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1990
Uma função linear
Essa é uma história que perpassa várias cidades, estados e mais de uma região brasileira. Em todos os pontos de chegada e partida o que há em comum é a força de vontade de fazer dar certo. Esta é parte da história da família Cella e um pouco do cenário que trouxe os Cella para Sorriso, no Mato Grosso. A história, que inicia no Sul, tem vazão hoje com uma empresa sólida e com mais de 20 anos no mercado, a Linear Consultoria e Projetos
Dalírio Cella tem 84 anos. Nasceu em 15 de novembro de 1941 na então comunidade de Campestre, interior de Sobradinho (RS). O cenário da infância de Dalírio é uma casa toda feita de pedra com porão bem ventilado e uma varanda de onde se via o horizonte largo. Filho de Augusto Cella e Úrsula Puntel Cella, o menino foi criado habituado ao trabalho manual da família: o avô, um homem de visão muito além do seu tempo, era produtor rural, produzindo fumo, milho, pecuária, suinocultura, parte do milho era para alimentar os animais da família também era comum. No porão, blindado pelas grossas paredes de pedra, havia de tudo: salame, queijo, vinho, melado, açúcar mascavo, cachaça, a graspa, também conhecida como grappa e a carne bem guardada e acondicionada nas latas de banha – na época, os animais eram abatidos, a carne cozida e guardada acondicionada em latas de banha para manter a qualidade e o sabor; não havia a comodidade da eletricidade e ou da geladeira, mas a visão de Augusto ia muito além: o fumo plantado era transformado em fumo em corda (processo industrial artesanal), embalado, vendido e entregue pela própria família no comércio interestadual. Augusto também tinha uma madeireira tocada pela queda de agua – ou roda d’água - que permitia a extração e a transformação da madeira para a construção.
“Aquele porão era uma fartura que só. Chegava a hora de fazer o almoço era só descer, tinha de tudo... além do salame, do vinho, do queijo que eram todos feitos em casa, tinha frutas, verduras e a carne”, relembra Dalírio. “O porão, com suas paredes largas de pedra era a própria geladeira que tínhamos, dentro o ambiente era muito agradável tanto no inverno quanto no verão. A casa toda era protegida pelas enormes paredes de pedra”, completa.
E Dalírio foi crescendo em uma família que reforçava que “tudo o que se planta, dá”. Bastava cultivar e cuidar. Na vila de Sobradinho, cerca de sete quilômetros da comunidade em que morava, foi aluno da professora Amélia Borim e da irmã Cleci e frequentou até o 4º ano. A distância era percorrida a cavalo. Dalírio também frequentava, o terço, a missa todos os domingos e as festas da igreja.
Aliás, foi em uma das quermesses de São João que um jovem Dalírio pediu benção para o santo e uma mãozinha para encontrar a futura esposa. “Naquela época, quando alguém tinha interesse em outra pessoa mandava cartinhas; eu tinha recebido cartinhas de umas quatro moças diferentes, mas não tinha sentimentos por nenhuma e por isso não respondi. Naquele dia, eu tinha ficado encarregado de acender a fogueira da festa. Antes de acender eu pedi: ‘Santo Antônio, me mostre qual deve ser a minha esposa’”. Pedido feito, fogueira acesa. “Quando olhei para o lado, ainda com as chamas crepitando, eu a vi: não era nenhuma das moças que já tinham me escrito; vi o quanto era bonita e me olhava de canto e pensei: é ela!”. A moça era Arnelda Turcatto, filha dos vizinhos da família com quem inclusive ele havia crescido, mas nunca a havia visto com olhos enamorados. “Conversamos, dançamos e no fim da festa, de tardinha, fui embora acompanhando ela. Pedi se ela gostaria de namorar comigo, ela riu e disse que estava só esperando a proposta”. Assim, em frente ao sítio vizinho e com as bençãos de São João, Dalírio já se despediu da agora namorada entregue na porta de casa e seguiu adiante para a casa dos pais. Quase quatro anos depois daquela tarde, em 25 de maio de 1964, Dalírio e Arnelda se tornaram marido e mulher. É nesse contexto, vivendo na comunidade em que haviam nascido que o casal recebe o primeiro filho: Airton nasceu em julho de 1967 em Sobradinho.
Em 1972, a vida da família passa por uma guinada com uma primeira mudança. Desta vez, o destino era Caibi (SC). Se antes a produção era voltada para o fumo em corda, agora nos 113 hectares do solo catarinense, Dalírio abria a mata e formava pastagens, construía cercas, acompanhava partos das vacas, cuidava de bezerros, agora era produtor de gado.
E foi em Santa Catarina, em 1975, que nasceu Alencar, o segundo filho do casal. “Ele nasceu em Palmitos porque em Caibi não tinha hospital”, ressalta o pai. “As duas gravidezes foram planejadas e os dois filhos muito esperados, eu e a Arnelda tínhamos feito um curso com um médico, ele tinha nos ensinado a planejar a gravidez, nossos filhos foram muito desejados”, conta o patriarca. E já naquela época, ainda em Santa Catarina, o casal participava de cursos de preparação para o casamento como palestrantes e ensinavam como estruturar e planejar uma família.
E a vida segue seu curso, até a família receber o aviso de que o pai de Arnelda havia falecido. Fragilizada, a sogra de Dalírio se muda para Caibi para passar um tempo com a família. “Mas ela também ficou doente, então vendi tudo o que tinha em Santa Catarina e voltamos para Sobradinho”, diz. O ano era 1986. Os 113 hectares comercializados no estado vizinho renderam 50 em Salto do Jacuí, município vizinho à Sobradinho.
Uma nova rota
Com Airton e Alencar ajudando na lavoura, tudo seguia seu curso natural. Airton terminou o ensino médio e foi cursar direito. Alencar continuava os estudos em Sobradinho, onde concluiu o ensino fundamental. Já o segundo grau seria em outra cidade, outro estado. O pai tinha muita amizade com um despachante de sobrenome Vendrúsculo, que era o responsável por apresentar e revender terras no Mato Grosso. Foi nesses termos que, em 1989, Dalírio conheceu Sorriso. De uma família de 13 irmãos, Dalírio havia feito uma sociedade com quatro irmãos mais velhos. Por meio de Vendrúsculo, os Cella haviam adquirido 800 hectares de terra na nova área; desse total, 200 eram de Dalírio.
Na sequência, Airton recém-formado fala para o pai que também vai conhecer Sorriso. “Eu falei: ‘procura o De Bona, ele tem o Hotel São Miguel instalado nessa cidade, ele vai te dar apoio’”, orientou o pai. De Bona era um dos vizinhos de Sobradinho que já havia se aventurado no Mato Grosso. Seguindo o conselho do pai, o rapaz partiu de ônibus para o desconhecido. No bagageiro, uma mala de livros do advogado recém-formado. “Ele veio, gostou e disse que não voltaria mais”, relata o pai. Estabelecido, logo Airton comprou uma casa de madeira nas proximidades da Área Verde Central. Com a residência já garantida, atrás dele, em 17 de julho de 1990, desembarcou em Sorriso toda a mudança da família Cella. Dalírio veio para destocar e tocar a área recém-adquirida pela família. Como eram as férias escolares de julho, Alencar deveria conhecer a nova casa e retornar ao Rio Grande do Sul para estudar – coisa que nunca fez. O diploma do ensino médio do mais novo dos irmãos Cella foi expedido pela Escola Estadual Mário Spinelli, de Sorriso.
“Dessa época lembro que o pai ficava longos períodos afastado na lavoura, enquanto estávamos na cidade. Todo mundo trabalhava muito. O Airton no escritório, minha mãe em casa e envolvida com os projetos da igreja, ela deu catequese por mais de 40 anos e, eu cheguei e já fui procurar emprego e estudar”, pontua Alencar. O primeiro emprego registrado dele, com carteira assinada, foi na Rádio Sorriso. Na sequência, trabalhou em um escritório de engenharia civil, a entrada era por uma floricultura.
“Hoje vejo o quanto meu pai foi desbravador. Dos quatro irmãos, ele foi o único a se aventurar em uma nova região pela segunda vez”, frisa Alencar. “Abriu mão de uma estrutura toda montada com a família do vô para construir sua própria história, primeiro desbravando Santa Catarina e depois Mato Grosso, em Sorriso”, pontua o filho. Seu foco era trabalhar, prosperar, escolher uma região que teria uma possibilidade de futuro melhor para ele e principalmente para a família. Sua escolha de buscar novos horizontes tinha um objetivo muito claro: ir para um lugar com futuro e que eles pudessem ficar junto aos filhos o que deu certo. Habituados ao ritmo do interior e da lavoura, Sorriso não foi muito diferente de onde viviam, exceto o barulho constante dos geradores de energia e dos longos períodos sem ela.
Foi vendo a vocação agrícola da cidade e a ligação do pai com a terra que Alencar optou por cursar Agronomia na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), em Cuiabá. Na capital ele sentiu a diferença. “Foi quando tive o choque de ver, estar e viver em uma cidade grande”, diz. “Quando fui fazer vestibular o método de escolha da faculdade foi por eliminação, selecionei o que eu não queria e que no fim sobrou Agronomia, que no fundo, era o que estava dentro da realidade que eu vivia”, conta. Enquanto cursava a faculdade, o jovem aproveitou para viver muitas experiencias diferentes, mas bem orientado, por ótimos professores, se preocupou em linkar o ensinamento teórico que era repassado, com a prática que lhe era familiar, aproveitando todas as oportunidades para fazer estágios, acompanhar professores e seu afazeres privados, aproveitando finais de semana, férias e períodos que a Universidade tinha greves.
Sob linhas estruturadas
Formado em meados dos anos 2000, o agora agrônomo retorna à Sorriso. Por quase quatro anos trabalhou como colaborador e sócio em outra empresa até abrir o próprio escritório em abril de 2003. Assim, nasceu a Linear Consultoria e Projetos Ltda que iniciou os serviços atuando nos setores de topografia, ambiental e fundiário promovendo a regularização das propriedades rurais e urbanas em Sorriso e região. “A Linear é resultado também do aprendizado que recebi na faculdade, mas muito mais pelo incentivo de alguns professores que nos impulsionavam a trilharmos um caminho diferente, o caminho do empreendedorismo”, detalha. Pois naquela época, o melhor trabalho e as vagas mais disputadas dos agrônomos recém formados era ingressar em uma multinacional de defensivos agrícolas, era ser ‘veneneiro’. “Em especial, tive um professor que dizia: não saiam daqui para ser ‘veneneiros’, não se iludam com concursos e cargos públicos; há muito mais lá fora, vão empreender. Se planejem para no mínimo trabalhar dez anos para aprender, pois o conhecimento não é simples e nem barato, precisa de muito esforço, dedicação e persistência”, relata. Alencar saiu da faculdade tendo como premissa fazer algo diferente e empreender e que se fizesse tudo certo, depois dos dez anos teria bons retornos. “Ainda na faculdade eu sabia que não seria fácil, mas eu iria empreender”. Ele até chegou a ter uma passagem pelo poder público como secretário de Cidade e Planejamento durante um ano, mas a iniciativa privada e o leque amplo de serviços e produtos que faltava na região foram o que mais chamaram sua atenção para concentrar seus esforços.
