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1990
Airton Cella
Entre Raízes e Horizontes
A história de Airton Cella, da infância no Sul à construção de uma vida, de uma família e de um legado em Sorriso.
A história da família Cella tem origem na região do Vêneto, na Itália, de onde partiram os primeiros ancestrais em busca de novas oportunidades. Em 1887, a família imigrou para o Brasil, estabelecendo-se inicialmente no Rio Grande do Sul, onde construiu sua base familiar pautada no trabalho, na fé e na união.
Ao longo das gerações, esses valores foram transmitidos com rigor e exemplo. Dalírio Cella, filho de Augusto Cella e Úrsula Puntel, cresceu nesse ambiente de simplicidade e responsabilidade. Casou-se com Arnelda Turcatto, mulher firme, dedicada e profundamente ligada à família.
Dessa união nasceu Airton Cella, em 6 de junho de 1967, em Sobradinho/RS. Desde cedo, a vida no campo moldou seu caráter. A convivência com os avós, o trabalho rural, o respeito à palavra dada e o valor da educação tornaram-se pilares da sua formação humana.
Essas raízes nunca foram esquecidas. Ao contrário, acompanharam Airton por toda a vida, influenciando decisões, escolhas profissionais e o modo de se relacionar com as pessoas e com a comunidade.
Airton Cella é um dos dois filhos de seu Dalírio e dona Arnelda. Aprendeu cedo que o trabalho, a persistência e o estudo poderiam projetá-lo a voos longos. Foi em fevereiro de 1990, que o jovem Cella desembarcou em Sorriso e deu início à uma jornada que o levou à construção de uma família e à consolidação profissional.
Foi em uma fria madrugada de junho de 1967 que Dalírio Cella levou sua esposa, Arnelda, já em trabalho de parto, ao Hospital do Doutor Sebastiani, em Sobradinho, no Rio Grande do Sul. No local, a mãe do médico, que era parteira, foi quem auxiliou Arnelda durante o nascimento do bebê. Dalírio permaneceu o tempo todo ao lado da jovem esposa, segurando sua mão e oferecendo palavras de incentivo. “Ela era muito corajosa”, relembra. Pouco depois das nove horas, Arnelda fez um último e forte esforço, e o pai recebeu o menino nos braços. “Foi assim que Airton veio ao mundo”, recorda seu Dalírio ao falar do filho primogênito, Airton Cella. A mãe sorriu, feliz: o menino era perfeito e havia sido aguardado com muito amor.
Airton cresceu na comunidade de Campestre, interior de Sobradinho, no Rio Grande do Sul, próximo da Casa de Pedra erguida pelos nonos Augusto Cella e Úrsula Puntel Cella, tombada pelo poder público, atualmente fazendo parte da Rota dos Casarões. A casa em que residia era de madeira, ao lado da casa central. “Mas foi no sótão da casa de pedra que guardaram meu berço”, conta Airton. E por ali, o menino viveu uma infância feliz. Ora correndo para o porão da casa dos nonos, ora para a casa dos pais. O porão da casa dos nonos era bem abastecido: salame, queijo e vinho. Próximo da casa, uma horta, muitos pés de frutas e um parreiral, de tudo um pouco havia ali. E claro, até fumo em corda, que na época era o sustento da família. Airton, embora criança, chegou a trabalhar na “destala do fumo em corda”.
Dessa época também, seu Dalírio conta uma história, que o filho não recorda, mas se o pai conta é verdade! Havia na propriedade um galpão cheio de palha de milho e Airton, acompanhado da prima Lisane e do tio Nilton, irmão mais novo de Dalírio, colocou fogo no tal galpão. Era o trio das “artes”, “Airton era o mais novo, tinha menos de cinco anos, foram brincar com fogo sem saber o que era. Graças a Deus, deu tempo de apagar e ninguém se machucou”, frisa seu Dalírio. “Fora isso, nunca me deu trabalho”, acrescenta.
Para Airton, as lembranças de infância estão centradas em Caibi, Santa Catarina. Foi para lá que a família mudou em 1972, logo após seu Dalírio e dona Arnelda trocarem a produção de fumo em corda no Rio Grande pela criação de gado de corte no oeste catarinense. “Dali, eu lembro de tudo”, conta o filho.
Para ir à escola, por exemplo, o menino percorria aproximadamente três quilômetros para estudar no município vizinho de Mondaí. A chegada até a escola era uma verdadeira aventura, com a necessidade de uma travessia um tanto perigosa: Airton seguia a pé e atravessava o Rio Iracema, com mais de oito metros de largura. No local escolhido para o passo, a água chegava até a coxa do menino, quando o rio corria em seu curso normal. Em dias de chuva, subia para a barriga. Como havia mato nas margens do rio, o menino atravessava nu, levando nas mãos a roupa e o material escolar para não molhá-los. “Quando chegava ao outro lado, se secava, vestia a roupa e seguia para a escola”, explica. Nos dias de chuva mais intensa, seu Dalírio carregava o filho nas costas durante a travessia. “A água vinha com força, não dava para deixá-lo sozinho”, relembra. Já nos períodos mais difíceis, quando havia enxurradas, pai e filho atravessavam a cavalo: Dalírio acomodava o menino na sela e os dois seguiam em segurança até o outro lado. “O Airton lutou para estudar, nunca desistiu”. Seu Dalírio se orgulha da história do filho. “Na sala só tinha eu e mais um menino de pele branca, eu de origem italiana e o outro alemã, o restante da sala era formado por alunos de origem negra e, sendo os únicos brancos, nós sofríamos bullying, éramos todos da mesma redondeza, todos da roça. Quem nos defendia era uma professora muito querida, também de pele morena e dona de um lindo cabelo crespo, chamada Luzia Rocha da Silva. Lembro que estudávamos em uma turma multisseriada, com alunos da primeira à terceira série juntos. Eu estava na terceira série e costumava terminar minhas tarefas rapidamente para ajudar a professora, segurando a mão dos alunos da primeira série, que ainda mal sabiam escrever. Airton recorda ainda que, devido ao seu bom desenvolvimento escolar, cursou a segunda e a terceira série no mesmo ano.
Dessa época, pai e filho partilham a lembrança da casa em que a família vivia, no interior do Município de Caibi, SC (galpão, de 10x10 metros quadros), que, além de casa, também era utilizada para armazenagem da produção (milho em espiga – segundo ano, armazenaram mais de mil sacas, em espiga). Do alpendre da casa era possível ver o gado Nelore, se alimentando ao fundo do galpão. “Era uma cena bonita de fim de tarde”, recorda seu Dalírio. Pai e filho também costumavam capinar lado a lado; era com a enxada nas mãos que o pai ensinava e aconselhava o filho a persistir nos estudos. Ele próprio não tivera a oportunidade de continuar na escola e, por isso, sonhava com um futuro diferente para seus filhos.
Assim que completou 9 anos, o menino concluiu o 4º ano e foi residir na cidade de Caibi para cursar o 5º ano. Na cidade, foi acolhido na casa de um parente, seu Alcides Marcon, que, posteriormente, veio a ser o padrinho do irmão mais novo, Alencar, que havia nascido em Caibi em 1975. Na casa do seu Alcides ficou um ano. Foi o tempo do pai construir uma casa naquela cidade, em 1977. Aos fundos do terreno, moravam dois irmãos solteirões – Aurélia e Angelin Vardânega, tios da falecida mãe, Arnelda, que, quando precisava, davam uma olhada no sobrinho-neto, que também os ajudava lavando louça e lustrando a casa (costume do Sul). Mas o menino já se virava sozinho e, aos fins de semana, geralmente uma ou duas vezes ao mês, os pais e o irmão costumavam ir para a cidade para ver se estava tudo em ordem, ou para buscá-lo para que passassem o fim de semana juntos na comunidade, Linha Pindó, que ficava distante 32 quilômetros da cidade. Na segunda-feira a rotina voltava ao normal. Ao redor da casa, construída em um terreno de mil metros quadrados, Airton realizou sua primeira safra aos 12 anos de idade, plantando soja em toda a área do lote. A colheita rendeu meia saca, que o pai vendeu junto com a produção da propriedade para a filial da Cooperativa Regional Arco-Íris Ltda, instalada em Caibi, cuja matriz havia sido fundada em Palmitos, em 1933.
Desde cedo, Airton já se virava sozinho: cuidava da limpeza da casa e lavava suas próprias roupas, embora não preparasse o almoço. Seu Dalírio fornecia carne para uma churrascaria da cidade e mantinha sempre um crédito aberto para que o filho pudesse se alimentar ali.
Naquela época, um grande vendaval atingiu Caibi. Os ventos fortes destruíram parte do armazém da cooperativa, restando apenas a estrutura do supermercado.
Com os produtos expostos ao tempo e os destroços espalhados, a proliferação de ratos tornou-se um problema. Para amenizar a situação, o gerente da unidade, seu Danilo Galon, passou a oferecer uma recompensa de um cruzeiro para cada rato capturado pela gurizada. Para receber o pagamento, era preciso apresentar o animal — embora, às vezes, os meninos mostrassem duas vezes o mesmo rato, como confessa Airton, entre risos: “coisas de moleque”. Ele também recorda que, nessa idade, já costumava fazer pequenos “bicos” nos fins de semana com os amigos para ganhar alguns trocados. Na mesma Cooperativa, em período de safra, auxiliavam na descarga de adubo e ureia, fazendo amizade com os motoristas dos caminhões, onde também passavam horas ouvindo histórias dos caminhoneiros.
Após a experiência da caça dos ratos, Airton foi contratado como “contínuo” pela Cooperativa e teve a carteira assinada aos 11 anos de idade. “Hoje não existe mais uma situação dessa, a legislação trabalhista não permite”, avalia. Contratado, no dia a dia, a função incluía repor as mercadorias e fazer a limpeza das prateleiras do supermercado, em razão do pó. Com o tempo, o gerente foi pegando confiança no menino e passando mais funções. Foi, inclusive, no pátio da Cooper que o menino aprendeu a dirigir em um fusca vermelho. E com 13 para 14 anos, as funções aumentaram ainda mais. Além de controlar o estoque, fazia os pedidos na Matriz, em Palmitos, e assumiu a função de entregador de compras. Com o fusca ele ia de um lado para o outro fazendo entregas. Ele permaneceu na função até completar 15 anos, quando pediu demissão da cooperativa e retornou ao Rio Grande do Sul para continuar os estudos. Passou seis meses fazendo cursinho em Santa Maria e outros seis em Passo Fundo. Naquela época, relembra, não era necessário autorização dos pais para viajar de ônibus.
Enquanto ainda residia em Caibi, nos períodos de férias de julho e dezembro, auxiliava o pai na roça, na Linha Pindó. Conta que aprendeu realizar todos os serviços de roça – auxiliava a mãe, recolhendo os bezerros à noite, para tirar o leite no dia seguinte, limpava a casa, lavava louças e até chegou a lavar as fraldas do irmão. Também auxiliava o pai na capina, nas roçadas, no corte de cana para tratar o gado no inverno, até lavrava com arado puxado a boi de “canga” (Pintado e Mimoso, era o nome dos bois). Conta que, como não tinha força para afundar o arado, colocava seu irmão sentado em cima; que tinha que se cuidar do boi mimoso, porque costumava avançar. Em certa ocasião, o pai chegou a salvá-lo quando ficou prensado contra o chão entre as duas guampas do boi. O animal já havia, inclusive, ferido sua mãe com uma guampada, mas era mantido na propriedade por ser muito forte e útil para o trabalho. Airton também recorda que, naquela época, levou muitos sustos com cobras — jararacas, corais e cobras-novas, as mais comuns — encontradas tanto na lavoura e nas trilhas do mato, quanto dentro de casa, ao redor do fogão. Com o tempo, acabou se acostumando a essas situações.
Na lavoura, enquanto capinavam juntos na plantação de milho nas várzeas, Airton recorda que ouvia frequentemente o pai afirmar que, em sua opinião, as duas melhores profissões eram o Direito e a Agronomia. “Eu dizia isso porque nem eu nem a Arnelda tivemos oportunidade de estudar. Ainda antes de nos casarmos, combinamos que teríamos dois filhos e que eles fariam faculdade. Como homem da roça, eu via o Direito e a Agronomia como boas profissões”, relembra o pai. Em Santa Catarina, a vida seguia seu curso até a família receber o aviso de que o pai de Arnelda havia falecido. Fragilizada, a sogra de Dalírio (nona Luiza) se mudou para Caibi para passar uns tempos com a família. “Mas ela também ficou doente, então vendi tudo o que tinha em Santa Catarina e voltamos para Sobradinho”, diz o pai. O ano era 1986. Na verdade, ela sempre dizia que queria morrer na sua casa, então retornamos para atender ao pedido da avó, acrescenta Airton. Os 04 alqueires comercializados no estado vizinho renderam 50 hectares em Salto do Jacuí, município vizinho à Sobradinho.
Influenciado pelas conversas com o pai e inspirado por uma professora do ensino médio, em Caibi, que também era advogada, Airton começou a considerar a possibilidade de cursar Direito. No entanto, durante os seis meses em que morou em Passo Fundo para fazer cursinho no Gama, sua decisão passou a oscilar. Ele dividia moradia com três jovens da região de Caibi que já cursavam Odontologia, o que acabou despertando seu interesse pela área. Assim, prestou vestibular para Direito na Universidade de Caxias do Sul e para Odontologia em Passo Fundo e Pelotas. Mas, assim que saiu o resultado da aprovação em Caxias – publicado em um jornal impresso, guardado com carinho pelo empresário até hoje -, o jovem nem esperou os demais resultados. Foi de mala e cuia para Caxias. “Lá, precisava de avalista para alugar um apartamento. O pai conversou com uma juíza de Caxias, que era filha de um conhecido de Sobradinho. Ela mesma foi minha avalista”, lembra. Entrou para a faculdade em 1984. Conseguiu Crédito Educativo. Um dos projetos que mais o marcou foi o período em que atuou como estagiário do Ministério Público, na Vara de Família, onde o promotor de Justiça era Luiz Felizberto Bassols, por quem ainda hoje nutre profundo respeito e admiração. Após seu casamento com Márcia, porém, nunca mais teve notícias dele. Airton recorda essa época porque o promotor esteve presente em seu casamento, realizado em Sorriso, acompanhado do colega e amigo Ricardo Roberto Dalmagro, que também foi estagiário no mesmo período.
Quando saiu da Promotoria, foi trabalhar no Banco Sudameris, a convite de seu amigo Airton Valentini, que também lá trabalhava e o apresentou para preencher a vaga de office boy. Conta que quando levou seu curriculum, em 1988, último ano de faculdade, foi questionado pelo gerente se tinha certeza de que queria se sujeitar ao trabalho de office boy, no que confirmou. Três meses depois de contratado, foi promovido a função de Compensador de Caixa. Conta que, todos os dias, antes do horário de fechamento dos Bancos, ele corria pelas ruas da cidade com o malote nas costas para entregar no Banco do Brasil, por conta do horário do fechamento dos malotes. Ficou um ano e assim que conclui o curso de direito, em dezembro de 1989, pediu as contas. O gerente chegou a convidá-lo a trabalhar no Jurídico do Banco, mas preferiu seguir o conselho do pai e iniciar sua carreira em uma cidade pequena, onde poderia crescer junto. Com o valor da rescisão, comprou sua máquina de escrever elétrica, Práxis 20, da Olivetti, que guarda de recordação. “Era o auge da conquista”, lembra.
