caminhão. Acompanhando a mudança em um opala bege seguiam as mulheres com quatro crianças a bordo. A motorista era Neida Busatta.
Vera lembra de cada detalhe daquela viagem. “Eu que sou adepta de alimentação saudável, que cuido tanto hoje, cheguei a dar mamadeira com coca-cola para minha filha na viagem”, relembra.
No caminho, estranhou a paisagem. Primeiro ao passar por Juscimeira e Jaciara, às margens da BR-163 levou um grande susto. “Eu imaginava mato por todo lado e estava vendo uns cachorros magros, poucas casinhas. Vinha de um lugar com muita cor. Bateu o desespero”, diz.
Conforme a comitiva se aproximou de Várzea Grande o desespero foi diminuindo.
Era 17 de agosto de 1984. Aniversário de 25 anos de Vera. A data foi celebrada com uma galinhada preparada pelos viajantes.
A alegria tomou conta de todos e a celebração foi embaixo de um grande pé de manga no pátio de um posto de combustível. “Acho que foi a melhor galinhada da vida”, sorri. No dia seguinte a comitiva chegou em Sorriso com Vera no esplendor de seus 25 anos recém-feitos.
Assim que abriu a porta do carro a jovem mergulhou um dos pés, calçado com um chinelo havaianas, em vários centímetros de poeira. A poeira subiu como um talco.
Com um pé fora do carro e um dentro, ela olhou para frente e viu uma casinha de madeira pintada de branco, varanda, jardim e gramado cuidados, cerca baixa, a visão remeteu às casas do Sul, realidade a que estava habituada.
“Naquele momento tive certeza de que esse era o meu lugar”, lembra.
Busatta havia vendido tudo em Xaxim: consultório, casas, bens. Justino e Vera haviam vendido a única casa.
Agora sócios, o dentista e o ex-bancário arrendaram uma terra em Sorriso. Só que a área era distante do local em que a vila se formava e exigiria ainda mais do que eles imaginavam: sem dominar corretamente as técnicas de manejo e plantio e sem pensar em realizar a correção do solo, os dois faliram no primeiro ano.
Busatta voltou ao exercício de odontólogo e Justino foi procurar emprego na Cooperativa Copacel, na área administrativa. Ele também trabalhou como garçom do restaurante da então rodoviária.
“Morávamos perto de onde hoje é a Praça da Juventude e ele trabalhava todas as noites na rodoviária, ia a pé, não tínhamos nem bicicleta. Ele chegava por volta das 22 horas e trazia o que havia sobrado do restaurante. Mas nunca era sobra, aquilo era comida boa e muito boa. Eu e minha filha ficávamos esperando-o chegar toda à noite e nos deliciávamos”, lembra.
Nessa época, o sonho da jovem mãe era ser dona de uma casa com uma grande escada. Dizia para si mesma que se chegasse a ter uma casa de dois pisos com uma escada bem grande “estaria feita na vida”.
Presenciando o fracasso do plantio e com criança pequena, Vera resolveu empreender. Conversou com uma amiga e propôs sociedade. Sem recursos financeiros, pediu ajuda aos pais.
“Mesmo falidos não pensamos em voltar, havia toda a questão de terem nos avisado antes, então não queríamos ter nosso orgulho e ímpeto da juventude abalados”, confessa. Os pais a atenderam: venderam para uma tia um pedaço do sítio que já era pequeno, e par ao bem de todos a tia permitiu que eles continuassem plantando a terra.
Enviaram um cheque de R$ 150 mil para a filha que assim que recebeu o valor embarcou para São Paulo com a sócia para fazer as compras. “Éramos duas meninas, duas crianças, eu tinha 27 anos e ela por aí também”.
Assim que chegaram em São Paulo e procuraram o banco para trocar o valor o gerente ficou espantado. “Como duas meninas estavam em pleno Braz com tanto dinheiro?”.
Logo ele recomendou que guardassem o dinheiro e se ofertou para guardar o chegue no banco. Ele as instruiu a comprar uma pochete e levar R$ 10 mil de cada vez.
Feitas as compras com esse valor, as duas deveriam acomodar tudo e retornar ao banco para buscar mais R$ 10 mil e mais R$ 10 mil... assim sucessivamente até todo o valor ser comercializado. O ônibus veio lotado.
E não foi o suficiente, a pilha de compras era alta e muitas compras precisaram ser despachadas chegando ao destino dias depois. Com o valor subsidiado pelos pais ela abriu a Verline – uma junção dos nomes Vera e Jaqueline, uma loja de confecções.
Logo desfez a sociedade e por 12 anos manteve o mesmo ritmo: enfrentava viagens de ônibus de até três dias e peregrinava pelo Braz, Bom Retiro e 25 de Março para a compra dos produtos.
A Verline chegou a ter 200 metros². “Na época havia a Verline e a Lenita, da dona Helena, fazíamos muito sucesso”, reforça.
Em 1987 a empresária teve o segundo filho. Juliano é sorrisense, nascido no hospital do doutor Ari Brandão e do doutor Petry, ambos já falecidos. “Não lembro o nome do hospital”, pontua.
Quando Juliano nasceu as coisas já andavam bem melhores. Mesmo sem energia em tempo integral, a família contava com um gerador o que facilitava - e muito, a vida agora com duas crianças pequenas.
Vera conta que o casamento com Justino terminou em um processo doloroso e desgastante para ambos em 1997. “Foi falta de maturidade, sofremos nós, sofreram os filhos e as nossas finanças”, detalha.
“Hoje quando alguém fala em separação eu aconselho a fazer uma lista de ganhos e perdas, sei que em muitos casos é inevitável sim, mas em outras situações é falta de maturidade mesmo”, avalia.
No ano seguinte, em 1998, ainda abalada e com várias dificuldades financeiras, Vera vendeu a loja. “Amarguei um período horrível. Devia cerca de R$ 200 mil em impostos”, lembra.
A empresária pontua que depois compreendeu que carregava consigo muitas crenças limitantes de que sendo empresária não conseguiria “vencer na vida. Isso se devia aos traumas de infância em que havia visto de perto pessoas queridas, familiares, que apostaram no empreendedorismo perder tudo. Sucumbi à essas crenças, paguei um preço alto e precisei me reinventar”, diz.
Com a loja fechada, ela precisava buscar uma alternativa. Se tornou representante comercial de uma empresa de fornos e móveis de jardim. Saia com o catálogo nas mãos de porta em porta ofertando os produtos.
Sem recursos, assim que fechava uma venda, pedia ao cliente um cheque nominado para a empresa. Enviava o cheque para a matriz e só então eles enviavam o produto.
“Eu não tinha saldo, nem nome limpo, então eu dependia do cliente me passar o cheque para concretizar a venda”, conta.
De dona de loja, agora ela estava na rua, de porta em porta e a pé. “Não tinha nem uma bicicleta pra andar, era no sol quente de segunda a segunda e a pé”. Em uma dessas visitas ela entrou na Floricultura Mariná de Marisa Baggio.
“A Marisa me falou “desculpa, Vera, não posso te atender direito agora. Olha minhas mãos, nem unha tenho mais de tanto trabalhar”.
Eu olhei para as mãos dela e vi as unhas roídas, ela estava rodeada de plantas para decorar eu desejei “Deus, que um dia eu esteja assim como a Marisa com tanto serviço que nem possa sobrar tempo pra cuidar da minha unha”.
Em poucos meses, Deus ouviu o pedido. E ela passou a fazer a unha à noite. “Ainda sou vaidosa como quando criança”, sorri.
Renasce uma nova Vera
A empresa que Vera representava a chamou e detalhou que para ela continuar atuando precisava abrir um showroom. Mesmo que fosse pequeno. Mas era necessário.
Vera procurou o escritório de contabilidade que era responsável pela documentação da Verline. Pediu orientação para negociar os impostos atrasados. “Saí de lá com a dívida negociada para quase 20 anos”, brinca.
No mesmo dia fez um pacto consigo mesma e com a equipe: abriria uma loja com showroom, porém se em um ano ainda estivesse com dívidas astronômicas ou acumulasse novos credores, ela fecharia para não virar uma “bola de neve”.
A Vera Móveis foi aberta em uma sala de 3X10 metros² na Avenida Brescansin em um corredor na altura do antigo mercado Rovaris, hoje Del Moro. Vera residia no fundo e na frente instalou o showroom.
No dia em que a atividade completou um ano, nem ela, nem o pessoal do escritório de contabilidade lembrou do pacto inicial. “A loja havia dado certo”, avalia.
Nessa altura, havia refeito a vida pessoal convivendo com outra pessoa, Porfírio Cohen Vilas Boas, o Paraguai, brinca ela. Com Porfírio, Vera divide a vida, dores, alegrias e conquistas há 28 anos. “Meu parceiro de vida”, declara.
Como tanto Vera quanto Porfírio já tinham filhos e profissão bem estabelecida, ambos decidiram que não misturariam negócios e amor. Porfírio seguiu sua profissão na área de pintura imobiliária e Vera com a loja.
“Como sou bem ousada nos negócios, não tenho medo de inovar e empreender, decidimos que nunca seríamos sócios, cada um seria financeiramente independente e lutaria com suas próprias mãos. Tem dado certo.
Há 28 anos estamos compartilhando nossas trajetórias e sendo amparo e alegria um na vida do outro partilhando vivências e experiências”, pontua.
Com o tempo, adquiriu um terreno próprio também na Brescansin, mas agora já perpassando o espaço da Igreja São Pedro Apóstolo, evidenciando o quanto ela e a cidade haviam crescido. A intenção era abrir uma academia para a filha Jaqueline que cursava Educação Física na Universidade Estadual de Londrina (UEL) em Londrina, no Paraná.
A intenção de Vera era abrir a academia para Jaqueline e ficar auxiliando a filha. Porém, todos esses sonhos foram interrompidos.
No fim de 2005, Juliano viajou para Londrina para prestar vestibular na mesma faculdade em que a irmã estudava. Jaqueline iria se formar naquele fim de ano e, com colegas e professores, foi comemorar a conquista de uma maneira que gostava muito: com um banho de cachoeira.
A turma de formandos lotou um ônibus e foi acampar com alguns professores. Juliano acompanhou, afinal, era um fim de semana.
Era a cachoeira Chicão 2, com cerca de 80 metros de altura, na cidade de Faxinal, região próxima à Londrina.
Logo na chegada, Jaqueline que era experiente nadadora e atleta da modalidade, foi apreciar a vista.
Contudo, uma fatalidade ocorreu e a jovem acabou deslizando e caindo da cachoeira. Infelizmente, Jaqueline não resistiu à queda.
Como era fim de semana, Vera não estava na cidade. “Já existia celular, mas o sinal não era bom”, lembra.
Assim que retornou e o sinal melhorou, contou 40 ligações recebidas e não atendidas de um número com código de Londrina. Retornou na hora. “Ouvi que havia acontecido um acidente com meus filhos e eu precisava ser forte”. A ligação caiu e não completou mais nenhuma chamada. Ela seguiu em desespero até em casa para chegar a um telefone fixo.
“Durante o trajeto tive a certeza de ter perdido meus dois filhos, vivi o pior pesadelo de uma mãe”, pontua. Assim que conseguiu ligar do aparelho fixo para o número que havia feito as ligações ouviu a voz de Juliano. “Ouvir ele falando “mãe” foi um afago no coração, mas aí ele completou: mãe, a Jaque morreu”.
O mundo de Vera veio à baixo.
Andando freneticamente no gramado de casa ela tentava entender o que havia acontecido e pensava em maneiras de dar a triste notícia para a própria mãe, dona Maria, que era extremamente ligada à neta Jaqueline.
Dona Maria era hipertensa. Por fim, Vera pediu que um familiar primeiro levasse dona Maria ao hospital para só dar a notícia com apoio médico.
Ainda dando voltas no gramado, chorava a perda da filha e agradecia a vida do filho. “É uma dor que você não explica, não esquece, aprende a viver”, diz. “Eu só sabia que queria trazê-la de volta, mas sem recursos, não sabia como”, lembra.
O corpo de Jaqueline seguiu de ambulância até Campo Grande enquanto isso, em Sorriso, se espalhava a história da tragédia e as mãos amigas foram surgindo. Assim que a ambulância chegou em Campo Grande já havia um avião de propriedade de um empresário sorrisiense aguardando para o translado.
“Aqui não tinha aeroporto, o avião com o corpo dela pousou na pista de uma fazenda. Foi triste para mim e foi triste para o Juliano que acompanhou tudo desde o começo”, detalha.
Vera, que adorava cachoeiras, ficou 12 anos sem olhar ou entrar em nenhuma.
Contudo, era preciso se reerguer. Até mesmo pela filha que não admitiria vê-la naquelas condições.
Os sonhos precisaram ser remodelados. Juliano retornou e cursou Agronomia na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) no campus de Sinop. Foi aluno da 1.ª turma.
O terreno de Vera passou a abrigar a sede própria da Vera Móveis. “Hoje digo que a Jaque chegou lá em cima e falou Deus, você me buscou, eu vim, agora dá jeito de manter minha mãe muito ocupada, manda muito trabalho pra ela!”.
Enquanto tudo ia acontecendo, Vera foi estudar, se informar. Ultrapassar seus limites e crenças. Com a cabeça mergulhada nos estudos entendeu que poderia sim viver do empreendedorismo.
Que essa era uma vertente que poderia dar muito certo e que ela poderia ganhar dinheiro.
Construiu a casa com a escada grande. “Subo umas 40 vezes por dia, mas não reclamo, faz bem para a saúde, né?”, brinca.
Aos poucos foi ampliando o espaço inicial da loja que hoje chaga aos dois mil metros² - e na loja também construiu uma escada longa. “É uma escada linda, em cada degrau há uma palavra que trata da importância de viver bem e cercada de amigos e da força de acreditar, de ter esperança, emanar essa esperança”, diz.
Cada degrau, um estímulo a continuar a vida com resiliência e persistência.
E na luta por seu lugar ao sol, Vera foi criando estratégias. Foi a primeira a trabalhar em Sorriso com o condicional de móveis. “Claro que a nossa equipe visita o espaço, mede, analisa o que melhor cabe e tenta entender um pouco da identidade do cliente, depois disso voltamos para a loja, buscamos as peças que mais se enquadram, embalamos tudo e vamos levar o condicional na casa do cliente”, explica.
Muitas vezes, as peças levadas já passam a figurar de imediato na casa do cliente. Outras, com a peça instalada no cômodo é possível ver que o móvel inicialmente levado não “casou com o ambiente”.
Nesses casos, a peça é reembalada, carregada e volta para a loja e se inicia o processo de curadoria por uma outra peça. “Temos um marceneiro maravilhoso que avalia cada peça em seu retorno porque essa ação é trabalhosa e não queremos danificar nenhum móvel”, frisa.
A empreendedora conta que recentemente recebeu um casal que não acreditou que ela faria o condicional. “O marido disse: nós moramos no 8.º andar”. Vera explicou o funcionamento da ação e foi com o sofá até o 8.º andar. Nesse caso, a análise anterior foi certeira e a peça não desceu.
“Também trabalhamos com o Plano Safra, com o parcelamento, para mim é gratificante o sonho de decorar, transformar um lar”, pontua.
A empresária explica que em toda situação busca conversar com o cliente. “Faço uma radiografia de quem ele é, da família, do estilo que gostam e vou no local para entender o que vai funcionar para eles”, salienta.
É um trabalho minucioso. Muitas vezes, peças que a família já tem são recuperadas a partir de um trabalho artesanal. “Temos parceiros especialistas em patine, em curadoria, restauradores são ações que garantem uma cara nova, totalmente diferente e que trazem à tona a identidade dos proprietários”, frisa.
Nessas situações, a pessoa gasta menos e ainda conserva algo que tem valor sentimental para ela. “É o que mais gosto no meu trabalho: repaginar algo, tornar mais contemporâneo, mas ao mesmo tempo garantir que continue com a identidade do proprietário, conservando uma história por traz de uma peça.
É um trabalho cuidadoso e cheio de significado ressignificar algo para alguém”, conta.
Hoje os dois mil metros² da Vera Móveis acomodam muita beleza e delicadeza. Diariamente, 15 pessoas atuam na loja. E esporadicamente esse número sobe de acordo com a necessidade. “Quando é preciso nós contratamos mais gente para fazer diárias, auxiliar, fim do ano por exemplo, é um momento em que a demanda aumenta consideravelmente”, frisa.
No espaço tudo passa pelo olhar minucioso de Vera. É ela quem vai nas feiras de design, pesquisa, analisa o mercado. Ambientes como a Casa Cor e o diálogo constante além da feira da Associação Brasileira das Indústrias de Móveis de Alta Decoração (ABIMAD) são essenciais nesse garimpo.
Feiras internacionais, como a de Milão, também estão no radar da curadora. “A ABIMAD por exemplo, é a maior feira de móveis e acessórios da América Latina, em um único espaço você tem o que nós, latino-americanos, ofertamos e buscamos com um diferencial único, um olhar muito apurado, é alto design”, destaca.
A próxima edição já está programada para janeiro de 2026, em São Paulo, e com certeza Vera estará lá. O trabalho desenvolvido no Salão de Gramado também traz o requinte contemporâneo aliado à busca pela identidade de cada cliente. “São espaços inspiradores”, diz.
Vera relata que todo dia se reconstrói. Escolhe viver com felicidade. “Passei por muitas coisas difíceis e ruins, mas sempre busco sorrir. Há vida e muita vida bonita após a tristeza e busco levar essa mensagem”, defende.
Hoje Juliano vive em Minas Gerais. Também é empreendedor. “Ele diz que não quis ficar comigo na loja porque sou ousada demais e a conta sempre chega, os boletos vencem”, sorri ao contar que hoje não tem medo de investir, traçar novas estratégias e planos de negócios.
No catálogo da vida, não há mais nenhuma crença que limite a vontade de desbravar. “Só não vale ficar parada, se vitimizando, isso realmente não combina comigo”, conta.
Hoje o trauma está superado, não a saudade da filha que é presença diária.
Voltou a fazer as pazes com a natureza e realizou até mesmo um rapel sobre uma cachoeira. Também, em 2025, conquistou a cidadania italiana. Não pretende ir embora de Sorriso. Só tomou para si a realização de alguns sonhos interrompidos da filha.
“Minha filha tinha uma ligação muito grande com a Itália, então fiz isso por ela, tento realizar algumas cosias que ela deixou para traz e sinto que ela está em paz e comigo e o irmão de onde estiver”.
Vera é resiliente. Supera desafios diários entre um afago e outro no cão Joaquim, seu fiel escudeiro. Pelo telefone e nas viagens de um estado a outro, supera a saudade de Juliano.
“Aprendi a ser feliz, a agradecer e vencer um leão por dia”, ressalta a empresária que fez de Sorriso seu lar. “Aqui é a minha casa”, reforça. “Há um tempo vi o pé de manga em que comemorei meus 25 anos, talvez volte lá para um novo aniversário para lembrar àquela garotinha que tudo deu certo”, diz.
E que como uma fênix todos os dias, ela escolhe se reinventar.
1984
Família Zanella
Visionários, os Zanella foram pioneiros de dois municípios
Ademir e Clarice Zanella foram protagonistas de uma trajetória marcada pelo espírito pioneiro e pela coragem de sonhar. Jovens, aceitaram duas propostas ousadas: estabelecer-se em regiões ainda em processo de formação, contribuindo diretamente para a consolidação da então Distrito de Sorriso e, posteriormente, para a criação do Distrito de Boa Esperança, hoje município de Boa Esperança do Norte.
Clarice destacou-se como a primeira professora, abrindo as portas da educação para as crianças do antigo Distrito de Sorriso e lançando as bases do ensino na localidade. Ao lado do marido, não mediu esforços em prol do desenvolvimento comunitário: implantaram diferentes atividades comerciais e engajaram-se na luta por melhores condições de infraestrutura. Unidos por uma mesma visão de futuro, Ademir e Clarice construíram uma história pautada na inovação, sem jamais perder o vínculo com suas origens.
O moinho é um engenho destinado à moagem de cereais, como trigo e milho, geralmente composto por duas mós: uma fixa e outra móvel, responsável pelo movimento. Muito comum no passado, sobretudo nas pequenas comunidades do interior, onde predominava a agricultura de subsistência, o moinho constituía um ponto de referência coletiva, local onde o trigo se transformava em farinha e o milho em alimento básico, como a polenta.