Hoje a Linear está consolidada com quatro linhas de negócios:
- Serviços de consultoria e regularização ambiental;
- Serviços de consultoria e regularização fundiária;
- Urbanismo;
- Irrigação;
A consultoria e os serviços ambientais ofertados vão desde a etapa inicial do auxílio da concepção do projeto, seja ele rural, urbano, industrial, comercial ou residencial. “Auxiliamos em todas as etapas, individuais ou agrupadas, discutimos possibilidades, soluções, aplicações, enfim acompanhamos os nossos clientes para que possam pôr em pratica seus projetos de forma planejada e dentro das legislações ambientais vigentes, e ou se já existentes, auxiliamos para o caminho da legalidade de forma planejada e de possível execução dentro de um cronograma físico financeiro, além de lançar mão de outas ferramentas que temos disponíveis na empresa com a gama de profissionais e equipamentos, garantindo os resultados esperados, pois o nosso maior foco está no acompanhamento de nossos clientes, prezamos por relações duradouras. Vamos desde um CAR, Licença Prévia, de Instalação, de Operação, Outorga de água, de resíduos, LAC, Autorização de desmate a Planos de Recuperação Ambiental. Contamos com uma carteira de mais de 1000 clientes de CAR que acompanhamos e mais de 300 empreendimentos licenciados”, explica.
Na consultoria e nos serviços de regularização fundiária não é diferente. A equipe atua desde o estudo para aquisição de áreas, com laudos técnicos de estudo com cruzamento e conferência dos documentos e sua correlação com a área de posse referente, evitando deslocamento de área, cruzamos com a legalidade ambiental e possibilidades de empreendimentos sobre a mesma. Com equipe de topografia própria altamente equipada, desde GPSs Geodésico com precisão em tempo real RTK, RTX até Scaner a Lazer embarcado em drone para ortofótos ou nuvens de pontos topográficos para altimetria, sendo possível levantamentos planialtimétricos de altíssima precisão em áreas de mato sem a necessidade de intervenção na área.
Aliada a equipamentos e equipe técnica de levantamento de dados, há a oferta de vários produtos como georreferenciamento, medição de áreas, demarcação de lotes e fazendas, desmembramentos, unificação de áreas, projetos e demarcações de chácaras, demarcação de obras civis, loteamentos, barragens e afins. Até o momento são mais de 500.000 hectare de terra georreferenciada pela Linear e sob responsabilidade técnica da empresa.
O time de urbanismo, composto por profissionais da arquitetura também lança a mão toda a infraestrutura técnica existente na Linear visando o melhor planejamento urbano, tanto em Masterplans, estudos de viabilidades ou em loteamentos urbanos ou rurais e condomínios, usando dos levantamentos topográficos próprios tanto para o projeto quanto para a implantação. Já o time da ambiental é voltado à legislação ambiental, e a equipe da regularização fundiária trabalha para garantir a regularidade da área que será transformada de fazenda para lote ou hectare para metros quadrados urbanizáveis, desde o projeto até a implantação. “Nosso time técnico já conta com mais de 8.000 lotes registrados em mais de 15 loteamentos aprovados e executados”, comemora o empresário.
Compondo a Linear há ainda uma equipe exclusiva de engenheiros, técnicos e montadores para levar soluções completas de irrigação, seja ela rural ou urbana, corporativa ou privada. O time é focado desde o levantamento da área, análise da planta baixa, projeto, desenvolvimento do cálculo hidráulico e planejamento da distribuição e aspersão da água através da irrigação, até a implantação dos sistemas de irrigação personalizada para cada situação, podendo ser comercializado o conjunto ou individualmente os projetos. Ou, ainda produtos como conjunto de bombeamento, quadros elétricos, tubulação, aspersores e eletroválvulas com tudo instalado e com acompanhamento da assistência técnica e manutenções preventivas e corretivas para garantir a longevidade dos sistemas comercializadas e montadas.
“A Linear projeta e instala mais que sistemas de irrigação, proporcionamos saúde e qualidade de vida as pessoas”, pontua o empreendedor.
Pessoalmente, Alencar também criou raízes em Sorriso. “Essa cidade faz parte da minha história”, diz. “Foi em Sorriso que conheci meus melhores amigos, que me integrei na sociedade participando em entidades de classes, clubes de serviços como o Rotary Club que integro a mais de 25 anos, igreja e outras agremiações, também foi aqui que conheci minha esposa, Patrícia, odontóloga, também migrante de Amambai no Mato Grosso do Sul”, relata. Especializada em implantodontia, Patrícia tem um consultório localizado na Avenida Blumenau, n.º 3915, em que exerce sua profissão ativamente. “Nos casamos em 16 de novembro de 2007 e tivemos o primeiro filho Matheus nascido em 29 de março de 2011 e nosso segundo presente foi a Sophia que nasceu no dia 06 de agosto de 2013”, conta.
“Assim como o exemplo familiar dos meus pais, a minha família, sem sombra de dúvidas é o fator que mais contribui para o contexto feliz que vivemos, equilibrando evolução pessoal, crescimento empresarial, melhoria na qualidade de vida, a harmonia da família e com a comunidade ao entorno para seguir evoluindo mesmo em tempos diferentes e difíceis que vivemos”, avalia.
Recentemente, em 2019, o campo empresarial de Alencar foi ampliado. O empresário avançou para uma nova empresa, um novo ramo de negócio, na área de geração de energia fotovoltaica e soluções energéticas focada na viabilidade econômica. A nova área passou a ser explorada a partir de um convite inesperado do empresário José Baggio, que é referência mundial em comércio e assistência de máquinas agrícolas da Jhon Deer, e proprietário da Agro Baggio com mais de 40 anos de mercado. “Foi uma agradável surpresa”, recorda Alencar. Soluções ambientais e sustentáveis sempre estiveram presentes no dia a dia de Alencar. Com a proposta, iniciou-se um período de muitos estudos, análise de mercado, o público alvo, a sinergia entre os clientes da Linear, da Agro Baggio e o da nova empresa, escolha de produtos, serviços e soluções que seriam necessários para compor o portfólio da empresa, e o mais importante, a escolha do time que iria compor a nova empresa.
Vencida todas estas etapas nasceu a BC4 ENERGIA com duas linhas de negócio, uma voltada para a distribuição nacional de produtos de geração fotovoltaica que importa direto da China e a outra voltada em entender a necessidade nossos clientes e, como consequência, desenvolver soluções personalizadas para atender suas necessidades, tanto de autoconsumo como de geração de excedentes para a comercialização, assim como a gestão energética dos clientes que possuem várias unidades consumidoras. “Nosso trabalho consiste em analisar, projetar, viabilizar, instalar e acompanhar a manutenção e a geração de cada cliente. Nosso propósito é montar um dos melhores negócios para nossos clientes, onde o cliente consumidor e pagador é ele mesmo, ou seja, a indústria geradora já nasce dando lucro”, explica.
São passos grandes, números expressivos, que nunca passaram pela cabeça do empreendedor que abriu as portas em 2003 com somente três funcionários – contando ele mesmo. Hoje, apenas 21 anos depois, mais de 80 profissionais integram a equipe das duas empresas. “São mais de 80 famílias diretamente impactadas pelas nossas decisões e além dos colaboradores, nossos clientes também são diretamente impactados pelo nosso trabalho e pelas decisões que tomamos”, diz. Por isso, a precisão em cada detalhe com o trabalho humano linkado a ferramentas de ponta, como o uso de tecnologia embarcada em equipamentos e equipes em constante treinamento.
Para Alencar, não há segredos ou fórmulas mágicas e, sim muito trabalho, dedicação e respeito às pessoas. “Os desafios e as oportunidades foram surgindo e nós fomos abraçando; prospectei o mercado e a partir de várias análises realistas fui identificando os campos de investimento e quais serviços poderia agregar as atividades que nós já ofertávamos, complementando os serviços e produtos, e principalmente ouvindo os principais envolvidos no processo, que são nossos clientes, buscando resolver seus problemas e buscar bons resultados para ambos sem esquecer um pilar fundamental ou indispensável que é a equipe que compõe as nossas empresas, aos quais sou muito grato por estar com nós e construir juntos os degraus do presente que nos move para o futuro com os mesmos princípios”.
Ao ouvir o filho, seu Dalírio destaca que tem um imenso orgulho da trajetória que tanto Alencar quanto Airton construíram. “Ambos sempre foram muito dedicados, estudiosos, trabalhadores, eles têm muito da mãe deles”, conta. Sobre Airton, ele faz questão de contar que o rapaz que chegou com as malas cheias de livros, hoje é um advogado renomado. Airton é casado com Márcia Cella e pai de Hany, Aixa e Nayon. A história familiar dos Cella se une à da cidade.
Seu Dalírio diz que é feliz na cidade que escolheu viver. O trabalho na terra precisou abandonar devido a problemas de saúde. Com a voz baixa e o olhar cheio de gratidão, conta que há seis anos, em 2019, Arnelda se foi. “Foram 53 anos de um casamento harmonioso com muito companheirismo, amor, entrega e cuidado um com o outro, com nossos filhos, netos. Além disso, Arnelda era presença constante na comunidade, dava cursos de crochê, tricô, bordado, foi catequista por mais de 40 anos. Uma mulher única, forte, incrível”, salienta. “Vim para cá há mais de 35 anos, auxiliei na construção dessa cidade e tenho certeza de que daqui não saio. Arnelda está aqui e, um dia em outro plano nos reencontraremos, mas até lá, tenho muito o que viver com meus filhos, com meus netos, minhas noras, as amizades que construí aqui e aquelas que trago de longe”, sorri, grato aos dias que passou, à vida que tem e ao futuro que prevê pela frente.
CEO da Linear e da BC4, Alencar acrescenta que já conheceu várias culturas diferentes, exóticas também como a Índia. “Mas Sorriso é meu lar; se o Sul é a origem, a identidade é daqui”, reforça. E é sobre esse chão que ele planta as sementes do futuro. “Meus pais foram aventureiros, deixaram uma vida confortável para trás e nos deram a oportunidade de abraçar um mundo novo; chegamos em Sorriso no momento certo, a cidade foi calorosa, nos abraçou”, reflete. Para ele, Sorriso continua com esse espirito de coletividade onde todos são bem-vindos e esperados para dar continuidade ao desenvolvimento, quer seja humano ou econômico. Recentemente, fechando um ciclo, Alencar adquiriu dos tios o lote de terra que haviam comprado junto com o pai dele quando do início de tudo. “Quem nasceu pra ser tatu, o negócio é cavoucar”, brinca ao citar o adágio popular para reforçar que do aprendizado da infância, com as mãos na lavoura, as raízes continuam latentes. No fim, um agrônomo nato habita o CEO da Linear e BC.
1990
Entre Raízes e Horizontes
A história de Airton Cella, da infância no Sul à construção de uma vida, de uma família e de um legado em Sorriso.