Concluído o curso de direito, por ter estagiado, conta que foi a última turma beneficiada pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), obtendo o direito de sua inscrição na Ordem sem precisar realizar a prova. Ele conta que sua primeira atuação judicial ocorreu ainda em Sobradinho, no Rio Grande do Sul, quando ingressou com um pedido de retificação de sobrenome. Tratava-se da correção do nome de sua própria família: por um erro de cartório, seu pai, Dalírio, era o único entre os irmãos que registrava o sobrenome Cela com apenas um “L”. Coube a Airton conduzir o processo e realizar a correção oficial do sobrenome.
Quando concluiu o curso de Direito e retornou a Sobradinho, no final de 1989, tudo indicava que Airton Cella seguiria um caminho previsível. Já inserido em um escritório de advocacia, próximo da família, conhecia bem o ambiente e tinha diante de si uma trajetória segura. Era o percurso lógico — e, talvez por isso mesmo, ainda não definitivo.
Naquele momento, já estava estabelecido em sua cidade natal, atuando no escritório de advocacia dos doutores Daniel e Ari Luiz Colombelli, amigos da família, onde iniciava sua carreira profissional.
Foi nesse período que o pai, Dalírio Cella, trouxe uma sugestão que mudaria completamente o rumo da história. Em 1989, Dalírio havia viajado ao Mato Grosso com os irmãos Egílio, Arlindo e Hilário, influenciados pelo amigo Auti De Bona. Conheceram uma cidade jovem, recém-emancipada, chamada Sorriso. Terra nova, oportunidades abertas, futuro em construção.
Por conta disso, seu Dalírio havia comprado, em sociedade com mais três irmãos, uma área de terra, na Linha Tropical, e sugeriu que Airton fosse conhecer – era aqui em Sorriso.
E Dalírio falava de Sorriso com entusiasmo, com brilho nos olhos. Não como quem faz propaganda, mas como quem reconhece potencial. Ao filho, disse algo simples, mas carregado de visão:
“Antes de te firmar por aqui, vai conhecer Mato Grosso. Vai ver Sorriso.”
Airton confiava no pai. Sempre confiou. E decidiu seguir o conselho. “Sempre vi meu pai como visionário, sábio, aceitei o conselho na hora”.
A viagem foi longa, mas compensadora. Em fevereiro de 1990, embarcou sozinho em um ônibus da Viação Medianeira. Foram três noites e quatro dias de estrada, atravessando estados, poeira, paisagens intermináveis e pensamentos silenciosos. Levava consigo poucas roupas e muita expectativa. Não levava ainda a máquina de escrever — essa viria depois, enviada pelo pai, junto com livros e outros pertences.
Chegou a Sorriso no dia 29 de fevereiro de 1990, por volta das 19 horas. Um dia raro, de ano bissexto, quase como um sinal. Desceu próximo ao Posto Xodó, em uma cidade que ainda engatinhava. Ruas de terra, pouca iluminação, energia a motor, comércio simples. Nada lembrava os centros urbanos que conhecera. Mas havia algo diferente no ar: sensação de começo.
Foi direto para o Hotel São Miguel, onde foi recebido por Auti De Bona como se fosse da família. O acolhimento foi imediato. E naquela mesma noite, o filho de Auti, Gilson, fez questão de mostrar a cidade ao recém-chegado.
A Avenida Blumenau, hoje símbolo de desenvolvimento e urbanização, era então apenas uma estrada de barro aberta no meio do cerrado. Gilson, ao volante de um Voyage 1.6 azul Ilhéus, resolveu “apresentar” Sorriso à sua maneira. Entre risadas, deu cavalos de pau na lama da avenida, como quem dizia, sem palavras, que ali tudo ainda estava sendo construído — inclusive as próprias histórias.
Airton observava em silêncio. Aquela cidade não oferecia garantias. Mas oferecia espaço.
No dia seguinte, Auti o levou para conhecer o advogado Dr. Délcio Antônio de Oliveira, que mantinha escritório ao lado da rádio local. A conversa foi direta, franca. Não houve promessas grandiosas. Houve confiança. Em poucos dias, Airton já estava trabalhando com ele, iniciando uma parceria que duraria 27 anos. Lembra Airton que comprou sua primeira mesa e cadeira para o escritório, a prazo, da Loja Estilo Móveis, cujo proprietário Admir Calminatti, mais tarde, veio a ser um dos responsáveis pelo seu ingresso no Rotary e seu padrinho de casamento.
Quase simultaneamente, surgiu outra oportunidade inesperada. Pela intermediação de Gilson, Airton foi apresentado à diretora da Escola Estadual Mário Spinelli, Odila Bortoncello. A escola precisava de professores. Ele aceitou. Começou lecionando Matemática para a 5ª série. Mais tarde, passaria a ministrar Direito e Legislação no curso Técnico em Contabilidade.
Cinco dias após chegar a Sorriso, Airton já advogava e lecionava.
A decisão foi rápida, mas consciente. Ligou para casa e avisou que não voltaria. Pediu que enviassem livros, roupas e a máquina de escrever Olivetti Praxis 20, comprada anteriormente com recursos da rescisão do Banco Sudameris. O pai não hesitou. Mandou tudo. E mandou também dinheiro, pedindo que procurasse uma casa para a família, pois eles também viriam.
A casa escolhida não era grande, nem confortável. Era simples, de madeira, com frestas, piso rústico e pouca estrutura. Mas tinha algo decisivo: a sombra de dois pés de jaca. Ali começava uma nova vida.
Em julho de 1990, Dalírio, Arnelda e o filho Alencar, mudaram-se definitivamente para Sorriso. A família estava reunida. O futuro, aberto.
A partir daquele 29 de fevereiro de 1990, nada mais seria provisório.
A cidade não era mais visita. Era destino.
Os primeiros anos de Airton Cella em Sorriso foram tudo, menos fáceis. A cidade crescia em ritmo acelerado, mas ainda carecia de estrutura básica. Quase tudo exigia deslocamento, paciência e resistência. Para quem chegara há pouco, o desafio era duplo: construir uma carreira e se firmar em uma cidade que também estava se construindo.
Na advocacia, o início ao lado do Dr. Délcio Antônio de Oliveira foi intenso. O escritório atendia demandas variadas, muitas vezes urgentes, de uma população formada majoritariamente por migrantes, trabalhadores rurais, pequenos empresários e famílias que haviam apostado tudo naquela nova fronteira agrícola. As pessoas chegavam com problemas concretos, histórias duras e pouca orientação jurídica. Não havia espaço para superficialidade.
O maior obstáculo, porém, era geográfico.
O Fórum ficava em Sinop, a cerca de 85 quilômetros.
O Cartório de Registro de Imóveis, em Rosário Oeste, a mais de 300 quilômetros.
A Vara do Trabalho, em Diamantino ou em Colíder, ultrapassavam os 250 quilômetros de distância.
Cada processo significava estrada.
Muitas vezes, Airton saía ainda de madrugada, pegava carona, ônibus ou seguia a pé até encontrar algum transporte. Com o tempo, passou a usar o Gol do pai, que se tornou companheiro constante dessas viagens. Eram dias inteiros na estrada, audiências marcadas para horários incertos, retornos noturnos e, no dia seguinte, atendimento normal no escritório.
Em 1991, chegou a percorrer mais de 100 mil quilômetros em deslocamentos profissionais. Não havia glamour. Havia poeira, cansaço e responsabilidade. Mas havia também a consciência clara de que aquele esforço estava construindo algo sólido.
Paralelamente à advocacia, Airton manteve sua atuação como professor na Escola Estadual Mário Spinelli. O ambiente escolar foi fundamental para sua integração definitiva à comunidade. Começou ensinando Matemática e, depois, assumiu as disciplinas de Direito e Legislação no curso Técnico em Contabilidade, onde permaneceu por cerca de três anos.
A sala de aula aproximou Airton da juventude local, das famílias, dos professores e da realidade educacional da cidade. Não era apenas conteúdo. Era convivência. Em muitas noites, após as aulas, seguia com os alunos até a praça para jogar vôlei, conversar e compartilhar momentos simples. A educação extrapolava o quadro negro.
Foi também nesse período que seu irmão Alencar se tornou seu aluno. A situação exigiu ainda mais responsabilidade e cuidado. Mais do que ensinar matérias, Airton compreendia que estava, de alguma forma, servindo de exemplo — algo que sempre levou muito a sério.
Aos poucos, a cidade começou a reconhecer seu trabalho. Mesmo jovem, recém-formado e recém-chegado, Airton conquistava confiança. Parte disso vinha da postura firme, da palavra cumprida e da disposição de ir até onde fosse necessário para defender quem o procurava. Parte vinha do acolhimento natural de Sorriso, uma cidade onde as relações ainda eram diretas e pessoais.
A casa simples, escolhida pela sombra dos pés de jaca, tornou-se ponto de apoio. Era ali que a família se reunia, que se discutiam os desafios do dia e que se renovavam as forças. Não havia luxo, mas havia presença. E isso fazia toda a diferença.
Aos poucos, Sorriso deixava de ser apenas o lugar onde Airton trabalhava. Passava a ser o lugar onde ele pertencia. Cada estrada percorrida, cada audiência enfrentada, cada aula ministrada e cada cliente atendido reforçavam essa certeza.
A cidade crescia e Airton também.
A advocacia se consolidava.
E a vida começava a se organizar.
Mas, enquanto o trabalho avançava, outro aspecto fundamental da história ainda estava se desenhando — de forma silenciosa, paciente e definitiva: a construção de uma família.
A história de Airton e Márcia não começou como um romance imediato. Ela nasceu devagar, no tempo certo, construída mais pela convivência e pelo respeito do que por gestos grandiosos. Foi uma história que amadureceu antes de florescer.
O primeiro contato ocorreu ainda no início da década de 1990, quando Airton lecionava na Escola Estadual Mário Spinelli. Márcia Bressan era aluna — discreta, aplicada, atenta e de olho no professor. “Minha amiga era aluna do 5º ano, no Mario Spinelli, e falou que tinha um novo professor de matemática. Todas as alunas ficaram na expectativa. Fui aluna dele por um ano, mas só o olhava da carteira, bem quietinha”, lembra.
Naquele momento, não havia qualquer aproximação além da relação formal entre professor e estudante. Os caminhos se cruzaram, mas seguiram separados.
Enquanto a menina mirava o jovem professor, ele nem percebia. Márcia, uma das cinco filhas do seu Antônio dos Santos Bressan e da dona Joana Oliveira Bressan, era tímida. A menina, natural de Nova Andradina, do Mato Grosso do Sul, havia chegado ao então distrito de Nobres, que era Sorriso, em 1984, com 14 anos de idade. O pai veio para ser o encarregado na Madeireira Sodema. Moravam há cerca de cinco quilômetros do centro. Todo dia um carro da madeireira levava as filhas e filhos de funcionários para a escola. Márcia fazia o percurso desde 1984. Já mocinha, em 1990, se encantou pelo professor, mas manteve a discrição, afinal, era uma aluna. Foi só no ano seguinte, em 1991, na noite da formatura da turma, que Airton percebeu a moça.
O reencontro aconteceu alguns anos depois, em 1991, durante a formatura da turma. Airton estava ali como professor convidado e como irmão de um formando — Alencar. Foi naquela ocasião, em meio à celebração simples, que ele a viu de outra forma. “Fiquei encantado naquela noite, foi o momento em que a vi”. Conversaram, dançaram, trocaram poucas palavras. O suficiente para que algo diferente fosse percebido.
Pouco tempo depois, voltaram a se encontrar casualmente no Mercado Sorriso. A conversa foi rápida, quase despretensiosa, mas abriu espaço para um novo encontro. Combinaram de se ver no fim do ano, durante as festas.
O marco definitivo veio no réveillon do Oásis Clube. Ali, entre música, gente conhecida e a atmosfera típica de cidade pequena, a história começou de verdade. A partir dali, passaram a se encontrar com frequência, sempre de forma simples, sem pressa. Airton faz uma observação: “O Oásis foi o local do início do namoro e da festa de Casamento”.
Em 1992, ela acompanhou o namorado quando ele participou da reativação da Câmara Júnior de Sorriso.
Naquela época, a vida de Airton como jovem advogado em Sorriso era bastante intensa. Ele recorda que, em sua primeira ação de cobrança, conseguiu uma liminar de busca e apreensão de um caminhão pertencente a Admir Zen. O despacho foi redigido à caneta, naquele mesmo momento. Segundo Airton, o juiz, Dr. Elinaldo Veloso Gomes, sequer leu os fatos detalhadamente; apenas afirmou que confiaria em sua honestidade, advertindo que, caso um dia faltasse com ela, jamais voltaria a conceder-lhe qualquer pedido. O episódio ocorreu na então comarca de Sinop, localizada a cerca de 85 quilômetros de Sorriso. Conta que o valor dos honorários ganho dava para comprar um “chevette” na época, mas o jovem guardou o dinheiro e preferiu investir no escritório.
Na sua atuação diária, ia de carona para Nobres, Rosário Oeste e Sinop, locais de sedes dos Fóruns e Cartórios de Registros de Imóveis em que atuava. Luxo era ir de ônibus, às vezes usava o carro do colega, Dr. Délcio. Percorria as estradas entre Diamantino e Colíder para audiências trabalhistas. Por muitos meses, chegou a ir todos os dias, de segunda a sexta-feira, de Sorriso a Colíder. Com a chegada dos pais, se apossou do Golzinho de seu Dalírio. Em um ano, 1991, conta que percorreu 108 mil quilômetros indo e vindo em audiências trabalhistas, em Colíder, e Cíveis, em Sinop. Nunca teve preguiça para nada. Seu trabalho era das 6h à meia noite.
Na vida pessoal, o namoro com Márcia seguia. O namoro foi longo — cinco anos — e construído com paciência. No início, viam-se principalmente aos finais de semana. Márcia ia de bicicleta até a Praça da Juventude, onde conversavam por horas. Falavam de planos, de estudo, de trabalho, de futuro. Não havia ansiedade. Havia diálogo.
Airton sempre incentivou Márcia a estudar. Quando ela decidiu cursar Direito, ingressou na Universidade de Cuiabá (UNIC). Durante esse período, vinha todos os finais de semana de ônibus para Sorriso. Mais tarde, ganhou um Ford Ka, reservado para datas especiais, o que facilitou os deslocamentos. A distância nunca foi obstáculo — era apenas parte do caminho.
O pedido de noivado aconteceu de forma singela, mas carregada de significado, na virada do ano de 1994 para 1995, novamente na Praça da Juventude. Não houve produção elaborada. Houve verdade.
O casamento ocorreu em 20 de dezembro de 1996, em Sorriso, tendo a festa se realizado no espaço do Oásis Club. Airton conta que o proprietário Pedro facilitou o pagamento das despesas fracionando em 10 vezes no cartão de crédito. A cerimônia foi simples, mas profundamente simbólica. Amigos, companheiros rotarianos, familiares e pessoas da comunidade participaram daquele momento que selava, não apenas uma união afetiva, mas uma parceria de vida.