Foi nesse ambiente que nasceu Vergílio Zanella. O menino que, anos mais tarde, seria pai de Ledilho Martins Zollet Zanella, seguiu a tradição do trabalho braçal herdada da família. Ledilho fez seus dias na forja: era ferreiro, um artesão essencial, responsável por moldar o metal e produzir ferramentas, utensílios, peças agrícolas e carroças. Sua atuação representava uma das formas mais antigas da metalurgia, sendo indispensável à vida econômica e social de vilas e pequenas cidades.
Ainda jovem, Ledilho casou-se com Irene Lodi Zanella e, em 15 de agosto de 1960, tornou-se pai de Ademir Zanella. Com o filho ainda pequeno, o casal mudou-se para a comunidade de Nova Santa Ana, no Paraná. Ali, deram continuidade à vida simples, marcada pela lida na roça e pelo pequeno comércio. O cultivo dos grãos assegurava a subsistência da família, enquanto o excedente era comercializado na própria região, fortalecendo os laços econômicos e comunitários locais.
Aos 16 anos, Ademir foi enviado para o município de São João com o objetivo de dar continuidade aos estudos, cursar o então 2.º grau e ingressar no mercado de trabalho. Rapidamente alcançou essas metas e, impulsionado pela curiosidade e pelo desejo de crescimento, foi além do que inicialmente se esperava.
Em 1980, durante um encontro de Missões Populares promovido pela Igreja Matriz de São João, Ademir inscreveu-se em um curso especial voltado para jovens. Foi nesse contexto que conheceu Clarice de Fátima Piovesan Basso, por quem se encantou. A partir desse encontro, seus pensamentos passaram a se dividir entre o sonho de iniciar um relacionamento com a jovem e o desejo de desbravar novos horizontes, especialmente o Mato Grosso — região que um de seus professores do 2.º grau costumava apontar como terra de grandes oportunidades, sobretudo para aqueles dispostos a enfrentar desafios e o trabalho árduo.
Movido pelo entusiasmo, Ademir chegou a convidar um familiar para juntos, conhecerem esse novo território. O convite, porém, foi recusado, e, sozinho, ele acabou adiando os planos de mudança. Permaneceu, então, em São João, onde continuou atuando no comércio local, trabalhando como vendedor de móveis em uma loja de eletrodomésticos.
Ademir, enfim, tomou coragem e pediu Clarice, filha de João Fortunato Basso e de Inaira Piovesan Basso, em namoro. O casamento ocorreu em 24 de outubro de 1981, quando Ademir tinha 21 anos e Clarice, 22. No ano seguinte, em 1982, tornaram-se pais de Marlon. O antigo sonho de conhecer o Mato Grosso permanecia adormecido, enquanto a vida, por si mesma, assumia novos rumos e responsabilidades.
Contudo, um novo capítulo estava prestes a ser escrito. Em uma manhã de 1984, Ademir foi surpreendido pela presença do sogro na varanda de casa, logo cedo, com semblante sério. Imediatamente, pensou consigo: “Será que veio exigir a filha de volta? Será que não estou cuidando bem dela?”. Para sua surpresa, não se tratava disso. Ao contrário, a proposta que ouviria definiria o destino do casal e marcaria profundamente suas trajetórias.
João Fortunato Basso, conhecido como Jango, olhou para o genro e anunciou: “Vendi a fazenda. Estou indo para o Mato Grosso. Querem ir junto?”. Sem hesitar, e sem sequer consultar a esposa, Ademir respondeu prontamente: “Eu é que quero”. Diante da decisão, Jango orientou que o genro pedisse demissão imediatamente. Ademir seguiu o conselho.
Pouco tempo depois, organizou-se uma expedição para que sogro e genro conhecessem a nova região. Percorreram diversas localidades e ouviram falar de Sorriso. Jango decidiu que iriam até lá. O impacto foi positivo. Retornaram ao Paraná entusiasmados e, para confirmar as expectativas, realizaram uma segunda viagem, desta vez acompanhados por dois filhos de Jango. A escolha foi definitiva.
A terra adquirida localizava-se na Fazenda Gleba Gaúcha, em Alto Ronuro, além do território que hoje corresponde ao município de Boa Esperança do Norte — à época, uma extensa área de mata pertencente ao então Distrito de Sorriso. A mudança ocorreu em fevereiro de 1984, marcando o início de uma nova etapa na vida da família.
“A terra era muito boa. Uma boa escolha. Uma área muito grande, porém, distante de Sorriso, onde a vila ainda se iniciava”, recorda Ademir. Os sogros e cunhados mudaram-se para a propriedade e deram início ao processo de abertura da área. Ademir também integrou essa força-tarefa. “Comprar foi o primeiro passo e, com certeza, a parte mais fácil”, comenta, com um leve sorriso. “Abrir a área, fazer as leiras, catar as raízes… isso, sim, era muito trabalhoso”, relembra.
Segundo Ademir, a família contava com um trator, o que facilitava parcialmente o serviço. Mesmo assim, após a derrubada e limpeza, ainda era necessário aplicar inúmeras cargas de calcário para a correção do solo e, só então, iniciar o plantio. A terra precisava ser cuidadosamente preparada para receber a semente e garantir a produção.
Nesse período, Ademir ia e vinha, pois a família morava na Distrito de Sorriso. Pouco tempo após a chegada, Clarice descobriu que estava grávida. O segundo filho do casal foi aguardado com grande expectativa e afeto. Em 7 de julho de 1985, nasceu Marcos Antônio. No momento do parto, porém, os pais foram surpreendidos por um diagnóstico difícil: Marcos nasceu com hidrocefalia. Iniciava-se, ali, uma dolorosa e intensa luta pela vida.
O bebê foi operado em Cuiabá, mas, diante da gravidade do quadro, necessitava de atendimento em um centro clínico mais especializado. Com o apoio da comunidade que se formava e dos primeiros clubes de serviço, os pais conseguiram contato com uma equipe médica em Curitiba e mobilizar recursos para o tratamento. Marcos seria levado para lá. No entanto, em 28 de novembro de 1985, no momento em que a família se preparava para embarcar no avião, o pequeno não resistiu.
Desolados, retornaram para Sorriso, onde Marcos foi sepultado. “É uma dor que nunca se supera; aprende-se a conviver com ela”, dizem os pais, emocionados. “Não há um único dia em que não nos lembremos dele, em que não rezemos por ele. Foi um bebê muito esperado, muito amado. Devolvemos a Deus o que Ele nos deu e conservamos esse amor no coração.” Diante de toda a experiência, o casal chegou a ser aconselhado a não tentar uma nova gravidez.
Clarice precisava seguir em frente. Por si mesma, por Ademir, por Marlon. Não foi fácil, mas era necessário. Como forma de reconstruir a rotina e encontrar forças no cotidiano, em 1986 assumiu uma turma como professora na Escola Estadual Mário Spinelli. A docência já fazia parte de sua trajetória desde o Paraná. Havia estudado durante toda a vida na escola das irmãs, em São João, onde concluiu o magistério e, aos 17 anos, iniciou a carreira profissional lecionando para uma turma do ensino primário. Dar aulas sempre foi mais do que uma profissão: era uma vocação.
Marlon ainda era muito pequeno quando, após tornar-se mãe, Clarice retornou à sala de aula, ainda em São João. Ele tinha poucos meses de vida quando, como ela própria recorda, “passou a integrar o grupo escolar”. “Havia uma moça que cuidava do Marlon e, na hora do intervalo, eu aproveitava para amamentá-lo. Na escola ele dormia em um bercinho improvisado com cobertores; desde bebê me acompanhava no serviço”, relembra a mãe.
Sempre atenta à educação do filho, ainda em 1986 Clarice o matriculou no jardim de infância do Centro Educacional São José, reafirmando, na prática, a centralidade que o ensino ocupava em sua vida pessoal e profissional.
Parte inferior do formulário
Parte superior do formulário
Parte inferior do formulário
No final de 1986, conhecendo o trabalho de Clarice como professora e ciente de que parte de sua família residia em Alto Ronuro, Alberto Francio, um dos sócios da Colonizadora Sorriso, procurou-a com uma proposta decisiva: pretendia fundar uma vila na região que daria origem a Boa Esperança e necessitava de uma professora para iniciar a escola. Considerava Clarice a pessoa ideal para assumir essa missão e estruturar os primeiros passos da educação local.
Clarice aguardou a chegada de Ademir e compartilhou a proposta. O casal refletiu e concluiu que aquele poderia ser um bom caminho. “Não mudava muito”, recorda Clarice. “Em Sorriso ainda não havia energia elétrica, as ruas eram só poeira na estiagem e lama no período das chuvas. Pelo menos, em Boa Esperança, ficaríamos mais próximos da minha família.”
Após a chegada ao Mato Grosso, em 1984, a família permaneceu cerca de três anos em Sorriso e, em 1987, efetivou a mudança para Boa Esperança. Foi nesse novo cenário que Marlon, acompanhando diariamente a rotina da mãe em sala de aula, acabou sendo alfabetizado precocemente, aos cinco anos de idade. Do jardim de infância, seguiu diretamente para o 1.º ano, dando início à sua trajetória escolar de forma antecipada e singular.
Em Boa Esperança
Em Boa Esperança, em 1987, Clarice iniciou o ano como a primeira professora da localidade, então uma extensão de uma escola de Sorriso. O espaço era pequeno e funcionava no mesmo local onde hoje se encontra a Escola Municipal Boa Esperança. Em uma pequena sala, com apenas seis crianças, Clarice deu início ao trabalho em uma turma multisseriada. “Tenho muito orgulho em dizer que minha mãe foi a primeira professora de Boa Esperança”, relata Marlon.
No fim de 1987, Clarice e Ademir continuaram inovando e abriram o seu comércio de Boa Esperança: uma sorveteria com cancha de bocha. Na cancha, segundo Clarice, eram frequentes algumas rusgas. Para evitar conflitos mais graves, estabeleceram uma regra: todos que chegassem armados deveriam entregar o revólver, que ficava guardado embaixo do balcão. “Nunca contei, mas o balcão enchia. Todos eram acostumados a andar armados. Havia desavenças, mas dentro do nosso estabelecimento se respeitavam”, recorda.
O movimento era intenso. Clarice deixou a escola e passou a se dedicar ao comércio. Cozinhava, preparava muita Matrinchã, bistecas bovinas e suínas, além de pão caseiro, para atender a população que chegava para conhecer a nova localidade. “Não havia outro lugar; os compradores acabavam parando ali e, por necessidade, acabamos abrindo um restaurante”, frisa. Os produtos, principalmente o sorvete, eram armazenados em uma geladeira a gás.
Contrariando as recomendações médicas, Clarice engravidou. A gestação foi marcada pela constante apreensão em relação ao momento do parto, mas também profundamente sustentada pela fé. Diante das incertezas, os pais fizeram uma promessa: levar a criança que nasceria ao Santuário de Nossa Senhora Aparecida, em Aparecida, São Paulo.
A esperança e a gratidão tomaram conta do casal quando, em abril de 1988, nasceu Maicon, o filho caçula, sem apresentar nenhum problema de saúde. O parto foi realizado no Hospital do Dr Monarin, em Sorriso. No entanto, chegar até o hospital não foi tarefa fácil. Com a estrada tomada pela lama, a camionete atolou. Clarice precisou ser carregada nos braços, passando entre carretas, para conseguir sair do atoleiro. Caminhoneiros que transitavam pelo local se uniram e, solidariamente, tornaram-se os heróis daquele momento: desatolaram a camionete e a sustentaram erguida por vários metros, até retirá-la da lama.
Três dias após o nascimento de Maicon, mãe e filho receberam alta. Ao chegarem a Boa Esperança, Ademir logo percebeu que havia muitas pessoas esperando para almoçar. Clarice mal havia colocado o bebê no berço quando já voltou à rotina. “Arrumei ele e corri para o fogão; o Ademir foi me ajudando, picando carne e legumes, eu fui fritando e ele servindo. Naquele momento, já voltei à rotina de antes do Maicon nascer. Minha sorte é que sempre tive uma saúde de ferro”, recorda Clarice.
Com um olho nos filhos e outro nas panelas, Clarice seguiu conciliando maternidade e trabalho. Nesse mesmo período, os pais de Ademir, Ledilho e Irene, mudaram-se do Paraná para o Mato Grosso, assim como seus demais irmãos. Com a chegada da família, a cancha de bocha e a sorveteria foram vendidas para Ledilho e Irene, marcando uma nova etapa na trajetória familiar.
Em 1990, movidos pela necessidade — companheira constante ao longo de toda a trajetória —, o casal Basso Zanella abriu um hotel em Boa Esperança. O ponto foi alugado da Colonizadora.
Nesse mesmo ano, diante das dificuldades no cultivo da terra, seu Jango e dona Inaira decidiram vender a Fazenda Gleba Gaúcha, local que permanece vivo na memória dos netos, repleto de lembranças de uma infância feliz. O casal mudaria para Sorriso, município recém-emancipado em 1986.
Ademir, no entanto, filho de ferreiros e profundamente ligado à terra, fez um pedido ao sogro: “Pedi que deixassem um pedacinho para nós”. O pedido foi prontamente atendido. “Sozinho, com tanta coisa, senti na pele como era difícil continuar desbravando”, confessa. Ainda assim, não desistiu. Agora pai de dois filhos pequenos, seguiu firme.
Ao contrário de recuar, ampliou ainda mais suas frentes de trabalho. Além da lavoura e das demais atividades que já exercia, em 1992 o casal abriu o primeiro bazar de Boa Esperança, que no ano seguinte, em 1993, foi transformado em supermercado. No ramo, atuaram por 25 anos; somados a outras iniciativas comerciais, foram 35 anos dedicados ao comércio, consolidando uma trajetória marcada pelo empreendedorismo e pela persistência.
“Foi uma luta muito grande. Não tinha nada. Demos o pontapé inicial em muita coisa em Boa Esperança. Para tudo houve um preço”, analisa Clarice. Para implantar o mercado, por exemplo, enfrentaram inúmeras dificuldades, especialmente pela falta de abastecimento da vila com produtos básicos. Ademir precisava se deslocar até Sorriso, onde carregava a camionete, e então retornava.
“Não havia energia elétrica; os geradores eram desligados às nove horas da noite. Desde pequeno, eu via o esforço dos meus pais para não perder as mercadorias perecíveis”, recorda Marlon.
Diante das constantes ausências do marido — fosse para buscar mercadorias em Sorriso ou Cuiabá, fosse na lida com a abertura da fazenda —, Clarice assumiu a linha de frente. Passou a administrar o mercado, elaborar as listas de compras, negociar com fornecedores, buscar melhores preços e avaliar o que era viável ou não para o comércio.
Do trabalho incansável e da força de vontade de Clarice veio grande parte do crescimento da família. A matriarca destaca que o Supermercado Zanella se tornou uma empresa de referência no então Distrito de Boa Esperança. Por meio do comércio, estruturaram a vida familiar, realizaram sonhos e garantiram os estudos dos filhos, consolidando um legado de trabalho, perseverança e empreendedorismo.
Ademir faz questão de ressaltar que sua vinda para Sorriso foi possível graças ao apoio dos sogros. “Tenho uma gratidão imensa por tudo o que os dois fizeram por mim, pela Clarice, pelos guris”, afirma. Já do lado dos Zanella, foi o próprio Ademir quem serviu de inspiração. Ainda no início da década de 1990, seu Ledilho e dona Irene mudaram-se para Sorriso, assim como os outros seis irmãos de Ademir. “Aos poucos, fomos nos ajudando e nos instalando”, recorda Clarice.
Como pioneiros, engajaram-se na luta por melhorias para a região. A instalação da energia elétrica, a construção de pontes e a abertura de estradas eram pautas constantes nas reuniões e conversas da comunidade. Também batalharam pela implantação de diversos serviços públicos no distrito, pela pavimentação das vias e participaram ativamente da idealização da MT-140, estrada que se tornaria fundamental para o desenvolvimento local.
“Antes do asfalto, eram horas e horas na estrada. Os meninos lembram bem das dificuldades. Teve uma vez que o Maicon caiu e quebrou o ombro; ficou em casa esperando carona para ir ao hospital em Sorriso. Voltou para casa usando colete”, relata Ademir, evidenciando as limitações de acesso e os desafios enfrentados pelas famílias naquele período.
Ademir e Clarice sempre atribuíram grande importância à educação dos filhos. Aos 15 anos, Marlon foi enviado para estudar em Cuiabá. Tendo iniciado a vida escolar muito cedo, ingressou, ainda nessa idade, no curso de Direito da Universidade de Cuiabá (Unic). “Com 21 anos, peguei minha carteira da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). A ideia era ficar em Sorriso, mas voltei para Boa Esperança e comecei a perceber, e a falar para o meu pai: precisamos de uma estrutura mínima aqui”, recorda.
Em 2009, empenhado na busca por melhores condições para o então distrito, Marlon tornou-se empreendedor ao lado de Simone Royer, com quem teve as filhas Isabele e Isadora Rover Zanella. Paralelamente, assumiu a função de assessor adjunto da subprefeitura do Distrito de Boa Esperança. “Eu organizava de carnaval a velório; fazia o que era preciso”, relata. Nesse período, passou a vivenciar, de forma ainda mais direta, a carência de infraestrutura: a ausência de asfalto, de posto de saúde e de serviços básicos. A cada dia, ampliava-se a lista de reivindicações para o distrito.
Quando percebeu, estava lançado como candidato a vereador. Pioneiro, assim como os pais, tornou-se o primeiro vereador eleito por Boa Esperança, obtendo a maioria dos votos do distrito. A expressiva votação em Marlon abriu caminho para que outros representantes locais também conquistassem posições como suplentes. Ele assumiu a vaga na Câmara Municipal em 2012.
“Lembro de acompanhar a apuração pela Rádio Sorriso e, conforme iam anunciando os votos, o locutor perguntou: ‘quem é esse tal de Marlon Zanella que nunca ouvi falar?’. No fim da apuração, eu e minha família fomos surpreendidos com 802 votos”, relembra.
A partir de então, o jovem intensificou sua atuação em defesa do distrito, desempenhando papel fundamental na consolidação de serviços públicos, na pavimentação das primeiras ruas e na ampliação do conforto para os moradores. A eleição de um vereador alterou significativamente os rumos de Boa Esperança. Com Marlon no Legislativo municipal, o nome do distrito passou a figurar de forma constante nas sessões da Câmara. Suas necessidades, assim como suas conquistas, passaram a ter voz e representação.
Ter alguém no parlamento significou mais do que avanços em infraestrutura: representou presença política, articulação e luta permanente em favor da comunidade. Foi uma porta aberta para a implementação de melhorias nas áreas da saúde, obras, serviços e estradas, além da aprovação de leis e projetos que beneficiaram o então distrito — hoje município — cuja busca por reconhecimento e autonomia sempre esteve no cerne da trajetória e das lutas da família Zanella.
Eleito vereador por Boa Esperança, Marlon foi reeleito pela população do distrito — e também por outros sorrisenses — por mais duas vezes, encerrando seu último mandato em 31 de dezembro de 2024. Ao longo de sua trajetória política, assumiu ainda as funções de secretário de Governo e de secretário de Agricultura Familiar e Segurança Alimentar de Sorriso.
“Vejo tudo na vida como missão. Alguns têm a missão de abrir uma terra, outros de cuidar da saúde. Eu tive a missão de legislar em nome da minha terra e sou muito grato a todos que depositaram essa missão tão especial em minhas mãos. Boa Esperança depositou esperança e confiança em mim. Hoje, esse ciclo se encerrou e demos início a um novo ciclo”, reflete.
Maicon, por sua vez, aos 14 anos, também se mudou para Cuiabá para estudar, mas retornou aos 17, quando iniciou o curso de Administração. Foi em um baile de Páscoa, em 2005, no salão comunitário de Boa Esperança, que notou uma jovem diferente no meio do salão. Tratava-se de Cristiana Inês Klein, natural de Marechal Cândido Rondon, no Paraná.
Cristiana havia conhecido Boa Esperança em 2004, quando, acompanhada de uma irmã, veio visitar duas irmãs que já moravam no Mato Grosso. Encantada com o lugar, quis permanecer, mas os pais não permitiram. Obediente, voltou para Curitiba, onde passou a morar com a irmã que a acompanhara na viagem. A semente, porém, já estava plantada.