A história da família Cella tem origem na região do Vêneto, na Itália, de onde partiram os primeiros ancestrais em busca de novas oportunidades. Em 1887, a família imigrou para o Brasil, estabelecendo-se inicialmente no Rio Grande do Sul, onde construiu sua base familiar pautada no trabalho, na fé e na união.
Ao longo das gerações, esses valores foram transmitidos com rigor e exemplo. Dalírio Cella, filho de Augusto Cella e Úrsula Puntel, cresceu nesse ambiente de simplicidade e responsabilidade. Casou-se com Arnelda Turcatto, mulher firme, dedicada e profundamente ligada à família.
Dessa união nasceu Airton Cella, em 6 de junho de 1967, em Sobradinho/RS. Desde cedo, a vida no campo moldou seu caráter. A convivência com os avós, o trabalho rural, o respeito à palavra dada e o valor da educação tornaram-se pilares da sua formação humana.
Essas raízes nunca foram esquecidas. Ao contrário, acompanharam Airton por toda a vida, influenciando decisões, escolhas profissionais e o modo de se relacionar com as pessoas e com a comunidade.
Airton Cella é um dos dois filhos de seu Dalírio e dona Arnelda. Aprendeu cedo que o trabalho, a persistência e o estudo poderiam projetá-lo a voos longos. Foi em fevereiro de 1990, que o jovem Cella desembarcou em Sorriso e deu início à uma jornada que o levou à construção de uma família e à consolidação profissional.
Foi em uma fria madrugada de junho de 1967 que Dalírio Cella levou sua esposa, Arnelda, já em trabalho de parto, ao Hospital do Doutor Sebastiani, em Sobradinho, no Rio Grande do Sul. No local, a mãe do médico, que era parteira, foi quem auxiliou Arnelda durante o nascimento do bebê. Dalírio permaneceu o tempo todo ao lado da jovem esposa, segurando sua mão e oferecendo palavras de incentivo. “Ela era muito corajosa”, relembra. Pouco depois das nove horas, Arnelda fez um último e forte esforço, e o pai recebeu o menino nos braços. “Foi assim que Airton veio ao mundo”, recorda seu Dalírio ao falar do filho primogênito, Airton Cella. A mãe sorriu, feliz: o menino era perfeito e havia sido aguardado com muito amor.
Airton cresceu na comunidade de Campestre, interior de Sobradinho, no Rio Grande do Sul, próximo da Casa de Pedra erguida pelos nonos Augusto Cella e Úrsula Puntel Cella, tombada pelo poder público, atualmente fazendo parte da Rota dos Casarões. A casa em que residia era de madeira, ao lado da casa central. “Mas foi no sótão da casa de pedra que guardaram meu berço”, conta Airton. E por ali, o menino viveu uma infância feliz. Ora correndo para o porão da casa dos nonos, ora para a casa dos pais. O porão da casa dos nonos era bem abastecido: salame, queijo e vinho. Próximo da casa, uma horta, muitos pés de frutas e um parreiral, de tudo um pouco havia ali. E claro, até fumo em corda, que na época era o sustento da família. Airton, embora criança, chegou a trabalhar na “destala do fumo em corda”.
Dessa época também, seu Dalírio conta uma história, que o filho não recorda, mas se o pai conta é verdade! Havia na propriedade um galpão cheio de palha de milho e Airton, acompanhado da prima Lisane e do tio Nilton, irmão mais novo de Dalírio, colocou fogo no tal galpão. Era o trio das “artes”, “Airton era o mais novo, tinha menos de cinco anos, foram brincar com fogo sem saber o que era. Graças a Deus, deu tempo de apagar e ninguém se machucou”, frisa seu Dalírio. “Fora isso, nunca me deu trabalho”, acrescenta.
Para Airton, as lembranças de infância estão centradas em Caibi, Santa Catarina. Foi para lá que a família mudou em 1972, logo após seu Dalírio e dona Arnelda trocarem a produção de fumo em corda no Rio Grande pela criação de gado de corte no oeste catarinense. “Dali, eu lembro de tudo”, conta o filho.
Para ir à escola, por exemplo, o menino percorria aproximadamente três quilômetros para estudar no município vizinho de Mondaí. A chegada até a escola era uma verdadeira aventura, com a necessidade de uma travessia um tanto perigosa: Airton seguia a pé e atravessava o Rio Iracema, com mais de oito metros de largura. No local escolhido para o passo, a água chegava até a coxa do menino, quando o rio corria em seu curso normal. Em dias de chuva, subia para a barriga. Como havia mato nas margens do rio, o menino atravessava nu, levando nas mãos a roupa e o material escolar para não molhá-los. “Quando chegava ao outro lado, se secava, vestia a roupa e seguia para a escola”, explica. Nos dias de chuva mais intensa, seu Dalírio carregava o filho nas costas durante a travessia. “A água vinha com força, não dava para deixá-lo sozinho”, relembra. Já nos períodos mais difíceis, quando havia enxurradas, pai e filho atravessavam a cavalo: Dalírio acomodava o menino na sela e os dois seguiam em segurança até o outro lado. “O Airton lutou para estudar, nunca desistiu”. Seu Dalírio se orgulha da história do filho. “Na sala só tinha eu e mais um menino de pele branca, eu de origem italiana e o outro alemã, o restante da sala era formado por alunos de origem negra e, sendo os únicos brancos, nós sofríamos bullying, éramos todos da mesma redondeza, todos da roça. Quem nos defendia era uma professora muito querida, também de pele morena e dona de um lindo cabelo crespo, chamada Luzia Rocha da Silva. Lembro que estudávamos em uma turma multisseriada, com alunos da primeira à terceira série juntos. Eu estava na terceira série e costumava terminar minhas tarefas rapidamente para ajudar a professora, segurando a mão dos alunos da primeira série, que ainda mal sabiam escrever. Airton recorda ainda que, devido ao seu bom desenvolvimento escolar, cursou a segunda e a terceira série no mesmo ano.
Dessa época, pai e filho partilham a lembrança da casa em que a família vivia, no interior do Município de Caibi, SC (galpão, de 10x10 metros quadros), que, além de casa, também era utilizada para armazenagem da produção (milho em espiga – segundo ano, armazenaram mais de mil sacas, em espiga). Do alpendre da casa era possível ver o gado Nelore, se alimentando ao fundo do galpão. “Era uma cena bonita de fim de tarde”, recorda seu Dalírio. Pai e filho também costumavam capinar lado a lado; era com a enxada nas mãos que o pai ensinava e aconselhava o filho a persistir nos estudos. Ele próprio não tivera a oportunidade de continuar na escola e, por isso, sonhava com um futuro diferente para seus filhos.
Assim que completou 9 anos, o menino concluiu o 4º ano e foi residir na cidade de Caibi para cursar o 5º ano. Na cidade, foi acolhido na casa de um parente, seu Alcides Marcon, que, posteriormente, veio a ser o padrinho do irmão mais novo, Alencar, que havia nascido em Caibi em 1975. Na casa do seu Alcides ficou um ano. Foi o tempo do pai construir uma casa naquela cidade, em 1977. Aos fundos do terreno, moravam dois irmãos solteirões – Aurélia e Angelin Vardânega, tios da falecida mãe, Arnelda, que, quando precisava, davam uma olhada no sobrinho-neto, que também os ajudava lavando louça e lustrando a casa (costume do Sul). Mas o menino já se virava sozinho e, aos fins de semana, geralmente uma ou duas vezes ao mês, os pais e o irmão costumavam ir para a cidade para ver se estava tudo em ordem, ou para buscá-lo para que passassem o fim de semana juntos na comunidade, Linha Pindó, que ficava distante 32 quilômetros da cidade. Na segunda-feira a rotina voltava ao normal. Ao redor da casa, construída em um terreno de mil metros quadrados, Airton realizou sua primeira safra aos 12 anos de idade, plantando soja em toda a área do lote. A colheita rendeu meia saca, que o pai vendeu junto com a produção da propriedade para a filial da Cooperativa Regional Arco-Íris Ltda., instalada em Caibi, cuja matriz havia sido fundada em Palmitos, em 1933.
Desde cedo, Airton já se virava sozinho: cuidava da limpeza da casa e lavava suas próprias roupas, embora não preparasse o almoço. Seu Dalírio fornecia carne para uma churrascaria da cidade e mantinha sempre um crédito aberto para que o filho pudesse se alimentar ali.
Naquela época, um grande vendaval atingiu Caibi. Os ventos fortes destruíram parte do armazém da cooperativa, restando apenas a estrutura do supermercado.
Com os produtos expostos ao tempo e os destroços espalhados, a proliferação de ratos tornou-se um problema. Para amenizar a situação, o gerente da unidade, seu Danilo Galon, passou a oferecer uma recompensa de um cruzeiro para cada rato capturado pela gurizada. Para receber o pagamento, era preciso apresentar o animal — embora, às vezes, os meninos mostrassem duas vezes o mesmo rato, como confessa Airton, entre risos: “coisas de moleque”. Ele também recorda que, nessa idade, já costumava fazer pequenos “bicos” nos fins de semana com os amigos para ganhar alguns trocados. Na mesma Cooperativa, em período de safra, auxiliavam na descarga de adubo e ureia, fazendo amizade com os motoristas dos caminhões, onde também passavam horas ouvindo histórias dos caminhoneiros.
Após a experiência da caça dos ratos, Airton foi contratado como “contínuo” pela Cooperativa e teve a carteira assinada aos 11 anos de idade. “Hoje não existe mais uma situação dessa, a legislação trabalhista não permite”, avalia. Contratado, no dia a dia, a função incluía repor as mercadorias e fazer a limpeza das prateleiras do supermercado, em razão do pó. Com o tempo, o gerente foi pegando confiança no menino e passando mais funções. Foi, inclusive, no pátio da Cooper que o menino aprendeu a dirigir em um fusca vermelho. E com 13 para 14 anos, as funções aumentaram ainda mais. Além de controlar o estoque, fazia os pedidos na Matriz, em Palmitos, e assumiu a função de entregador de compras. Com o fusca ele ia de um lado para o outro fazendo entregas. Ele permaneceu na função até completar 15 anos, quando pediu demissão da cooperativa e retornou ao Rio Grande do Sul para continuar os estudos. Passou seis meses fazendo cursinho em Santa Maria e outros seis em Passo Fundo. Naquela época, relembra, não era necessário autorização dos pais para viajar de ônibus.
Enquanto ainda residia em Caibi, nos períodos de férias de julho e dezembro, auxiliava o pai na roça, na Linha Pindó. Conta que aprendeu realizar todos os serviços de roça – auxiliava a mãe, recolhendo os bezerros à noite, para tirar o leite no dia seguinte, limpava a casa, lavava louças e até chegou a lavar as fraldas do irmão. Também auxiliava o pai na capina, nas roçadas, no corte de cana para tratar o gado no inverno, até lavrava com arado puxado a boi de “canga” (Pintado e Mimoso, era o nome dos bois). Conta que, como não tinha força para afundar o arado, colocava seu irmão sentado em cima; que tinha que se cuidar do boi mimoso, porque costumava avançar. Em certa ocasião, o pai chegou a salvá-lo quando ficou prensado contra o chão entre as duas guampas do boi. O animal já havia, inclusive, ferido sua mãe com uma guampada, mas era mantido na propriedade por ser muito forte e útil para o trabalho. Airton também recorda que, naquela época, levou muitos sustos com cobras — jararacas, corais e cobras-novas, as mais comuns — encontradas tanto na lavoura e nas trilhas do mato, quanto dentro de casa, ao redor do fogão. Com o tempo, acabou se acostumando a essas situações.