Airton guarda na memória a despedida de solteiro, a entrada da noiva na igreja, ao som da Ave Maria, cantada pelo amigo “Facho”; a música da festa, orquestrada pelo então amigo de seu irmão Alencar, o gaiteiro conhecido por “Danone”, então estudante de Direito na UNIC de Cuiabá (Evandro Trindade do Amaral, hoje professor universitário e colega Advogado) e sua equipe.
Após o casamento, viajaram para Cancún, no México, em lua de mel. Voltaram com a certeza de que a vida seria construída lado a lado — nas decisões, no trabalho, na família e no serviço à comunidade.
Márcia nunca foi apenas esposa. Tornou-se companheira integral. Formou-se em Direito também e tornou-se advogada do então escritório Oliveira & Cella Advogados. Caminhou com Airton na advocacia, nos projetos sociais, no Rotary e nas escolhas difíceis. Onde ele estava, ela estava presente. Onde ela tinha um sonho, ele incentivava.
Os dois sempre caminharam juntos, quer seja no trabalho, na vida pessoal e na comunidade. Dentre os clubes de serviço, Airton iniciou no Rotary Club de Sorriso, onde foi Presidente em 2005/2006, e Marcia, associada à Casa da Amizade. Também atuaram como mentores e associados fundadores na criação do Rotary Club de Sorriso Ouro Verde, em 2018, e, posteriormente, do Rotary Club Joia do Cerrado, em 2022. Atualmente, no ano de 2026, permanecem integrando como associados, sendo que Airton exerce, pela terceira vez, o cargo de presidente no Rotary Club Joia do Cerrado.
Contam que Airton também teve participação na Associação de Pais e Mestres da Escola Estadual Mário Spinelli e na Diretoria da Igreja São Pedro Apóstolo, dentre outros, já que sempre foi muito participativo na sociedade.
Como Advogado, juntamente com Dr. Délcio, em 1995, foi um dos responsáveis pela instalação da 17ª Subseção da OAB em Sorriso; da instalação, primeiro, da Vara do Trabalho itinerante e depois em definitivo; do lançamento da pedra fundamental e da instalação do Fórum. O então escritório também atuou no processo de emancipação política do município de Nova Ubiratã.
Conta que, como presidente da Câmara Júnior, foi o coordenador de uma Enquete na cidade para a escolha de prioridades nas obras municipais, na ocasião, entre a construção do Ginásio de Esporte ou o Fórum. O resultado da consulta popular foi pela construção do Fórum. Diante disso, o então prefeito José Domingos Fraga Filho, pelo Município, comprou um Uno Mille e doou para a Câmara Júnior com o propósito de fazer uma rifa para buscar o dinheiro para o início das obras. Assim foi feito. A rifa correu e não teve ganhador. Então foi convertida em Bingo. Os maiores colaboradores nesse bingo se encontram materializados em uma placa esculpida que se encontra das dependências do Fórum, identificados como os Grandes Construtores.
Como o referido bingo, na época, era identificado como uma contravenção penal, o então Delegado de Polícia Civil, mesmo sabendo que o resultado era para uma causa nobre e do próprio Judiciário, resolveu consultar o Juiz competente, em Sinop. Daí veio o Despacho determinando a prisão dos responsáveis, caso pegos em flagrante. Avisado, por fax, pelo então Promotor de Justiça Paulo Prado, Airton, no dia do evento, ficou em casa; o Delegado saiu em diligência para Novo Matogrosso e quem cantou o bingo foi o Dr. Elso Rodrigues, no Estádio Municipal. Tudo correu de forma tranquila. Com o resultado das vendas, conta Airton, o Município pagou a primeira etapa da obra.
A relação se consolidou não pela ausência de dificuldades, mas pela forma como sempre escolheram enfrentá-las: juntos.
Enquanto o trabalho crescia e a cidade avançava, a vida preparava um novo e decisivo capítulo — aquele que redefiniria completamente o sentido de tudo o que haviam construído até então: a chegada dos filhos.
Após o casamento, em 20 de dezembro de 1996 e o retorno da lua de mel, em Cancun, México, os dois decidiram que, antes de pensarem em filhos, viajariam e se estabeleceriam profissionalmente.
Conta que, por 10 anos, percorreram o Brasil todo, passando por todas as capitais de Estado e Distrito Federal, de carro, sendo o último Estado, o de Amapá. Assim, passados dez anos, chegou o momento. Era a hora de ter pequenos pezinhos andando pela casa. Márcia fez todos os exames, mas não conseguia engravidar. Realizada profissionalmente e casada com o amor da vida, o desejo de ser mãe só crescia. E ela foi em busca de informações. Uma das sugestões de um médico de Cuiabá, Dr. Humberto Kenji Chibasaki, foi uma fertilização in vitro (FIV). O casal embarcou na jornada. Confirmada a gravidez, Márcia e Airton seguiam para Cuiabá todos os meses para acompanhamento.
Em 04 de janeiro de 2008, Hani Cella veio ao mundo. Linda, perfeita, da forma que os pais haviam sonhado. O coração de Márcia transbordava amor. Airton, que acompanhou todo o parto, chorou como criança assim que recebeu a filha nos braços. Conta, com orgulho, que filmou o parto e não tirou o olho da pequena, acompanhando em todo o processo de limpeza – primeiro banho -, pesagem e o momento de receber a primeira roupinha. Hani tornou a vida perfeita. E foi o pai quem sempre cuidou da filha no período noturno, trocando fraldas e dando de “mamá”.
“Antes de nos casarmos, a Márcia falava que queria quatro filhos e eu dois. Então combinamos que teríamos três”, conta o pai. E o casal brincava com o número. Quando decidiram que era hora de vir o segundo filho, procuraram a clínica, descongelaram os embriões e tentaram uma nova FIV – que não deu certo.
Foram várias tentativas e frustrações. Não queriam que Hani fosse filha única, sempre imaginaram uma casa cheia, para que todos pudessem multiplicar amor. E Márcia foi estudar novamente. Pesquisou. Soube de um casal que havia feito barriga de aluguel na Índia e foi atrás de informações. Para sua surpresa, o casal estava mais próximo do que pensavam – Ivonete e Pedro – quase vizinhos. Munida de conhecimento, ela entendeu que a barriga de aluguel, ou cessão temporária de útero, é uma técnica complementar de reprodução assistida, que permite que mulheres que não podem engravidar por problemas relacionados ao útero, tenham filhos biológicos, que era o caso.
Com o apoio da amiga Ivonete, Márcia entrou em contato com a clínica Kiran, na Índia, para realizar o sonho de ser mãe novamente. Havia, porém, um obstáculo: Airton tinha pânico de avião e não viajava de forma alguma. “Foi então que começaram a surgir os anjos em nosso caminho. Tivemos vários, mas o primeiro foi a comadre Nelci, que se prontificou a acompanhar a Márcia. Somos imensamente gratos a ela”, relembra Airton, emocionado.
Nelci providenciou o visto, e as duas seguiram viagem. Na clínica Kiran Infertility Centre Pvt. Ltda, Márcia realizou a coleta do material genético, restando apenas o do marido. Para isso, Airton dirigiu até São Paulo, onde fez a coleta na capital paulista, possibilitando a continuidade do tratamento.
Assim que o material dos dois foi recebido na Índia, iniciou-se o processo da geração dos embriões em laboratório para a posterior transferência para o útero temporário da reprodução assistida. Em poucos dias receberam o comunicado avisando que o processo havia dado certo. E ainda naquela semana outra boa notícia: eram dois embriões! Os três filhos planejados! “Foi uma emoção indescritível, nossos filhos cresciam em outro ventre, do outro lado do mundo, e passamos 24 horas por dia, ávidos por notícias”, diz Márcia.
A partir daí, iniciou-se o processo do acompanhamento. Em Sorriso, o doutor Edmar Washington Oliveira Telles, companheiro Rotariano e amigo da família, passou a acompanhar a epopeia do casal. Cada ultrassonografia recebida da Índia era repassada a ele para verificar se estava tudo bem. Na Índia, não há identificação do sexo do bebê.
No Brasil, os pais tentavam adivinhar quem estava a caminho, pela leitura dos ultrassons, que também eram emitidos de forma a não permitir a clara visualização. Com 36 semanas de gestação, uma ligação internacional foi a responsável pela notícia de que os bebês nasceriam em duas semanas e que os pais deveriam estar lá para acompanhar o nascimento. Nasceram em 30 de janeiro de 2016, na Índia, Naion e Aisha Cella, os filhos que Márcia e Airton atravessaram um continente para que pudessem vir ao mundo. “Nesse momento eu falei: agora você vai comigo, temos que ir buscá-los e são dois bebês”, lembra Márcia.
Airton, que já vinha recorrendo à terapia, não teve escolha senão enfrentar. Foi assim que, com ajuda profissional, entrou no avião para uma viagem de quase 40 horas, entre ida e volta. “Nesse momento eu só pensava que veria meus filhos, queria pegá-los, protegê-los, garantir que o papai estava presente”, pontua o pai. No Brasil, Hani ficou sob os cuidados da família e dos amigos, que sempre apoiaram o casal.
1990
Alencar Cella
Alencar Cella: Da História da Família à Construção da Linear e da BC4 em Sorriso
Esta é uma história que atravessa diferentes cidades e regiões do Brasil, marcada pela determinação e pela busca constante por novas oportunidades. Trata-se de parte da trajetória da família Cella e do contexto que levou sua vinda para Sorriso, no estado de Mato Grosso. Iniciada na região Sul, essa história projeta-se no presente com a consolidação da Linear Consultoria e Projetos, empresa sólida com mais de 20 anos de atuação no mercado.
Alencar Cella cresceu em um ambiente familiar profundamente ligado ao trabalho, à agricultura e ao espírito empreendedor herdado das gerações anteriores.
Seu pai, Dalírio Cella, tem 84 anos e nasceu em 15 de novembro de 1941, na então comunidade de Campestre, interior do município de Sobradinho, no Rio Grande do Sul. O cenário de sua infância era uma casa construída inteiramente em pedra, com porão bem ventilado e uma varanda de onde se avistava o amplo horizonte.
Filho de Augusto Cella e Úrsula Puntel Cella, Dalírio foi criado em um ambiente familiar marcado pelo trabalho manual e pela produção rural. Seu avô, um homem de visão muito além de seu tempo, era produtor rural e desenvolvia atividades como o cultivo de fumo e milho, além da pecuária e da suinocultura. Parte da produção de milho era destinada à alimentação dos próprios animais da família.
No porão da casa, protegido pelas grossas paredes de pedra, armazenavam-se diversos alimentos produzidos artesanalmente, como salame, queijo, vinho, melado, açúcar mascavo, cachaça, graspa (grappa) e carnes conservadas em latas de banha. Naquele período, sem eletricidade ou refrigeração, os animais eram abatidos, a carne cozida e armazenada na gordura para preservar sua qualidade e sabor.
A visão empreendedora de Augusto Cella também se destacava na transformação do fumo plantado em fumo de corda, por meio de um processo artesanal, que era embalado e comercializado diretamente pela família no comércio interestadual. Além disso, mantinha uma madeireira movida pela força da água, por meio de uma roda d’água, que possibilitava a extração e a transformação da madeira destinada à construção.
“Aquele porão era uma fartura. Quando chegava a hora de fazer o almoço, era só descer: tinha de tudo. Além do salame, do vinho e do queijo, que eram todos feitos em casa, havia frutas, verduras e a carne”, relembra Dalírio. “O porão, com suas largas paredes de pedra, era a própria geladeira que tínhamos. O ambiente interno era muito agradável, tanto no inverno quanto no verão. A casa inteira era protegida pelas enormes paredes de pedra”, completa.
Dalírio cresceu em uma família que reforçava a ideia de que “tudo o que se planta, dá”, bastando cultivar e cuidar. Na vila de Sobradinho, localizada a cerca de sete quilômetros da comunidade onde morava, foi aluno da professora Amélia Borim e da irmã Cleci, frequentando a escola até o 4º ano do ensino primário. A distância era percorrida a cavalo. Além da vida escolar, Dalírio participava ativamente da vida religiosa da comunidade, frequentando o terço, a missa aos domingos e as festas promovidas pela igreja.
Foi em uma das quermesses de São João que o jovem Dalírio pediu a bênção do santo e uma ajuda para encontrar a futura esposa. “Naquela época, quando alguém tinha interesse em outra pessoa, mandava cartinhas. Eu tinha recebido cartas de umas quatro moças diferentes, mas não tinha sentimentos por nenhuma e, por isso, não respondi. Naquele dia, eu tinha ficado encarregado de acender a fogueira da festa. Antes de acender, pedi: ‘Santo Antônio, me mostre qual deve ser a minha esposa’”, recorda.
Pedido feito, fogueira acesa. “Quando olhei para o lado, ainda com as chamas crepitando, eu a vi. Não era nenhuma das moças que já tinham me escrito. Vi o quanto era bonita, me olhava de canto e pensei: é ela!”. A jovem era Arnelda Turcatto, filha dos vizinhos da família, com quem Dalírio havia crescido, mas nunca antes a tinha visto com olhos enamorados.
“Conversamos, dançamos e, no fim da festa, já de tardinha, fui embora acompanhando ela. Perguntei se gostaria de namorar comigo. Ela riu e disse que estava só esperando a proposta.” Assim, em frente ao sítio vizinho e sob as bênçãos de São João, Dalírio despediu-se da agora namorada, deixando-a na porta de casa e seguindo para a residência dos pais.
Quase quatro anos depois daquela tarde, em 25 de maio de 1964, Dalírio e Arnelda se tornaram marido e mulher. Nesse mesmo contexto, vivendo ainda na comunidade onde haviam nascido, o casal recebeu o primeiro filho: Airton, que nasceu em julho de 1967, em Sobradinho.
Em 1972, a vida da família passou por uma guinada com a primeira grande mudança. Desta vez, o destino foi Caibi, no estado de Santa Catarina. Se antes a produção era voltada ao fumo de corda, agora, nos 113 hectares de terras catarinenses, Dalírio passou a abrir a mata para a formação de pastagens, construir cercas, acompanhar partos de vacas e cuidar de bezerros. Tornava-se, assim, produtor de gado.
Foi também em Santa Catarina que, em 1975, nasceu Alencar, o segundo filho do casal. “Ele nasceu em Palmitos, porque em Caibi não tinha hospital”, ressalta o pai. “As duas gravidezes foram planejadas e os dois filhos foram muito esperados. Eu e Arnelda fizemos um curso com um médico, que nos ensinou a planejar a gravidez. Nossos filhos foram muito desejados”, relata o patriarca.
Ainda nesse período, o casal passou a atuar como palestrante em cursos de preparação para o casamento, compartilhando experiências e orientações sobre a importância de estruturar e planejar a vida familiar.