No ano seguinte, em 2005, ao saber da abertura de concurso para o Banco do Brasil, inscreveu-se para o estado de Mato Grosso. Avisou a irmã e viajou novamente para Boa Esperança. Faria a prova em Sinop, em um domingo pela manhã, mas, no sábado, uma forte chuva impossibilitou o deslocamento durante a madrugada. “Pensei: já que perdi o concurso, pelo menos aproveito o baile”, relembra.
Foi assim que, aos 17 anos, Maicon e Cristiana tiveram seus caminhos entrelaçados. Conheceram-se naquela noite, iniciaram o namoro e, mais tarde, se casaram. “Sempre digo que meus sogros são meus segundos pais, terminaram de me criar”, brinca Maicon. Pouco tempo depois, Cristiana passou a trabalhar no supermercado da família, ao lado da sogra, integrando-se à rotina e à história dos Zanella.
“Foi o destino”, sorri Maicon. O jovem faz questão de ressaltar que Boa Esperança do Norte — município mais novo do Brasil desde 1.º de janeiro de 2025 — é o seu lar. “A história da minha família está ligada a essa terra: Sorriso, Boa Esperança. Tive uma infância intensa, com muita liberdade, marcada pelo trabalho no mercado e pelas partidas de bets na rua, e quero isso para os meus filhos”, confessa o atual proprietário do Atacado Zanella. O mesmo sentimento é compartilhado pela esposa, Cristiana, que não se imagina vivendo em outro lugar. “Hoje temos tudo o que precisamos em Boa Esperança”, completa.
Maicon destaca ainda que, desde 2015, está à frente de um armazém de grãos, cujo principal mercado consumidor é a China. “O armazém é mérito do Maicon; ele se dedicou e trabalhou muito para colocá-lo de pé”, frisa a mãe, com orgulho.
“Atuamos na comercialização de pulses, como gergelim, feijão e pipoca. Nunca imaginei que um dia negociaria com o outro lado do mundo, e justamente com esses produtos. Mas o mercado vai nos moldando, as coisas vão acontecendo naturalmente e os caminhos vão se abrindo”, explica o caçula dos Zanella, hoje responsável pelos negócios de exportação da família.
Cristiana e Maicon cursaram Administração em Boa Esperança. Atualmente, ele se dedica ao mercado de pulses e ao armazém de grãos, enquanto ela está à frente do Atacado Zanella, dando continuidade à trajetória empreendedora iniciada pelos pais e consolidando a presença da família no desenvolvimento econômico do município.
Com os filhos e a nora, Ademir e Clarice deram continuidade à ampliação dos serviços da família. Chegaram a implantar um abatedouro, com sistema próprio de engorda de até 500 bois, destinado ao abastecimento do mercado. No entanto, por determinação da Vigilância Sanitária, precisaram encerrar as atividades do abatedouro e estabelecer parcerias com grandes fornecedores — que, com a estrada já asfaltada, passaram a realizar a entrega regular da carne.
Em parceria com o primogênito, Marlon, o casal também montou uma indústria de laticínios para beneficiamento de leite, mas o empreendimento foi interrompido devido à escassez de fornecedores. Tiveram ainda uma distribuidora de gás de cozinha. “Abríamos os empreendimentos conforme a necessidade de que vivíamos no distrito”, reforça Ademir.
Em 2019, Maicon alugou o mercado dos pais e adquiriu o estoque. Permaneceu por seis anos no prédio alugado, até que, ao lado de Cristiana, passou a atuar em sede própria, consolidando uma nova fase do negócio.
Já em 2020, Marlon, o filho mais velho, firmou uma nova sociedade com os pais e deu início à Construtora e Incorporadora Zanella. O grupo já entregou um edifício, o Lago Sul, localizado na Avenida Blumenau, no bairro Rota do Sol. A segunda torre encontra-se em fase final de construção, e há ainda outro projeto em andamento, com lançamento previsto para o próximo ano.
Atualmente, Marlon é o administrador da construtora e atua diretamente com os pais e com a filha Isabele. Aos 18 anos, a jovem é acadêmica de Direito e trabalha na empresa ao lado do pai. “É uma forma de aprender e honrar a história dos meus pais, dos meus avós e das minhas bisavós, que sempre foi pautada em muito trabalho”, destaca, reafirmando a continuidade do legado familiar.
“Tenho muito orgulho da história da minha família e um amor imenso por cada um deles: meu pai, minha mãe, meus avós, meus tios, minha irmã”, completa Isabele, emocionando a avó, que relembra com carinho que a neta esteve sob seus cuidados desde o primeiro mês de vida. “A mãe dela precisava trabalhar e eu fiz o cantinho dela no mercado”, recorda Clarice.
“O afeto é recíproco. Eles são únicos. Quando eu era criança, pedi uma boneca reborn e meu vô falou: ‘te dou um cavalo, você vai ter um bom amigo e aprender a cuidar de uma vida’”, conta Isabele. O avô lhe deu Lambari, que mais tarde foi comercializado. Atualmente, a jovem é dona da égua Minissaia. Clarice também tem muita gratidão a Simone Royer, mãe de suas netas, com quem Marlon foi casado por 15 anos e é pai das filhas Isabele e Isadora.
A irmã mais nova, Isadora, de 10 anos, também recebe o carinho e os cuidados da família. “Cada uma tem seu próprio cavalo”, diz Ademir, orgulhoso. “A Isadora é muito comunicativa, não para quieta”, completa a avó, sorrindo.
Para o pai, Marlon, Isabele e Isadora representam a continuidade de um legado construído sobre luta, trabalho, união e amor. “Toda a minha família se envolve na criação delas, e eu sou muito grato por isso. Nessa caminhada de orientar e cuidar das meninas, hoje, além da minha família, conto também com o apoio do Igor Albuquerque, parceiro na vida e nos empreendimentos”, afirma. E conclui, emocionado: “Minhas filhas são presentes de Deus na minha vida”.
Gratidão é, inclusive, uma das palavras-chave na trajetória da família Zanella. “Sou profundamente grato à coragem e ao apoio dos meus sogros, que abriram o caminho e nos guiaram até aqui. Tudo o que construímos foi fruto de muita luta e trabalho, mas foram eles que abriram as portas para que isso fosse possível”, reflete Ademir.
Clarice recorda que ambos faleceram em 2020, aos 93 anos. “A mãe partiu primeiro e, três meses depois, o pai. Foram juntos, como viveram: com muito amor, guiando-nos sempre e deixando esse exemplo como legado”, completa. O pai de Ademir, seu Ledilho, também já é falecido; sua mãe, dona Irene, reside atualmente no município de Boa Esperança do Norte.
Para Clarice, Ademir e Marlon, Sorriso foi o primeiro lar ao chegarem ao Mato Grosso. Com a mudança para Boa Esperança, uma nova e bela história se abriu nos caminhos da família. O retorno a Sorriso, anos depois, configurou-se como uma espécie de volta às origens, um reencontro com a própria casa.
“Sorriso é o lugar onde a gente recarrega as energias e encontra motivação para continuar. Entendo que este é o espaço da nossa missão, dos ciclos que se iniciam, se encerram e voltam a se renovar, construindo novas histórias no legado da minha família. Seja em Sorriso ou em Boa Esperança do Norte, se estivermos todos juntos, estaremos em casa”, finaliza Marlon.
1984
Therezinha Barbieri e Aldo Benjamin Andreolla
Guido A casa das cinco mulheres e do seu Aldo Andreolla
Uma catarinense e um gaúcho. Cada um nascido de um lado da “barranca do Rio Uruguai”, uniram suas vidas e entrelaçaram seus destinos. Esses são Therezinha Barbieri e Aldo Benjamin Andreolla. Pioneiros, agricultores, empresários, pais de quatro mulheres fortes que escreveram suas próprias histórias inspiradas na força de trabalho, amor e união dos pais. Um casal que chegou em Sorriso em 1984, superou dificuldades e criou raízes às margens do Rio Teles Pires.
Comunidade de Sede Brum, município de Concórdia, no oeste de Santa Catarina, bem na “barranca do Rio Uruguai”. Foi nesse lugar que nasceu Therezinha Barbieri em 26 de outubro de 1946.
Filha da dona Oliva Zago Barbieri e Guido Pedro Barbieri, Therezinha foi criada auxiliando a mãe no trabalho. Dona Oliva era proprietária de um comércio de secos e molhados, onde vendia uma grande variedade de produtos. Ali se encontravam desde alimentos não perecíveis — os chamados “secos” — até bebidas, conservas e itens refrigerados, conhecidos como “molhados”.
Na prática, era a versão antiga do que hoje conhecemos como minimercados, um ponto de abastecimento essencial para o cotidiano da comunidade.
Uma das primeiras lembranças de Therezinha inclui um banquinho que usava para ficar na altura do balcão e atender a clientela. Naquela época tudo era vendido a peso e bem embrulhado em papel kraft, caracterizado pela cor marrom, um papel de alta resistência e durabilidade.
As pequenas mãos da menina eram habilidosas ao embrulhar produtos como café, sal, arroz, feijão e farinha, formando pacotes firmes e bem-feitos. “Se não dominasse a técnica correta, o papel rasgava; era preciso cuidado para fazer a dobra bem-feita”, recorda.
Seu Guido, por sua vez, preferia os trabalhos ao redor da casa, sempre ocupado em limpar, plantar e colher. “Éramos uma família muito grande”, lembra a filha ao contar que, quando se casaram, dona Oliva e Guido eram ambos viúvos. Guido já tinha dois filhos, e Oliva, um. Juntos, tiveram mais seis, formando ao todo uma família de nove filhos.
A rotina dos Zago Barbieri era intensa. Com os filhos mais velhos já casados, eram os mais novos que auxiliavam os pais em tudo. E todo mundo colaborava. Ainda sobrava um tempinho para brincar e estudar. Therezinha cursou até a 4.ª série na sede do município, em Concórdia.
Era aluna do Colégio São José, cuja administração era mantida pelas freiras. Em 1958, quando Therezinha estava com 12 anos de idade a vida mudou repentinamente. Seu Guido faleceu.
Sozinha, com as crianças menores, dona Oliva ainda ficou por mais dois anos com o comércio em Sede Brum. Em 1960, ela decidiu mudar para a cidade. A filha, estava com 14 anos.
Foi ainda muito jovem que Therezinha conheceu o amor de toda a sua vida. Logo após a mudança da família para a cidade, passaram a receber com frequência as visitas de Remílio Andreolla, namorado de Ilba, uma das irmãs de Therezinha. Com o tempo, Remílio começou a vir acompanhado de seu irmão, Aldo Benjamin Andreolla.
Foi então que, entre uma visita e outra, os olhares de Therezinha e Aldo se cruzaram, dando início a uma história que marcaria suas vidas.
Aldo, que agora tinha olhos enamorados por Therezinha, havia nascido no outro lado da “barranca do Rio Uruguai”, lembra a esposa. O jovem gaúcho era natural da Linha Lajeado Paca, interior de Erechim. O filho do casal de agricultores Pedro e Tereza Andreolla, nasceu em 04 de junho de 1939.
Na época em que conheceu a futura esposa, Aldo trabalhava como fotógrafo de família e percorria os três estados da região Sul oferecendo seus serviços. Ele fotografava as famílias e, a partir dessas imagens, produzia quadros pintados a óleo que, mais tarde, eram exibidos com orgulho nas salas de visita de muitos lares brasileiros.
Era um trabalho minucioso e delicado, que exigia concentração, paciência e grande dedicação.
Com a benção de dona Oliva, Therezinha namorou com Aldo por sete anos. Os jovens se casaram em 17 de dezembro de 1967 e imediatamente trocaram de endereço: o casal foi residir em Medianeira no Paraná.
Na época do casamento, Therezinha tinha 21 anos, enquanto Aldo contava 28. Já vivendo no Paraná, ele passou a trabalhar como caminhoneiro.
Durante três anos, Therezinha acompanhou o marido nas viagens, cruzando o Brasil de Norte a Sul e de Sul a Norte. Nessas jornadas, também chegou a conhecer o Paraguai.
“Levávamos uma pequena cozinha no caminhão, onde eu preparava todas as nossas refeições. Parávamos em postos para tomar banho e descansar. Naquela época, as estradas eram menos perigosas”, recorda.
No terceiro ano de casamento, Therezinha ficou grávida. Gestante, ela parou de acompanhar o marido no caminhão e passou a preparar a casa e o enxoval para receber o bebê. Em 1970, em Medianeira, nasceu a primeira filha do casal, Andrea. Também em Medianeira nasceu Elizandra, a segunda filha.
Em 1974, Aldo enfrentou um revés na estrada: após sofrer um grave acidente, decidiu vender o caminhão e investir na compra de uma propriedade rural, retornando à agricultura — atividade que marcava suas origens.
A área escolhida ficava em Pitanga, a cerca de 370 quilômetros de Medianeira. Foi para lá que a família se mudou, iniciando uma nova etapa de vida dedicada ao trabalho na lavoura.
“O Aldo era da terra, ele trabalhava na lavoura desde pequeno, foi uma felicidade para ele voltar pra lavoura”, conta a esposa. Foi em Pitanga que nasceu Evandra, a terceira filha do casal. Na nova cidade, Therezinha também se envolveu com a comunidade e iniciou o trabalho como catequista, um trabalho vocacional focado em guiar crianças, jovens e adultos na iniciação à vida cristã e preparação para os sacramentos.
Uma nova cidade, um novo estado – e óleo diesel no pano de passar.
Em Pitanga, Aldo teve contato com corretores que vendiam terras no Mato Grosso. Ele e mais quatro vizinhos viajaram para conhecer as tais terras. O ano era 1984 e Aldo acabou comprando uma área de 1,5 mil hectares, situada no município de Nova Ubiratã.
A mudança se deu dois anos antes de Sorriso virar município. A família também adquiriu uma casa no então Distrito de Sorriso. A casa, ao lado da Praça da Juventude, servia como base para que as meninas ficassem para estudar.
Os pais costumavam vir aos fins de semana. Aldo seguia abrindo a terra e Therezinha era responsável por cozinhar para ele e os colaboradores que auxiliavam o marido na abertura da área e plantio da lavoura.
Na vila, as meninas estudavam na Escola Estadual Mário Spinelli e se “viravam. Elas sempre foram muito responsáveis e dedicadas em tudo o que faziam. Adolescentes, entendiam que eu e o Aldo estávamos fora trabalhado, construindo o futuro delas”, pontua a matriarca.
Para ficar mais tranquila, dona Therezinha contava com o auxílio de uma vizinha que atuava como apoio para as meninas, “uma segunda mãe, muitas vezes fazia até o almoço para elas”, conta.
Assim que chegou à vila, Therezinha logo procurou a equipe da igreja para continuar o trabalho como catequista. “Quando cheguei, eram poucas catequistas aqui, sempre amei esse trabalho”, frisa. “Catequisei muitas crianças”, acrescenta.
Therezinha guarda muitas lembranças desse período. Como a casa da família ficava em frente à praça, da varanda era possível acompanhar todas as apresentações e até os comícios.
“Sentados na área, ouvíamos os discursos — primeiro os que defendiam a emancipação e, depois, os dos dois primeiros candidatos a prefeito”, recorda.
Nosso vizinho, seu Roberto Dal Molin, era o vice-prefeito da chapa do Alcino Manfroi, os primeiros a assumir a administração do município”, recorda. “A Praça era de terra, com poucos atrativos – hoje é cheia de coisas, mas sempre tinha vendedores de picolé, de balas e outras guloseimas”, detalha. O movimento era mais intenso aos fins de semana “.
Quando vinham as rajadas de vento, todo aquele pó e as embalagens de picolé acabavam vindo parar na minha área; era vassoura o tempo todo. Na época de estiagem, a camada de poeira era alta”, lembra Therezinha.
Para amenizar o problema e fazer com que tanto a poeira quanto as embalagens deslizassem com mais facilidade, ela seguiu o conselho de uma vizinha e passou a encharcar o pano de passar com óleo diesel. “Era o jeito”, conta, sorrindo.
Tanto a Praça, quanto as casas, viviam às escuras. A iluminação dependia dos lampiões a gás, os “liquinhos”. A energia era fornecida via gerador e em locais alternados, além de ter horário para ser ligada e desligada.
Therezinha até trouxe na mudança itens, como chuveiro elétrico, geladeira, televisão, máquina de lavar – contudo, todos esses itens essenciais no dia a dia eram decoração da residência na Sorriso de 1984. “Mas era muito bom. Vivíamos muito juntos”, avalia.
Outra dificuldade que precisava ser driblada era em relação à água. A matriarca conta que era comum ficar esperando chegar água. A espera seguia até umas 23 horas, quando a água chegava. “Então eu pegava uma bacia bem grande pra encher”, diz.
A energia era um luxo e os banhos no chuveiro elétrico também. Com o auxílio de um gerador, a família conseguia ligar o chuveiro, antes da energia elétrica abastecer a cidade.
Therezinha lembra que as meninas pegavam a água da bacia e enchiam baldes. “Então uma subia na escada e a outra ficava no pé da escada alcançando o balde cheio para encher a caixa d’água e tomar um banho quente”. A luta das meninas demorou uns dois anos, até a família realizar uma viagem para o Sul. Lá, um dos irmãos de Therezinha era proprietário de uma loja de materiais elétricos e ao ouvir o relato das sobrinhas deu uma bomba elétrica para que a caixa d’água pudesse ser enchida com menos esforço. Foi um verdadeiro alívio para as meninas.
Telefone também não tinha. A família, por sorte morava perto do Posto de Serviço (PS) da Telemat, instalado nas proximidades da Praça. “Íamos cedo marcar o nome e o atendente de plantão passava um horário”. Próximo da hora prevista, quem tinha interesse na ligação, seguia para o OS.
“Era sempre pra dar notícia pros parentes do Sul e receber informações deles também”, relata. E no PS, onde era necessário falar alto para que o interlocutor ouvisse, não havia segredos.
“Não esqueço de um senhor que estava contando para os parentes que a mulher havia desistido de ficar aqui. ‘A mulher me escapou; to sozinho aqui, sem mulher, sem ninguém’. Ele falava alto e todo mundo ouviu, era uma situação triste para ele, mas no fim até ele riu”, lembra ela.
Em 1989, quando Evandra completou 15 anos, uma nova notícia alegrou a casa: Therezinha descobriu que estava grávida pela quarta vez. “Fui ao Fátima, (Hospital e Maternidade), para fazer a primeira consulta pré-natal e o doutor Telles falou ‘mas a senhora esperou as outras ficarem grandes pra ajudar!’.
Eu sorri e contei que foi no susto. Mas foi um susto muito bom. Depois de 15 anos, seríamos pais novamente”, conta. A família deu as boas-vindas à Larissa, a caçula da casa das cinco mulheres e do seu Aldo. A menina nasceu pelas mãos do doutor Edmar Washington de Oliveira Telles no Hospital e Maternidade Nossa Senhora de Fátima.
No ano seguinte, dada a distância entre Sorriso e Ubiratã, Aldo vendeu os 1,5 mil hectares em Ubiratã. Já havia comprado uma área menor, de 200 hectares, em Lucas do Rio Verde, mais próxima de Sorriso. No banco, ele tinha o valor guardado para comprar uma nova área, vizinha à terra que já havia adquirido em Lucas. O negócio já estava acertado na noite de 15 de março de 1990.
Porém, na manhã do dia 16 de março daquele ano, o Brasil amanheceu com a notícia do Plano Collor, um conjunto de medidas econômicas adotado um dia após a posse do então presidente Fernando Collor de Mello.
Com o objetivo de conter a hiperinflação, o plano ficou famoso pelo confisco de cadernetas de poupança e contas correntes superiores a 50 mil cruzados novos por 18 meses. Todo o dinheiro de seu Aldo foi confiscado. “Da noite para o dia perdemos tudo. Só não perdemos a perseverança e a força de vontade de continuar”, diz Therezinha.
Na área adquirida em Lucas, Aldo iniciou o plantio. Ele também desenvolveu um projeto de suinocultura para agregar mais valor à produção. Aldo também prospectava o mercado para novas oportunidades. “O Otaviano Pivetta auxiliou o Aldo nessa época. Foi ele que incentivou a investir em suinocultura.