Na lavoura, enquanto capinavam juntos na plantação de milho nas várzeas, Airton recorda que ouvia frequentemente o pai afirmar que, em sua opinião, as duas melhores profissões eram o Direito e a Agronomia. “Eu dizia isso porque nem eu nem a Arnelda tivemos oportunidade de estudar. Ainda antes de nos casarmos, combinamos que teríamos dois filhos e que eles fariam faculdade. Como homem da roça, eu via o Direito e a Agronomia como boas profissões”, relembra o pai. Em Santa Catarina, a vida seguia seu curso até a família receber o aviso de que o pai de Arnelda havia falecido. Fragilizada, a sogra de Dalírio (nona Luiza) se mudou para Caibi para passar uns tempos com a família. “Mas ela também ficou doente, então vendi tudo o que tinha em Santa Catarina e voltamos para Sobradinho”, diz o pai. O ano era 1986. Na verdade, ela sempre dizia que queria morrer na sua casa, então retornamos para atender ao pedido da avó, acrescenta Airton. Os 04 alqueires comercializados no estado vizinho renderam 50 hectares em Salto do Jacuí, município vizinho à Sobradinho.
Influenciado pelas conversas com o pai e inspirado por uma professora do ensino médio, em Caibi, que também era advogada, Airton começou a considerar a possibilidade de cursar Direito. No entanto, durante os seis meses em que morou em Passo Fundo para fazer cursinho no Gama, sua decisão passou a oscilar. Ele dividia moradia com três jovens da região de Caibi que já cursavam Odontologia, o que acabou despertando seu interesse pela área. Assim, prestou vestibular para Direito na Universidade de Caxias do Sul e para Odontologia em Passo Fundo e Pelotas. Mas, assim que saiu o resultado da aprovação em Caxias – publicado em um jornal impresso, guardado com carinho pelo empresário até hoje -, o jovem nem esperou os demais resultados. Foi de mala e cuia para Caxias. “Lá, precisava de avalista para alugar um apartamento. O pai conversou com uma juíza de Caxias, que era filha de um conhecido de Sobradinho. Ela mesma foi minha avalista”, lembra. Entrou para a faculdade em 1984. Conseguiu Crédito Educativo. Um dos projetos que mais o marcou foi o período em que atuou como estagiário do Ministério Público, na Vara de Família, onde o promotor de Justiça era Luiz Felizberto Bassols, por quem ainda hoje nutre profundo respeito e admiração. Após seu casamento com Márcia, porém, nunca mais teve notícias dele. Airton recorda essa época porque o promotor esteve presente em seu casamento, realizado em Sorriso, acompanhado do colega e amigo Ricardo Roberto Dalmagro, que também foi estagiário no mesmo período.
Quando saiu da Promotoria, foi trabalhar no Banco Sudameris, a convite de seu amigo Airton Valentini, que também lá trabalhava e o apresentou para preencher a vaga de office boy. Conta que quando levou seu curriculum, em 1988, último ano de faculdade, foi questionado pelo gerente se tinha certeza de que queria se sujeitar ao trabalho de office boy, no que confirmou. Três meses depois de contratado, foi promovido a função de Compensador de Caixa. Conta que, todos os dias, antes do horário de fechamento dos Bancos, ele corria pelas ruas da cidade com o malote nas costas para entregar no Banco do Brasil, por conta do horário do fechamento dos malotes. Ficou um ano e assim que conclui o curso de direito, em dezembro de 1989, pediu as contas. O gerente chegou a convidá-lo a trabalhar no Jurídico do Banco, mas preferiu seguir o conselho do pai e iniciar sua carreira em uma cidade pequena, onde poderia crescer junto. Com o valor da rescisão, comprou sua máquina de escrever elétrica, Práxis 20, da Olivetti, que guarda de recordação. “Era o auge da conquista”, lembra.
Concluído o curso de direito, por ter estagiado, conta que foi a última turma beneficiada pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), obtendo o direito de sua inscrição na Ordem sem precisar realizar a prova. Ele conta que sua primeira atuação judicial ocorreu ainda em Sobradinho, no Rio Grande do Sul, quando ingressou com um pedido de retificação de sobrenome. Tratava-se da correção do nome de sua própria família: por um erro de cartório, seu pai, Dalírio, era o único entre os irmãos que registrava o sobrenome Cela com apenas um “L”. Coube a Airton conduzir o processo e realizar a correção oficial do sobrenome.
Quando concluiu o curso de Direito e retornou a Sobradinho, no final de 1989, tudo indicava que Airton Cella seguiria um caminho previsível. Já inserido em um escritório de advocacia, próximo da família, conhecia bem o ambiente e tinha diante de si uma trajetória segura. Era o percurso lógico — e, talvez por isso mesmo, ainda não definitivo.
Naquele momento, já estava estabelecido em sua cidade natal, atuando no escritório de advocacia dos doutores Daniel e Ari Luiz Colombelli, amigos da família, onde iniciava sua carreira profissional.
Foi nesse período que o pai, Dalírio Cella, trouxe uma sugestão que mudaria completamente o rumo da história. Em 1989, Dalírio havia viajado ao Mato Grosso com os irmãos Egílio, Arlindo e Hilário, influenciados pelo amigo Auti De Bona. Conheceram uma cidade jovem, recém-emancipada, chamada Sorriso. Terra nova, oportunidades abertas, futuro em construção.
Por conta disso, seu Dalírio havia comprado, em sociedade com mais três irmãos, uma área de terra, na Linha Tropical, e sugeriu que Airton fosse conhecer – era aqui em Sorriso.
E Dalírio falava de Sorriso com entusiasmo, com brilho nos olhos. Não como quem faz propaganda, mas como quem reconhece potencial. Ao filho, disse algo simples, mas carregado de visão:
“Antes de te firmar por aqui, vai conhecer Mato Grosso. Vai ver Sorriso.”
Airton confiava no pai. Sempre confiou. E decidiu seguir o conselho. “Sempre vi meu pai como visionário, sábio, aceitei o conselho na hora”.
A viagem foi longa, mas compensadora. Em fevereiro de 1990, embarcou sozinho em um ônibus da Viação Medianeira. Foram três noites e quatro dias de estrada, atravessando estados, poeira, paisagens intermináveis e pensamentos silenciosos. Levava consigo poucas roupas e muita expectativa. Não levava ainda a máquina de escrever — essa viria depois, enviada pelo pai, junto com livros e outros pertences.
Chegou a Sorriso no dia 29 de fevereiro de 1990, por volta das 19 horas. Um dia raro, de ano bissexto, quase como um sinal. Desceu próximo ao Posto Xodó, em uma cidade que ainda engatinhava. Ruas de terra, pouca iluminação, energia a motor, comércio simples. Nada lembrava os centros urbanos que conhecera. Mas havia algo diferente no ar: sensação de começo.
Foi direto para o Hotel São Miguel, onde foi recebido por Auti De Bona como se fosse da família. O acolhimento foi imediato. E naquela mesma noite, o filho de Auti, Gilson, fez questão de mostrar a cidade ao recém-chegado.
A Avenida Blumenau, hoje símbolo de desenvolvimento e urbanização, era então apenas uma estrada de barro aberta no meio do cerrado. Gilson, ao volante de um Voyage 1.6 azul Ilhéus, resolveu “apresentar” Sorriso à sua maneira. Entre risadas, deu cavalos de pau na lama da avenida, como quem dizia, sem palavras, que ali tudo ainda estava sendo construído — inclusive as próprias histórias.
Airton observava em silêncio. Aquela cidade não oferecia garantias. Mas oferecia espaço.
No dia seguinte, Auti o levou para conhecer o advogado Dr. Délcio Antônio de Oliveira, que mantinha escritório ao lado da rádio local. A conversa foi direta, franca. Não houve promessas grandiosas. Houve confiança. Em poucos dias, Airton já estava trabalhando com ele, iniciando uma parceria que duraria 27 anos. Lembra Airton que comprou sua primeira mesa e cadeira para o escritório, a prazo, da Loja Estilo Móveis, cujo proprietário Admir Calminatti, mais tarde, veio a ser um dos responsáveis pelo seu ingresso no Rotary e seu padrinho de casamento.
Quase simultaneamente, surgiu outra oportunidade inesperada. Pela intermediação de Gilson, Airton foi apresentado à diretora da Escola Estadual Mário Spinelli, Odila Bortoncello. A escola precisava de professores. Ele aceitou. Começou lecionando Matemática para a 5ª série. Mais tarde, passaria a ministrar Direito e Legislação no curso Técnico em Contabilidade.
Cinco dias após chegar a Sorriso, Airton já advogava e lecionava.
A decisão foi rápida, mas consciente. Ligou para casa e avisou que não voltaria. Pediu que enviassem livros, roupas e a máquina de escrever Olivetti Praxis 20, comprada anteriormente com recursos da rescisão do Banco Sudameris. O pai não hesitou. Mandou tudo. E mandou também dinheiro, pedindo que procurasse uma casa para a família, pois eles também viriam.
A casa escolhida não era grande, nem confortável. Era simples, de madeira, com frestas, piso rústico e pouca estrutura. Mas tinha algo decisivo: a sombra de dois pés de jaca. Ali começava uma nova vida.
Em julho de 1990, Dalírio, Arnelda e o filho Alencar, mudaram-se definitivamente para Sorriso. A família estava reunida. O futuro, aberto.
A partir daquele 29 de fevereiro de 1990, nada mais seria provisório.
A cidade não era mais visita. Era destino.
Os primeiros anos de Airton Cella em Sorriso foram tudo, menos fáceis. A cidade crescia em ritmo acelerado, mas ainda carecia de estrutura básica. Quase tudo exigia deslocamento, paciência e resistência. Para quem chegara há pouco, o desafio era duplo: construir uma carreira e se firmar em uma cidade que também estava se construindo.
Na advocacia, o início ao lado do Dr. Délcio Antônio de Oliveira foi intenso. O escritório atendia demandas variadas, muitas vezes urgentes, de uma população formada majoritariamente por migrantes, trabalhadores rurais, pequenos empresários e famílias que haviam apostado tudo naquela nova fronteira agrícola. As pessoas chegavam com problemas concretos, histórias duras e pouca orientação jurídica. Não havia espaço para superficialidade.
O maior obstáculo, porém, era geográfico.
O Fórum ficava em Sinop, a cerca de 85 quilômetros.
O Cartório de Registro de Imóveis, em Rosário Oeste, a mais de 300 quilômetros.
A Vara do Trabalho, em Diamantino, ultrapassava os 250 quilômetros de distância.
Cada processo significava estrada.