O curso da vida, no entanto, trouxe novos desafios. Com o falecimento do pai de Arnelda, a sogra de Dalírio mudou-se para Caibi para permanecer algum tempo com a família. Fragilizada, acabou adoecendo, o que motivou uma nova mudança. “Vendi tudo o que tinha em Santa Catarina e voltamos para Sobradinho”, recorda Dalírio. O ano era 1986. As terras de 113 hectares vendidas no estado vizinho foram convertidas na aquisição de 50 hectares em Salto do Jacuí, município vizinho a Sobradinho.
Com Airton e Alencar ajudando na lavoura, tudo seguia seu curso natural. Airton terminou o ensino médio e foi cursar direito. Alencar continuava os estudos em Sobradinho, onde concluiu o ensino fundamental. Já o segundo grau seria em outra cidade, outro estado. O pai tinha muita amizade com um despachante de sobrenome Vendrúsculo, que era o responsável por apresentar e revender terras no Mato Grosso. Foi nesses termos que, em 1989, Dalírio conheceu Sorriso. De uma família de 13 irmãos, Dalírio havia feito uma sociedade com quatro irmãos mais velhos. Por meio de Vendrúsculo, os Cella haviam adquirido 800 hectares de terra na nova área; desse total, 200 eram de Dalírio.
Pouco tempo depois, Airton, recém-formado, comunicou ao pai que também iria conhecer Sorriso. “Eu falei: ‘procura o De Bona, ele tem o Hotel São Miguel instalado nessa cidade, ele vai te dar apoio’”, orientou Dalírio. De Bona era um dos vizinhos de Sobradinho que já havia se aventurado no Mato Grosso.
Seguindo o conselho do pai, o rapaz partiu de ônibus rumo ao desconhecido, levando no bagageiro uma mala de livros do advogado recém-formado. “Ele veio, gostou e disse que não voltaria mais”, relata o pai.
Já estabelecido, Airton adquiriu uma casa de madeira nas proximidades da Área Verde Central. Com a residência garantida, em 17 de julho de 1990, desembarcou em Sorriso toda a mudança da família Cella. Dalírio veio com o objetivo de destocar e iniciar o trabalho na área recém-adquirida pela família.
Como eram férias escolares de julho, Alencar deveria apenas conhecer a nova casa e retornar ao Rio Grande do Sul para continuar os estudos — o que nunca aconteceu. O diploma do ensino médio do mais novo dos irmãos Cella foi expedido pela Escola Estadual Mário Spinelli, de Sorriso.
“Dessa época, lembro que o pai ficava longos períodos afastado, trabalhando na lavoura, enquanto nós permanecíamos na cidade. Todo mundo trabalhava muito: o Airton no escritório, minha mãe em casa e envolvida com os projetos da igreja — ela deu catequese por mais de 40 anos — e eu, assim que cheguei, já fui procurar emprego e estudar”, pontua Alencar.
Seu primeiro emprego formal, com carteira assinada, foi na Rádio Sorriso. Em seguida, trabalhou em um escritório de engenharia civil, cuja entrada se dava por uma floricultura, característica comum do comércio local naquele período.
Hoje vejo o quanto meu pai foi desbravador. Dos quatro irmãos, ele foi o único a se aventurar em uma nova região pela segunda vez”, frisa Alencar. “Abriu mão de uma estrutura toda montada junto à família do vô para construir a própria história, primeiro desbravando Santa Catarina e depois o Mato Grosso, em Sorriso”, completa o filho.
O foco de Dalírio sempre foi trabalhar, prosperar e escolher uma região que oferecesse melhores possibilidades de futuro, tanto para si quanto, principalmente, para a família. A decisão de buscar novos horizontes tinha um objetivo muito claro: estabelecer-se em um lugar promissor, onde pudessem permanecer próximos dos filhos — o que, de fato, se concretizou.
Habituados ao ritmo do interior e da vida na lavoura, a adaptação a Sorriso não foi muito diferente das experiências anteriores, com exceção do barulho constante dos geradores de energia e dos longos períodos sem fornecimento elétrico, marcas do cotidiano da cidade em seus primeiros anos de formação.
Observando a vocação agrícola da cidade e a forte ligação do pai com a terra, Alencar optou por cursar Agronomia na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), em Cuiabá. Na capital, sentiu de forma mais intensa o impacto da mudança. “Foi quando tive o choque de ver, estar e viver em uma cidade grande”, relata.
“Quando fui fazer o vestibular, o método de escolha do curso foi por eliminação: selecionei aquilo que eu não queria e, no fim, sobrou Agronomia, que, no fundo, era o que estava dentro da realidade que eu vivia”, conta.
Durante a graduação, o jovem buscou vivenciar diferentes experiências, mas, bem orientado por professores, preocupou-se em articular o conhecimento teórico adquirido na universidade com a prática que já lhe era familiar. Aproveitou todas as oportunidades para realizar estágios, acompanhar docentes em atividades profissionais e ampliar sua formação, inclusive durante fins de semana, férias e períodos de paralisação das atividades acadêmicas.
Sob linhas estruturadas
Formado em meados dos anos 2000, o então jovem profissional retorna a Sorriso já com o propósito de construir sua própria trajetória. Durante quase quatro anos, atuou como colaborador e sócio em outra empresa, experiência que lhe proporcionou aprendizado técnico e visão de mercado. Em abril de 2003, decide dar um passo decisivo e funda o próprio escritório, dando origem à Linear Consultoria e Projetos Ltda.
A empresa inicia suas atividades nos setores de topografia, meio ambiente e regularização fundiária, voltada à organização e legalização de propriedades rurais e urbanas em Sorriso e região. Para ele, a criação da Linear representa não apenas a aplicação do conhecimento adquirido na graduação, mas, sobretudo, o reflexo dos estímulos recebidos de professores que o incentivaram a seguir o caminho do empreendedorismo.
Naquele período, o destino mais comum — e considerado mais promissor — para os agrônomos recém-formados era o ingresso em multinacionais de defensivos agrícolas, conhecidos popularmente como “veneneiros”. No entanto, um de seus professores foi determinante ao alertar: não se deixem seduzir apenas por cargos estáveis ou concursos públicos; há um vasto campo de oportunidades fora do modelo tradicional. Segundo ele, era preciso planejar ao menos dez anos de trabalho intenso, pois o conhecimento exigia investimento, esforço, dedicação e persistência.
Essa orientação marcou profundamente sua formação. Ao concluir a faculdade, Alencar já tinha como premissa fazer algo diferente e empreender, mesmo ciente das dificuldades iniciais. Chegou a atuar por um ano no poder público, como secretário de Cidade e Planejamento, mas foi na iniciativa privada — e nas lacunas de serviços existentes na região — que encontrou o espaço ideal para concentrar seus esforços.
Atualmente, a Linear Consultoria e Projetos Ltda encontra-se consolidada, estruturando suas atividades em quatro principais linhas de negócios: serviços de consultoria e regularização ambiental; consultoria e regularização fundiária; urbanismo; e projetos de irrigação. Essas frentes refletem não apenas a diversificação da empresa, mas também o amadurecimento de uma trajetória construída com planejamento, visão estratégica e compromisso com o desenvolvimento regional.
A consultoria e os serviços ambientais ofertados abrangem desde a etapa inicial de concepção dos projetos, sejam eles de natureza rural, urbana, industrial, comercial ou residencial. A atuação da empresa envolve o acompanhamento completo dos empreendimentos, tanto em processos individuais quanto integrados, com a análise de possibilidades, definição de soluções e orientação técnica para a correta aplicação das exigências legais.
Segundo ele, o objetivo é permitir que os clientes coloquem seus projetos em prática de forma planejada e em conformidade com a legislação ambiental vigente. Nos casos de empreendimentos já existentes, a consultoria também atua na adequação à legalidade, organizando processos viáveis de regularização, estruturados dentro de cronogramas físico-financeiros e amparados por um conjunto de ferramentas técnicas, equipe multidisciplinar e equipamentos especializados. O foco, destaca, está no acompanhamento contínuo dos clientes, priorizando relações duradouras e resultados consistentes.
Entre os serviços prestados estão a elaboração e acompanhamento do Cadastro Ambiental Rural (CAR), Licença Prévia, Licença de Instalação, Licença de Operação, outorgas de uso da água e de resíduos, Licença por Adesão e Compromisso (LAC), autorizações de desmate e Planos de Recuperação Ambiental. Atualmente, a empresa mantém uma carteira com mais de mil clientes vinculados ao CAR acompanhados diretamente e mais de trezentos empreendimentos devidamente licenciados, consolidando sua atuação como referência regional na área ambiental.
Na consultoria e nos serviços de regularização fundiária não é diferente. A equipe atua desde o estudo para aquisição de áreas, com laudos técnicos de estudo com cruzamento e conferência dos documentos e sua correlação com a área de posse referente, evitando deslocamento de área, cruzamos com a legalidade ambiental e possibilidades de empreendimentos sobre a mesma. Com equipe de topografia própria altamente equipada, desde GPSs Geodésico com precisão em tempo real RTK, RTX até Scaner a Lazer embarcado em drone para ortofótos ou nuvens de pontos topográficos para altimetria, sendo possível levantamentos planialtimétricos de altíssima precisão em áreas de mato sem a necessidade de intervenção na área.
Aliada a uma estrutura composta por equipamentos de alta precisão e equipe técnica especializada em levantamento de dados, a empresa também oferece uma ampla gama de serviços técnicos, como georreferenciamento, medição de áreas, demarcação de lotes e propriedades rurais, desmembramento e unificação de áreas, elaboração de projetos e demarcação de chácaras, além da demarcação de obras civis, loteamentos, barragens e empreendimento afins.
Até o momento, a Linear já contabiliza mais de 500 mil hectares de terras georreferenciadas sob sua responsabilidade técnica, um número que expressa a dimensão de sua atuação e a confiança conquistada junto a produtores, empreendedores e instituições da região.
O time de urbanismo, composto por profissionais da arquitetura, também lança mão de toda a infraestrutura técnica existente na Linear, visando ao melhor planejamento urbano, tanto em masterplans e estudos de viabilidade quanto em loteamentos urbanos ou rurais e condomínios, utilizando levantamentos topográficos próprios, tanto para a elaboração dos projetos quanto para a implantação. Já o time ambiental é voltado à legislação ambiental, enquanto a equipe de regularização fundiária atua para garantir a regularidade das áreas que serão transformadas de fazenda em lote ou de hectare em metros quadrados urbanizáveis, acompanhando todo o processo, do projeto à implantação. “Nosso time técnico já conta com mais de 8 mil lotes registrados em mais de 15 loteamentos aprovados e executados”, comemora o empresário.
Integrando a Linear, há ainda uma equipe exclusiva de engenheiros, técnicos e montadores responsável por oferecer soluções completas de irrigação, sejam elas rurais ou urbanas, corporativas ou privadas. O trabalho envolve desde o levantamento da área, a análise da planta baixa, o desenvolvimento do projeto e dos cálculos hidráulicos, até o planejamento da distribuição e da aspersão da água, culminando na implantação de sistemas de irrigação personalizados para cada situação. Os serviços podem ser comercializados de forma integrada ou individual, incluindo produtos como conjuntos de bombeamento, quadros elétricos, tubulações, aspersores e eletroválvulas, todos instalados com acompanhamento de assistência técnica e manutenções preventivas e corretivas, garantindo a longevidade dos sistemas comercializados e implantados.
“A Linear projeta e instala mais que sistemas de irrigação, proporcionamos saúde e qualidade de vida as pessoas”, pontua o empreendedor.
Pessoalmente, Alencar também criou raízes em Sorriso. “Essa cidade faz parte da minha história”, diz. “Foi em Sorriso que conheci meus melhores amigos, que me integrei na sociedade participando em entidades de classes, clubes de serviços como o Rotary Club que integro a mais de 25 anos, igreja e outras agremiações, também foi aqui que conheci minha esposa, Patrícia, odontóloga, também migrante de Amambai no Mato Grosso do Sul”, relata. Especializada em implantodontia, Patrícia tem um consultório localizado na Avenida Blumenau, n.º 3915, em que exerce sua profissão ativamente. “Nos casamos em 16 de novembro de 2007 e tivemos o primeiro filho Matheus nascido em 29 de março de 2011 e nosso segundo presente foi a Sophia que nasceu no dia 06 de agosto de 2013”, conta.
“Assim como o exemplo familiar dos meus pais, a minha família, sem sombra de dúvidas é o fator que mais contribui para o contexto feliz que vivemos, equilibrando evolução pessoal, crescimento empresarial, melhoria na qualidade de vida, a harmonia da família e com a comunidade ao entorno para seguir evoluindo mesmo em tempos diferentes e difíceis que vivemos”, avalia.
Em 2019, o campo empresarial de Alencar foi ampliado com a entrada em um novo segmento de atuação. O empresário passou a investir na área de geração de energia fotovoltaica e em soluções energéticas voltadas à viabilidade econômica, incorporando à sua trajetória um ramo alinhado às demandas contemporâneas por sustentabilidade e eficiência.
A nova iniciativa surgiu a partir de um convite inesperado do empresário José Baggio, referência mundial no comércio e na assistência de máquinas agrícolas da John Deere e proprietário da Agro Baggio, empresa com mais de 40 anos de atuação no mercado. “Foi uma agradável surpresa”, recorda Alencar.
As soluções ambientais e sustentáveis sempre estiveram presentes em seu cotidiano profissional e, diante da proposta, teve início um período intenso de estudos e planejamento estratégico. Foram realizadas análises de mercado, definição do público-alvo, avaliação da sinergia entre os clientes da Linear, da Agro Baggio e da nova empresa, além da seleção de produtos, serviços e soluções que comporiam o portfólio do empreendimento. Um dos aspectos centrais desse processo foi, ainda, a formação da equipe, considerada fundamental para a consolidação da nova fase empresarial.
Superadas todas essas etapas, nasce a BC4 Energia, estruturada em duas principais linhas de negócio. A primeira é voltada à distribuição nacional de produtos para geração de energia fotovoltaica, importados diretamente da China. A segunda concentra-se na compreensão das necessidades dos clientes e, a partir disso, no desenvolvimento de soluções personalizadas, capazes de atender tanto ao autoconsumo quanto à geração de excedentes para comercialização, além da gestão energética de empresas que possuem múltiplas unidades consumidoras.
Segundo Alencar, o trabalho da empresa consiste em analisar, projetar, viabilizar, instalar e acompanhar a manutenção e a geração de energia de cada cliente. “Nosso propósito é construir um dos melhores modelos de negócio para os nossos clientes, no qual o próprio consumidor também é o gerador. Ou seja, a indústria já nasce gerando lucro”, explica.
São passos largos, números expressivos, que jamais passaram pela cabeça do empreendedor que abriu as portas em 2003 com apenas três funcionários — contando ele mesmo. Hoje, apenas 21 anos depois, mais de 80 profissionais integram a equipe das duas empresas. “São mais de 80 famílias diretamente impactadas pelas nossas decisões e, além dos colaboradores, nossos clientes também são diretamente impactados pelo nosso trabalho e pelas escolhas que fazemos”, afirma. Por isso, a busca constante pela precisão em cada detalhe, aliando o trabalho humano a ferramentas de ponta, como o uso de tecnologia embarcada em equipamentos e equipes em permanente processo de capacitação.