Depois, em uma outra negociação com o Pivetta, acabamos levantando um valor que nos possibilitou construir duas salas comerciais ao lado de onde hoje fica a Therapêutica (Farmácia). Fomos nos reerguendo”, conta.
Nesse período, Andrea completou 18 anos e saiu de casa para continuar os estudos. A primogênita mudou-se para Medianeira, no Paraná, onde passou a morar com os tios Emílio e Ilba. Durante o dia trabalhava e, no final da tarde, seguia de ônibus até Foz do Iguaçu, onde cursava Letras.
Para facilitar a rotina da filha, Aldo comprou um fusca e o envio ao Paraná. O carro seguiu carregado em um caminhão que transportava madeira para o Sul.
Com três anos do curso de Letras já concluídos, Andrea começou a questionar se realmente desejava seguir a carreira de professora. No fundo, nutria outro sonho: queria ser dona do próprio negócio. Pensava em cursar Farmácia, com a ideia de, no futuro, empreender e construir algo que fosse verdadeiramente seu.
Mas tinha que ser em uma instituição federal. Para se preparar para a maratona de provas, Andrea vendeu o fusca, recebeu o valor em dólar – na época as transações baseadas no valor do dólar eram comuns no Brasil. Mudou para Foz onde dividiu apartamento com a irmã do namorado, Sílvio Borges, e se matriculou em um cursinho pré-vestibular.
Realizadas as provas, Andrea foi aprovada na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e cursou Farmácia em Campo Grande.
Enquanto isso, em Sorriso, Elizandra também já atuava no mercado de trabalho no Banco do Estado de Mato Grosso (Bemat).
O sonho era fazer Contabilidade. Graduação que ela cursou na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) em Cuiabá. Apesar do curso ser em uma instituição pública, havia as despesas com aluguel e alimentação para se manter na capital do Estado e Elizandra continuou trabalhando.
A terceira filha, Evandra, dedicou-se a cursar Educação Física no polo da UFMT, de Sinop. Evandra, assim como as irmãs, também conciliava trabalho e estudos.
“Apesar de todas estudar em instituições públicas, sempre tinha os gastos com livros, materiais e para se manter onde estavam. Tínhamos três meninas estudando bem na época em que nossas finanças estavam retidas pelo governo. O Aldo se virava na lavoura, muitas vezes enfrentando longos períodos de estiagem”, lembra Therezinha.
Para auxiliar com parte das despesas, a matriarca colocou em ação uma velha amiga: uma máquina Singer em que costumava fazer consertos e costurar para a família.
Com olhos atentos preparava a linha superior e a bobina inferior, ajustava a tensão, selecionava o tipo de ponto (reto, ziguezague, decorativo) e sincronizava a ação com o ritmo imposto ao pedal para controlar a velocidade.
Muitas e muitas vezes, o som da Singer ditava o ritmo da casa até às 22 horas. Therezinha passou a ser reconhecida pelo trabalho, fazia os ajustes necessários às peças comercializadas principalmente pelas lojas Lenita e Okasional.
“Às vezes, a pessoa comprava a peça e queria usar no dia seguinte ou iria viajar e precisava da peça e eu ficava até tarde na máquina. Quem me procurava recebia a peça ajustada e eu o valor que auxiliava em casa” reflete sobre a negociação.
Muitas vezes, a roupa comprada de última hora, requeria um pequeno ajuste para uma festa na cidade. Enquanto costurava, ela sentia o toque e a qualidade de cada retalho, pensando em como tornar a peça ainda mais bonita e versátil para a cliente.
Além da máquina, Therezinha passava longas horas na cozinha preparando agnoline - (agnolini em italiano), uma massa recheada tradicional, originária da Itália, ingrediente de sopas e caldos e que fazia sucesso em Sorriso, posto que remetia à origem cultural dos pioneiros. “Quando dava um friozinho eu vendia muito agnoline”, sorri.
Quando estavam em casa as meninas auxiliavam na produção da massa. “Todo mundo se virava. Teve uma vez que a Andrea queria muito um livro e era um livro caro para a faculdade. O Aldo tinha um dinheiro para mandar pintar a casa, ela disse ‘pai, me dá o dinheiro que eu pinto’. Ela pintou, ganhou o dinheiro e comprou o livro. Nenhuma delas nunca teve medo do trabalho”, conta orgulhosa a mãe.
Quando Larissa, a quarta filha, foi estudar, a família já vivia um momento mais confortável; Larissa cursou Farmácia pela UFMT em Barra do Garças. As irmãs já estavam formadas. E a correria de seu Aldo para chegar à lavoura também havia diminuído.
Em 1994/1995, ele vendeu a área em Lucas do Rio Verde e comprou uma área de 140 hectares na Linha Celeste há oito quilômetros do centro de Sorriso. “Ficou mais fácil para ele trabalhar. Tínhamos também uma grande preocupação com ele na BR diariamente”, lembra a esposa.
Andrea se formou. Voltou para Sorriso e em parceria com a mãe abriu a Farmácia Therapêutica, realizando um antigo sonho de gerir o próprio negócio. Era uma sala pequena, 12 m² em que cabiam a área de atendimento, o estoque, laboratório e os sonhos da jovem.
Com o tempo, Sílvio mudou para Sorriso. Ele e Andrea se casaram. Ela comprou a parte da mãe no negócio e Sílvio entrou de sócio nos negócios.
Hoje, o casal gerencia quatro unidades: duas em Sorriso, uma em Lucas e outra em Sinop. São pais de Aldo Eros Andreolla Borges e Raquel Andreolla Borges. Aldo tem 24 anos e cursa Psicologia; Raquel, aos 18, segue os passos da mãe e cursa Farmácia. Ambos estudam no Centro Universitário de Várzea Grande (Univag).
Elizandra cursou Contabilidade pela UFMT no Campus de Cuiabá. Também graduou-se em Direito pela Faculdade de Sorriso (FAIS) e cursou mestrado em Contabilidade Pública pela Fucape Business School , em Minas Gerais. Hoje é servidora pública da Prefeitura de Sorriso. Casada com o médico Ailton Brizante, é mãe de Arthur César e Heitor Augusto Andreolla Brisante. Arthur tem 14 anos e cursa o nono ano do ensino fundamental, anos finais; Heitor aos 11, frequenta o sexto ano.
Evandra também traçou linhas próprias em seu destino. Formada pela UFMT Campus de Sinop em Educação Física, atua como servidora pública do município de Sorriso. Com Marcos Maia, divide a vida e os cuidados com os filhos Gustavo e Eloísa Andreolla Maia.
Gustavo tem 20 anos e cursa o quinto semestre de Medicina na Universidade do Oeste Paulista (Unoeste) em São Paulo e Eloísa, aos 15 anos, cursa o ensino médio.
Larissa, a caçula cursou Farmácia em Barra do Garças, assim como o marido Wagner Freitas Filho, que foi seu colega. Além de gerir uma farmácia em Rondonópolis, os dois dividem os cuidados em relação à Cecília e Celina Andreolla Freitas, suas filhas gêmeas de 7 anos de idade.
As netinhas caçulas de dona Therezinha. “Deus me abençoou com quatro filhas e oito netos, quatro meninos e quatro meninas”, sorri a avó.
Infelizmente, seu Aldo não conheceu todos os netos, não viu a família aumentar criando enredos. Faleceu em 2006, vítima de um enfarto. “Foi um homem que nunca fez corpo mole para o trabalho. Pelo contrário, tinha uma força de trabalho impressionante, uma capacidade de recomeçar, reiniciar “.
Ele sempre dizia que, quando chegasse a sua hora, queria partir sem sofrimento”, recorda a esposa, emocionada. “E foi assim que aconteceu. Ele passou mal e se foi. Encontro consolo nisso. Foi um homem muito bom, e Deus o levou sem dor.”
Ela também lembra do cuidado que ele teve com a família até o fim. “Antes de partir, deixou tudo organizado, pensou em cada uma das filhas. Era um homem caseiro, equilibrado, que gostava de estar em casa, junto da família”, conta.
Até para consolar-se diante da perda inesperada, Therezinha nunca parou quieta. Continuou atuando junto à comunidade e aconselhando as filhas e netos sobre os cursos da vida. Durante 37 anos, Therezinha foi catequista.
Desse tempo, três anos atuou em Pitanga e durante 34 anos dedicou-se a catequizar sorrisenses.
Recentemente, foi homenageada na Câmara de Vereadores do município. “Cheguei lá e foi uma alegria: o Diogo Kriguer, o Rodrigo Materazzi, hoje vereadores, foram meu catequizados”, conta ao constatar que vem atuando junto às gerações de sorrisienses.
Há cinco anos, ela atua como ministra de eucaristia. “Para mim, servir ao Senhor e a minha comunidade é uma alegria indescritível. Creio que todos nós, cada um fazendo sua parte, podemos tornar o mundo melhor”, diz.
De sorriso largo, fala mansa e olhar carinhoso, Therezinha conta que teve o privilégio de ver a cidade nascer e crescer — assim como acompanhou, com o mesmo cuidado, o crescimento das filhas.
“Tenho uma gratidão imensa pela história que vivi: pelo meu marido, pelas minhas filhas, genros e netos, e por esta cidade, cujo crescimento acompanhei de perto”, diz. “Sorriso é bonita, encantadora, assim como as pessoas que a constroem todos os dias.”
Ela encerra lembrando a própria trajetória, marcada pelo trabalho paciente e delicado: por muitos anos, com mãos hábeis, uniu retalhos que ajudaram a embalar e embelezar as comemorações da cidade.
1984
Infraestrutura, Fé e Comunidade: A Consolidação da Vida Urbana em Sorriso
- Foram perfurados os dois primeiros poços artesianos na área verde localizada à esquerda da Avenida Natalino João Brescansin, no sentido da BR. A partir desses poços, a água era distribuída para todas as residências.
- Tem início a colonização do Distrito de Boa Esperança, impulsionada pela venda de lotes voltados à agricultura e pecuária, promovida pela Colonizadora Sorriso Ltda.
- Durante o governo de Júlio Campos, foi inaugurado o asfaltamento de cerca de 330 km da BR-163, entre o Posto Gil e Sinop, realizado pelo programa "Carga Pesada" com recursos federais, financiamento internacional e apoio do embaixador Roberto Campos.
- A família Vigolo implanta a Funerária São Jorge, passando a oferecer os primeiros serviços funerários organizados à comunidade do então distrito de Sorriso.
- Foi criada a Congregação Evangélica Luterana Bom Jesus, que teve como primeiro pastor Valdi Redel.
- Por determinação do governador Júlio Campos, a CEMAT assumiu a distribuição de energia em Sorriso, viabilizada por uma parceria com empresas locais e a comunidade, que doou postes e geradores. A primeira termelétrica foi instalada, fornecendo inicialmente 8 horas de energia diárias, ampliadas depois para 12 horas.
- Em fevereiro, a Igreja Assembleia de Deus inicia suas atividades em Sorriso, na residência de Nelson e Jaira Klimek, com apenas quatro membros. Pouco depois, é construída a primeira igreja, sob a liderança do pastor Bernardo Batista, que permaneceu à frente da instituição até 1991.
- A Polícia Civil do Estado de Mato Grosso passou a contar com cargos efetivos e carreira estruturada após a instituição do concurso público por meio da Lei Estadual nº 4.721/84, que marcou o ingresso formal dos servidores nas carreiras de Delegado, Escrivão e Investigador de Polícia.
- Foi inaugurado em Sorriso o Ginásio de Esportes São Pedro Apóstolo (GESP), importante espaço para a prática esportiva, eventos comunitários e integração social no município.
- Em 24 de agosto, Emílio Brandão cria uma escolinha infantil de futebol com seus filhos e filhos de amigos, iniciativa que perdurou até 1990. Nesse ano, Benedito Furquim (Poli) assume como chefe do Departamento de Esportes da Prefeitura e passa a coordenar as escolinhas esportivas do município.
1984
Dr. Edmar Washington Telles e Consuelo Telles
A história da Família Telles
As páginas a seguir trazem o relato sob a perspectiva de uma família que lutou, sonhou, abdicou de muita coisa para fazer dar certo. Consuelo é mãe, educadora, ciente de seu lugar na sociedade. Uma mulher que cresce nas dificuldades e agiganta com a força da fé. Edmar, o doutor Telles é um homem escolhido pela medicina, tem a missão de salvar outras vidas como a missão da própria vida. Os dois são pais de Washington e Elsa, ambos os filhos seguiram os caminhos do pai, são médicos – e da mãe também, tanto Washington quanto Elsa já estiveram à frente de uma sala de aula. Essa é a história da Família Telles. Vindos do Paraná um jovem casal e seus dois filhos dedicaram seus dias a fazer Sorriso dar certo. Enquanto ela colocava empenho e paixão em ensinar crianças e adolescentes; ele dedicava sua força e conhecimento nas salas que consagraram e fortalecem a história do Hospital e Maternidade Nossa Senhora de Fátima
Consuelo da Graça Olibone é natural de Ibiporã, no Paraná. Nascida em 26 de julho de 1953, ela quase comemora o aniversário junto com aquele com quem construiu uma história de vida e amor, o médico Edmar Washington Oliveira Telles, nascido em Maringá, em 02 de julho de 1952. Mas até essa história iniciar, muita coisa ocorreu antes.
Nascida em Ibiporã, Consuelo mudou ainda criança com os pais, a dona Elsa e o seu Florêncio, para Jussara, também no Paraná. Dessa cidade as lembranças são sempre embaladas pelo cheiro e o sabor da comida servida pela cantina da vó Carmem, em que tanto os pais dela como os tios trabalhavam.
“Perdi minha mãe muito cedo, com 14 anos apenas, então muitas das minhas lembranças são dos conselhos e da convivência com a vó Carmem”, conta.
A avó sempre esteve à frente do forno e fogão. Também criança, Consuelo mudou com os pais mais uma vez, a cidade escolhida foi Cianorte, também no Paraná. E foi lá que ainda criança, ela conheceu o futuro esposo.
“O Edmar nasceu em Maringá, mas o pai dele trabalhava na Companhia de Melhoramentos Norte do Paraná e foi transferido para Cianorte, foi quando nos conhecemos”. Edmar era filho de Washington e dona Jandira. Vizinhos, desde muito jovens, os dois nutriam admiração um pelo outro. “Era um namoro de adolescente, de contemplação”, frisa.
Enquanto cresciam, ambos estudavam. Ela tinha como inspiração uma professora em especial, a mestre Mituko. “Uma japonesinha que era gigante, um amor incrível pela educação”, reforça. E foi Mituko quem inspirou Consuelo a cursar magistério com ênfase em administração escolar.
Jovem e recém-formada, Consuelo pegava o ônibus às 5 horas da manhã, atravessava Cianorte e seguia para o trabalho atuando como professora. “Uma cunhada minha fazia o mesmo trajeto, trabalhávamos no Patrimônio”, lembra.
Por outro lado, Edmar que passou a ser conhecido comoTelles, mudou para Curitiba para correr atrás de seus sonhos. “Ele foi terminar o ensino médio, fez cursinho e foi aprovado para medicina”, relata.
“Creio que foi a medicina que me escolheu. Teve uma época que imaginei ser motorista de caminhão, depois pensei em ser agrônomo. Mas na hora de me inscrever no vestibular me inscrevei para medicina. Foi o único vestibular que prestei na vida e passei. Foi a medicina que me escolheu”, reflete Telles.
Com Telles em Curitiba e Consuelo em Cianorte, o amor florescia regado a cartas e promessas de um futuro juntos. Quando Telles estava no último ano da faculdade, resolveram casar-se.
“Meu pai dizia que devíamos esperar um pouquinho mais, que éramos muito novinhos; ele tinha medo de não dar certo”. E além do receio do pai, Consuelo tinha que pensar em outros detalhes como o vestido, decoração. “Não tinha nada”.
Mas no meio de tudo, surgiu uma amiga que aguardava ser pedida em casamento. “Como o namorado não tomava iniciativa, ela me deu o corte do tecido e a tia do Telles costurou; fiquei com medo de aceitar o tecido, mas no fim percebi que era um medo bobo, ela me deu de coração, entrei na igreja com aquele vestido em 12 de fevereiro de 1977 e lá se vão mais de 49 anos”, sorri. A decoração foi toda feita com flores naturais que cresciam abundantemente nos jardins das praças. Tanto as mesas, quanto o bolo de casamento de Consuelo, eram decorados com delicadas flores de flamboyants amarelas. Tudo feito com muito esmero e cuidado. Pequenos detalhes que transformaram e encheram de amor o espaço.
Casados, Consuelo mudou para Curitiba onde o marido fazia residência médica em cirurgia geral.
Lá nasceram Washington Oliveira Telles II e Elsa Luciana Aparecida Telles. O menino recebeu o nome em homenagem ao pai e ao avô paterno, que também se chamava Washington Oliveira Telles e a menina em homenagem à avó materna, dona Elsa, o Aparecida veio como uma benção: Elsa foi batizada na Paróquia de Nossa Senhora de Fátima.
Em Curitiba, com os filhos pequenos, Consuelo dedicava-se ao cuidado com as crianças. “Minha mãe conta que meu pai morava no hospital. Naquela época a residência médica era dentro do hospital mesmo. Ela ficava sozinha com a gente, perdeu a mãe muito jovem ainda e na capital estava longe da família, enfrentou muita coisa. Não tinha a famosa rede de apoio”, pontua Elsa.
Emocionada, a filha conta que como ela e o irmão tem um ano e pouco de diferença de idade, algumas vezes dona Consuelo contava com o apoio de Nossa Senhora Fátima, com Washington precisando de colo, deixava Elsa dormindo no berço e corria no mercado carregando o menino para pegar o que faltava. “Eu era um bebê comportado, era boazinha, obediente desde que nasci”, brinca Elsa.
Assim que o doutor Telles recebeu o diploma, aceitou um posto como médico em Sertanópolis, município bem próximo de Londrina.
Foi ali que o doutor Telles iniciou a vida profissional por volta de 1982. O local escolhido ficava próximo às famílias de ambos. E de início, tudo correu bem. Até
Telles ouvir um amigo falar sobre uma cidade que estava sendo aberta. O amigo era Valter Brandão. “Era sobrinho do seu Dorival e da dona Helena Brandão, ele já havia vindo conhecer Sorriso e em 1983 ele trouxe o Telles para conhecer também”, conta a esposa.
O marido completa que tudo começou com a história de uma amizade longa e verdadeira: Consuelo e a esposa de Valter eram muito amigas. Então em 1983, a família decidiu viajar até Cuiabá, no Mato Grosso, onde os Brandão residiam, para que as duas mulheres pudessem matar a saudade.
“Durante a estadia, o Valter, que na época era vendedor de colchão, me provocou: ‘Edmar, vamos comigo; vamos conhecer o Nortão’. Topei na hora”, conta. De início, os dois dormiram em Nova Mutum em um hotel de propriedade de um irmão da dona Helena, como eram muitos hospedes chegando, Telles lembra que dormiram em um colchão no chão mesmo.
Em Sorriso, ficamos hospedados na casa da Helena e do Dorival. Em Sinop, mais uma vez, ficamos na casa de parentes deles”, relembra. Ao bater o olho em Sorriso, de imediato, Telles imaginou que a cidade que vinha sendo levantada poderia ser o local ideal para um jovem médico e sua família.
Na volta para Sertanópolis, o médico já estava decidido: migrariam para o Mato Grosso. Para firmar a decisão, ele passou seis meses no vai e vem atuando no Hospital e Maternidade Nossa Senhora de Fátima e indo à Sertanópolis quando possível. A epopeia foi de junho a dezembro. Mas a decisão de mudar estava tomada.
Um Mercedes Benz 1979 e um médico na boleia
“E aí começou o questionamento sobre como fazer a mudança, então um amigo nosso de lá, que era vereador, sugeriu que comprássemos um caminhão e o próprio Edmar viesse dirigindo”, explica a matriarca da família. O conselho foi seguido pelo doutor Telles que adquiriu um caminhão Mercedes Benz 1979. Durante dois dias, os amigos ensinaram Edmar manobrar o caminhão.
“E não é que eu realizei meu sonho de ser motorista também com a vinda pro Mato Grosso?!”, constata o médico.
Em Sertanópolis, no dia de carregar a mudança, sobraram voluntários e lágrimas. “As pessoas não queriam que saíssemos de lá, eles vinham, pediam pra ficar, traziam uma lembrança e ainda ajudavam a carregar a mudança”, relembra dona Consuelo.