Muitas vezes, Airton saía ainda de madrugada, pegava carona, ônibus ou seguia a pé até encontrar algum transporte. Com o tempo, passou a usar o Gol do pai, que se tornou companheiro constante dessas viagens. Eram dias inteiros na estrada, audiências marcadas para horários incertos, retornos noturnos e, no dia seguinte, atendimento normal no escritório.
Em 1991, chegou a percorrer mais de 100 mil quilômetros em deslocamentos profissionais. Não havia glamour. Havia poeira, cansaço e responsabilidade. Mas havia também a consciência clara de que aquele esforço estava construindo algo sólido.
Paralelamente à advocacia, Airton manteve sua atuação como professor na Escola Estadual Mário Spinelli. O ambiente escolar foi fundamental para sua integração definitiva à comunidade. Começou ensinando Matemática e, depois, assumiu as disciplinas de Direito e Legislação no curso Técnico em Contabilidade, onde permaneceu por cerca de três anos.
A sala de aula aproximou Airton da juventude local, das famílias, dos professores e da realidade educacional da cidade. Não era apenas conteúdo. Era convivência. Em muitas noites, após as aulas, seguia com os alunos até a praça para jogar vôlei, conversar e compartilhar momentos simples. A educação extrapolava o quadro negro.
Foi também nesse período que seu irmão Alencar se tornou seu aluno. A situação exigiu ainda mais responsabilidade e cuidado. Mais do que ensinar matérias, Airton compreendia que estava, de alguma forma, servindo de exemplo — algo que sempre levou muito a sério.
Aos poucos, a cidade começou a reconhecer seu trabalho. Mesmo jovem, recém-formado e recém-chegado, Airton conquistava confiança. Parte disso vinha da postura firme, da palavra cumprida e da disposição de ir até onde fosse necessário para defender quem o procurava. Parte vinha do acolhimento natural de Sorriso, uma cidade onde as relações ainda eram diretas e pessoais.
A nossa casa, simples, escolhida pela sombra dos pés de jaca, tornou-se ponto de apoio. Era ali que a família se reunia, que se discutiam os desafios do dia e que se renovavam as forças. Não havia luxo, mas havia presença. E isso fazia toda a diferença.
Aos poucos, Sorriso deixava de ser apenas o lugar onde Airton trabalhava. Passava a ser o lugar onde ele pertencia. Cada estrada percorrida, cada audiência enfrentada, cada aula ministrada e cada cliente atendido reforçavam essa certeza.
A cidade crescia e Airton também.
A advocacia se consolidava.
E a vida começava a se organizar.
Mas, enquanto o trabalho avançava, outro aspecto fundamental da história ainda estava se desenhando — de forma silenciosa, paciente e definitiva: a construção de uma família.
A história de Airton e Márcia não começou como um romance imediato. Ela nasceu devagar, no tempo certo, construída mais pela convivência e pelo respeito do que por gestos grandiosos. Foi uma história que amadureceu antes de florescer.
O primeiro contato ocorreu ainda no início da década de 1990, quando Airton lecionava na Escola Estadual Mário Spinelli. Márcia Bressan era aluna — discreta, aplicada, atenta e de olho no professor. “Minha amiga era aluna do 5º ano, no Mario Spinelli, e falou que tinha um novo professor de matemática. Todas as alunas ficaram na expectativa. Fui aluna dele por um ano, mas só o olhava da carteira, bem quietinha”, lembra.
Naquele momento, não havia qualquer aproximação além da relação formal entre professor e estudante. Os caminhos se cruzaram, mas seguiram separados.
Enquanto a menina mirava o jovem professor, ele nem percebia. Márcia, uma das cinco filhas do seu Antônio dos Santos Bressan e da dona Joana Oliveira Bressan, era tímida. A menina, natural de Nova Andradina, do Mato Grosso do Sul, havia chegado ao então distrito de Nobres, que era Sorriso, em 1984, com 14 anos de idade. O pai veio para ser o encarregado na Madeireira Sodema. Moravam há cerca de cinco quilômetros do centro. Todo dia um carro da madeireira levava as filhas e filhos de funcionários para a escola. Márcia fazia o percurso desde 1984. Já mocinha, em 1990, se encantou pelo professor, mas manteve a discrição, afinal, era uma aluna. Foi só no ano seguinte, em 1991, na noite da formatura da turma, que Airton percebeu a moça.
O reencontro aconteceu alguns anos depois, em 1991, durante a formatura da turma. Airton estava ali como professor convidado e como irmão de um formando — Alencar. Foi naquela ocasião, em meio à celebração simples, que ele a viu de outra forma. “Fiquei encantado naquela noite, foi o momento em que a vi”. Conversaram, dançaram, trocaram poucas palavras. O suficiente para que algo diferente fosse percebido.
Pouco tempo depois, voltaram a se encontrar casualmente no Mercado Sorriso. A conversa foi rápida, quase despretensiosa, mas abriu espaço para um novo encontro. Combinaram de se ver no fim do ano, durante as festas.
O marco definitivo veio no réveillon do Oásis Clube. Ali, entre música, gente conhecida e a atmosfera típica de cidade pequena, a história começou de verdade. A partir dali, passaram a se encontrar com frequência, sempre de forma simples, sem pressa. Airton faz uma observação: “O Oásis foi o local do início do namoro e da festa de Casamento”.
Em 1992, ela acompanhou o namorado quando ele participou da reativação da Câmara Júnior de Sorriso.
Naquela época, a vida de Airton como jovem advogado em Sorriso era bastante intensa. Ele recorda que, em sua primeira ação de cobrança, conseguiu uma liminar de busca e apreensão de um caminhão pertencente a Admir Zen. O despacho foi redigido à caneta, naquele mesmo momento. Segundo Airton, o juiz, Dr. Elinaldo Veloso Gomes, sequer leu os fatos detalhadamente; apenas afirmou que confiaria em sua honestidade, advertindo que, caso um dia faltasse com ela, jamais voltaria a conceder-lhe qualquer pedido. O episódio ocorreu na então comarca de Sinop, localizada a cerca de 85 quilômetros de Sorriso. Conta que o valor dos honorários ganho dava para comprar um “chevette” na época, mas o jovem guardou o dinheiro e preferiu investir no escritório.
Na sua atuação diária, ia de carona para Nobres, Rosário Oeste e Sinop, locais de sedes dos Fóruns e Cartórios de Registros de Imóveis em que atuava. Luxo era ir de ônibus, às vezes usava o carro do colega, Dr. Délcio. Percorria as estradas entre Diamantino e Colíder para audiências trabalhistas. Por muitos meses, chegou a ir todos os dias, de segunda a sexta-feira, de Sorriso a Colíder. Com a chegada dos pais, se apossou do Golzinho de seu Dalírio. Em um ano, 1991, conta que percorreu 108 mil quilômetros indo e vindo em audiências trabalhistas, em Colíder, e Cíveis, em Sinop. Nunca teve preguiça para nada. Seu trabalho era das 6h à meia noite.
Na vida pessoal, o namoro com Márcia seguia. O namoro foi longo — cinco anos — e construído com paciência. No início, viam-se principalmente aos finais de semana. Márcia ia de bicicleta até a Praça da Juventude, onde conversavam por horas. Falavam de planos, de estudo, de trabalho, de futuro. Não havia ansiedade. Havia diálogo.
Airton sempre incentivou Márcia a estudar. Quando ela decidiu cursar Direito, ingressou na Universidade de Cuiabá (UNIC). Durante esse período, vinha todos os finais de semana de ônibus para Sorriso. Mais tarde, ganhou um Ford Ka, reservado para datas especiais, o que facilitou os deslocamentos. A distância nunca foi obstáculo — era apenas parte do caminho.
O pedido de noivado aconteceu de forma singela, mas carregada de significado, na virada do ano de 1994 para 1995, novamente na Praça da Juventude. Não houve produção elaborada. Houve verdade.
O casamento ocorreu em 20 de dezembro de 1996, em Sorriso, tendo a festa se realizado no espaço do Oásis Club. Airton conta que o proprietário Pedro facilitou o pagamento das despesas fracionando em 10 vezes no cartão de crédito. A cerimônia foi simples, mas profundamente simbólica. Amigos, companheiros rotarianos, familiares e pessoas da comunidade participaram daquele momento que selava, não apenas uma união afetiva, mas uma parceria de vida.
Airton guarda na memória a despedida de solteiro, a entrada da noiva na igreja, ao som da Ave Maria, cantada pelo amigo “Facho”; a música da festa, orquestrada pelo então amigo de seu irmão Alencar, o gaiteiro conhecido por “Danone”, então estudante de Direito na UNIC de Cuiabá (Evandro Trindade do Amaral, hoje professor universitário e colega Advogado) e sua equipe.
Após o casamento, viajaram para Cancún, no México, em lua de mel. Voltaram com a certeza de que a vida seria construída lado a lado — nas decisões, no trabalho, na família e no serviço à comunidade.
Márcia nunca foi apenas esposa. Tornou-se companheira integral. Formou-se em Direito também e tornou-se advogada do então escritório Oliveira & Cella Advogados. Caminhou com Airton na advocacia, nos projetos sociais, no Rotary e nas escolhas difíceis. Onde ele estava, ela estava presente. Onde ela tinha um sonho, ele incentivava.
Os dois sempre caminharam juntos, quer seja no trabalho, na vida pessoal e na comunidade. Dentre os clubes de serviço, Airton iniciou no Rotary Club de Sorriso, onde foi Presidente em 2005/2006, e Marcia, associada à Casa da Amizade. Também atuaram como mentores e associados fundadores na criação do Rotary Club de Sorriso Ouro Verde, em 2018, e, posteriormente, do Rotary Club Joia do Cerrado, em 2022. Atualmente, no ano de 2026, permanecem integrando ambos os clubes como associados, sendo que Airton exerce, pela terceira vez, o cargo de presidente no Rotary Club Joia do Cerrado.
Contam que Airton também teve participação na Associação de Pais e Mestres da Escola Estadual Mário Spinelli e na Diretoria da Igreja São Pedro Apóstolo, dentre outros, já que sempre foi muito participativo na sociedade.
Como Advogado, juntamente com Dr. Délcio, em 1995, foi um dos responsáveis pela instalação da 17ª Subseção da OAB em Sorriso; da instalação, primeiro, da Vara do Trabalho itinerante e depois em definitivo; do lançamento da pedra fundamental e da instalação do Fórum. O então escritório também atuou no processo de emancipação política do município de Nova Ubiratã.
Conta que, como presidente da Câmara Júnior, foi o coordenador de uma Enquete na cidade para a escolha de prioridades nas obras municipais, na ocasião, entre a construção do Ginásio de Esporte ou o Fórum. O resultado da consulta popular foi pela construção do Fórum. Diante disso, o então prefeito José Domingos Fraga Filho, pelo Município, comprou um Uno Mille e doou para a Câmara Júnior com o propósito de fazer uma rifa para buscar o dinheiro para o início das obras. Assim foi feito. A rifa correu e não teve ganhador. Então foi convertida em Bingo. Os maiores colaboradores nesse bingo se encontram materializados em uma placa esculpida que se encontra das dependências do Fórum, identificados como os Grandes Construtores.