Para Alencar, não há segredos ou fórmulas mágicas, mas sim muito trabalho, dedicação e respeito às pessoas. “Os desafios e as oportunidades foram surgindo, e nós fomos abraçando cada um deles; prospectei o mercado e, a partir de diversas análises realistas, fui identificando os campos de investimento e quais serviços poderiam ser agregados às atividades que já ofertávamos, complementando nossos serviços e produtos, e, principalmente, ouvindo os principais envolvidos no processo, que são nossos clientes, buscando resolver seus problemas e alcançar bons resultados para ambos, sem esquecer um pilar fundamental e indispensável: a equipe que compõe nossas empresas, à qual sou muito grato por estar conosco e construir, juntos, os degraus do presente que nos movem para o futuro, com os mesmos princípios.”
Ao ouvir o filho, seu Dalírio destaca sentir um imenso orgulho da trajetória que tanto Alencar quanto Airton construíram. “Ambos sempre foram muito dedicados, estudiosos e trabalhadores; eles têm muito da mãe”, conta. Sobre Airton, faz questão de lembrar que o rapaz que chegou com as malas cheias de livros é, hoje, um advogado renomado. Airton é casado com Márcia Cella e pai de Hany, Aixa e Nayon. A história da família Cella se entrelaça, assim, com a da própria cidade. Ele diz que é feliz na cidade que escolheu para viver. O trabalho na terra precisou abandonar em razão de problemas de saúde. Com a voz baixa e o olhar cheio de gratidão, conta que, há seis anos, em 2019, Arnelda se foi. “Foram 53 anos de um casamento harmonioso, com muito companheirismo, amor, entrega e cuidado um com o outro, com nossos filhos e netos.
Além disso, Arnelda era presença constante na comunidade: dava cursos de crochê, tricô e bordado; foi catequista por mais de 40 anos. Uma mulher única, forte, incrível”, salienta.
“Vim para cá há mais de 35 anos, auxiliei na construção desta cidade e tenho certeza de que daqui não saio. Arnelda está aqui e, um dia, em outro plano, nos reencontraremos, mas, até lá, tenho muito o que viver com meus filhos, meus netos, minhas noras, as amizades que construí aqui e aquelas que trago de longe”, sorri, grato aos dias que viveu, à vida que tem e ao futuro que vislumbra.
CEO da Linear e da BC4, Alencar acrescenta que já conheceu diversas culturas diferentes, inclusive exóticas, como a Índia. “Mas Sorriso é meu lar; se o Sul é a origem, a identidade é daqui”, reforça. E é sobre esse chão que ele planta as sementes do futuro. “Meus pais foram aventureiros, deixaram uma vida confortável para trás e nos deram a oportunidade de abraçar um mundo novo; chegamos a Sorriso no momento certo, a cidade foi calorosa, nos acolheu”, reflete.
Para ele, Sorriso mantém esse espírito de coletividade, no qual todos são bem-vindos e esperados para dar continuidade ao desenvolvimento, seja ele humano ou econômico. Recentemente, fechando um ciclo, Alencar adquiriu dos tios o lote de terra que haviam comprado junto com seu pai, no início de tudo. “Quem nasceu para ser tatu, o negócio é cavoucar”, brinca, ao citar o adágio popular para reforçar que, desde o aprendizado da infância, com as mãos na lavoura, as raízes continuam latentes. No fim, um agrônomo nato habita o CEO da Linear e da BC4.
1990
Crescimento, conquista e novos horizontes
- Em fevereiro, o Sicredi Sorriso foi fundada por 28 produtores rurais e, em 21 de setembro do mesmo ano, inaugurou sua primeira agência na cidade, iniciando sua atuação no cooperativismo de crédito rural.
- É construído o Aeroporto de Sorriso, inicialmente com uma pista de terra, projetada para receber pousos e decolagens de aeronaves de pequeno porte, contribuindo para a integração e o desenvolvimento da região.
- É criado o Grupo de Teatro de Sorriso, marcando o início das atividades cênicas organizadas no município e fortalecendo a expressão artística e cultural da comunidade local.
- É fundada a Liga de Campo de Futebol Amador de Sorriso, tendo como primeiro presidente Emílio Brandão. Na ocasião, sete times se filiaram à nova entidade esportiva: Cruzeiro, Arsenal, Madeireira Santa Paula de Ubiratan, São Cristóvão, Sete Lagoas, Operário e São Paulo, marcando o início da organização oficial do futebol amador no município.
- É criada a Secretaria Municipal de Saúde e Ação Social, com a responsabilidade de coordenar e implementar políticas públicas voltadas à promoção da saúde e ao atendimento das demandas sociais da população.
- Em 13 de março, foi constituída formalmente a primeira Igreja Batista em Sorriso, iniciando sua trajetória religiosa na cidade e servindo como marco do crescimento da tradição batista na região.
- A Secretaria de Educação, Cultura e Desportos de Sorriso é oficialmente criada pela Lei nº 156/90, sancionada em 24 de setembro de 1990, com o objetivo de organizar e consolidar as políticas públicas voltadas à educação, à promoção cultural e ao incentivo ao esporte no município.
- A Lei Municipal nº 171, de 11 de dezembro de 1990, instituiu a política municipal de atendimento aos direitos da criança e do adolescente em Sorriso, em conformidade com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
- A PREVISO, criada pela Lei Municipal nº 175/1990, é o regime próprio de previdência dos servidores públicos de Sorriso. Responsável pela concessão de aposentadorias e benefícios, atua com gestão autônoma, passando por adequações legais ao longo dos anos para garantir equilíbrio financeiro e atender à legislação federal.
- O Leo Clube realizou sua primeira reunião em 1º de setembro. A fundação oficial ocorreu em 24 de setembro e, no dia 29, o clube recebeu a Carta Constitutiva do Lions Internacional, passando a integrar oficialmente o movimento jovem voltado à liderança, ao voluntariado e ao serviço comunitário.
1990
Clairton Peres - CVE Vidros
Da mochila aos sonhos construídos: Uma trajetória de trabalho que transformou vidro em futuro.
Com uma mochila nas costas e a coragem de quem compreende que a vida pode mudar de um dia para o outro, Clairton Peres iniciou uma viagem de três dias rumo ao Centro-Oeste. Deixou o Sul sob o peso de uma estiagem que castigava a lavoura e encontrou, no Mato Grosso, cidades em pleno crescimento, movidas por sua própria força. Duas décadas depois, ao olhar para trás, percebe que não trouxe apenas sonhos: trouxe a determinação que ajudaria a transformar Sorriso em um polo de tecnologia, desenvolvida pela própria Clairton Vidros e Esquadrias.
Nascido em Giruá (RS), Clairton cresceu na roça, entre a lavoura simples onde os pais trabalhavam e os longos caminhos percorridos até a escola. A infância exigiu esforço desde cedo: aos 13 anos, já contribuía para o sustento da família, atuando como empacotador, vendedor de picolé, pintor e até anotador de jogo do bicho. Mais tarde, formou-se como auxiliar de contabilidade e passou a trabalhar em escritórios da região. Aos 18 anos, a experiência no Exército marcou sua trajetória, fortalecendo a disciplina e moldando valores que levaria por toda a vida.
O destino começou a se redesenhar no caixa de um supermercado, onde Clairton reencontrou Gorete, colega de infância. Um olhar tornou-se amor, o namoro virou casamento e a vida em Giruá parecia seguir um curso estável. Até que, em 1993, ele enfrentou sua maior dor: a perda repentina da mãe. Mesmo profundamente abalado, seguiu em frente ao lado de Gorete e, em 1998, celebrou o nascimento de Michele, sua primeira filha.
O ponto de virada veio durante um almoço de domingo. O padrinho comentou sobre um compadre que prosperava em Lucas do Rio Verde, e aquela história passou a ecoar na mente de Clairton. Ainda naquele dia, decidiu que precisava ver de perto aquele crescimento. Em menos de 24 horas, partiu com uma mochila simples e a coragem de recomeçar do zero — sem garantias, mas movido por muita esperança.
Em 1999, Clairton chegou de mudança. Com a ajuda do irmão, reformou uma casa simples, trouxe a família e iniciou uma nova etapa da vida. Trabalhou por um ano no comércio de máquinas, até que a empresa se dividiu. Sem tempo a perder, encontrou uma nova oportunidade em uma vidraçaria. Começou no depósito, passou pelo escritório e, nesse percurso, descobriu um caminho que jamais havia imaginado trilhar: o vidro.
Em Lucas do Rio Verde, passou uma semana distribuindo currículos e cultivando expectativas, mas voltou sem emprego. Vinte e um dias depois, no entanto, recebeu a ligação que mudaria o rumo de sua história. Do outro lado da linha estava Alcides, o homem que havia ido conhecer. A oportunidade, enfim, se concretizava.
A família também cresceu. Em 2013, nasceu Milena, a quem Clairton define com orgulho como “sorrisense de alma e de certidão”.
Movido pela dedicação e pelo desejo permanente de fazer sempre melhor, passou a participar de obras que marcaram a cidade: prédios públicos, hospitais, empresas, residências e inúmeros sonhos transformados em realidade. Em 2020, deu um passo ainda mais ousado ao criar a Otimizza, o primeiro sistema de esquadrias desenvolvido no Mato Grosso, totalmente idealizado e testado em Sorriso e hoje distribuído em todo o país. Pouco depois, surgiu a Ladore, uma linha de portas em ACM que conquistou os mercados de Goiás e São Paulo.
Hoje, um prédio de 2,2 mil m², no bairro Nova Prata, abriga a fábrica, o setor de desenvolvimento de produtos e, em breve, um showroom. A CVE já participou de mais de 900 obras e ajudou centenas de famílias a realizarem o sonho da casa própria. Também contribuiu para que muitas pessoas construíssem novas profissões, mudassem de vida e reconstruíssem seus caminhos.
Na empresa, Clairton trabalha ao lado dos irmãos Sérgio e Eder. A irmã, Maria Helena, partiu cedo demais, deixando uma saudade que nunca se acomoda. O pai permanece no Rio Grande do Sul. Em Sorriso, a família segue crescendo com a presença da sogra, cunhadas, sobrinhos e sobrinhas, além dos familiares e amigos que conquistaram na cidade que escolheram — e que também os escolheu.
As filhas Michele e Milena são motivos constantes de orgulho. E Gorete, companheira de todas as fases — viagens, mudanças, perdas, conquistas e recomeços —, é o alicerce silencioso que sustenta tudo o que foi construído.
E Sorriso? Para Clairton, segue sendo a terra prometida. Foi ali que ele aprendeu que o vidro, quando bem trabalhado, é forte, resistente e capaz de atravessar o tempo — exatamente como a história que construiu.
Com raízes firmes, mãos inquietas e o olhar sempre voltado para o amanhã, o gaúcho que chegou com uma mochila simples segue lapidando sonhos. Porque, para quem fez do recomeço um caminho, o futuro nunca é ponto final, é continuação.
1990
Jonkel Magalhães - TOTVS
Do menino vendedor ao arquiteto de sistemas
Do menino que vendia tomates nas ruas de Goiânia ao empresário que ajudou a levar sistemas de gestão para empresas do Centro-Oeste e Norte do país, J. Jonkel Magalhães construiu uma trajetória que acompanha a própria transformação tecnológica do agronegócio brasileiro. Em meio a computadores pioneiros e implantações feitas em cidades ainda em formação, ajudou a introduzir ferramentas digitais onde antes havia apenas papel, planilhas e intuição.
Tecnologia, no imaginário de muita gente, nasce em prédios modernos, cercada de cabos, servidores e escritórios silenciosos.
No interior do Brasil dos anos 1990, porém, ela chegava de outra maneira. Às vezes vinha no banco traseiro de um carro, protegida por caixas de papelão, sacolejando por rodovias esburacadas enquanto atravessava centenas de quilômetros de estrada até alcançar uma empresa que sequer sabia ao certo para que servia um computador.
Antes que os sistemas de gestão se tornassem rotina no dia a dia das empresas, alguém precisava explicar o que eram, como funcionavam e por que poderiam mudar completamente a forma de administrar um negócio.
Foi nesse cenário, entre fazendas, escritórios contábeis e empresas que ainda engatinhavam na informatização, que Jonkel Magalhães começou a construir sua história.
Joaquim Jonkel Magalhães Melo, nasceu em 3 de janeiro de 1974, na cidade de Mineiros, no sudoeste de Goiás, a poucos quilômetros da divisa com Mato Grosso.
O nascimento prematuro ocorreu ali devido à estrutura médica mais adequada disponível na região. No entanto, a ligação da família com o Centro-Oeste já existia anteriormente.
O pai, Joaquim Melo Alves, era conhecido pelo espírito empreendedor e pela disposição em apostar em um estado que ainda se consolidava economicamente.
Trabalhando com compra e venda de grandes áreas de terra, ele levava interessados – principalmente agricultores do Paraná e do Rio Grande do Sul – para conhecer fazendas em Mato Grosso, utilizando seus dois aviões próprios para percorrer distâncias que, por estrada, levariam dias ou semanas.
Era uma época em que grande parte dos negócios era feita na base da palavra – ou como se dizia, ‘no fio do bigode’. “Meu pai colocava o pessoal no avião e mostrava as fazendas. Ele trouxe muita gente que, hoje em dia, é reconhecidamente pioneira no estado”, aponta Jonkel.
A família chegou a viver em Chapada dos Guimarães, onde o pai abriu o primeiro supermercado da cidade, administrado pela mãe, Maria Luiza Magalhães. Mas a infância seria difícil.
Quando Jonkel tinha apenas cinco anos, o pai morreu em um acidente de trânsito no interior de São Paulo – ainda novo, com 48 anos de idade. Ainda assim, tempo suficiente para uma memória musical daquela criança.
“Uma lembrança muito agradável é que, certo dia, estávamos na fazenda, em Chapada, bastante gente, e tinha uma dupla sertaneja tocando e cantando ‘modão’. Era Tião Carreiro & Pardinho. Meu pai tinha proximidade com eles, porque eles eram de São José do Rio Preto (SP), e meu tio os conhecia de lá”, relembra.
A partida do pai interrompeu um ciclo e obrigou a família a recomeçar praticamente do zero. Sem a garantia documental de terras que o pai havia negociado, não lhes sobraram muitos recursos. Por isso, a mãe decide voltar para Goiânia (GO) com os filhos. Ali começaria uma fase marcada por trabalho desde muito cedo.
Ainda criança, Jonkel ajudava um tio que cultivava tomates em Goianápolis, cidade próxima à capital goiana. Depois da colheita, sempre sobravam umas duas caixas que o garoto, com 8 anos de idade, colocava no ombro e saía vendendo pelos bairros.
Foi o primeiro contato com o comércio e com a ideia de ganhar dinheiro por conta própria. “Foi assim que comecei minha vida nos negócios”, lembra. O dinheiro tinha um destino simples e típico da idade. “Eu gostava de comprar um lanche, o Pit Dogs”.
Apesar da lembrança bem-humorada, ele costuma resumir aquele período de forma direta: “Não tive infância. Sempre foi trabalhando”. Aqui, entra uma outra lembrança que tem a ver com música. A propriedade do tio ficava ao lado da fazenda de Avelino da Costa, que tinha dois filhos apaixonados por cantar: Luís Costa e Emival da Costa.