Tantas mãos auxiliando – e sem especialistas para orientar – a mudança ficou alta, uma carga bem avantajada em cima do caminhão. E assim a família iniciou uma viagem de três dias. Consuelo, assustada com o volume da carga e com medo que tombasse, pedia ao marido que parasse em todas as pontes.
“As estradas eram estreitas naquela época; assim que saímos do Paraná começamos a passar por pontes muito estreitas e eu tinha medo, em cada local eu fazia o Telles parar e descia com as crianças, embarcávamos novamente do outro lado, meu marido não tinha experiência como motorista, nunca havia dirigido um caminhão. Hoje vejo como fomos inexperientes e aventureiros na mudança”, relata.
“Eu parava em toda ponte, teve uma em especial, acho que na região de Rosário Oeste, que me aconselharam a pegar um desvio”, pontua o médico.
No Mercedes Benz além da mudança e da própria família, seguiam também os animais. “Todo mundo nessa casa é ‘cachorreiro’”, brinca a matriarca. E naquela mudança vieram um casal de dobermans- a fêmea era Gabi, do macho dona Consuelo não lembra mais o nome; uma collie e outros animais pequenos, um deles a Lessie.
“Os grandes vieram em caixas de transporte e os pequenos nos pés das crianças mesmo, eles alegraram a viagem dos meus filhos”, reflete. “Meu pai colocou todos nós e os cachorros no caminhão e partiu no mundo. Crianças, não tínhamos noção de nada, mas nos sentíamos vivendo uma ventura. Tudo era diferente, desconhecido, novo”, completa Elsa.
Contudo, os três dias de viagem cobraram um preço da família, principalmente das crianças. “Os produtos demoravam muito para chegar aos restaurantes, então o que você encontrava no caminho não era comida fresca, acabou que principalmente as crianças chegaram aqui passando muito mal”, diz a mãe. Além de enfrentar o mal-estar das crianças, Consuelo entrou em completo desânimo quando avistou a cidade. O marido parou em um local onde ela via “um poste aqui, outro acolá, uma rua aberta com muita lama e um local sem casas e o Telles falou: chegamos!
Exausta, eu pedi onde era a cidade e ele disse: aqui! Não acreditei que ele havia nos trazido para o meio do nada”. Perplexa e exausta, Consuelo desceu do Mercedes Benz, assim como os filhos.
Era o início do mês de dezembro de 1984. “Ela não fazia ideia de pra onde vinha, foi no susto”, diz ele.
Dona Consuelo sabia que ficaria hospedada na casa de outros paranaenses. E recebeu do marido um aviso: são curitibanos. “Já pensei: são metódicos. Como vou fazer com duas crianças na casa de outras pessoas? Elsinha estava no pré-escolar e Washington no primeiro ano, eram muito novinhos e acostumados a ficar livres em casa”, lembra.
Doutor Telles parou o caminhão em frente à uma casa de madeira, ali era a residência do doutor Wilson e da esposa, Gorete Soares. “Uma casa pequena de madeira, cheia de bibelôs, com tudo no lugar, fiquei apreensiva. Mas desci e pedi uma água para dar banho nas crianças”.
Gorete, solícita, providenciou uma chaleira com água quentinha para que a recém-chegada desse banho aos filhos. “Até hoje minha amiga tem esta chaleira e quando a vejo digo: me dê aquela chaleira”, sorri.
Ali nasceu a amizade e o carinho entre as duas. Gorete se dispôs a ajudar e recebeu Consuelo com amor e apoio. “Naquele dia iniciou uma amizade para a vida toda, Gorete era totalmente o contrário do que imaginei”, diz.
Logo, Consuelo descobriu que os novos amigos passariam o Natal em Curitiba com os familiares. “Eles cederam a casa para que nós ficássemos nesse período, até a nossa casa ficar pronta.
Naqueles dias, o que você mais ouvia era o barulho do martelo na madeira, seu Zezinho, era o empreiteiro oficial das obras”, pontua. E como as casas eram feitas de madeira, tudo era muito rápido para ser levantado.
Para iniciar a própria casa, em terreno cedido pelo médico Carlos Frison, um dos fundadores do Hospital e Maternidade Nossa Senhora de Fátima, a família optou por vender o caminhão com que transportou a mudança. Mas, como estavam em um local onde não conheciam ninguém, Telles decidiu que venderia o caminhão somente à vista.
Colocada a plaquinha de “vende-se”, começaram a chegar os interessados. O caminhão, quase novo, havia virado atração. E teve um comprador que não desistiu fácil. Informado de que o negócio só seria fechado no dinheiro, no dia seguinte ele procurou a família com uma maleta preta, grande, em mãos.
Ao abrir a maleta, Consuelo e Telles se depararam com várias notas novas, dobradas. “Tudo bem embalado e no valor total pedido. De início, ficamos muito assustados, nunca tínhamos visto tanto dinheiro em espécie na vida”, relata ela. E assim que receberam o valor, imediatamente a obra da casa foi iniciada.
“Virou o nosso canto de sempre, nunca mais saímos de lá, ampliamos, reformamos, mas é o nosso lar – hoje está em reforma novamente”, frisa Consuelo. E no espaço escolhido, bem na frente, ela plantou uma pequena muda de flamboyant amarelo que havia trazido na mudança.
“Chegamos perto do Natal. Aquele Natal longe de tudo e de todos, não foi fácil. Só não foi mais difícil para mim, porque recebemos um convite para o jantar de Natal, aquele convite nos mostrou o verdadeiro significado de ter amparo no Natal e trouxe felicidade para as crianças”, reflete.
“Nós éramos acostumados a passar o Natal com a família toda: avós, tios, primos. De repente não tinha rostos conhecidos, não tinha presentes. Mas havia muita união, fomos recebidos com tanto amor, pelo casal Egídio e Adelaide. Acho, que pela primeira vez nós sentimos o verdadeiro espírito de Natal”, confidencia Elsa.
Para animar um pouco a esposa, Telles contou que abririam uma nova escola na cidade e que ela seria professora. “Fiquei animada, pois não trabalhava desde quando casei e eu amava lecionar”. Na tentativa de fazer Consuelo feliz, ele a levou para conhecer o terreno onde a escola seria instalada. Era fim de dezembro. “Olhei para o Telles incrédula. No fim de dezembro ele me mostrou um terreno vazio, como iriam iniciar as aulas em março?”.
Mas, para surpresa maior de Consuelo quando março chegou, com ele surgiu uma pequena escola de madeira atendendo as primeiras turmas de pré e primeiro ano, justamente as turmas que os filhos da professora deviam seguir. “Eu tinha uma preocupação bem grande com a educação e sabia que a Consuelo também, eu sabia que ela só ficaria se as crianças tivessem onde estudar, então nos seis meses que fiquei atuando aqui e eles em Sertanópolis, tentei me inteirar sobre a educação”, confessa o marido.
Assim, em março de 1985, as crianças foram para a escola e Consuelo iniciou como professora na Fundação Educacional São José que já nascia sob o guarda-chuva de uma fundação, sem fins lucrativos, idealizada pelo padre Gaspar José Goldschmidt e por Claudino Francio, um dos sócios da então Colonizadora Sorriso.
O material para a construção das salas foi doado por pais que atuavam no ramo de construção; a mão-de-obra doada por outros que eram pedreiros.
"Cada um ajudou da forma que podia e, em 19 de março de 1985, dia de Santo São José, aconteceu a inauguração. No início eram poucas salas, cerca de quatro."
E assim que Consuelo chegou para lecionar, já foi escalada para ser a diretora. Inicialmente, a diretora seria Marli Francio, sobrinha do colonizador Claudino Francio, entusiasta e patrono da escola.
“Mas a Marli descobriu que minha formação era em administração escolar e falou: eu vou para a sala e a senhora para a direção!”. E assim foi. Marli era formada em letras e preferiu a sala de aula. Vera Gatto, além de professora de ciências, foi escolhida como vice-diretora escolar.
Naquele 19 de março, o padre Gaspar, pároco da nova comunidade, também participou do ato abençoando a nova escola. A partir desse dia, iniciou a história da professora Consuelo na busca pela documentação e regularização da escola. O escritório mais próximo da Secretaria de Estado de Educação (Seduc), ficava sediado em Rosário Oeste e era para lá que dona Consuelo tinha que viajar, geralmente de ônibus, poucas vezes de carro, em uma missão que levava a semana inteira dadas as condições da estrada na época.
“Lembro que uma noite participei de um jantar, quem organizou foi o José Domingos Fraga, prefeito na época, com representantes do Estado, a esposa de um deles atuava na Secretaria de Estado de Educação (Seduc), implorei para que nos ajudassem. Eles prometeram nos auxiliar. Finalmente conseguimos a documentação, mas isso demandou muito esforço, quilômetros rodados e persistência”.
Aliás, em tudo era necessário ter força para persistir. Vindos de um local bem estruturado, a família sofria com toda sorte de insetos que visitavam a casa. O maior medo de dona Consuelo eram os escorpiões que na época apareciam com frequência. Ainda era necessário lidar com mosquitos, ratos, morcegos, formigas e outros animais.
Por outro lado, pela primeira vez, ela residia em uma casa sem cerca, sem portão e sem muro. Contudo, ainda assim, era tudo muito seguro, na cidade pequena em que todos se conheciam e cresciam coletivamente. “Para não juntar mais insetos eu cavava um buraco no jardim e queimava todo o lixo, nada ficava jogado, era a forma de evitar a proliferação e novos criadouros de animais peçonhentos”, conta.
Enquanto a esposa cuidava do nascer da escola, o doutor Telles - Edmar para ela - voltava seus olhos para o Hospital e Maternidade Nossa Senhora de Fátima.
Na carroceria do Mercedes Benz que foi comercializado para construir a casa, veio também todo o mobiliário do consultório que o jovem médico havia montado em Sertanópolis. Além disso, geladeira, um aparelho de televisão e até um cofre eram parte da mudança. Quando chegaram não havia oferta de energia elétrica, tudo era tocado por geradores e diante da dificuldade, não fazia muito sentido ter uma televisão em casa.
Dr.Wilson, que sonhava em retornar para Curitiba e o outro jovem médico, Carlos Frison, procuraram Telles e fizeram uma proposta. Caso Telles aceitasse entregar a mobília do consultório, o cofre, a geladeira e a televisão, ele passaria a ser dono de uma pequena cota do hospital.
Negócio fechado, Telles já iniciou 1985 como um dos sócios-proprietários. “Era uma cota pequena, mas já era algo nosso e o meu marido sempre cuidou desse hospital com amor, em tudo ele colocou afeto, dedicação e muito cuidado com as pessoas. Hoje, a gente vê adultos, profissionais, que quando o encontram falam doutor, nasci pelas suas mãos!”, destaca a esposa.
O profissional veio com a missão de atuar como cirurgião. O hospital na época era todo de madeira, poucas salas ainda e havia contado com o apoio da Colonizadora Sorriso com a doação da área. Wilson e Carlos também auxiliaram no contato entre o novo médico e os pacientes.
A primeira paciente do doutor Telles, foi a proprietária do restaurante D’Graus, uma mulher muito ativa e querida na comunidade. A cirurgia dela transcorreu calmamente e assim se espalhou a fama do jovem médico como alguém muito aplicado e cuidadoso com os pacientes. Logo, Telles não tinha mais horário livre e era necessário correr ao hospital no meio da noite, de madrugada, muitas vezes para um parto – o que o deixava feliz, outras, no entanto, para acudir alguém machucado em equipamentos no trabalho na lavoura.
Telles atendia a todos os chamados. “Como morávamos no fundo, uns 50 metros do hospital, eu passava, ligava o gerador e corria. Revezamos entre mim, Carlos e Wilson, cada dia um ficava de plantão”, conta.
Na memória do médico, muitos casos evocam ao rememorar o passado. Um deles, em especial, ele lembra e conta com detalhes: era um menino que sofreu um acidente. A perna precisou ser amputada para que a equipe conseguisse salvar a vida da criança.
“Não havia muitos recursos, não havia o que fazer. Precisamos amputar. Esse caso foi parar no Programa Sílvio Santos, ganhou fama no país”, pontua o médico. Há pouco tempo, o menino agora adulto, passou pelo Hospital e os dois tiraram uma foto para celebrar o momento.
Houve também muitos acidentes na BR-163; além de acidentes de trabalho com maquinários em fazendas; havia ainda disputas resolvidas na bala, o que resultava em vítimas de arma branca, vítimas de arma de fogo. “Muita gente, que com a graça de Deus e muitos esforços combinados conseguimos salvar”, ressalta Telles.
Para ele, não há felicidade maior do que salvar uma vida ou ser a mão que recebe uma nova vida no mundo. “Toda vez é uma emoção nova, bonita. Algo que a minha profissão me proporcionou. É uma benção que não consigo mensurar em palavras”, analisa.
“Tudo aqui era muito rápido, de um mês para o outro, aumentava a população, chegava mais gente, construíam-se mais casas. Ninguém tinha dinheiro, mas todos tinham muita vontade de prosperar e força para continuar lutando”, relata Consuelo. Eram unidos.
“Para fazer andar, somávamos esforços: os primeiros postes da Avenida Brescansin, foram doados por todos nós, pela comunidade; assim como compramos linhas para que o sistema de telefonia pudesse ser instalado”, conta.
Era uma comunidade unida e centrada no esforço coletivo.
Os dias em Sorriso eram seguros. Os banhos no córrego que corre pela Área Verde eram uma diversão garantida para todos. O pequeno Washington gostava muito de ir até o córrego para pescar. “Foi uma infância muito livre e feliz”, diz a mãe. Washington também gostava de trabalhar desde pequeno. “Teve um dia que ele decidiu trabalhar, fez o pai conseguir um carrinho de picolé e passou toda a Brescansin vendendo picolé, ficou tão feliz”, sorri Consuelo.
“Acho que vivemos a infância mais plena e feliz do mundo. Tivemos liberdade para ser crianças, subir em árvores, viver de forma plena”, acrescenta Elsa.
A filha conta que além das brincadeiras na rua, em áreas verdes e no quintal de casa, outro ponto frequentado por ela e o irmão era o próprio Hospital. “Para mim, o Hospital sempre foi minha segunda casa. Lembro de muito pequena andar pelos corredores atrás do meu pai, da Marlene”. A Marlene, presença constante nas lembranças infantis de Elsa, é uma das primeiras enfermeiras a atuar no Fátima.
“Para mim, sempre foi muito normal ver o trabalho de salvar vidas”, diz. “Também tenho lembranças da minha mãe na escola, de estudarmos muito sob a supervisão dela. Minha mãe sempre foi muito dedicada e carinhosa conosco”.
Os dias eram bons.
No Hospital a busca pelo doutor Telles era intensa e na escola Consuelo também via aumentar as turmas e se dedicava com afinco. “O foco não eram mensalidades altas, era para manter a escola, então nós fazíamos promoções, torneios, rifas para auxiliar nos custos. Tínhamos o apoio dos empresários que nos davam bons prêmios para pôr nas rifas.
No Dia dos Pais, faziam torneio e integravam a mesma dupla, as crianças se divertiam muito nesses dias”, lembra. E por seis anos, dona Consuelo se dedicou com amor, carinho e entrega ao São José. “Não tinha nem como discutir com a Consuelo: ela me ordenava: ‘Edmar, esse fim de semana você trabalhar no torneio!’ E não tinha choro, lá íamos eu, o Destri Eugênio Destri), os Salton (os irmãos Osmar e Delmar) e quem mais tivesse filhos na escola, Consuelo colocava todos nós para trabalhar. Ela lutou muito para fazer o São José dar certo”, lembra o marido. “Dedicação, amor e empenho pela educação traduzem o esforço dela”, frisa.
Quando os filhos crescem
Enquanto isso, a cidade crescia e as necessidades em torno desse desenvolvimento também. Era preciso organizar-se. Então um dos pioneiros, o comerciante Dorival Brandão, o tio de Valter, procurou Telles para que auxiliasse na formação de um partido político, o então PMDB, Partido do Movimento Democrático Brasileiro.
A reunião de fundação do PMDB de Sorriso foi na casa dos Telles e a primeira ata, a de constituição, foi redigida pela professora Consuelo. “Era o nosso novo lar, então estávamos à disposição da cidade para que crescesse”, pontua.
Além da política, a atuação do casal se estendeu pelos clubes de serviço. Ambos eram rotarianos ainda no Sul e em Sorriso não foi diferente tendo participado da instalação do Rotaract Club da cidade.
“A iniciativa do Rotaract uniu pioneiros como Telles, Salton e Betão. Sempre pensei no coletivo, acho que somos mais fortes unidos e apoiando um ao outro”, destaca Consuelo. “Independentemente do partido era nosso dever como cidadão. Do mesmo modo, participamos também dos grupos de serviço da cidade”, completa o marido.
Nesse tempo, doutor Wilson já havia voltado para Curitiba e fazia especialização em anestesia. “Ele ofereceu a parte dele do Hospital para o Telles; eles fizeram o negócio da seguinte forma: o Telles seria o responsável pelas mensalidades dele em Curitiba em troca de mais uma cota no Fátima”. Como precisava honrar com as mensalidades do amigo, Telles nem pensava em diminuir a carga de trabalho.
“Em 1991, abriu um concurso do Estado para professora, fiz a prova e passei, então saí do São José”, relata. A época coincidiu com a realização de outro desejo da família.
“O Telles sempre foi muito preocupado com a educação dos filhos e fazia tempo que ele dizia que devíamos mandar as crianças para estudar em Curitiba, então naquele ano, arrendamos nossa parte no hospital e fomos”. Elsa entraria para o sétimo ano e Washington frequentaria o oitavo.
O doutor Telles já era dono de uma cota maior do Hospital e a arrendou para poder passar um tempo no Paraná e estabelecer as crianças. Na época, o doutor Carlos também arrendou sua parte para cuidar de outros negócios.
Chegando em Curitiba, Consuelo procurou a Rede Marista e contou que era diretora de uma escola no Mato Grosso. “Falei que queria matricular meus filhos, conhecia o trabalho da rede”. As crianças entraram para uma lista de espera, pois a preferência era para alunos locais.
Para garantir, dona Consuelo os matriculou também no Colégio Bom Jesus. Contudo, uma semana depois, recebeu a boa notícia: os filhos foram admitidos no Marista e no ano seguinte dona Consuelo se dedicou a cuidar dos filhos e estabelecê-los em Curitiba.
Telles seguiu trabalhando por lá e os laços com Wilson e Gorete – que haviam vendido sua parte do Hospital aos Telles e retornado ao Paraná – se fortaleceu.
“Depois de um ano com as crianças em Curitiba, eu e o Telles voltamos”, conta a matriarca. Consuelo diz que as muitas queixas dos pacientes fizeram com que tanto o doutor Telles, quanto o doutor Carlos voltassem. “Ele soube que o Hospital não estava sendo bem cuidado e voltou, tanto ele quanto o Carlos tiveram e tem um amor incalculável pelo Fátima. Só quem convive com eles entende”, frisa.
Ao longo dos anos como médico, doutor Telles colecionou afilhados. “Ah, são bem mais de 15, com certeza! Crianças que ele auxiliou a vir ao mundo, isso é tocante para nós, a gratidão é um tempero maravilhoso para a vida”, destaca a esposa.
Contudo, a decisão de voltar não foi fácil. Os filhos ficaram para estudar, ambos faziam inglês, Washington fazia piano e karatê e Elsa, balé. Estavam felizes. Mas eram crianças ainda. “Ainda ouço meu pai falando: ‘estudem, podem tirar tudo de vocês, mas nunca o conhecimento’. E nós ficamos. Estudamos. Com 13 anos aprendi a pegar o ônibus circular para fazer inglês e balé; o escolar era mais fácil, passava em casa, na frente do apartamento.
Aprendemos a ter responsabilidade com o horário e com todas as tarefas da escola; com dinheiro também: nosso pai deixava uma quantia para comida, outra para condomínio, aluguel, tudo certinho e especificado. Tudo era seguido à risca”, emociona-se Elsa.
“Não foi fácil, éramos muito crianças”, diz enquanto a emoção e as lembranças tomam conta desse tempo. “A mãe ligava de manhã, de tarde e de noite, mesmo longe era presente”, detalha.