Como o referido bingo, na época, era identificado como uma contravenção penal, o então Delegado de Polícia Civil, mesmo sabendo que o resultado era para uma causa nobre e do próprio Judiciário, resolveu consultar o Juiz competente, em Sinop. Daí veio o Despacho determinando a prisão dos responsáveis, caso pegos em flagrante. Avisado, por fax, pelo então Promotor de Justiça Paulo Prado, Airton, no dia do evento, ficou em casa; o Delegado saiu em diligência para Novo Matogrosso e quem cantou o bingo foi o Dr. Elso Rodrigues, no Estádio Municipal. Tudo correu de forma tranquila. Com o resultado das vendas, conta Airton, o Município pagou a primeira etapa da obra.
A relação se consolidou não pela ausência de dificuldades, mas pela forma como sempre escolheram enfrentá-las: juntos.
Enquanto o trabalho crescia e a cidade avançava, a vida preparava um novo e decisivo capítulo — aquele que redefiniria completamente o sentido de tudo o que haviam construído até então: a chegada dos filhos.
Após o casamento, em 20 de dezembro de 1996 e o retorno da lua de mel, em Cancun, México, os dois decidiram que, antes de pensarem em filhos, viajariam e se estabeleceriam profissionalmente.
Conta que, por 10 anos, percorreram o Brasil todo, passando por todas as capitais de Estado e Distrito Federal, de carro, sendo o último Estado, o de Amapá. Assim, passados dez anos, chegou o momento. Era a hora de ter pequenos pezinhos andando pela casa. Márcia fez todos os exames, mas não conseguia engravidar. Realizada profissionalmente e casada com o amor da vida, o desejo de ser mãe só crescia. E ela foi em busca de informações. Uma das sugestões de um médico de Cuiabá, Dr. Humberto Kenji Chibasaki, foi uma fertilização in vitro (FIV). O casal embarcou na jornada. Confirmada a gravidez, Márcia e Airton seguiam para Cuiabá todos os meses para acompanhamento.
Em 04 de janeiro de 2008, Hani Cella veio ao mundo. Linda, perfeita, da forma que os pais haviam sonhado. O coração de Márcia transbordava amor. Airton, que acompanhou todo o parto, chorou como criança assim que recebeu a filha nos braços. Conta, com orgulho, que filmou o parto e não tirou o olho da pequena, acompanhando em todo o processo de limpeza – primeiro banho -, pesagem e o momento de receber a primeira roupinha. Hani tornou a vida perfeita. E foi o pai quem sempre cuidou da filha no período noturno, trocando fraldas e dando de “mamá”.
“Antes de nos casarmos, a Márcia falava que queria quatro filhos e eu dois. Então combinamos que teríamos três”, conta o pai. E o casal brincava com o número. Quando decidiram que era hora de vir o segundo filho, procuraram a clínica, descongelaram os embriões e tentaram uma nova FIV – que não deu certo.
Foram várias tentativas e frustrações. Não queriam que Hani fosse filha única, sempre imaginaram uma casa cheia, para que todos pudessem multiplicar amor. E Márcia foi estudar novamente. Pesquisou. Soube de um casal que havia feito barriga de aluguel na Índia e foi atrás de informações. Para sua surpresa, o casal estava mais próximo do que pensavam – Ivonete e Pedro – quase vizinhos. Munida de conhecimento, ela entendeu que a barriga de aluguel, ou cessão temporária de útero, é uma técnica complementar de reprodução assistida, que permite que mulheres que não podem engravidar por problemas relacionados ao útero, tenham filhos biológicos, que era o caso.
Com o apoio da amiga Ivonete, Márcia entrou em contato com a clínica Kiran, na Índia, para realizar o sonho de ser mãe novamente. Havia, porém, um obstáculo: Airton tinha pânico de avião e não viajava de forma alguma. “Foi então que começaram a surgir os anjos em nosso caminho. Tivemos vários, mas o primeiro foi a comadre Nelci, que se prontificou a acompanhar a Márcia. Somos imensamente gratos a ela”, relembra Airton, emocionado.
Nelci providenciou o visto, e as duas seguiram viagem. Na clínica Kiran Infertility Centre Pvt. Ltda., Márcia realizou a coleta do material genético, restando apenas o do marido. Para isso, Airton dirigiu até São Paulo, onde fez a coleta na capital paulista, possibilitando a continuidade do tratamento.
Assim que o material dos dois foi recebido na Índia, iniciou-se o processo da geração dos embriões em laboratório para a posterior transferência para o útero temporário da reprodução assistida. Em poucos dias receberam o comunicado avisando que o processo havia dado certo. E ainda naquela semana outra boa notícia: eram dois embriões! Os três filhos planejados! “Foi uma emoção indescritível, nossos filhos cresciam em outro ventre, do outro lado do mundo, e passamos 24 horas por dia, ávidos por notícias”, diz Márcia.
1990
Crescimento, conquista e novos horizontes
- Em fevereiro, o Sicredi Sorriso foi fundada por 28 produtores rurais e, em 21 de setembro do mesmo ano, inaugurou sua primeira agência na cidade, iniciando sua atuação no cooperativismo de crédito rural.
- É construído o Aeroporto de Sorriso, inicialmente com uma pista de terra, projetada para receber pousos e decolagens de aeronaves de pequeno porte, contribuindo para a integração e o desenvolvimento da região.
- É criado o Grupo de Teatro de Sorriso, marcando o início das atividades cênicas organizadas no município e fortalecendo a expressão artística e cultural da comunidade local.
- É fundada a Liga de Campo de Futebol Amador de Sorriso, tendo como primeiro presidente Emílio Brandão. Na ocasião, sete times se filiaram à nova entidade esportiva: Cruzeiro, Arsenal, Madeireira Santa Paula de Ubiratan, São Cristóvão, Sete Lagoas, Operário e São Paulo, marcando o início da organização oficial do futebol amador no município.
- É criada a Secretaria Municipal de Saúde e Ação Social, com a responsabilidade de coordenar e implementar políticas públicas voltadas à promoção da saúde e ao atendimento das demandas sociais da população.
- Em 13 de março, foi constituída formalmente a primeira Igreja Batista em Sorriso, iniciando sua trajetória religiosa na cidade e servindo como marco do crescimento da tradição batista na região.
- A Secretaria de Educação, Cultura e Desportos de Sorriso é oficialmente criada pela Lei nº 156/90, sancionada em 24 de setembro de 1990, com o objetivo de organizar e consolidar as políticas públicas voltadas à educação, à promoção cultural e ao incentivo ao esporte no município.
- A Lei Municipal nº 171, de 11 de dezembro de 1990, instituiu a política municipal de atendimento aos direitos da criança e do adolescente em Sorriso, em conformidade com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
- A PREVISO, criada pela Lei Municipal nº 175/1990, é o regime próprio de previdência dos servidores públicos de Sorriso. Responsável pela concessão de aposentadorias e benefícios, atua com gestão autônoma, passando por adequações legais ao longo dos anos para garantir equilíbrio financeiro e atender à legislação federal.
- O Leo Clube realizou sua primeira reunião em 1º de setembro. A fundação oficial ocorreu em 24 de setembro e, no dia 29, o clube recebeu a Carta Constitutiva do Lions Internacional, passando a integrar oficialmente o movimento jovem voltado à liderança, ao voluntariado e ao serviço comunitário.
1990
A identidade por trás do CEO da Contática
Paulo Silvestro chegou à Sorriso com 10 anos de idade. A família veio do Paraná em um ônibus da empresa Medianeira; uma caixa de papelão com um fogão azul, marca Continental e duas malas de roupas e panelas eram toda a mudança. Foi em solo sorrisense que estudou, prospectou mercado e oportunidades e se tornou referência em serviços contábeis
O primogênito de Alceu e Zelir Júlia Silvestro nasceu em Dois Vizinhos (PR). Alcionir Paulo Silvestro – mais conhecido sem o primeiro nome – veio ao mundo pelas mãos da parteira Inês Matachinski, que socorria todas as mães da comunidade. Segundo a mãe, foi um dia frio aquele 13 de junho de 1980. Na cidade paranaense, o menino viveu até os quatro anos de idade, período em que a família se mudou para Laranjeira do Sul, município próximo. Dois anos depois foi a vez do caminho inverso, com a família retornando para a comunidade de Rio da Prata, interior de Dois Vizinhos.
E naquela época, tudo o que o pequeno Paulo conhecia estava veiculado à educação, à lavoura e ao árduo trabalho dos pais. O próprio menino, ainda antes de completar 8 anos de idade, já trabalhava com os pais nas lavouras de milho, feijão e trigo, todos plantados nas várzeas em terrenos acidentados no interior do Paraná. “Meu pai costumava preparar a terra com o arado e os bois e, nós crianças, ajudávamos no que era possível”, relata. Nessa altura, a família já havia crescido e dado as boas-vindas a Alcir Luiz, dois anos mais novo que Paulo, e Anderson Ricardo, cuja diferença de idade para o primogênito é de dez anos.
“Lembro de andarmos com os bois atrelados ao arado ou à carroça ou então a cavalo nos carreiros; as estradas eram apenas picadas”, diz. Daqueles dias, ele também tem na memória as cenas das muitas vezes em que cozinhava para a família. Ele era o responsável por fazer o almoço dos irmãos e costumava cozinhar arroz e ovo, prato mais fácil e rápido que dona Zelir havia ensinado.
Os dias eram entrecortados entre o trabalho na lavoura, em casa e as idas para a escola a cavalo – já que a família morava a seis quilômetros do centro da comunidade. Com o tempo, as viagens a cavalo passaram a ser intercaladas com idas e vindas em uma velha bicicleta Monark, em que os irmãos iam engarupados. A bicicleta era novidade – fora adquirida por um tio. Na escola, as aulas eram ministradas pela professora Sirene Oliveira, em uma sala multisseriada em que todos os alunos, do primeiro ao quinto ano, estudavam juntos.
A vida transcorria de forma tranquila, conciliando trabalhos, estudos e brincadeiras infantis. Foi quando tudo mudou por insistência do tio José Silvestro, um dos irmãos do pai. Alceu vinha de uma família de 16 irmãos em que apenas um havia estudado, coincidentemente, esse irmão era José. “Ele era muito dedicado, estudioso. Passou em um concurso do Banco do Brasil, na época foi um grande destaque para a nossa família. Ele foi nomeado para a região de Sinop e assumiu o posto de Gerente do Banco do Brasil. Tudo era muito distante do dia a dia no Paraná”, frisa Paulo.
Concursado e vivendo novas experiências, a preocupação de José voltou-se para o irmão Alceu e os sobrinhos. “Em Sorriso, tempos depois, meu tio José, o Zezinho da Foto Visão, viu oportunidades não só para ele, mas para a família como um todo”. E em uma das idas e vindas de fim de ano para visitar a família no Sul, José conversou com Alceu sobre uma possível mudança. “‘Você tem três filhos homens. Lá tem muitas oportunidades. Os meninos podem começar trabalhando engraxando sapatos, vendendo picolés, fazendo alguma coisa e ter condições de estudar e conquistar uma vida melhor’. Esse foi o discurso do meu tio”.