“Eu ainda era criança e ficava junto com a molecada ouvindo-os cantando. Anos depois, eles estouraram no cenário nacional como Leandro & Leonardo”.
Alguns anos depois, a mãe se casou novamente e a família se mudou para Campo Grande (MS). Na capital sul-mato-grossense montaram uma lanchonete próxima ao aeroporto, e todos participavam do negócio – incluindo a irmã mais velha de Jonkel. Ele ficava responsável por cuidar da preparação de pizzas e lanches durante o dia; à noite, estudava.
A rotina, porém, não era exatamente o que ele imaginava para o futuro. O cheiro de quem trabalha perto da chapa ou do forno ficou marcado na memória. “Aquele cheiro de gordura impregnava na roupa. Eu tomava vários banhos e ele não saía”.
Pouco tempo depois, surgiu uma oportunidade diferente: uma vaga de office boy em uma empresa chamada OdontoMed.
Era o primeiro emprego com carteira assinada e o início de um caminho que o levaria, então aos 12 anos de idade, a um universo completamente novo.
Algum tempo depois, o padrasto recebe uma proposta para a família voltar ao Mato Grosso. O serviço era de comprador de gado em fazendas da família Junqueira Franco, em Juscimeira.
Foram dois anos naquela localidade, até uma nova mudança, agora para Cuiabá, onde o padrasto vai trabalhar em uma retífica. Em frente, ficava a Agroverde Máquinas e Implementos Agrícolas, revendedora de tratores Ford New Holland. Jonkel foi pedir emprego, sendo contratado como office boy.
Na era dos computadores
Com 16 anos, Jonkel fazia todo o serviço externo da empresa, mas se encantou mesmo por um computador que era usado para os serviços internos da Agroverde.
Aos poucos, ele ia se aproximando, até trabalhava na máquina quando o responsável faltava – aliás, faltava tanto, que Jonkel herdou sua posição. “Meu sonho era mexer naquele computador”, conta. Aquele equipamento era um Prológica SP-16, modelo ainda raro nas empresas da época e operado por poucos funcionários.
O início não foi simples.
Em uma das primeiras tarefas, recebeu a orientação, por parte do funcionário sob aviso prévio, de apagar um disquete (daqueles grandes, que hoje povoam as prateleiras de qualquer museu de tecnologia) que continha justamente o sistema principal. O erro provocou um grande problema interno. Para recuperar os dados, passou o fim de semana inteiro trabalhando.
A situação que poderia ter encerrado sua experiência, acabou se transformando em aprendizado. A partir dali, mergulhou de vez no universo da informática. “Eu fiquei muito ágil para mexer naquele computador, e logo já estava fazendo outras funções nele”.
Jonkel iniciou a implantação dos sistemas de folha de pagamento, de contabilidade, de controle de estoque, de faturamento e de contratos. Incentivado pelo chefe, Fernando Oishi, passou a frequentar cursos de programação no Senac-MT, onde aprendeu linguagens como Clipper e COBOL.
Aos poucos, tornou-se referência dentro da empresa. Ele ainda tentou o ensino superior, mas após um ano no curso de Análises de Sistemas, desistiu porque não conseguia frequentar as aulas.
O chefe o chama e o aconselha: ‘você já aprendeu tudo o que a empresa poderia oferecer, e o mais interessante é buscar um novo lugar para crescer profissionalmente porque você tem talento’.
Anos depois, Fernando Oishi foi trabalhar com Jonkel, atuando na controladoria da TOTVS Centro Norte, onde até hoje a parceria continua.
O conhecimento adquirido abriu novas portas. Jonkel foi indicado para trabalhar em um dos maiores escritórios contábeis de Mato Grosso, o Grupo Unisul Associados, onde passou a cuidar do processamento informatizado de inúmeras empresas.
Foi ali que teve contato com um software que mudaria o rumo da sua carreira: o sistema RM Folha, desenvolvido por uma empresa de Belo Horizonte (MG) chamada RM Sistemas (a sigla era dos sócios proprietários Rodrigo e Mauro).
Curioso e atento às soluções tecnológicas, ele sugeriu a implantação do programa no escritório. Para aprender a utilizá-lo, precisou viajar até a capital mineira. Foram 28 horas de ônibus até chegar ao destino. Depois de 15 dias de treinamento, voltou a Cuiabá e implantou o sistema no escritório, responsável pela contabilidade de mais de 280 empresas.
“Essa parte da minha vida, eu agradeço ao meu patrão na época, Sr. Paulo Ruhling, que viu o meu potencial e apostou em mim”.
O garoto com pouco mais de 20 anos começava a se tornar referência sem nem perceber.
Certo dia, na multinacional Plantações ℇ Michelin– cliente do escritório associado – pediu suporte para a implantação do sistema de folha de pagamento em uma fazenda próxima a Itiquira. Foi Paulo Ruhling quem indicou Jonkel, que passou uma semana dando treinamento.
“Eu considerei aquela como uma experiência horrível, nunca tinha ministrado um treinamento. Aquela fazenda parecia uma cidade de tão grande”. Apesar da autocrítica negativa, a forma como conduziu o trabalho foi aprovada pela empresa.
O treinamento agradou tanto que a companhia enviou um fax à RM Sistemas solicitando que ele passasse a prestar suporte diretamente para eles. O custo na época de deslocamento aéreo, era altíssimo.
Pouco depois, a própria RM Sistemas entrou em contato com o escritório contábil e propôs que ele se tornasse representante comercial da empresa em Mato Grosso.
Foi o início de uma nova etapa na carreira de Jonkel.
Em seguida, participou da primeira feira de informática de Mato Grosso, realizada no ginásio da Universidade Federal, em um estande de apenas 9 metros quadrados. O resultado surpreendeu.
Naquele evento, vendeu o sistema de folha de pagamento para seis empresas, as quais ele tem orgulho em relembrar: BigLar, Concremax, o cartório do empresário Felício Carlos Lemos dos Santos, Construtora Phorma, Grupo Amaggi – que na época ainda era bem menor – e Expresso Maringá.
A partir dali, Jonkel passou a dividir o tempo entre as atividades no escritório contábil e a implantação dos sistemas nas empresas clientes. O trabalho cresceu rapidamente.
Em pouco tempo, estruturou um escritório para representar a RM Sistema na região; então, ele e mais seis sócios criaram uma representante de tecnologia responsável para atender Mato Grosso, Rondônia, Acre e Mato Grosso do Sul.
Era um período em que muitos empresários sequer tinham contato com computadores. Convencer alguém a investir em tecnologia exigia paciência e persistência. “Eu vendia sistema para quem nem sabia o que era isso”, lembra. Mesmo assim, acreditava no potencial do negócio.
A atuação começou a se expandir pelo interior do estado – especialmente no Nortão, onde implantou sistemas em diversas empresas, incluindo cinco madeireiras em Sinop. Equipes foram formadas, filiais abertas em cidades como Rondonópolis, Campo Grande (MS) e Porto Velho (RO), e o número de colaboradores rapidamente passou de 40.
Com o passar dos anos, Jonkel, foi adquirindo a participação dos demais sócios até se tornar o único proprietário da empresa. O negócio cresceu acompanhando a transformação digital das empresas da região.
No “software cerebral” de Jonkel, essa revolução completa 30 anos em novembro de 2026.
Enquanto a trajetória empresarial avançava, a vida pessoal também se consolidava. Casou-se com Ana Paula Magalhães, natural de Votuporanga, interior de São Paulo. Juntos tiveram três filhos: Victor, Joaquim Jonkel Júnior e Maria Paula.
Victor seguiu carreira na área empresarial e atua em São Paulo (SP); o segundo filho está próximo de concluir a graduação em Engenharia de Robôs, na FEI/SP; e a caçula ainda estuda, mas já fala em seguir Medicina.
Mas, assim como acontece em sistemas complexos de tecnologia – que às vezes precisam operar por anos em modo de manutenção constante para seguir funcionando –, a família também enfrentou um longo período de adaptação.
Durante 14 anos, a mãe de Jonkel conviveu com as sequelas de três AVCs, exigindo cuidados permanentes.
A casa precisou se reorganizar para essa nova realidade, e a esposa teve papel fundamental no cuidado diário com a sogra enquanto ele continuava viajando a trabalho, equilibrando as demandas da empresa e da família até a partida de dona Maria Luiza.
Elo com o Nortão de Mato Grosso
Conforme a representação expandia, as dificuldades logísticas acompanhavam. Levar esses sistemas para o interior do estado exigia disposição para enfrentar longas distâncias e estradas precárias.
Uma das histórias mais lembradas por Jonkel ocorreu em 1999, quando viajava para implantar um sistema em uma empresa de distribuição de combustíveis em Sorriso. No carro – “um Golzinho daqueles quadrados” – levava dez computadores que seriam instalados na empresa.
A 15 quilômetros da cidade, o veículo ‘caiu’ em um dos inúmeros buracos da BR-163 e três pneus estouraram de uma só vez. E havia apenas um estepe. Sem alternativa, deixou o carro no acostamento, pegou carona com um caminhoneiro até a cidade, providenciou o conserto dos pneus e voltou para concluir a viagem.
Vinte dias depois, os computadores estavam instalados e o sistema funcionando. A sensação, ao final, era de dever cumprido. Aquele tinha sido efetivamente o primeiro contato com Sorriso.
Naquela época, conquistar clientes no Nortão era um trabalho quase artesanal. Jonkel visitava empresas, muitas vezes batendo de porta em porta, em uma região onde grande parte dos empresários ainda não tinha contato com computadores.
O crescimento da atuação dele (e da própria empresa), aconteceu principalmente pela confiança construída com cada cliente atendido. Um serviço bem executado em uma empresa, abria caminho para a próxima, por meio de indicações entre empresários, na tradicional ‘boca a boca’. “O desafio era quebrar a barreira do empresário que ainda não entendia a função do computador. Eu trabalhava com a ‘alma’ do equipamento”, recorda.
Esse relacionamento próximo ajudou a consolidar o nome de Jonkel na região.
“Naquele momento, eu nem podia imaginar que Sorriso representaria um marco na minha história.
Ao fazer uma recapitulação da minha vida, recordo que um dos primeiros clientes foi o Grupo Sorriso, distribuidora de combustível, onde implantei todo o sistema. A cidade ainda era pequena e, passados 27 anos, tornou-se um centro pujante, que representa modernidade, inovação e planejamento.
Atualmente, ele observa que o cenário mudou: os pioneiros que desbravaram Mato Grosso já estão na terceira geração. e as empresas compreenderam que a tecnologia deixou de ser opcional para se tornar essencial
A primeira Unidade TOTVS
Nos anos 2000, o mercado brasileiro de tecnologia passava por uma transformação importante. Em 2005, a Microsiga – uma das maiores desenvolvedoras de softwares de gestão do país – adquiriu a Logocenter, outra empresa relevante do setor. No ano seguinte, uma decisão estratégica mudaria definitivamente o cenário da tecnologia corporativa no Brasil.
O empresário Laércio Cosentino, fundador da Microsiga, idealizou a criação de um grande ecossistema que reunisse diferentes empresas de tecnologia sob uma mesma marca.
Surgia então a TOTVS – palavra de origem latina que significa “tudo” ou “totalidade”. Para viabilizar esse projeto de expansão, a companhia abriu capital na bolsa de valores e captou cerca de R$ 400 milhões.
A primeira aquisição desse novo grupo foi justamente a RM Sistemas, empresa mineira com a qual Jonkel já trabalhava há anos. A negociação, avaliada em aproximadamente 100 milhões de dólares – cerca de R$ 206 milhões na época – marcou o início da consolidação da TOTVS como um dos maiores grupos de tecnologia da América Latina.
Em Mato Grosso, o movimento também abriria um capítulo inédito. Naquele momento existia na região uma operação chamada Microsiga Brasil Central. Em vez de simplesmente replicar o modelo tradicional de filiais, foi criada uma estrutura diferente: um sistema de franquia. Assim nasceu a primeira unidade regional TOTVS do mundo, que teve início em 3 de janeiro de 2008, quando Jonkel incorporou as operações da Microsiga e da Logocenter, dando início à primeira unidade da marca no modelo de unidade regional – por coincidência, justamente no dia do seu aniversário de 34 anos.
A TOTVS consolidou-se como uma das maiores empresas brasileiras de tecnologia voltadas à gestão empresarial. Com sede em São Paulo e uma equipe que ultrapassa 14 mil profissionais, a companhia tem como principal produto os sistemas de ERP (Enterprise Resource Planning, ou Planejamento de Recursos Empresariais), plataformas que integram diferentes áreas das empresas – como finanças, produção, logística, estoque, contabilidade, vendas entre outros –, permitindo que toda a gestão seja feita de forma integrada.
A tecnologia desenvolvida pela empresa foi modelada para atender 12 segmentos da economia nacional: agronegócios, logística, manufatura, distribuição, varejo, prestadores de serviços, educação, hotelaria, jurídico, construção, saúde e serviços financeiros.
Na prática, isso significa que as soluções são adaptadas às necessidades específicas de cada área, permitindo desde o controle de produção industrial até a gestão administrativa de hospitais, escritórios de advocacia e instituições de ensino.
A TOTVS , além de atuar na Gestão (por meio de ERPs, soluções cross e sistemas especializados visando garantir mais produtividade, eficiência e governança para os negócios), também atua através da RD Station, oferecendo ferramentas digitais de marketing, vendas e relacionamento, para empresas de todos os portes e segmentos, impulsionando seus negócios por meio da tecnologia.
Também oferece serviços financeiros via TECHFIN, uma Joint Venture entre TOTVS e Itaú, com portfólio que oferece tecnologias para ampliar, simplificar e democratizar o acesso das empresas a serviços financeiros.
Jonkel ainda cita a Lynn, a inteligência artificial da TOTVS: “A Lynn foi lançada em 2026, permitindo que as empresas criem agentes de IA altamente especializados, possibilitando automatizar processos e melhorar resultados das empresas.
Dessa forma, a TOTVS reforça seu compromisso de inovar para fazer a diferença aos clientes, sempre olhando para que o cliente se torne independente e tenha liberdade de evoluir tecnologicamente, sendo assim uma Trusted Advisor, ou seja, o consultor de confiança, que estará ao lado do cliente na sua jornada digital”.
No agronegócio, um dos segmentos mais estratégicos para regiões como Mato Grosso, a empresa desenvolveu sistemas chamados de “vocacionados”, voltados especificamente à realidade do campo.
Entre eles estão soluções para gestão de bioenergia – utilizadas por grande parte das usinas de etanol do país –, plataformas de multicultivo que controlam diferentes lavouras, sistemas para empresas que fazem beneficiamento e comercialização de produtos agrícolas e ferramentas voltadas ao chamado “varejo do agro”, que atendem cooperativas, armazéns e empresas fornecedoras de insumos.
Presente em cerca de 40 países e atendendo mais de 75 mil clientes, a TOTVS é considerada uma das maiores empresas de tecnologia corporativa do mundo e líder absoluta no Brasil em softwares de gestão empresarial, segundo avaliações da Fundação Getúlio Vargas.