Para amenizar a saudade dos filhos, agora adolescentes, e acalmar o coração, dona Consuelo viajava todos os meses de ônibus até Curitiba. “Vinte e oito horas para ir e mais vinte e oito para voltar, não havia a comodidade do avião e, mesmo que houvesse a partir de Cuiabá, a passagem era muito cara, ficava fora do nosso alcance, o jeito era enfrentar o ônibus para matar a saudade”, conta.
Na cidade, em vários pontos, já se via a influência de dona Consuelo. Por volta de 1994, o então secretário de Agricultura e Meio Ambiente de Sorriso, Reinaldo Loffi, o Alemão, a procurou para pedir mudas daquele pequeno flamboyant que ela havia trazido do Paraná. “Agora era uma árvore linda e que chamava muita atenção, então ele me pediu mudas e começou a espalhá-las pela cidade”. A atitude de Alemão fez o flamboyant de dona Consuelo figurar e florir em vários pontos da cidade.
Outra fonte de força de dona Consuelo é a fé. “Deixei duas crianças no Paraná para estudar, eu precisava me apegar com Deus que essa seria uma decisão abençoada e regrada no amor pelos meus filhos”.
Todos os dias nas orações da mãe estava o pedido de proteção dos anjos à Elsa e Washington. “O apoio e os conselhos do padre Gaspar foram essenciais para nós e para todos os outros que estavam enfrentando saudade e distância das famílias”, diz. A fé de Consuelo era inabalável. Em cada canto que passou ela deixou um altar montado. “Ter fé é ser grato, entender e ter empatia com o outro”.
No Hospital, por exemplo, havia uma capela sempre cuidada com muito zelo pela esposa do doutor Wilson, a Gorete, que providenciou lindos vitrais e iluminação para o espaço. A capela reúne fé e luz para pacientes. Quando Gorete foi embora, Consuelo e a mãe do doutor Carlos, a dona Almira Colombo Frison, assumiram a função de cuidar da capela.
Assim que retornou do Paraná, Telles retornou ao Fátima e Consuelo assumiu então o concurso que havia prestado no Estado. A vaga foi na Escola Estadual 13 de Maio. Ela deveria ir para a sala, mas novamente acabou na direção.
“Naquela época você ganhava menos se fosse para a direção, então as outras professoras me pediam se eu podia ir para a direção já que minha formação era em administração escolar e eu acabava aceitando, pois sempre gostei de cuidar de documentação”.
Por seis anos, Consuelo fez do 13 de Maio, seu novo lar. Então, recebeu uma notícia que testava sua fé com os filhos ainda estudando fora – eles ficaram 17 longos anos longe dos pais. Nesse meio tempo, dona Consuelo foi diagnosticada com câncer de mama. O tratamento foi longo e ela necessitou se afastar da escola. “Foram muitos, muitos anos tratando. Fiz radioterapia em Curitiba e as quimios com a doutora Cristina em Cuiabá”.
1984
Dr. Washington Oliveira Telles II e Janaina Telles e família
A trajetória da família Telles sob o olhar do filho
Washington II é um filho da terra sorrisiense, nascido em outro estado. Vindo do Paraná, o menino chegou na cidade aos 7 anos de idade, em 1984. Da pequena vila, guarda as lembranças de caminhadas para a escola, banhos no córrego da área verde e jogos de betes que entravam noite à dentro. Ainda adolescente, mudou-se para Curitiba, onde aprendeu a se virar sozinho. Os estudos passaram a fazer parte da rotina, e o esforço foi recompensado com a aprovação no curso de Medicina. Já formado e repleto de sonhos, retornou à cidade onde hoje constrói, ao lado da esposa, Janaína, um legado marcado pelo trabalho e pelo compromisso social.
Washington Oliveira Telles II, mudou com a família para Sorriso, em dezembro de 1984. Nascido em Curitiba, onde o pai fazia residência médica em 1977, o pequeno Washington recebeu o nome em homenagem ao avô paterno, o Washington Oliveira Telles.
Tinha apenas sete anos de idade quando os pais, a professora Consuelo e o médico Edmar Washington Oliveira Telles, trocaram a pequena cidade de Sertanópolis no Paraná pelo Mato Grosso.
Apesar de muito novo, tem muitas lembranças da Sorriso de outrora em que junto da irmã Elsa Luciana Aparecida Telles – Elsa em homenagem à avó materna; percorria as ruas de terra e nadava no riacho da área verde central. Para Washington, foi uma boa época para se crescer.
Dentre as várias lembranças do menino que mudou para a vila antes mesmo da emancipação, uma em especial está relacionada com sua formação educacional. “Quando mudamos eu estava finalizando o 1.º ano e meus pais nos contaram que estudaríamos em uma escola nova”, lembra.
A escola em questão não existia quando chegaram. O pai chegou a levar a mãe para ver onde seria edificada. Dona Consuelo duvidou que tudo estaria pronto para março. Mas março chegou e encontrou o prédio levantado e inaugurado, com alunos pelos corredores e salas.
Tanto Washington quanto a irmã foram matriculados. “A Marli Francio foi a primeira diretora, mas logo ela foi para a sala de aula e minha mãe assumiu a direção. As duas eram linha dura, não davam folga para a gente”, brinca.
Com a mãe na direção tornou-se comum para o menino as viagens entre Sorriso e Rosário Oeste, onde a mãe, a diretora Consuelo, viajava em busca da documentação e regularização da escola. Em Rosário ficava o escritório mais próximo da Secretaria de Estado de Educação (Seduc). Washington era o parceiro das viagens da mãe, feitas às vezes de carro, outras de ônibus.
“Ser criança em Sorriso foi muito bom”, lembra ele que lista uma série de benefícios como ir sozinho para a escola, a pé ou de bicicleta, sem a necessidade de ser levado pelos pais e poder brincar livre.
“Eu tinha muitos amigos, amigos da escola que moravam mais longe e os da rua onde morávamos”. Com os mais próximos, que moravam na mesma rua, a brincadeira corria solta até tarde. “Jogávamos betes na rua até tarde”, lembra ao contar sobre como mediam a distância para posicionar as garrafas e decidiam que dupla ficaria com a bola e qual com os tacos.
“Os pais costumavam acompanhar os filhos jogando, sentavam juntos para o chimarrão”, acrescenta. E quando caia a noite, era comum ouvir por todo canto “entra, que tá na hora do banho!” ecoando por toda a vila.
Para o menino, era uma infância tranquila e muito feliz. Às vezes, assistiam televisão. “Aquela da caixa bem grande, em preto e branco. Mas como a energia era só até às 20, 21 horas, muitas vezes a programação era cortada e não víamos a parte mais estimulante”, lembra.
Outras vezes, o pai com pena das crianças, ligava o aparelho na bateria do carro. “Tinha que ser poucos minutos, coisa rápida, só para assistir algo muito especial porque gastava combustível”, detalha. A geladeira era a gás. O gerador era aparelho indispensável em toda casa.
“Demorou para chegar energia, para ligar o linhão. Lembro que meu pai participou ativamente dessa luta e doou postes, inclusive. Também foi parceiro para a implantação do sistema de telefonia”, lembra. Para a garota, todas conquistas foram muito comemoradas. “Crescíamos de forma conjunta”, diz.
E conforme os filhos cresciam, crescia a preocupação dos pais com os dois. Edmar e Consuelo pensavam no futuro e nos estudos, na profissão que os filhos escolheriam.
Em nome disso, resolveram mudar com os filhos para Curitiba, para possibilitar que tivessem acesso ao ensino médio e como consequência, pudessem se preparar melhor para cursar faculdade.
Assim, em 1991, a família parte para a capital do Paraná. Dona Consuelo, professora dedicada que era, sonhava que os filhos estudassem na Rede Marista. Mas o colégio não estava com vagas abertas. Ela conversou, explicou que vinham de longe, deixou os dois na lista de espera e aguardou. Na dúvida, matriculou os dois também no Colégio Bom Jesus.
Mas uma semana depois, recebeu a notícia que esperava: Washington e Elza foram admitidos na Rede Marista. “Não foi nada fácil aquele primeiro ano: éramos duas crianças do mato, com liberdade, e, de repente estávamos em um grande centro, morando em um apartamento. Se não fosse a dedicação da nossa mãe, teríamos reprovado naquele ano”, avalia o filho.
Em Curitiba, Consuelo e Edmar permaneceram um ano. Em Sorriso, a parte deles do Hospital e Maternidade Nossa Senhora de Fátima, estava alugada. A função principal era estabelecer e auxiliar os filhos, dois adolescentes que haviam visto a vida dar uma completa guinada.
Após o período de adaptação das crianças, o doutor Edmar retornou para cuidar do hospital. Dona Consuelo ainda permaneceu por mais algum tempo antes de também voltar. Foi a partir desse momento que Washington e Elsa, passaram a assumir a própria responsabilidade, dando início à sua jornada de independência.
“Eles (os pais), alugaram um apartamento, em alguns momentos tínhamos companhia, em outros ficávamos sozinhos”. Inicialmente, com o retorno de dona Consuelo, Márcia que era professora e fazia pós em Curitiba, ficou com as crianças. Ela permanecia de graça no apartamento em troca de cuidar das crianças.
Depois de seis meses e com a pós concluída, Márcia também foi embora. “A partir disso intercalávamos momentos em que ficávamos sozinhos ou vinha uma prima ou outra para estudar e ficar com a gente”, lembra.
Uma das primas, foi Luciana, tinha a mesma idade que Washington e Elsa e foi para estudar. Hoje é odontóloga. E quase todo mês, dona Consuelo enfrentava as 28 horas de ônibus que separavam Sorriso de Curitiba, para ver como os filhos estavam e dar o suporte necessário.
Nas férias escolares, quem fazia o trajeto eram os filhos. “Pelo menos duas vezes ao ano, íamos para Sorriso. Era o momento de rever amigos e voltar a ser criança livre”, pontua Washington. Era no ônibus da União Cascavel, única empresa a fazer o trecho, hoje Eucatur, que os corações cheios de saudades transitavam. Se a saída era de Curitiba à tarde, o jantar era em Londrina. Às 23 horas, quando todos estavam pegando no sono, o veículo parava em Presidente Prudente para lavar os banheiros. Todos tinham que descer.
“Era o momento da reclamação, todo mundo ficava chateado”. Depois o caminho seguia por Presidente Epitácio, Presidente Venceslau e Bataguaçu. O café da manhã era em Campo Grande. O almoço em Sonora.
Às 19 horas, chegava à Cuiabá. “E aí era pegar a mala e sentar na rodoviária, esperar para pegar o ônibus que iria até Sorriso, geralmente com saída horas depois”. Washington lembra de cada detalhe, cada parada, cada cidade. E no retorno era o percurso inverso. “Nunca reclamamos, pois estávamos indo para casa”, lembra.
“Uma passagem de avião era algo fora do comum na época e praticamente não havia voos para Cuiabá; de carro também ficava inviável, afinal, nem dirigíamos”, pontua.
O esforço da família era grande: de um lado os pais que precisavam dar conta do trabalho e das funções assumidas; do outro, filhos que amadureceram rápido e se tornavam jovens adultos, responsáveis por seus atos.
Em Curitiba, Washington decidiu cursar medicina, seguindo os passos do pai. O jovem foi aprovado na Universidade Federal do Paraná em 1996 e colou grau no início de 2002. Dois anos depois foi a vez da irmã também se formar em medicina na mesma faculdade.
Em 2002, recém-formado, o jovem médico viveu uma experiência totalmente diferente: serviu no 5.º Batalhão de Engenharia de Combate do Exército Brasileiro, em Porto União, Santa Catarina.
“Foi uma escola para a vida, não tem como você servir o Exército e voltar o mesmo”, diz.
Finda a experiência no Exército, dentre 2003 e 2004, o filho do doutor Edmar e da dona Consuelo, cursou residência médica em cirurgia geral na Universidade Federal de Mato Grosso no campus de Cuiabá. Retornava ao Centro-Oeste, depois de 11 anos vivendo no Sul, foi um menino e voltou um homem formado.
Na sequência, sentiu que queria estudar ainda mais. Inspirado na mãe que havia enfrentado um câncer de mama, Washington decidiu realizar residência médica em cirurgia oncológica na sede do Instituto Nacional de Câncer (INCA) do Rio de Janeiro. Iniciou em 2005 e concluiu em 2007. Foram anos de estudos e muito empenho.
Formado e cheio de sonhos, Washington retornou para Sorriso. Havia se passado um grande intervalo de tempo. No retorno, percebeu o quanto a atuação e o título de oncologista ainda causavam espanto no local. Determinado, começou a formar clientela. Durante os três anos seguintes, de 2008 a 2010, o jovem médico se dividia entre Sorriso e Cuiabá.
Em Sorriso, abriu consultório no Fátima. Em Cuiabá, atendia no Hospital do Câncer. Tinha o sonho de auxiliar e colocar em prática tudo o que havia aprendido. “Era um compromisso ético e moral devolver à comunidade o conhecimento que eu havia buscado”, frisa.
Depois de três anos entre uma cidade e outra e com clientela formada em Sorriso, Washington optou por ficar na cidade em que havia crescido. Estava de volta para perto dos familiares. “Ainda sentia o quanto o título de oncologista pesava, as pessoas, obviamente tem medo do oncologista por tratar câncer”, pontua. Então, Washington também passou a atender clínica geral no Fátima, além de se dedicar aos pacientes oncológicos.
O jovem também prestou concurso para o Instituto de Medicina Legal (IML), onde atua como perito, desde 2008.
Quer seja no Hospital ou no IML, Washington enfrenta uma rotina puxada, de entrega. Para aliviar um pouco a própria carga, estabeleceu que nunca irá atender familiares e parentes no setor de oncologia.
“É um envolvimento forte demais, uma carga emocional forte demais; em casos assim, sou só o familiar, o amigo. A Janaína (esposa de Washington), briga comigo muitas vezes devido ao meu posicionamento. Ela fala: ‘pega, veja os exames do fulano, por favor’. Mas reforço que não. Eu sofro quando tenho que dar uma notícia ruim para um paciente, imagina como seria analisar um exame de um amigo?” fala ao explicar que evita a criação de vínculos com pacientes para poder manter o equilíbrio no atendimento.
O profissional destaca que na faculdade os profissionais são preparados para salvar vidas. “E é o dia a dia que nos joga as situações difíceis e que somadas vão nos preparando para situações complicadas, daquelas que você não quer enfrentar”, diz.
Washington leva seus conselhos ao pé da letra. “Esses dias, um dos meus filhos passou mal, teve uma febre e minha esposa queria que eu o avaliasse, falei: sou pai, só pai. Vamos atrás de pediatra”, relata.
Para Washington, há uma grande diferença no setor de oncologia hoje, e quando chegou. Apesar de ainda muito assustadas ao ouvir a palavra câncer, ele acredita que as pessoas estão mais abertas e confiantes no tratamento. Mas nunca é fácil. “O ambiente hospitalar é maravilhoso quando você celebra a chegada de uma nova vida em um parto, por exemplo. Mas é difícil atender na oncologia”, reforça.
E foi no ambiente hospitalar, entre seus bons e maus momentos, que Washington conheceu Janaína Morais. A moça, natural de Ariquemes, em Rondônia, também veio de uma cidade do interior. Assim como ele, a menina viveu em uma casa sem energia elétrica em tempo integral e com água puxada do poço. “Mas, como toda criança, eu nem me dava conta dessas dificuldades”, fala ela.
Janaína, filha de um garimpeiro e uma dona de casa, mudou para Sorriso aos 18 anos de idade para acompanhar o irmão Agnaldo, que aos 17 anos, havia tido uma proposta de atuar com ar-condicionado em Sorriso.
De início, trabalhou em restaurantes como atendente e logo passou a cursar técnico em enfermagem. “Era um sonho”. Iniciado o curso técnico em enfermagem, ela bateu na porta do Hospital e Maternidade Nossa Senhora de Fátima para entregar currículo. Entrou como estagiária. Isso há 19 anos atrás. Nunca mais saiu.
Assim que concluiu o curso técnico, Janaína iniciou a faculdade de enfermagem. Inicialmente, pegou plantão de emergência durante o dia e depois entrou para o turno da noite. “Logo que entrei peguei acidentes feios, da época de safra com colheitadeiras. Outra situação que me marcou muito para mim, foi uma pessoa que ingeriu veneno. Claro que não fomos informados disso, para nós foi tido que era uma indisposição alimentar. A pessoa foi medicada, pararam os sintomas e liberada. Não entendemos o que havia acontecido.
Horas depois, voltou muito pior. Só então descobrimos que essa pessoa havia desistido de viver e por duas vezes naquele dia, ingeriu veneno”, conta. Para ela, situações extremas e bem difíceis. “É muito triste você lidar com algo assim e precisar conversar com a família, é devastador”, avalia.
Um novo hospital
Janaína participou da implantação do novo modelo de gestão do Hospital que saiu de uma organização privada para uma gestão social, através de uma Organização Social de Terceiro Setor. Em 2013 foi criado o Instituto de Gestão Hospitalar e Assistência à Saúde do Estado de Mato Grosso (IGHASMAT), que em seu escopo contemplou a gestão plena do Hospital e Maternidade Nossa Senhora de Fátima e a implantação de diversos programas e projetos de atendimentos sociais voltados à área de saúde.
Hoje, o IGHASMAT é uma instituição sem fins lucrativos; com o encargo de realizar gestão hospitalar e prestar assistência à saúde das pessoas residentes no Estado de Mato Grosso.
Para atender uma das finalidades sociais do Instituto, em 2017 foi criado o programa “SAÚDE FÁCIL” que dá acesso à população a serviços de saúde com ótima qualidade para procedimentos clínicos e pacotes cirúrgicos aplicando-se uma tabela de baixo custo, ampliando o número de pacientes atendidos.
Conforme a direção, o Programa Saúde Fácil, tem atingido uma gama substancial de pessoas que necessitavam de atendimentos na área de diagnósticos de alta complexidade e em procedimentos cirúrgicos.
Já atuando dentro do modelo de gestão do IGHASMAT, durante cinco anos, Janaína trabalhou lado a lado com Washington e viu nele apenas o médico para quem passava pacientes.
Foi depois da longa convivência, que percebeu o quanto estava interessada no dia a dia do colega. “E me descobri apaixonada”, lembra. Os dois casaram no início de 2018 em Cuiabá. A escolha da cidade foi estratégica: Janaina era de fora, Washington havia residido por longos anos fora e centralizar em Cuiabá foi a forma mais fácil para amigos e familiares de ambos, participarem do casamento.
“Engravidei na lua de mel”, conta ela. Mas, infelizmente, Janaína se tornou mãe de anjo. O bebê não resistiu. “Foi muito difícil, levei a gestação até o fim e no fim recebi a notícia que nenhuma mãe quer ouvir, foi duro para mim, para meu esposo, para toda a família. Você não esquece esse dia, esse momento: mas aprende a valorizar a vida, agradecer e seguir em frente”, frisa.
Para auxiliar a filha, em 2019 os pais, seu Damião e dona Eroni, e os irmãos Rafael e Mateus também mudaram. Hoje toda a família de Janaína adotou Sorriso. “E a cidade nos adotou”, sorri. E a vida teve continuidade.
Em 15 de fevereiro de 2020, Janaína e Washington, deram as boas-vindas à Edmar II – uma homenagem ao avô Edmar; e em 02 de dezembro de 2021 a mãe recebeu Washington III nos braços. Recebeu o mesmo nome do papai e do bisavô. “É muito Washington e Edmar na mesma família”, brinca a enfermeira.
Hoje, Janaína divide seus dias com o cuidado com os filhos, o Hospital e a Loja Conceito, aberta em 2024. “Já cheguei à maioridade dentro do Hospital – são mais de 19 anos; iniciei a loja como forma de me policiar e ficar um pouquinho menos aqui, mas não consigo.
A enfermagem é minha paixão, o Hospital é minha casa, preciso me policiar para ir para casa de verdade. Hoje, os meninos são o meu motivo para ir para casa, brincar, sorrir, afagar e receber amor”, sorri a hoje administradora do IGHASMAT.