Acostumado ao trabalho árduo na lavoura, Alceu também sonhava com uma vida mais leve para os filhos e conversou com a esposa. Porém, para Zelir, não havia a mínima possibilidade de mudança. Se ele vinha de uma família de italianos com vários irmãos em que todo mundo vivia próximo, ela era descendente de uma família de poloneses em que os irmãos e pais ainda moravam na mesma comunidade. Zelir era habituada ao convívio diário com os familiares, e só de pensar na possibilidade de mudar para o Mato Grosso – que nas histórias daquela época era descrito com ‘onça por todo lado’ – era de arrepiar até o esqueleto.
Contudo, de tanto José insistir e falar para o irmão que em Sorriso haveria perspectivas melhores para os sobrinhos, Alceu se deixa convencer e resolve fazer uma experiência: decide acompanhar o irmão até Sorriso onde chega para trabalhar inicialmente em armazéns gerais. Em um ano trabalhando como funcionário, Alceu conseguiu adquirir valor suficiente para comprar um terreno no Bela Vista, bairro que estava começando a se formar na época.
Além do terreno, seu Alceu havia levantado um valor inicial para iniciar uma casa. Adquirido o terreno, alicerce lançado, ele entrou em contato com a esposa e pediu que ela vendesse a casinha de madeira que tinham no Paraná. Convencida pelo marido, Zelir atendeu ao pedido, vendeu a casa, empacotou tudo o que tinha e partiu com os filhos para o tão temido Mato Grosso.
A chegada em Sorriso
Foi em um fevereiro chuvoso de 1990, na rodoviária instalada no entorno da Praça da Juventude (“onde ficava o antigo supermercado Vip, me lembro bem”, rememora Paulo), que Zelir desceu do ônibus da empresa Medianeira acompanhada dos filhos Paulo, Alcir e Anderson. Assim que abre o bagageiro do ônibus o motorista retira uma caixa de papelão em que dentro havia um fogão azul, marca Continental, duas malas de roupa e duas caixas de panela. Essa era toda a mudança da família Silvestro. Com surpresa, os meninos descem do ônibus: nunca tinham visto tanta chuva na vida. Quem os esperava era o pai e o tio. E assim que pisa em solo sorrisense a família recebe a notícia de que havia a necessidade de permanecer pelo menos uma semana na casa do tio José, pois a casa que o pai estava construindo no Bela Vista ainda não estava pronta. Item indispensável, faltava o telhado.
Em uma semana Alceu conseguiu cobrir a casa. Porém, ainda faltavam as repartições. Então, ainda naquele fevereiro de 1990, a família Silvestro se muda para o novo lar em que as repartições eram feitas de lençol, dividindo os quartos dos meninos, dos pais, a sala e a cozinha. É nesta casa com divisórias improvisadas que Paulo constrói as primeiras memórias de Sorriso. “Só tinha asfalto até o Ginásio Domingão, a partir dali era tudo poeira e lama. Com a estrada de chão, na estiagem era pó e quando chovia havia muita lama por todo lado, a nossa casa era toda rodeada por lavoura de soja, onde hoje você vê uma cidade na época era tudo envolto por soja”, ressalta.
Mal chegado na cidade, Paulo seguiu o conselho do tio José e começou a procurar trabalho. Com apenas 10 anos ele foi empregado como vendedor de picolé. “Meu tio José me instigava muito pelo exemplo, pela fala, pelo incentivo que dava a todos nós. Ele nos dizia que trabalhando iríamos chegar longe, falava que eu tinha energia para conquistar as coisas. Eu cresci dentro desse ambiente de incentivo dado pelo tio e pelo apoio da minha mãe, que sempre pensou que devíamos estudar, buscar cursos, nos profissionalizar”, recorda. “Chegando aqui já busquei emprego, vendedor de picolé foi o que apareceu e eu abracei muito feliz”, conta.
Para se destacar na sorveteria, Paulo desenvolveu técnicas próprias. Quando o período de estiagem iniciou e com ele trouxe o sol quente e escaldante, o menino enchia o carrinho de picolé e procurava as construções em que havia mais gente trabalhando. Com o sol a pino e muito calor, assim que o menino encostava, os pedreiros e auxiliares já desciam correndo e cercavam o carrinho; todo mundo queria um picolé – alguns, dois ou mais. E de construção em construção, Paulo ia passando, chegando a vender até três carrinhos de picolé num único dia. “O sol era forte as pessoas estavam passando por um momento de trabalho pesado, estavam no calor quando eu chegava era um alívio e, percebendo isso eu passei a ter como público-alvo todas as construções. Desenvolvida essa parte técnica, passei a ganhar todos os prêmios de destaque de vendas da sorveteria”.
De vendedor de picolé, Paulo passou a lavador de carros, empacotador de supermercado, cobrador e torneiro. No torno, o adolescente era responsável por fazer cabos de vassoura. Foi com 16 anos que uma nova etapa se abriu na vida do garoto. O ano era 1996 e ele iniciou um estágio na Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, ou, simplesmente, nos Correios. No novo emprego, o rapaz passa a percorrer a cidade de bicicleta entregando correspondências. Após o fim do estágio, Paulo inicia um trabalho como repositor em um supermercado. Então, 20 dias depois, o então gerente dos Correios, seu Augusto, procura-o e oferece trabalho novamente na estatal. Paulo o lembra que já havia terminado o tempo de estágio. Seu Augusto então lhe oferta uma função administrativa, ressaltando que seria um contrato e que ele não iria mais percorrer as ruas no sol quente para fazer entregas. “Aceitei na mesma hora. 21 dias depois de ter saído dos Correios estava eu de volta”, diz. Na nova etapa e no ambiente administrativo, Paulo ficou por dois anos.
Findo o contrato, era hora de procurar um novo emprego. Neste momento surge uma oportunidade como office boy em um escritório de contabilidade. “Entrei na Contática no cargo de office boy, levando boletos, impostos e fazendo a coleta de documentos junto aos clientes do escritório de bicicleta”, frisa. Era novembro de 1998. Com Paulo e o então proprietário José Vanderley dos Santos, eram cinco funcionários.
“Coincidiu que quando entrei era época de prestar vestibular. Tudo aqui (Sorriso) girava em torno da soja, dos grãos, do milho, então pela minha cabeça o que passava era fazer alguma faculdade voltada a essa área, por isso pensei em Agronomia; prestei vestibular em Viçosa (MG), referência para ciências agrícolas já naquela época, mas não passei. Naquele ano também fiz vestibular para a Arquitetura na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e também não passei. Na época fiquei muito frustrado”, ressalta. Nos dias atuais, a percepção mudou. “Hoje vejo o quanto isso foi bom porque muitos colegas meus que saíram para estudar quando voltaram comentavam que haviam perdido o time da cidade, aquele instante que foi o catalisador e colocou definitivamente Sorriso no mapa como um centro produtivo e de negócios”, avalia.
Até então a vida escolar de Paulo havia passado pela sala multisseriada da professora Sirene Oliveira, no Paraná, e nos bancos da Escola Estadual 13 de Maio no ensino fundamental e no Colégio Vinícius de Moraes na época do ensino médio. Enquanto trabalhava como office boy na Contática, Paulo reservava todas as horas que sobravam para estudar. “Qualquer curso que tivesse minha mãe nos incentivava a fazer, como datilografia, computação, oratória, cursos de eletrônica”, pontua. “. Ela sempre falou que a educação nos abriria portas, ela trabalhava como diarista e todo o dinheiro que conseguia levantar fazendo diárias ela aplicava na nossa educação, foi assim que fizemos vários cursos. Em cada formação havia o dedo, o exemplo, o olhar e o carinho da nossa mãe”, destaca. “Na época fazíamos muita formação pelo Telecurso 2000, tínhamos que esperar os moldes chegar pelo correio para lermos, estudarmos e responder. Na sequência, encaminhávamos de volta e aguardávamos o resultado e o novo módulo. Não era fácil, não era na hora como é hoje. Não havia a possibilidade do online. O nosso estudar era, literalmente, ‘com a cara no livro’, mas aprendi muito nessa época”, relata.
No destino, a contabilidade
Apesar de estar dentro de um escritório de contabilidade, Paulo nunca imaginou tornar-se contador. Mas quis o destino que essa profissão o escolhesse, e para sacramentar a escolha, colocou o amigo Anderson Chenet no caminho de Paulo. Colegas de escola, Anderson iria prestar vestibular para Ciências Contábeis na primeira turma da Universidade de Cuiabá (Unic), recentemente aberta em Sinop, e tentava a todo custo convencer Paulo a fazer o mesmo. Como foi a primeira turma, a procura era alta com mais de 40 candidatos por vaga.
“Falei para o Anderson que não havia condição alguma de eu prestar vestibular para Ciências Contábeis, não era o que eu queria no momento”, destaca. Contudo, Anderson foi fazer a inscrição do vestibular em Sinop, não se deu por vencido e na fila da inscrição ligou para o amigo. “Ele falou: ‘me mande teus documentos por fax. Eles aceitam que eu faça a sua inscrição para o vestibular’”, lembra. “Minha reação foi rir, falei que o Anderson estava delirando”. Mas, diante da insistência de Anderson, acabou enviando os documentos. “O Anderson me convenceu que era mais um vestibular para eu pegar experiência, e como eu já tinha realizado outros dois antes e não havia passado, ele insistiu que era mais uma oportunidade para eu pegar experiência”, diz. Prestado o vestibular, Paulo passa – e bem –, na 5ª colocação. O amigo também é aprovado.
Assim, o início do ano 2000 encontra Paulo como acadêmico de Ciências Contábeis da primeira turma da Unic, instalada no bairro Jacarandás em Sinop. Durante o dia ele era office boy da Contática em Sorriso e, a partir das 17h30, entrava no ônibus com destino a Sinop – as aulas iniciavam às 19h e seguiam até 22h30. Quando não havia nenhum percalço no caminho, como um pneu furado ou ônibus quebrado devido às más condições da BR-163, Paulo costumava chegar em Sorriso por volta da 1h da madrugada. No dia seguinte, às 7h, era horário de estar na ativa no escritório. A rotina era a mesma de segunda a sexta-feira e o jovem estava centrado em estudar. O esforço valeu a pena e em 2003 ele se forma contador.
Contudo, antes ainda de receber o diploma, o destino e Maico Rippel seu colega de trabalho, são os responsáveis por uma nova guinada na vida de Paulo. Maico apresenta uma proposta para serem sócios na aquisição de um escritório de contabilidade. “Tudo se deu de forma muito rápida. Havia um senhor com um pequeno escritório e ele queria vender. O Maico se entusiasmou, me propôs o desafio e eu aceitei”. Nesse ponto da história entra em cena a figura de seu Alceu Silvestro. “Então procurei meu pai e falei: ‘preciso de R$ 10 mil’. Foi um pouco antes de me formar em 2003. Para a época, e para alguém sem imóveis como fiança, era um dinheiro bem alto. Também não havia como fazer empréstimo bancário. Meu pai olhou abismado e questionou o que eu faria com o dinheiro. Expliquei a situação. Ele olhou bem para mim e perguntou se eu achava realmente um bom negócio. Ele sabia que eu estudava muito, confiava nas avaliações que fazia do mercado. Respondi que sim e ele não pestanejou”.