Soluções vocacionadas para atender o pequeno e médio produtor, originação de grãos, controle de armazém UBA – Unidade beneficiamento de algodão, UBS – Unidade de beneficiamento de sementes – PINS – conhecido no mundo sucroalcooleiro para multicultivo que controla desde o planejamento da safra até a colheita, detalhando o custo – Gestão de Pecuária – que faz a gestão da cria, recria e rastreabilidade até o embarque no navio.
A partir dessas soluções especializadas, a presença da empresa no estado se fortaleceu ao longo dos anos, acompanhando a própria transformação econômica do agronegócio mato-grossense. Esse processo culminaria, décadas depois, em um novo capítulo para a atuação regional de Jonkel.
Em fevereiro de 2025, esse vínculo histórico ganhou uma nova dimensão com a inauguração da unidade física da TOTVS Centro Norte em Sinop, consolidando ainda mais o elo com o Nortão.
A abertura representou uma exceção dentro da estratégia tradicional da companhia, que normalmente instala escritórios apenas em capitais ou cidades com mais de 500 mil habitantes. No entanto, o peso econômico de Sinop e de toda a região norte de Mato Grosso levou a empresa a antecipar esse movimento.
A unidade instalada no bairro Aquarela das Artes, marca um momento simbólico na trajetória de Jonkel. A decisão da empresa reflete também a dimensão que a companhia alcançou no cenário global.
Para Jonkel, a abertura da unidade em Sinop representa a consolidação de uma história iniciada ainda nos anos 1990, quando ele percorria o interior do estado, implantando sistemas e conquistando clientes em uma região que ainda dava seus primeiros passos na informatização das empresas.
“Ter uma unidade no Nortão era um sonho antigo. Eu queria ter um ponto físico de atendimento na região desde 2018. A pandemia acabou atrasando os planos, mas hoje esse desejo se concretizou. A TOTVS poderia esperar a cidade chegar a 500 mil habitantes para implantar uma unidade, mas decidiu vir antes para ajudar a construir esse progresso e fazer parte dessa história”, afirmou.
A estratégia da empresa passa justamente pela proximidade com os clientes. A relação entre as empresas que utilizam os sistemas e a desenvolvedora de tecnologia costuma ser de longo prazo. Em média, as organizações permanecem cerca de duas décadas utilizando as plataformas de gestão da companhia, o que reforça a importância de uma presença regional próxima.
Sob o guarda-chuva da TOTVS Centro Norte, estão atualmente cerca de 600 empresas, atendidas por uma equipe com mais de 120 profissionais especializados nos principais segmentos da economia brasileira, com destaque para o agronegócio e o varejo.
A unidade regional também se consolidou como uma das principais referências em sistemas de gestão para o campo, tendo entre seus grandes cases empresas como o Grupo Bom Futuro, Grupo Masutti, Grupo Amaggi, Grupo Aldo, Castrillon, Agro Amazônia, Grupo Mirian.
Em Mato Grosso, a carteira de clientes se espalha por diferentes municípios.
Em Lucas do Rio Verde estão empresas como GGF, GMS e Grupo Bragança. Em Sorriso estão o Grupo GVR, Grupo Agromave, concessionárias agrícolas John Deere, Agro Baggio e a Fundação Educacional Claudino Francio. Em Vera, a atuação inclui o Grupo Giacomelli; em Sinop, clientes como Grupo Machado, Imperador e Disnorte; em Colíder, o Grupo Machadão; e em Campo Novo do Parecis, a cooperativa Cooperfibra, entre outros.
Mesmo residindo em Cuiabá, Jonkel mantém uma rotina frequente de visitas à região. Pelo menos uma semana por mês é dedicada ao atendimento direto aos clientes do Nortão, reforçando a relação próxima que sempre marcou sua atuação e que ajudou a construir, ao longo de três décadas, uma das principais operações regionais da TOTVS no país.
Depois de três décadas acompanhando a evolução da tecnologia nas empresas do Centro-Oeste, ele observa que o perfil do empresário mato-grossense mudou profundamente.
A geração que desbravou o estado, abrindo cidades e propriedades agrícolas, deu lugar a uma nova etapa marcada por profissionalização e gestão. “A geração desbravadora já está na terceira geração”, afirma.
Hoje, a tecnologia deixou de ser novidade para se tornar ferramenta essencial na administração dos negócios.
Ao olhar para trás, sua própria trajetória parece caminhar junto com essa transformação.
Entre viagens longas, implantações de sistemas e empresas que aprenderam a usar dados para tomar decisões, ele ajudou a introduzir uma nova forma de gestão em uma região que se tornaria uma das maiores potências agrícolas do planeta. No meio desse caminho, Jonkel resume o significado dessa jornada com simplicidade: “Quando cheguei aqui, muitas empresas ainda estavam começando a se estruturar. Poder participar desse crescimento, levando tecnologia e ajudando os negócios a se organizarem, sempre foi algo muito gratificante”.
Uma história que começou com caixas de tomate carregadas no ombro e que, décadas depois, continuaria sendo escrita entre estradas, empresas e linhas de código, onde foram construídos relacionamentos e laços que transformaram trabalho em grandes parcerias.
1990
Família Materazzi
O chamado irresistível
No encontro de almas, revela-se uma fé que orienta as escolhas e sustenta o equilíbrio entre a vida pública e o lar.
Há histórias que transcendem a mera cronologia de acontecimentos, elevando-se à condição de testemunho existencial. A trajetória de Rodrigo Desordi Fernandes Matterazzi e Simone Barros Fernandes, define precisamente tal narrativa uma jornada onde a fé não se apresenta como mera crença, mas como força motriz que permeia cada decisão, cada renúncia, cada ato de coragem. Originários de contextos de humildade rural, ambos ascenderam através de valores transmitidos geracionalmente, tecendo uma existência que se estende muito além do círculo familiar, irradiando-se pela comunidade que os acolheu.
Não se trata simplesmente de uma história de superação — expressão tantas vezes banalizada — mas de uma construção deliberada de significado. Nascidos nas terras vermelhas do Centro-Oeste, Rodrigo e Simone personificam aquela geração que compreendeu, intuitivamente, que a verdadeira riqueza não reside em acumulações materiais, mas na integridade das relações e na profundidade dos valores que nos definem.
A linhagem de Rodrigo Desordi Fernandes Matterazzi, enraíza-se nas décadas de 1970, período da colonização mato-grossense. Seu avô paterno, Alberto Fabrício, ergue-se como figura seminal — não meramente um desbravador de terras, mas um construtor de comunidades. A generosidade que o caracterizava, manifestava-se de forma quase proverbial: cedia seu próprio repouso para acolher o necessitado. Essa filosofia, transmitida através das gerações, moldaria profundamente o caráter de seu neto.
Alberto Fabrício também se inscreveu nos anais da vida pública, servindo como vereador durante três mandatos consecutivos e presidindo a Câmara Municipal de Nova Ubiratã. Sua atuação política distinguia-se pela ausência de interesses pessoais, focalizando-se exclusivamente nas necessidades dos mais desfavorecidos.
Edimilson Fernandes, pai de Rodrigo, migrou de Araçatuba, São Paulo, impulsionado pela busca de oportunidades, estabelecendo-se no setor agropecuário com a dedicação de quem compreende que o trabalho dignifica. Adriana Cristina Desordi, sua mãe, acompanhou essa jornada migratória, participando ativamente da construção de um novo lar em terras desconhecidas.
A genealogia de Simone Barros Fernandes, por sua vez, finca-se no Nordeste brasileiro, especificamente em Aracaju, Sergipe. Seus pais, Dionísio de Barros e Maria Francisca, enfrentaram as adversidades características da vida sertaneja — secas recorrentes, limitações econômicas severas.
Um episódio particularmente tocante marca a história familiar: durante a gravidez de sua irmã mais velha, Dionísio ausentou-se por um ano inteiro, migrando para São Paulo em busca de sustento. Essa separação, carregada de dor, testemunha o sacrifício de uma geração que compreendia o amor através da renúncia. Posteriormente, o casal estabeleceu-se em Mato Grosso, onde Dionísio encontrou seu ofício como vaqueiro, enquanto Maria Francisca, partilhava os encargos da vida rural.
Simone Barros Fernandes nasceu, em 5 de março de 1984, em Nova Andradina, Mato Grosso do Sul, sendo a caçula de quatro filhas. Por volta dos quatro anos, sua família fixou residência em Colíder, Mato Grosso, decisão orientada pelos relatos animadores de uma tia sobre as oportunidades locais. Sua infância transcorreu profundamente conectada à natureza — brincadeiras ao ar livre, exploração de rios, convivência com os ciclos rurais. Frequentou escolas modestas, porém demonstrou desde cedo uma dedicação exemplar aos estudos.
Seu espírito estratégico manifestava-se de forma peculiar: dedicava-se intensamente aos três primeiros trimestres letivos, garantindo notas que lhe permitiam solicitar dispensa das aulas no trimestre final. Essa inteligência prática, aliada à responsabilidade, seria característica que a acompanharia pela vida.
Rodrigo Desordi Fernandes Matterazzi, nasceu em 27 de setembro de 1990, em Sorriso, filho de uma família numerosa que compreendeu, desde cedo, a necessidade de cooperação. Criado principalmente pelos avós paternos no sítio de Nova Ubiratã, sua infância transcorreu em um cenário de extrema simplicidade com os irmãos Rafael, Renata, Thainá, Laureane, André, Everton, Marina e Amanda.
A memória remete a um tempo de simplicidade extrema, em que a vida se estruturava a partir do esforço cotidiano e da íntima relação com a terra. As tarefas eram aprendidas desde cedo, quase como um rito de passagem. “Recordo-me com nitidez de que, durante um longo período, nossa casa era de chão batido. As camas eram de madeira, cobertas com capim sapê. Tínhamos que cortar aquelas partes das árvores e as guanxumas, uma planta da região, para confeccionar vassouras de mão”, lembra Rodrigo.
Com o passar dos anos, a família construiu uma casa de madeira, marcando a rusticidade dos primeiros tempos. A necessidade despertava a inventividade, e o trabalho manual era parte indissociável da rotina, como buscar água no rio com baldes. Mais do que uma mudança estrutural, essa nova casa simbolizava um avanço, um ponto de estabilidade onde se consolidaram as memórias mais afetivas daquele período.
Os netos ajudavam o vô na lida com os porcos, a preparar torresmo e o toucinho. A cozinha, simples e funcional, era o centro da vida doméstica. O fogão a lenha permanecia aceso praticamente o tempo todo, e o café era sempre preparado ali. Entre o calor do fogo e o aroma dos alimentos, histórias eram contadas e fortaleciam-se os vínculos familiares.
A vida no sítio exigia constante engenhosidade. Tudo girava em torno do sítio.
“Nossa geladeira eram latas onde armazenávamos a carne. Sem acesso a recursos modernos, a conservação dos alimentos seguia métodos tradicionais. Fazíamos charque e carne de sol: abatíamos o animal, salgávamos a carne e a pendurávamos em varais para evitar que estragasse”, relembra Rodrigo.
Essas práticas, embora simples, revelam um modo de vida marcado pela autossuficiência. Para estudar, Rodrigo e os irmãos caminhavam aproximadamente dois quilômetros diariamente até a escola na Fazenda Xingu, enfrentando riscos entre rebanhos de gado Nelore e Guzerá, sem jamais permitir que tais obstáculos justificassem sua ausência.Apesar de todas as limitações materiais, Rodrigo conserva uma percepção cristalina sobre sua infância: considerava-se rico — não em recursos financeiros, mas em ensinamentos, convivência e valores. A fé católica estabelecia-se como alicerce inquestionável, com seus avós sendo os únicos casados pela Igreja na região, responsáveis por realizar batizados e casamentos, mantendo viva uma espiritualidade genuinamente comunitária.
Em 2006, a necessidade de prosseguir com a educação formal, impôs a Rodrigo uma decisão de abandonar o sítio e deslocar-se para Sorriso. Essa mudança, embora traumática, revelou-se providencial. A vida urbana exigiu adaptação rápida e maturidade precoce. Rodrigo ingressou no mercado de trabalho por atividades modestas — vendedor de picolés, lavador de carros, operário em classificação de grãos — cada experiência funcionando como escola de vida, ensinando-lhe sobre esforço e o valor sagrado do trabalho honesto.
Em 2008, Simone Barros Fernandes, aos vinte e quatro anos, reuniu coragem para deixar Colíder. Incentivada pela irmã Vilma, que já residia em Sorriso, ela vislumbrou ali oportunidades de crescimento. Após quinze dias hospedada na fazenda onde sua irmã trabalhava, transitou para a cidade, iniciando uma busca intensiva por emprego. Sua experiência anterior como operadora de caixa abriu-lhe as portas do supermercado Casa Aurora.
Neste estabelecimento, os destinos de Rodrigo e Simone convergiram. Ela, operadora de caixa; ele, empacotador. A aproximação ocorreu de forma gradual, mediada por sutilezas — gestos discretos, olhares compartilhados, comentários trocados entre colegas. Um amigo de Rodrigo, André Ferrari, contribuiu para aproximá-los, enaltecendo a gentileza e simpatia de Simone.
Rodrigo recorda com romantismo contido: "Não houve um amor à primeira vista digno de cinema, mas segurei o ar, olhei para ela e pensei: 'Que mulher linda'". A diferença de idade, com Simone mais velha e independente, criava uma dinâmica particular, onde ela observava com humor as tentativas de aproximação do jovem.
O primeiro beijo ocorreu em uma lan house, quando Simone necessitava conectar-se à internet e Rodrigo se ofereceu para acompanhá-la. O namoro oficial iniciou-se em 19 de agosto de 2008, com apoio das famílias. Pouco depois, passaram a residir juntos na casa dos avós de Rodrigo, iniciando uma vida conjugal marcada por desafios financeiros consideráveis.
A casa era modesta — móveis doados, fogão usado, geladeira antiga, uma cama de casal pertencente a Simone. Contudo, essa realidade humilde não minava o amor que os unia; pelo contrário, fortalecia-o, transformando tudo isso em uma verdadeira parceria.
Em 2009, Rodrigo deixou o supermercado e ingressou na mecânica Kozak, onde desenvolveu funções multifacetadas — lavava peças, realizava entregas, cobrava clientes inadimplentes. Durante uma festa da empresa, sua voz potente chamou a atenção de Valdir Grégio, radialista renomado da Rádio Sorriso. Impressionado com a dicção e timbre vocal, Valdir o incentivou a tentar locução.
Essa oportunidade revelou-se transformadora, permitindo que Rodrigo descobrisse uma verdadeira vocação. Na rádio Sorriso, teve a oportunidade dada por Plínio Edemar Ficagna (Maninho), onde descobriu a magnitude do seu dom da comunicação. Ali, Rodrigo formou sua rede de contatos que contribuiu para a expansão também de sua condição financeira, que melhorou substancialmente.
Este progresso profissional abriu portas para ambos investirem em educação superior. Simone ingressou em Ciências Contábeis, enquanto Rodrigo trilhou o caminho da Agronomia na FACEM (2012-2016), alinhando sua formação às vocações regionais. Essa mudança marcou um ponto de inflexão, permitindo que o casal respirasse com maior tranquilidade financeira e sonhasse com um futuro mais estruturado.