Comparando as profissões, Janaína conta que ficou muito surpresa com a loja. “Lá as pessoas pagam felizes, encantadas com as peças. Aqui, no financeiro do Hospital é muito diferente”, frisa. De certa maneira, a “loja me ajuda a ver beleza e vida além desses corredores”, detalha. Contudo, apesar de gostar do ambiente da própria empresa, é nos corredores do Hospital que ela se sente à vontade. “Minha casa de verdade”, confessa. Hoje, frisa o principal desafio tem sido a ampliação da unidade.
“O Fátima vai duplicar de tamanho, ao fundo estão em construção mais quatro mil metros quadrados que irão somar junto aos serviços já prestados”, detalha.
O novo espaço contará com uma Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) adulta e uma infantil, nova sede administrativa, cozinha, refeitório, lanchonete. Tudo está sendo feito com recursos próprios. “É uma grande jornada, todo dia um novo passo”. A intenção é que tudo fique pronto em 2027.
Janaina relata que a história do Fátima se confunde com a história de Sorriso. “Creio que 60% dos partos feitos em Sorriso, tiveram o Fátima como cenário. Aqui há um grande envolvimento com as pessoas; a responsável pela farmácia, por exemplo, está aqui há mais de 20 anos, tem enfermeiras que estão aqui há 35 anos. É uma vida dentro desses corredores”, avalia. O envolvimento se faz presente também quando as reformas e ampliações avançam.
“Aqui tudo é memória: se digo que preciso trocar uma porta de lugar, vem uma enfermeira brincando ‘sério, Jana? Taí há tanto tempo, estou tão acostumada’ e assim todo mundo vai dando opinião, esse é um processo coletivo”, completa.
Gerir todo esse processo, saber o momento de parar, avançar, mudar o horário e o roteiro, é a tarefa diária da Janaína empreendedora.
Atualmente, o Fátima conta com mais de 100 colaboradores diretos em sua rotina, sendo 38 deles médicos. Recentemente, o hospital também firmou uma parceria com o município de Sorriso para a implantação da Maternidade Amor de Mãe, passando a realizar partos para mulheres sorrisienses por meio do sistema municipal. “Os corredores agora se enchem de chorinhos de boas-vindas, o que nos alegra e aquece o coração”, comemora Janaína.
A profissional detalha que é feliz. “Me encontrei na profissão, como mãe, como esposa, como filha em Sorriso. Eu amo o que eu faço e o lar que essa cidade me deu”, diz. Já Washington revela que é caseiro. Hoje seu passatempo proferido é passar um tempo de qualidade com os filhos, a esposa, os pais, a irmã, os cunhados, sobrinhos e sogros.
Estudar, frequentar congressos de medicina, ler artigos da área – uma herança dos tempos em que mergulhar nos livros foi determinante para seu futuro, são tarefas que o enchem de alegria. Além, claro dos momentos em que é o mensageiro de boas notícias aos pacientes. “Digo que não quero me envolver, mas toda vez que falo para um paciente que ele está curado, é um momento tão único. Uma vitória grande que nos enche de orgulho e de esperança diante da vida”. Fora isso, o médico diz que é um “cara tranquilo, aproveitando cada vez que ouve a palavra pai!”.
Washington reforça que é grato à mudança de vida feita pelos pais na década de 80. “Vivi uma infância feliz, quero que meus filhos tenham um pouco dessa experiência. Eu sou sorrisiense de coração e eles, sorrisienses natos”, comemora o profissional que trilhou o mesmo caminho que levou à criação e formação da cidade.
1984
Família Del moro
A força e a resiliência do homem que ousou acreditar
Jocondo. Um nome, um homem, um vinho. Uma homenagem e uma história cujo legado é lembrado com amor, sorrisos e boas lembranças. O vinho Jocondo, exclusividade da marca Del Moro, foi uma homenagem especial planejada pelos filhos para o pai, senhor de uma história de superação, trabalho e luta, que fazia frete de charrete, vendeu três juntas de bois para abrir uma sociedade – e se tornou um dos maiores empresários do ramo de supermercados de Mato Grosso.
Jocondo nasceu em 7 de setembro de 1941, em Siderópolis (SC), então distrito de Urussanga, filho dos agricultores Duílio Luiz Del Moro e Laura Savi. A família cultivava diversos produtos, vendendo os excedentes na comunidade local, e vivia no mesmo ritmo que os demais moradores da região. Em 1957, por volta dos 16 anos, a vida de Jocondo tomou um novo rumo: seu pai inaugurou uma pequena loja de secos e molhados em Urussanga, e ele passou a ser responsável pelas vendas. Ainda jovem, foi nesse ambiente que desenvolveu seu interesse pelos negócios e pelo comércio.
Quando tudo parecia tranquilo em Santa Catarina, a família mudou-se para o Paraná, em 1963, estabelecendo-se na comunidade de Laranjita, no interior de São Miguel do Iguaçu, município recém-fundado. Duílio via na mudança uma oportunidade melhor para os filhos, que eram dez ao todo. A família foi atraída pelas políticas de expansão de assentamentos rurais, e não foram os únicos a deixar Siderópolis: outra família, os Rosso, também seguiu o mesmo caminho.
Apesar de conhecer Maria de Lourdes desde a infância, foi em Laranjita que o amor entre eles finalmente floresceu. “O nono Duílio tinha um sítio, e assim que terminava o sítio dele passava um riozinho, e na sequência vinha o sítio do nono Emílio”, recorda Mari, caçula, assim como o irmão gêmeo Mauri, filhos da união de Jocondo com Maria de Lourdes. O futuro nono Emílio era casado com Idalina Porton, e eram eles os pais de Maria de Lourdes Rosso.
O casamento de Jocondo com Maria de Lourdes — carinhosamente conhecida como dona Lurdes — ocorreu em 17 de junho de 1964. Recém-casados, o casal dedicou-se ao cultivo da terra e, seguindo os passos de seus pais, passou a produzir milho e trigo. O excedente era vendido na sede do município, em São Miguel do Iguaçu, ou em Medianeira, já que a comunidade de Laranjita ficava estrategicamente entre as duas cidades.
Dois anos após o casamento, nasce Marli, a primeira filha do casal. A gestação foi complicada, e Maria de Lourdes não conseguia ajudar na lavoura. Foi então que Jocondo, que já demonstrava interesse pelo comércio desde os tempos em Urussanga, decidiu abrir um pequeno armazém na própria casa — uma bodega, como se dizia no dialeto italiano, um espaço onde se vendiam produtos e também se fabricava vinho.
Além do vinho, Jocondo comercializava pinga, fumo em corda, cachaça, querosene, cerveja quente — um pouco de tudo. A clientela era formada principalmente pelos vizinhos, e logo as vizinhas passaram a fazer encomendas diretamente com Maria de Lourdes. Picada pelo mesmo espírito de negociação e pelas conversas com os fregueses, ela começou a orientar Condo — como carinhosamente chamava o marido — sobre o que comprar e vender.
Com o tempo, Jocondo percebeu que, nas idas à sede do município, também podia ganhar com fretes. Ele seguia de charrete, puxada por um cavalo bem cuidado, transportando o milho e o trigo excedentes que vendia em São Miguel do Iguaçu. “Ele passou a carregar os grãos dos vizinhos também, revendendo para todo mundo”, lembra Mari.
Sem perceber, Jocondo foi expandindo seus negócios. O ponto alto das vendas era a cerveja, muitas vezes consumida quente devido à falta de energia ou de motores para resfriamento. Com tino e criatividade, ele passou a armazená-la em um balde dentro do poço, tentando mantê-la fresca, e içava o produto com uma corda sempre que chegava um cliente. As vendas aconteciam aos sábados e domingos; durante a semana, era tempo de labuta na roça.
Em uma das idas a São Miguel, Jocondo se encantou com uma novidade: uma geladeira a gás. Ao saber do preço — 1,5 mil réis — hesitou, mas o vendedor, percebendo sua empolgação, destacou todos os benefícios para o negócio. O primeiro deles: a possibilidade de oferecer cerveja gelada. Seduzido pela ideia, Jocondo voltou para Laranjita com a geladeira nova, carregada na charrete, radiante de felicidade.
A novidade logo se espalhou pela comunidade, e os frequentadores passaram a visitar a bodega com mais frequência, atraídos pela cerveja gelada. Entre eles estava seu Maganin, vizinho e grande interessado na geladeira. Um dia, finalmente tomou coragem e fez a proposta: “Oh, Jocondo, me venda essa geladeira!”. Jocondo respondeu que não podia, pois havia pagado três mil contos de réis nela. Mas Maganin ofereceu quatro, e o negócio foi fechado na hora.
De volta a São Miguel do Iguaçu, Jocondo comprou uma nova geladeira e investiu o lucro da venda da primeira em mais cerveja. A continuidade dos negócios estava garantida, e a bodega se consolidava como ponto central da comunidade.
Uma charrete, três juntas de bois e uma sociedade
A fama da bodega e o talento de Jocondo para negociar — ele adorava uma boa prosa tanto quanto um bom negócio — chegaram aos ouvidos de José Sangaletti, o Bépi Sangalletti. Bépi, dono de um mercado em São Miguel do Iguaçu, propôs uma sociedade com o bodequeiro de Laranjita. Jocondo vendeu a charrete, três juntas de bois e o excedente da produção agrícola, fechando o acordo.
Agora sócios, abriram a Casa Aurora em São Miguel do Iguaçu, um comércio de gêneros alimentícios oficialmente inaugurado em 1974. O nome era uma homenagem à filha de Bépi, e a parceria rapidamente se mostrou bem-sucedida. No Paraná, o sócio majoritário era Bépi.
Nesse período, Pedro Sangalletti, filho mais velho de Bépi, chegou a trabalhar com a dupla, mas, por receio do pai em ampliar os negócios e medo de inovar, acabou se afastando e abriu um empreendimento próprio com o auxílio do sogro, Pedro Eisele, em Flor da Serra (PR).
Dois anos após firmar a sociedade, em 1976, Jocondo assumiu dois fretes desafiadores: levaria duas mudanças até Sinop e, na volta, traria o caminhão carregado — já que muitas pessoas não gostavam do serviço e precisavam de freteiros para o retorno. A diferença é que, no caminho de volta ao Paraná, o empresário carregou três mudanças, mostrando mais uma vez sua habilidade em aproveitar oportunidades e expandir os negócios.
Antes de retornar, Jocondo decidiu fazer um tour pela região. Conhecendo bem Ariosto Riva, colonizador ativo em Alta Floresta, resolveu esticar a viagem para visitar o amigo e conhecer a área de perto. Encantou-se com as possibilidades de desenvolvimento local. Embora tivesse levado duas mudanças para Sinop e agendado três fretes para o retorno, concluiu que investir em Alta Floresta seria mais promissor.
Em 1977, de volta ao Paraná, chamou Bépi para uma conversa. “Havia muita gente, muitos conhecidos nossos que estavam migrando para o Mato Grosso. Meu pai disse ao Bépi que seria bom eles virem também”, lembra Mari. Inicialmente, Bépi resistiu: temia trocar um lugar estruturado e com clientela formada por algo incerto.
Por fim, aceitou a proposta, mas com uma condição: no Mato Grosso, o sócio majoritário seria Jocondo, de modo que eventuais prejuízos seriam, em sua maior parte, assumidos pelos Del Moro. Assim, Jocondo decidiu se aventurar pelo Centro-Oeste brasileiro, enquanto Bépi manteve suas atividades no Paraná.
A primeira Casa Aurora em terras mato-grossenses foi inaugurada em Alta Floresta, em 1978, como uma sociedade formada pelos irmãos Jocondo, Dernei Olindo, Antônio, Paulo e Clecino Del Moro, juntamente com Bépi Sangaletti.
A habilidade de Jocondo para os negócios se mostrou precisa: na transição dos anos 70 para os 80, a corrida do ouro agitava Alta Floresta, Matupá, Peixoto de Azevedo e toda a região. O caminhão de suprimentos mal chegava, e os produtos desapareciam das prateleiras em questão de instantes. Muitos itens sequer chegavam a ser expostos, pois já eram vendidos assim que o baú era aberto. Diante desse cenário, Jocondo tinha certeza: era preciso ampliar a loja de Alta Floresta e investir em novos pontos na região. Ele fazia compras em São Paulo e em outros centros, mas os produtos mal chegavam, e logo já era necessário fazer novos pedidos. Quem acompanhava Jocondo no Mato Grosso era o irmão Dernei Olindo. “Brincávamos que ele era o ‘tio Nei, o lindo’, por causa do nome, e ele ria muito”, recorda a sobrinha. Nei era o responsável direto pelas finanças, a mão firme que orientava Jocondo na hora de investir e expandir o negócio.
Em 1984, cansado das longas viagens entre o Paraná e o Mato Grosso, Jocondo decidiu trazer a família para morar em Cuiabá. Até então, ele passava meses sem ver a esposa e os filhos – às vezes quatro ou cinco meses –, pois era responsável pelas lojas no Mato Grosso. No Paraná, permanecia Lourdes, agora acompanhada por Marli, Mariliza e os gêmeos Mauri e Mari. O casal havia enfrentado uma grande dor: Mário, outro filho, havia contraído meningite e falecido no dia de seu batizado. Além disso, Lourdes sofreu algumas perdas gestacionais e sentia profundamente a ausência da família unida.
Apesar de tudo, ela se mantinha firme, cuidando da casa, educando os filhos e trabalhando. A matriarca participava diretamente das vendas, e as crianças também contribuíam. Em São Miguel do Iguaçu, todos tinham sua função e trabalhavam juntos, compartilhando responsabilidades e fortalecendo os laços familiares.
Por sua vez, Jocondo também sentia a falta da família e a distância pesava em seu coração. Ao mesmo tempo, tinha convicção de que os negócios em Mato Grosso iriam se expandir, e desejava investir todas as suas economias no Centro-Oeste. No entanto, esse não era o desejo de Bépi. Assim, em 1985, decidiram desfazer a sociedade: Bépi ficaria com 100% dos negócios no Paraná, enquanto Jocondo assumiria integralmente as atividades no Mato Grosso.
“Meu pai conta que, assim que se acertaram sobre o que cada um ficaria, Bépi abriu o cofre, sacou uma quantia significativa e entregou a ele como agradecimento pelos anos de parceria e pelo entusiasmo em sempre buscar mais”, relembra Mauri. Antes de serem sócios, eram amigos: cada um torcia pelo sucesso do outro, e sempre se apoiavam mutuamente.
Com a família instalada na capital, Jocondo seguia carreira solo no Mato Grosso. As lojas já existentes passaram a se chamar DelMoro Supermercados e continuaram em franca expansão. Ainda em 1985, ele recebeu uma visita inesperada em Alta Floresta: Pedro, filho de Bépi, veio procurá-lo.
Pedro contou que estava pensando em se mudar para o Mato Grosso, pois o mercado que havia aberto em Flor da Serra enfrentava forte concorrência da antiga Cooperativa Três Fronteiras (atualmente Cooper Lar), que antes fora seu fornecedor. Desanimado com os desafios no Paraná, ele decidiu explorar novas oportunidades no Mato Grosso, e mais uma vez a história das famílias Del Moro e Sangaletti seguia caminhos entrelaçados.
Após visitar Jocondo, Pedro, atraído pela prosperidade da região do garimpo, escolheu Matupá para abrir um novo mercado. Havia, porém, um detalhe: o terreno desejado já estava no radar de Jocondo, e a imobiliária responsável precisou consultá-lo antes de prosseguir com a negociação. Ao saber quem tinha interesse na área, Jocondo não hesitou e autorizou a venda.
Em 1986, Pedro Sangaletti, junto com o sogro Pedro Eisele, iniciou a construção da Casa Aurora de Matupá. Anos mais tarde, o caminho de Pedro voltaria a cruzar as trilhas da família Del Moro, mantendo vivo o entrelaçamento das histórias dessas famílias.
Em Cuiabá, onde permanecera para garantir que os filhos tivessem acesso à educação, Lourdes decidiu abrir uma mercearia. Ela temia que os filhos perdessem o gosto e o interesse pelo comércio, algo que sempre haviam demonstrado. “Ela disse: ‘Condo, vou pôr alguma coisa aqui, assim eles não perdem o costume e vão continuar trabalhando’. Ela tinha medo de que a gente se tornasse vagabundo”, recorda Mari, rindo. Jocondo concordou com a ideia, e Lourdes inaugurou a mercearia bem em frente de casa.
Além disso, ela adquiriu uma máquina giratória para assar frangos, que eram recheados pela própria família. “Recheei e costurei tanto frango na adolescência...”, lembra a filha. Todo o funcionamento do negócio era supervisionado de perto pela mãe, garantindo que cada detalhe estivesse sob seu olhar atento.
Mari lembra que era responsável por enviar ao pai, por fax, a lista de produtos que Lourdes precisava tanto para a mercearia quanto para a casa. Jocondo sempre ria bastante ao receber esses fax e não perdia a chance de brincar. “Nesse dia ele disse: ‘Mas Lourdes, isso não é um rancho, é um barracon inteiro que você está pedindo’”, recorda Mari, destacando que o pai sempre se orgulhou do sotaque, que denunciava suas origens rurais e sulistas. Eles eram assim, brincavam um com o outro o tempo todo. Eu digo que meu pai era a emoção, o coração; ela, a base, o equilíbrio. Ele, totalmente manteiga derretida dos Del Moro; ela, o lado Rosso, firme e equilibrada”, acrescenta.
Naquele período, Marli formou-se em contabilidade e, assim que retornou ao Mato Grosso, seguiu para Alta Floresta, onde passou a ser responsável pelas compras da rede, trabalhando diretamente com o tio Nei. Mariliza, formada em Engenharia Florestal, logo se juntou à irmã. Em Cuiabá, ficaram os caçulas, que continuaram estudando e ajudando a mãe na mercearia.
“Meu pai falava para ela fechar o negócio, mas ela continuava trabalhando e nos ensinando. Só vendeu a mercearia depois de sofrer o terceiro assalto à mão armada”, lembra Mari.
Os gêmeos também tinham planos acadêmicos: Mauri e Mari iniciaram o curso de Economia. No entanto, o pai descobriu que Mauri estava faltando às aulas. Em 1998, deu ao filho duas opções: arrumar as malas e mudar-se com ele para Alta Floresta para trabalhar no mercado – primeira opção –, ou... a segunda era basicamente a mesma, sem escolha real. “Não tinha como escolher”, relembra Mauri aos risos. Aos 23 anos, ele assumiu a função de gerente.
Com o apoio de Nei, o pai continuava a expandir as lojas pelo Mato Grosso. Após consolidar Alta Floresta, novos pontos surgiram: Apiacás (1987), Peixoto de Azevedo (1990), Lucas do Rio Verde (primeira loja em 2002, segunda em 2011), Sorriso (primeira unidade em 2003, segunda em 2014, DelNorte Atacarejo em 2019 e quarta loja em 2023), Nova Mutum (2009), Tapurah (2012), Paranaíta (2014) e Guarantã do Norte (2014).
Em 2015, a primeira loja de Alta Floresta foi totalmente remodelada, tornando-se a maior do grupo. Em seguida, foi inaugurada uma unidade em Terra Nova do Norte (2018). Em cada inauguração, o discurso de Jocondo era sempre especial: ele agradecia a oportunidade que José Sangaletti lhe havia concedido. Em muitas das lojas, Bépi ou seu filho Pedro estavam presentes para aplaudir. E em todas as inaugurações, Jocondo cortava o laço de abertura de mãos dadas com Lourdes, simbolizando a parceria e o apoio incondicional da família.
“O pai era a emoção. Ele dizia: ‘vi um terreno bom, vamos abrir mais um mercado em tal lugar’. O tio Nei retrucava: ‘não, Jocondo, agora não temos dinheiro nem capital de giro’. Mas o pai insistia: ia, voltava e tornava a ver o terreno”, lembra Mauri. Um exemplo marcante foi Tapurah. Jocondo percorreu toda a região, soube que havia um mercado à venda e decidiu que queria comprá-lo. O tio Nei foi categórico: não.
Dois meses depois dessa conversa, Jocondo retornou a Tapurah e fechou o negócio. “Ele me ligou para contar e eu perguntei: ‘o senhor falou com o tio Nei?’. Ele respondeu que não. Então liguei para o tio e avisei: ‘meu pai fechou Tapurah’. Era uma quinta-feira. Ele resmungou, xingou, mas no domingo já estava lá, limpando tudo e organizando as prateleiras”, recorda.