Para ajudar o filho na nova empreita, seu Alceu procurou o então patrão, seu Luiz Alberto Verller, da Fazenda Pirapó, e propôs um adiantamento do valor que teria a receber com o trabalho na safra. Paulo acompanhou o pai. “Seu Luiz olhou no meu olho e perguntou firme: ‘é um bom negócio, pia?’. Respondi positivamente, e saímos de lá com o cheque na mão”.
Escritório comprado, o caminho natural seria que os dois deixassem de trabalhar na Contática onde Maico também era funcionário para cuidar do próprio escritório. Porém, não foi o que ocorreu. Analisando o mercado e prospectando o futuro, Paulo convenceu Maico que não deveriam atuar no escritório deles e sim levar o pequeno escritório recém-adquirido para dentro da Contática e trabalhar de forma conjunta com o patrão José. Este, por sua vez, ouviu a proposta dos colaboradores e imediatamente aceitou. Ele fez o acerto com os funcionários e combinou que eles trariam o escritório comprado para dentro da Contática com a carteira de clientes. Dali por diante, cada um teria direito a 10% das ações da Contática. Acordo fechado, Paulo e Maico finalizam 2003 como sócios da empresa.
“A Contática nasceu em 1988 pelas mãos do seu Norberto Favretto, que fazia projetos para produtores rurais que buscavam financiamentos junto às instituições bancárias, como Banco do Brasil, e cooperativas de crédito rural. E essa clientela, formada quase que exclusivamente por produtores rurais, começou a pedir a Norberto que ele fizesse o ITR (Imposto Territorial Rural), o IR (Imposto de Renda), e foi quando ele teve o estalo e abriu a Contática. Posteriormente, vendeu para o José Vanderlei”, frisa Paulo.
O empresário conta que a primeira sede da empresa foi onde hoje é a Loja Bambino, de propriedade da esposa de Norberto. Em 1996, José Vanderlei entrou na sociedade. “Foi quando a legislação passou a exigir que escritórios de contabilidade tivessem um contador registrado, com isso seu Norberto opta por vender o escritório”, relata. E 3 anos depois da fundação da empresa, em 1998, Paulo entrou para a Contática, se tornando sócio da empresa em 2003. Profissionalmente, o próximo passo da vida de Paulo se dá em 2012 quando ele adquire as ações dos demais sócios e se torna o único sócio proprietário da Contática. “Foi uma caminhada regrada a muito trabalho, noites de estudo, e em apenas 14 anos me tornei o proprietário”, relembra.
Mas não só de números, compra e venda que vive o personagem. Nesse ínterim, ainda em 2005, em um encontro religioso do “Segue-me!” promovido pela Paróquia São Pedro Apóstolo, Paulo conhece Gisele Richard, uma catarinense natural de Videira. O pai de Gisele, seu Ulisses, era caminhoneiro e a mãe, dona Leonice, dona de casa. Ulisses havia escolhido Sorriso justamente pela profissão. Aqui ele conseguiria fazer mais fretes. Além de Gisele, o casal tinha outra filha, Geane. O namoro com Gisele seguiu até 2010 quando os dois subiram ao altar dando início à nova família. “Em 2012, fomos agraciados com o Pedro, que hoje está com 13 anos e, recentemente, em 2022, nos tornamos pais da Helena”, conta orgulhoso.
Recém-casado, em 2010, o CEO da Contática cursava Direito. Ele foi aluno da primeira turma de direito da Unic em Sorriso e passou no exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) ainda em 2011 dois semestres antes da conclusão do curso. Ele só completaria a faculdade e receberia o diploma em 2012. Naquele ano, inclusive, vê surgir um novo Paulo. A veia empreendedora faz com que o contador veja e prospecte oportunidades em nichos ainda não explorados. “Atuando no escritório de contabilidade percebi que os clientes traziam vários desafios de suas empresas, e eles vinham se aconselhar com o contador”, diz. Dentre as perguntas, havia a preocupação com mudanças na legislação e possibilidades de investimentos, novos negócios. “Fui percebendo que havia espaço para crescimento e que eu precisava me especializar mais e fiz pós-graduações em Perícia, Controladoria e Auditoria Contábil”. O conselho da mãe, aquele sobre “estudar abre caminhos”, ecoava forte na cabeça do empreendedor. Paulo chega a ser aprovado em um mestrado, mas opta por não continuar no último ano, por entender que não era aquele caminho que queria seguir. “Eu escolhi me aperfeiçoar em áreas que já estava mais familiarizado e cujos casos surgiam com frequência no escritório, “não erro o caso da docência”, explica”.
Se por um lado o dia a dia no escritório abria perspectivas, mantendo um ritmo tranquilo, de outro, Paulo nunca deixou de correr atrás e de ver oportunidades em situações inovadoras. Foi em uma situação dessas que, em 2012, ao avaliar um contrato de parceria da família de um colaborador da Contática, que desejava investir em empreendimentos imobiliários que tudo aconteceu. Ao procurar o colega do curso de Direito, Renato Zenaro, topógrafo e advogado, falando sobre uma nova possibilidade de investimentos. A família de Zenaro não hesitou e desejando investir no ramo imobiliário. Assim, em 2013, nasce a Axxion Empreendimentos Imobiliários, que conta ainda com a parceria de José Baggio.
Concomitante à família que se formava, o CEO continuava dedicado ao trabalho. “Chegamos aqui em uma situação de extrema vulnerabilidade. Meu pai trabalhava diariamente até tarde da noite na lavoura. Às vezes ficávamos dias sem vê-lo, enquanto minha mãe trabalhava como diarista. Sem estudo, tudo o que eles encontravam pela frente era o trabalho braçal”, diz. Com o trabalho intenso na lavoura, por várias vezes Alceu se intoxicou com veneno. Como consequência, ele morre em 2015, com apenas 59 anos de idade, vítima de diabetes, pressão alta dentre outras complicações. “Ele era um gaúcho daqueles que se dedicava muito à família e ao trabalho, com pouco tempo para cuidar de si mesmo. Ele se foi muito, muito jovem, e para mim ficou o exemplo de dedicação e trabalho, o exemplo de honestidade, amor à família”, lamenta Paulo.
Desde sempre, Paulo entende que para conhecer pessoas, clientes, é preciso estar inserido e se doando à comunidade. “Particularmente, eu entendo que essa cidade me moldou, me deu oportunidades que nunca imaginei e penso que posso fazer a diferença na vida do outro”, reflete. Isso o levou a trabalhar na Paróquia São Pedro Apóstolo, em clubes de serviço, como Rotary Club, e na Câmara dos Dirigentes Lojistas. Inclusive, é na CDL que Paulo faz história: já esteve na liderança por 5 anos, e atualmente exerce seu terceiro mandato. Também foi conselheiro da Cooperativa Sicredi por 8 anos; presidente da Associação de Contadores no Município, integrando entidades estaduais como: Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas do Estado de Mato Grosso e FTMT; além de várias entidades e grupos de contadores país afora. Perito, contador, advogado e empresário. Seu dia a dia é voltado ao empreendedorismo e ao cuidado com o outro vinculado à preocupação social com a comunidade em que está inserido.
Hoje, a rotina do campeão em vendas de picolé aos 10 anos de idade é mais intensa. Paulo é sócio de dezenas de empresas. Na Contática, sua liderança impacta diretamente na vida de 68 colaboradores – juntando as demais empresas são mais de 100 pessoas que têm suas vidas e famílias atreladas às decisões e negócios do CEO da Contática.
“Somos uma empresa com quase 30 anos de CNPJ, a primeira no Mato Grosso com certificado de qualidade ISO 9001. Temos Plano de Cargos e Carreira para todos os nossos colaboradores, estruturando Partnership no quadro social, por sinal, bem arrojado. Somos empresa amiga da criança e do adolescente, e uma das nossas bandeiras é justamente esclarecer e salientar aos nossos clientes que podemos fazer a diferença na vida dos outros apenas com pequenas atitudes, entre elas a destinação do Imposto de Renda solidário”, defende. Para Paulo, há um compromisso social “quando o local te recebe e te abraça como eu fui recebido e abraçado, você devolve esse acolhimento com trabalho, com honestidade e com perspectivas para quem vive ou para quem deseja algum dia viver aqui, pois essa continua sendo uma terra promissora e cheia de oportunidades”, frisa.
Extremamente ligado à família, Paulo tem muito orgulho de sua história. Faz questão de contar que Anderson seu irmão mais novo, sempre gostou muito de estudar e hoje é Doutor e docente do Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT), no polo de Barra do Garças. Já Alcir seguiu o caminho do pai: é dedicado à lavoura e as plantações que faz brotar em fazendas da região. Do tio José ele só tem coisas boas para contar. “Meu tio todo mundo daqui conhece, é o Zezinho da Foto Visão. É um cara inspirador”. Com os primos, filhos de seu José, a parceria e convivência também são essenciais para ele. A prima Josiane reside em Sorriso; já Tiago é padre em Sinop e costuma cuidar e acalentar a fé da família.
“Eu não sei como vai ser o futuro. O que eu desejo para meus filhos é que sejam felizes, muito felizes, que sigam no caminho do que é o correto, no caminho do justo e do honesto e que se mantenham sempre na presença de Deus”, deseja o pai de Pedro e Helena.
Paulo conta que Pedro já faz visitas e observações ao trabalho do pai. “O Pedro entra aqui e a mentalidade dele já é diferente. Ele fala: ‘pai, dá para robotizar muitos dos serviços feitos aqui’, e vai me explicando sobre os avanços tecnológicos e como obtém engajamento nas redes sociais. Eu olho para ele e me vejo pelo olhar: já fui esse menino cheio de sonhos e de novidades, de perspectivas e pontos de vista diferentes e gosto de ver meu filho desbravando e imaginando um mundo próprio”, fala, ao fitar o espaço que se abre da janela da empresa que preside.
“Olho para essa janela e vejo o local onde estou. Quando cheguei era tudo mata fechada, não tinha nem como entrar. A cidade terminava no [Ginásio] Domingão. Onde não era mata, era lavoura, inclusive aqui, onde estamos, e hoje vejo a cidade verticalizando, crescendo, expandindo em um ritmo aquecido, acelerado, há anos”, frisa.
Nessas horas, Paulo diz que pensa sobre o que Pedro e Helena escolherão para si mesmos; quais caminhos irão trilhar? Serão professores, contadores, médicos, advogados, arquitetos? O que os fascinará? Talvez Pedro opte pela empresa, escolha estar na Contática “e com ele virá uma nova mudança, um novo ritmo”. Até lá, Paulo segue cuidando da vida financeira de mais de mil CNPJs sorrisenses e da região e, de todas as outras empresas que atua. “Quando você abre uma empresa, espera que ela faça história, que seja centenária e é isso que desejo para a Contática: que ela persista e esteja aqui para continuar marcando a história de Sorriso, quer seja seguindo gerações da minha família ou com CEOs diferentes”, diz. “Como uma marca, um nome, que seja sinônimo de crescimento e desenvolvimento, assim como nossa cidade”.