Ao ver a loja de perto, Nei foi direto: “Condo, antes precisamos reformar”. “Ele resistia, trazia o pai de volta à razão, mas, depois do negócio fechado, entrava de cabeça. A partir dali o tio Nei se tornava o cérebro da operação, resolvendo todas as pendências”, reflete Mauri.
“Claro que aprendi muita coisa na faculdade”, completa Mauri. Depois de se estabelecer em Sorriso, seguiu o conselho do pai e cursou Administração. Ainda assim, foi na prática, no convívio diário com o pai e o tio, que aprendeu, de fato, a se virar e a conduzir os negócios.
Mari acrescenta a mãe à lista de referências do irmão. “Ela foi minha primeira inspiração, minha luz. Aprendi muito com ela e com eles”, destaca. A filha também recorda o ímpeto do pai e o quanto era visionário. Sempre na estrada entre Alta Floresta e Cuiabá — onde Lourdes permanecia enquanto Mari cursava Economia —, Jocondo decidiu investir em Sorriso.
“Da BR, ele via aquele terreno — onde hoje fica o Del Moro da Avenida Belo Horizonte — e começou a insistir com o tio Nei para comprar ali. O tio dizia que não. Mesmo assim, ele foi lá e comprou. Toda vez dizia: ‘Comprei. Se não der certo, você desconta da minha parte na sociedade, o prejuízo fica comigo; se der certo, o lucro é de todos’”, relembra Mauri.
Uma mudança chega em Lucas
Com o terreno de Sorriso já adquirido, o grupo deu início às obras. No entanto, no caminho entre Alta Floresta e Cuiabá havia outra cidade: Lucas do Rio Verde. Ao passar por lá, Jocondo avistou um mercado disponível para locação. Sem hesitar, ligou para Nei, que prontamente o lembrou das obras já em andamento em Sorriso. Mas Jocondo não sossegava — negociar era parte de sua natureza.
Naquele momento, foi informado de que o proprietário não tinha mais interesse em alugar, apenas em vender.
Era a linguagem que ele mais gostava de ouvir. Imediatamente, fez uma proposta. A contraproposta veio em um valor estipulado em sacas de soja. Jocondo respondeu: “Vamos converter em arrobas de boi. Eu tenho gado, não soja”. O proprietário, Plínio Shuntz, à época dono de cerca de 15 mil cabeças de gado, aceitou.
Negócio fechado, Plínio acabou recebendo bem mais do que havia pedido, já que, em 2002, o valor da arroba do boi superou com folga o da saca de soja. Em seguida, o grupo iniciou as obras de reforma e ampliação da unidade em Lucas do Rio Verde. Para isso, foi necessário interromper temporariamente a construção do mercado que estava em andamento em Sorriso.
Nesse período, com a conclusão das obras em Lucas do Rio Verde, Mari formou-se em Economia. Era 2003 e, assim que terminou a faculdade, o pai a encarregou de assumir o mercado recém-inaugurado na cidade. A mudança foi feita de forma simples e simbólica: Mari viajou para Lucas em um VW Gol roxo e levou, além de uma mala de roupas, um colchão enrolado no bagageiro.
“Mudei para uma casa com oito homens — todos responsáveis por algum setor do mercado ou pela obra, que ainda estava em fase final. Fiquei duas semanas e liguei para o pai dizendo que aguentava qualquer coisa: dormir em colchão, dividir a casa com os meninos, mas não dava mais para dividir o banheiro com eles”, recorda. Diante disso, Jocondo transferiu a filha primeiro para um hotel e, depois, para uma casa alugada.
No mesmo período, dona Lourdes também se mudou para Lucas. Ela vendeu a casa e a mercearia em Cuiabá, estrategicamente localizada no bairro Boa Esperança, próximo à Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). “Por muitos anos, o ponto foi conhecido como Mercearia do Seu Manoel; hoje funciona ali o ‘Bar do Comendador Arcanjo Ribeiro’, um dos points do pessoal universitário, conta Mari.
Com a decisão de Lourdes de se mudar, Jocondo construiu uma casa em Lucas. Ali, ele costumava receber os amigos para longas rodas de conversa, carteado, uma pinga, churrascos, vinho e celebrações da vida. Na imponência da casa grande, dona Lourdes organizava encontros mais íntimos, reservados à família e, especialmente, aos netos. E, quando eles chegavam, a casa se transformava em festa.
“A Amanda é a mais velha e gosta de bolo de cenoura, então ela fazia esse bolo. Depois vinha o Bruno, que preferia bolo de coco, e ela fazia também. No fim, havia um sabor de bolo para cada pessoa. Era assim que minha mãe recebia, acolhia e amava — uma pessoa incrível”, recorda a filha.
Entre as lembranças mais especiais da família está uma viagem ao Sul, onde muitos parentes ainda viviam no Paraná. “Teve uma vez que fomos a um casamento em Laranjita. Na estrada, encontramos um vendedor de vassouras. O pai parou a caminhonete e perguntou o preço. O moço respondeu que tinha dez vassouras e que custavam cerca de R$ 25 cada”, conta Mauri, sorrindo.
Jocondo então ofereceu R$ 20 por unidade e levou todas. “Depois, a cada parente que visitávamos, ele pegava uma vassoura e dizia: ‘te trouxe um presente; agora tu me dás alguma coisa em troca — um queijo, umas bolachas pintadas’”, ri o filho.
Conhecendo bem Jocondo, os parentes riam, agradeciam o presente e atendiam ao pedido, certos de que ele continuava sendo a mesma pessoa simples, com os mesmos gostos de quando havia vivido ali. E assim, entre risos e trocas, iam se multiplicando as histórias sobre Jocondo.
O grupo crescia, assim como os negócios. Naquele momento, Marli e Mauri estavam em Alta Floresta; Mariliza, em Cuiabá; e Mari, em Lucas, ao lado de dona Lourdes. Enquanto isso, o pai acompanhava de perto a obra em Sorriso. “Ele dizia que, no Del Moro da Avenida Belo Horizonte, gastou mais com churrasco do que com tijolo. Durante a obra, fazia churrascos para atrair os clientes”, conta o filho.
Atualmente, das 12 cidades em que o grupo está presente, somando 20 lojas no total, Sorriso é o município que concentra o maior número de unidades. São cinco ao todo: o Del Moro da Avenida Belo Horizonte, inaugurado em 2003; a antiga unidade do supermercado Rovaris — hoje Del Moro da Avenida Brescansin, adquirida em 2014 —, além das demais inaugurações posteriores.
“Em 2019, essa unidade sofreu um grande incêndio. Nunca imaginei que a cidade nos acolheria daquela forma: as pessoas vieram espontaneamente nos ajudar — colaboradores, clientes. Outros empresários nos acudiram, enviaram caminhões-pipa e equipes para auxiliar. Os bombeiros foram incansáveis, e a Prefeitura também nos deu apoio. Sorriso nos abraçou naquele 24 de abril de 2019, e somos profundamente gratos por isso”, destaca Mauri.
Ainda em 2019, o grupo inaugurou o Atacarejo DelNorte e o Centro de Distribuição (CD) do Grupo Del Moro, que funciona em anexo. Mais recentemente, em 2023, foi inaugurada mais uma unidade, ampla e moderna, localizada no bairro Rota do Sol.
O Centro de Distribuição era um sonho antigo de Nei. “O tio sempre dizia que precisávamos montar um CD para centralizar as compras em um único CNPJ, ganhar poder de negociação, obter melhores preços e, a partir daí, distribuir os produtos para todas as unidades. Ele era visionário, um empreendedor nato, e esse CD representa a realização de um de seus maiores sonhos”, reflete Mari, emocionada.
Com a voz embargada, ela acrescenta que, infelizmente, Nei não chegou a ver o projeto concretizado. Coube aos sobrinhos transformar esse sonho em realidade. “Concretizar essa meta também foi uma forma de homenagear o legado dele: a dedicação, a força e a pessoa incrível que foi o nosso tio Nei, o ‘lindo’”, completa, sorrindo.
Mari conta que a perda de Nei afetou profundamente Jocondo. Antes disso, porém, ele já havia enfrentado outro duro golpe. Lourdes viajara para Santa Catarina para o casamento da sobrinha Karina, filha de Mário. Naquele período, Mari — casada com Donato Cinto — estava grávida de três meses e havia sofrido um descolamento de placenta. Por recomendação médica, permaneceu em Lucas, enquanto os pais fizeram a viagem.
Ao retornar, Lourdes foi visitar a filha no quarto. Queixou-se de dor, mas afirmou ser algo leve. Atenta, a sogra de Mari, Hélia, confidenciou à nora que a dor da dona Lourdes era, na verdade, intensa.
“Minha sogra disse que ela vinha me ver, mas, ao sair do quarto, gemia de dor. Mesmo muito debilitada e expressamente proibida de sair da cama, sob risco para mim e para a bebê, levantei-me como pude e fui ao quarto pedir que ela fosse ao hospital. Eu estava fragilizada, sem saber se conseguiria levar a gravidez até o fim. Liguei para o Mauri — por sorte ele estava em Lucas — e ele a levou ao hospital”, relata.
Naquele período, Mauri morava em Sorriso. Foi ele quem levou a mãe ao médico, e, diante da gravidade do quadro, Lourdes foi imediatamente transferida para Cuiabá. Era uma quinta-feira. No domingo, 27 de maio de 2011, dona Lourdes faleceu.
Ciente da fragilidade da esposa, Donato retirou todos os telefones do quarto para poupá-la da notícia. No entanto, esqueceu-se do celular. “Ele tocou, e era meu tio Mário, do Sul”, recorda Mari. Em prantos, Mário pedia à sobrinha que dissesse ser mentira que a irmã havia partido. “Foi assim que descobri que minha mãe tinha falecido — e eu nem podia sair da cama para tentar salvar minha filha”, emociona-se.
Diante da situação, Jocondo providenciou para que o velório de Lourdes fosse realizado na casa de Mari, permitindo que a filha pudesse se despedir. Sete meses depois, em 22 de setembro de 2011, Mari deu à luz Maria de Lourdes — a neta que dona Lourdes não chegou a embalar, mas que carrega seu nome e foi, naquele momento de luto, um sopro de vida e salvação para a mãe.
“Quando completaram 46 anos de casados, ela colocou na cabeça que queria uma festa. E fizemos. No fundo, acho que ela sentia; algo soprava no coração dela que seria assim. Graças a Deus, fizemos a festa”, consola-se Mari.
As bodas de alabastro são representadas por um mármore translúcido, conhecido por sua beleza e delicadeza, símbolo da força e da luminosidade de uma união construída ao longo de tantos anos. Para os filhos, era a definição perfeita da relação dos pais.
O baque foi grande para Jocondo. Quem segurou as pontas naquele momento e lembrou o irmão e os sobrinhos de que era preciso seguir adiante foi Nei. “Ele nos trouxe para dentro do grupo, mostrando que a vida continuava e que precisávamos reagir”, lembra a sobrinha.
Quando Jocondo começava a se recompor, o destino voltou a surpreender a família: em 13 de abril de 2005, Nei faleceu repentinamente. Cardíaco, o irmão mais novo partiu de forma inesperada. “Meu pai se acabou”, resume. Coube, então, aos filhos assumir o papel que antes era de Nei e chamá-lo de volta à vida. “Também precisávamos ser o esteio dos nossos primos e seguir adiante, tirar do papel o sonho do tio Nei”, reforça Mari.
“Hoje, acho que o nosso Nei, a nossa voz equilibrada, é o próprio Felipe”, acrescenta. Filho mais novo de Nei, Felipe é o responsável pela área jurídica do grupo. Mari reconhece em si traços do pai — e do tio de Felipe —, especialmente o gosto por pranchetas, obras e projetos.
“Se me largarem, eu mergulho nesse universo; o Mauri, a Marli e a Mariliza é que me puxam de volta”, brinca. Além de Felipe, Nei era pai de Paula e Camila. Paula atua no setor de recursos humanos do grupo, enquanto Camila seguiu outros caminhos, fora das empresas da família.Parte superior do formulário
Jocondo foi quem apresentou o universo do carteado à neta mais nova. “Canastra, bisca, truco. Ele ensinou tudo para a Maria de Lourdes. Com os netos, pôde ser uma presença muito mais próxima e marcante; na nossa época, trabalhava demais”, reflete a caçula.
“Teve uma vez, em Tapurah, em que eu estava dirigindo e ele me pediu para parar em um boteco. Ele havia reconhecido um amigo dos tempos do Paraná”, relembra.
No campo dos negócios, Jocondo acompanhava de perto a trajetória de Pedro Sangaletti, que havia solicitado a Recuperação Judicial do Grupo Casa Aurora em 2016. Torcia pela retomada do amigo — objetivo que o grupo conseguiu alcançar em 2020. Assim que a Casa Aurora se reergueu, decidiu-se pela venda da empresa.
Havia, porém, uma condição inegociável: Pedro só venderia a marca para Jocondo; caso contrário, preferia encerrar as atividades. No fim de 2020, os dois acertaram o negócio de compra e venda. Em março de 2021, a proposta foi apresentada aos credores.
Contudo, em 15 de março de 2021, Pedro passou a apresentar sintomas de Covid-19. A família viveu dias de angústia diante da escassez de leitos hospitalares. Quando finalmente conseguiu ser internado no Hospital Santo Antônio, em Sinop, Pedro precisou ser entubado. No entanto, em 4 de abril de 2021, não resistiu. Jocondo chorava, mais uma vez, a perda de alguém profundamente significativo em sua trajetória.
Em maio, a assembleia de credores aprovou a venda da Casa Aurora. Em agosto, faleceu Bépi — pai de Pedro e de Aurora, a menina que deu nome ao grupo fundado por ele —, aos 90 anos de idade. No mês seguinte, em setembro de 2021, a direção da Casa Aurora passou oficialmente para o Grupo DelMoro.
“Não há nenhuma cláusula contratual, mas ficou acertado que meu pai manteria o nome Casa Aurora. Para nós, essa é, no fundo, a principal cláusula: jamais cogitamos trocar o nome.
A história da Casa Aurora continua e é única, assim como a história de vida e de amizade do meu pai, do Pedro e do Bépi”, reforça Mari.
Um brinde ao vinho
Foi assim, depois de uma sequência de perdas e tristezas, que os filhos organizaram uma homenagem que se tornou o grande orgulho de Jocondo. “Pensávamos em formas de alegrá-lo; foi então que surgiu a ideia do vinho. Entramos em contato com a Vinícola Capeletti e encomendamos um rótulo exclusivo: o vinho Jocondo. Ele não sabia de nada”, lembra Mauri.
No dia do lançamento, em 2021, o brilho no olhar de Jocondo voltou com intensidade. “Ele dizia que, naquele momento, sua história de vida havia sido honrada”, completa.
A própria história da vinícola estava ligada à dele – da época em que vendia vinho sem rótulo. “Então começou a fiscalização e seu Capeletti disse que iria fechar, pois não tinha como regulamentar. O pai falou: ‘te empresto o dinheiro, tu regularizas e depois me pagas em vinho’”.
E assim foi feito. Por isso, quando pensaram em homenageá-lo, Mauri já sabia quem iria produzir e engarrafar o vinho Jocondo: a vinícola Capeletti de Caxias do Sul (RS). O vinho Jocondo, lançado em 2021, é embalado em garrafas de 750 ml e oferta as opções de tinto seco Merlot, tinto fino seco Cabernet Sauvignon e tinto de mesa suave e seco Bordô.
O vinho foi premiado com o selo de ouro na 15ª edição da Seleção de Vinhos de Farroupilha (RS). Esta seleção, realizada no Rio Grande do Sul, reconhece anualmente os melhores vinhos, espumantes, frisantes e sucos. O feito foi repetido em 2022, 2023 e 2024, consagrando a história do homem que lhe emprestou o nome.
A mão de Jocondo se estendeu para outros parceiros. Além dos Capeletti, a mesma proposta foi feita aos proprietários do Arroz Rampinelli, amigos do Rio Grande do Sul. “Te ajudo, tu embala e eu vendo no Mato Grosso”. Proposta aceita, as cargas do Rampinelli chegam fechadas ao grupo DelMoro. A bolacha De La Serra também recebeu o apoio. “Ele dizia que era uma bolacha pintada muito boa para só ele comer e foi lá oferecer apoio; todas as nossas lojas têm a bolacha pintada De La Serra”, orgulha-se Mari.
Jocondo tinha orgulho em dizer que todos os filhos estudaram: Marli fez Administração e Contabilidade; Mariliza, Engenharia Florestal; Mauri, Administração e Mari, Economia. Ele tinha cursado até a 4ª série, para como na música de César Passarinho, “aprender a fazer contas e algum bilhete escrever”. Colono, cuidador e artesão da terra, se tornou o dono da maior rede de supermercados do médio e do norte de Mato Grosso.
Marli continua morando em Alta Floresta, e é mãe de Bruno e Isabela. Mariliza reside em Sorriso e é mãe de Maria Eduarda. Mauri, em Lucas com mudança para Sorriso. Ele é pai de Amanda, Mateus e Gabriela. Mari, também escolheu Sorriso para criar Maria de Lourdes.
Em 2023, ainda sob os efeitos da pandemia, Jocondo passou mal. Cardíaco, assim como o irmão Nei, precisou passar por uma cirurgia para implante de marcapasso. “Mas tudo estava parado por causa da pandemia.” O patriarca chegou a permanecer três meses internado em São Paulo, no Hospital Albert Einstein. “Ele tinha medo de morrer.”
Durante todo esse período, foi acompanhado de perto pelos filhos e netos. Chegou a ser entubado e, depois, extubado. Mesmo fragilizado, mantinha seu jeito afetuoso e generoso. “Para todo mundo ele perguntava: ‘tu tomas vinho?’. Se a resposta fosse sim, abria um sorriso; se fosse não, dizia: ‘então vai dar para alguém, porque tem um vinho com o meu nome e tu vai ganhar uma garrafa’.”
Foi assim que liguei para o Agnaldo, que trabalha em uma das lojas de Sorriso, e pedi que enviasse para o nosso box na Ceasa, em São Paulo, uma caixa de cada vinho”, lembra Mari. No hospital, Jocondo distribuiu seu vinho a médicos, enfermeiros, faxineiros, zeladores, cozinheiras e pacientes. O hospital inteiro foi alcançado pelo gesto. Em troca, recebeu sorrisos e carinho.
“Ele lutou muito, mas houve um dia em que disse: ‘o pai cansou’. E nós respondemos: ‘pode ir, pai, vai em paz, nós ficaremos bem’. Trabalhamos juntos a compreensão de que havia chegado a hora de partir.”
Jocondo escolheu a sexta-feira, 10 de novembro de 2023, para se despedir. Tinha 82 anos e foi sepultado em Lucas do Rio Verde, ao lado de sua dona Lourdes.
“Quando me passou o bastão ele disse: ‘agora é contigo’. E eu respondi: ‘pai, o senhor construiu tudo isso, eu só quero ter a sabedoria de manter, não quebrar e honrar seu nome’”, se emociona Mauri. “A Marli mora longe, não teria como estar aqui hoje”.
Mari relata que hoje as empresas são geridas por uma diretoria. Muitos dos primos participam da administração. Mauri é o presidente. As irmãs e sobrinhos integram vários dos conselhos – os primos também. “Cresceu demais, meu pai nunca imaginou. Eles iniciaram sozinhos, eram ele e minha mãe. Hoje são mais de 4 mil funcionários. Quando ele foi passar o bastão, eram mais de 3,7 mil, ele se espantou quando falei o número”, salienta o filho. Mari diz que eles buscam levar o exemplo do pai adiante.
“Se alguém aqui precisar de uma mão estendida, sempre terá. Muitas vezes não conseguimos enquanto CNPJ, mas como mais de quatro mil CPFs unidos somos emoção, equilíbrio e razão”. A mistura de Jocondo e Nei.
“Hoje, o grupo atua no mercado com três marcas”, diz Mari, ao citar o DelMoro, o Atacarejo DelNorte e a Casa Aurora. Está prevista ainda uma homenagem a Jocondo na fachada da nova unidade do Del Moro Supermercados em Sinop, com inauguração estimada para 2026. Batizada de Loja do Joca, a unidade comercializará exclusivamente produtos da marca DelMoro. No espaço central, em destaque, brilharão os vinhos Jocondo. Em tudo, um brinde à vida.