No final de 2011, Simone começou a experienciar sintomas peculiares — enjoos, aversão a cheiros, atraso menstrual. Rodrigo, seguro da notícia que ainda intrigava sua esposa, incentivou-a a realizar um teste de gravidez. A descoberta foi imediata e compartilhada, provocando uma brincadeira séria da parte de Simone. O momento chegou em contexto de dificuldades financeiras e do drama familiar causado pelo diagnóstico de câncer da irmã de Rodrigo, Renata.
Em 30 de novembro de 2012, nasceu Geovanna Barros Fernandes, que, apesar de tais adversidades, foi recebida como uma bênção. O nome foi escolhido deliberadamente por Rodrigo, seduzido pelo significado "dádiva de Deus". O nascimento marcou uma transformação radical. Rodrigo experimentou um amor que redefiniu sua compreensão da existência — um amor que não se explica racionalmente, que não se mede em palavras, que simplesmente ocupa todos os espaços da alma. Ele recorda com profunda emoção e descreve: "Quando se é pai pela primeira vez, especialmente de uma menina, nesse mundo moderno e perigoso, o amor atinge o ápice absoluto".
Na criação de sua filha, os valores ocuparam lugar central. Rodrigo dedicou-se intensamente à transmissão de princípios fundamentais — respeito à família, amor ao próximo, honestidade, responsabilidade. Tratava temas sensíveis como intimidade e autoestima com maturidade, reforçando a importância do respeito ao próprio corpo e da construção de relações saudáveis. Geovanna tornou-se não apenas filha, mas fonte constante de inspiração, participando ativamente de sua rotina e, posteriormente, contribuindo significativamente na produção de materiais de campanha política.
Geovanna carrega em suas memórias mais antigas lembranças profundamente afetivas — o período vivido no sítio em Nova Ubiratã, o contato direto com a natureza, atividades como cuidar de animais e pescar ao lado do pai. A relação com os avós ocupa espaço importante: por parte materna, Maria Francisca e Dionísio de Barros residem em Colíder; por parte paterna, Adriana Cristina Desordi vive em Sorriso e Edimilson Fernandes em Nova Ubiratã.
Apesar da distância, o vínculo permanece próximo e frequente. Geovanna valoriza particularmente os "dias de beleza" com as avós — momentos de cuidado, como arrumar cabelos e pintar unhas, gestos que refletem carinho genuíno.
Com treze anos, é uma adolescente madura e dedicada, destacando-se nos estudos no Colégio São Gregório Magno. Possui afinidade particular com Artes e Ciências. Sua trajetória estudantil reflete os valores transmitidos pelos pais — dedicação e responsabilidade. É uma fervorosa católica, devota de Santa Teresinha do Menino Jesus, cuja espiritualidade profunda marca seu cotidiano.
A devoção não é superficial, ela representa escolha consciente pela "pequena via" — a filosofia de que ações, realizadas com grande amor, possuem significância equivalente às grandes obras. As frases de Santa Teresinha sobre o amor orientam sua forma de agir.
Geovanna participa ativamente das atividades paroquiais — grupos de jovens, catequese, missas, momentos de adoração, encontros e serviços comunitários. Sua presença reflete engajamento genuíno e fé viva. No ambiente familiar, expressa admiração profunda pelos pais — reconhecendo na mãe uma mulher forte e batalhadora, no pai uma figura dedicada e comprometida. Para ela, a família pode ser definida em uma palavra: Deus — o centro que orienta e sustenta todas as ações.
Embora acompanhe a vida política do pai, não demonstra interesse em carreira política. Seus sonhos direcionam-se para profissões de cuidado — Medicina Veterinária ou Odontologia — áreas onde pode exercer seu amor pelo próximo e pelos animais.
Em 2013, a família mudou-se para Nova Ubiratã, após Rodrigo ser convidado para atuar como assessor legislativo. Sua experiência no setor público aprofundou-se ao longo de três anos, incluindo serviço na Câmara de Vereadores. Compreendeu ali a complexidade dos processos políticos e legislativos, reacendendo a vocação herdada de seu avô Alberto Fabrício.
Em 23 de maio de 2015, Rodrigo e Simone celebraram matrimônio religioso na Igreja Nossa Senhora Aparecida, consagrando espiritualmente a união já vivida. Em 2017, retornaram a Sorriso, onde Rodrigo conquistou emprego na Terra Forte, vendendo máquinas agrícolas. O contato com produtores aprofundou seu conhecimento do agronegócio. Naquele ano enfrentaram severas dificuldades financeiras, celebrando o final do ano com apenas cinquenta reais — que pagou um frango e um refrigerante para a ceia.
Paralelamente, Rodrigo intensificou a participação na Igreja Católica e em ações sociais. Em 2018, coordenou a campanha McDia Feliz em Sorriso, mobilizando instituições em prol de crianças com câncer. Essa ação, realizada em parceria com Acacio Ambrosini, então vice-prefeito, demonstrou a força de uma mentoria que transcendeu a colaboração profissional. Rodrigo ressalta que o que aprendeu com ele transcendia técnicas — era lição de que política verdadeira toca vidas, resolve problemas, ouve pessoas e age com transparência.
Em 18 de março de 2022, Rodrigo sofreu um acidente grave na estrada, colidindo com o veículo a 150 km/h, contra uma carreta. As lesões incluíram traumatismo craniano, fraturas cervicais, rompimento de ligamentos do joelho e risco real de paralisia. Hospitalizado em estado crítico, necessitou de coma induzido e tratamento intensivo com colar cervical e imobilização da perna. Sua independência, ficou severamente reduzida.
Simone, mais uma vez, foi o alicerce. Sua presença, além de apoio, foi de sustentação absoluta. Em cada gesto de cuidado, em cada momento de dedicação, em cada renúncia, ela demonstrou amor que não se mede em palavras, mas em atitudes. "Ela tinha que me dar banho, cuidar da minha higiene íntima, mesmo exausta do trabalho. Foi uma humilhação para mim, mas o amor dela, foi o que salvou minha vida", emociona-se Rodrigo ao recordar.
A recuperação, lenta e desafiadora, não foi apenas física, mas emocional e espiritual. Esse trauma transformou Rodrigo profundamente, refinando sua compreensão sobre o que é verdadeiramente essencial.
Enquanto se recuperava, o cenário político local fervilhava. Rodrigo, inspirado por manifestações conservadoras e seu histórico familiar, foi convidado a se engajar. Simone apoiou incondicionalmente sua decisão. O padre Michel, outra referência em sua vida e seu orientador espiritual, que confirmou suas qualidades para o serviço público e o apoiou em momentos cruciais de decisão.
Em 2024, Rodrigo lançou candidatura oficial a vereador em Sorriso. A campanha foi extrema e artesanal: visitou pessoalmente setenta e nove bairros, realizou oitenta e oito reuniões de apresentação. Geovanna, com apenas onze anos, atuou como produtora e fotógrafa. O esforço rendeu dois mil cento e sessenta e oito votos e eleição para vereador. Em fevereiro de 2025, Rodrigo assumiu a presidência da Câmara Municipal.
Entre seus projetos, destacam-se a Semana Pró-Vida — conscientização sobre valorização da vida humana desde a concepção até a morte natural — e o Agroeducador — programa educacional ressaltando a importância do agronegócio para a economia local, abordando a preservação ambiental e a sustentabilidade. Rodrigo enfrenta desafios de gestão em cidade que cresce aceleradamente, buscando melhorar infraestrutura, saúde, educação, segurança e combater desigualdade social.
Em meados de 2025, a família recebeu surpreendentemente a notícia de uma nova gravidez. Simone, aos quarenta e um anos, não esperava tal surpresa, que trouxe renovação e alegria ao lar. A notícia veio após um período de espera prolongada, revelada simbolicamente no aniversário de Rodrigo. Treze anos após a primeira experiência como pai, a chegada de João Pedro simboliza recomeço e nova fase familiar. Para Geovanna, a chegada do irmão constitui resposta a orações feitas ao longo de anos, reforçando a dimensão espiritual presente em sua vida.
Hoje, a família vive em uma casa de setenta e sete metros quadrados que costumam chamar de "luxuoso palácio", devido à paz que ali reina. A rotina é pautada pela fé — orações diárias em família, refeições sem distrações tecnológicas, atividades conjuntas como baralho e sessões de filmes.
Simone permanece pilar da família, conciliando trabalho como assistente administrativa em fazenda local com dedicação à maternidade e apoio político ao marido. Rodrigo a reconhece como ponto de estabilidade, alguém que traz equilíbrio às decisões e modera seu temperamento mais impulsivo.
A trajetória de Rodrigo Desordi Fernandes Matterazzi e Simone Barros Fernandes, constitui legado que será transmitido aos filhos — testemunho vivo de que é possível vencer adversidades e construir vida plena e significativa.
“Quando há fé, amor e propósito, cada fase passa a ter seu valor. A caminhada deixa de ser mera sequência de acontecimentos, transformando-se em construção contínua de significado”, define Rodrigo Matterazzi.
1990
Valle Imóveis
Valle: + que imóveis
Trabalho, visão e compromisso social que ajudaram a transformar oportunidades em patrimônio e sonhos em realidade.
Toda cidade carrega em suas fundações as histórias silenciosas de pessoas que, com visão e resiliência, ajudaram a moldá-la antes mesmo que suas ruas estivessem pavimentadas. São narrativas tecidas por decisões audaciosas, tomadas em tempos em que a incerteza superava a clareza, e a fé no futuro era o único guia. São os relatos daqueles que enxergaram potencial e prosperidade em terras ainda em esboço, transformando sonhos em realidade palpável.
A Valle Imóveis emerge precisamente desse cenário e desse espírito pioneiro. Sua trajetória é um testemunho de trabalho árduo e da inabalável disposição de acreditar no crescimento e na transformação de uma cidade.
“Valle” é o meu sobrenome, e colocá-lo na empresa, foi uma decisão de colocar meu nome, minha honra e minha responsabilidade em tudo o que construo. É uma forma de dizer ao cliente: aqui tem compromisso de verdade.
Além disso, o nome “Valle”, também transmite um significado bonito. Remete a lugar, acolhimento, crescimento… um espaço onde as pessoas constroem suas histórias. E é exatamente isso que buscamos no mercado imobiliário: não vender apenas imóveis, mas ajudar pessoas a encontrarem o seu lugar no mundo.
No epicentro dessa saga está a visão empreendedora de Neiva Dalla Valle, uma mulher cuja coragem se metamorfoseou em um projeto empresarial robusto. Ao longo de décadas, essa iniciativa não apenas movimentaria o mercado imobiliário, mas também seria fundamental na construção de bairros vibrantes, na organização do tecido urbano de cidades emergentes e na ampliação de oportunidades para milhares de pessoas.
Neiva Dalla Valle, nasceu em 18 de janeiro de 1970, na pitoresca cidade de São Lourenço do Oeste, em Santa Catarina. Filha de Alfieri e Diva Dalla Valle, ela foi criada em um lar onde os valores do trabalho e da determinação, eram pilares inegociáveis. Desde os primeiros anos, Neiva absorveu a importância do esforço contínuo e da responsabilidade, lições que a acompanhariam por toda a vida.
Aos oito anos, trabalhou como babá. Longe de ser uma mera ocupação, essa experiência transcendeu o aspecto profissional, tornando-se um período de aprendizado profundo sobre o cuidado, a empatia e a dedicação incondicional. Cada dia era uma nova lição sobre a complexidade das relações humanas e a importância de nutrir o bem-estar alheio.
Ainda na efervescência da juventude, sua curiosidade a impulsionou a explorar outras atividades, que, sem ela saber, lapidariam sua sensibilidade e aprimorariam suas habilidades interpessoais. Neiva também atuou como fotógrafa, capturando a essência de casamentos emocionantes, a inocência de batizados e os momentos cotidianos da comunidade local. Embora essa incursão na fotografia tenha durado alguns anos e tenha sido um período crucial para desenvolver uma atenção aguçada aos detalhes, uma sensibilidade artística e uma capacidade ímpar de se relacionar com as pessoas, qualidades que se mostrariam inestimáveis ao migrar para o dinâmico hub imobiliário.
Em 1990, o destino trouxe Neiva a Sorriso, uma cidade que, àquela época, ainda estava em plena formação. As ruas eram de terra batida, a infraestrutura era precária, os serviços básicos, limitados, mas o ar fervilhava com a energia de muita gente chegando em busca de oportunidades. Motivada pelo convite de seu irmão, Irineu Dalla Valle (in memorian), Neiva decidiu embarcar nessa jornada e se mudar com a família para o coração do Mato Grosso.
Sua primeira experiência profissional na cidade foi como secretária em uma imobiliária local. No entanto, seu talento natural para vendas logo se destacou. Ainda na primeira semana, Neiva realizou sua primeira negociação — a venda de uma casa —, um feito que surpreendeu tanto os colegas quanto a si mesma.
Foi com o dinheiro dessa negociação inaugural, que ela adquiriu uma bicicleta — seu fiel companheiro e único meio de transporte para percorrer as ruas empoeiradas de Sorriso, visitando clientes e desbravando novos caminhos.
Anos mais tarde, veio a tão sonhada conquista do primeiro carro: um Fiat 147 bege, comprado à vista. Mais do que um simples veículo, ele simbolizava a independência alcançada, o fruto de um trabalho incansável e a certeza inabalável de que estava avançando com seus próprios passos.
Neiva guarda com carinho uma história curiosa desse período de desafios e superações: como a casa onde morava não possuía muro e ficava em uma área mais afastada do centro, todas as noites ela retirava uma das rodas do carro e a guardava dentro de casa. A lógica era simples e engenhosa — sem a roda, ninguém ousaria levar o veículo. O carro bege tornou-se, assim, um símbolo tangível daquele período de coragem, esforço e uma notável capacidade de superação.
Para uma mulher atuando no ramo imobiliário da época, os desafios eram exponencialmente maiores. Neiva enfrentou preconceitos velados e explícitos, situações de desconfiança e as dificuldades inerentes a um mercado predominantemente masculino. Ela recorda com clareza: "Tive situações que quase me fizeram desistir.
Lembro de um cliente que não queria negociar comigo simplesmente porque eu era mulher. Mas eu precisei impor minha força e mostrar que oferecia bons negócios. Com o tempo, o respeito se conquistou." Apesar das adversidades, sua determinação inabalável prevaleceu. Cada obstáculo era encarado não como um impedimento, mas como uma oportunidade disfarçada de crescimento e aprendizado.
Aos 26 anos, a vida de Neiva ganhou um novo e profundo significado com o nascimento de seu filho, Rafael, em 25 de dezembro de 1996, fruto do seu primeiro casamento que durou 15 anos. O filho foi criado com a presença constante do pai e da avó materna. Mais tarde, Rafael trilharia seu próprio caminho acadêmico, optando pela Agronomia, como sua formação e atividade principal.
Ciente de que a visão, por si só, não garantia resultados duradouros, Neiva investiu incansavelmente em sua formação acadêmica. Ela se graduou em Contabilidade, adquirindo um domínio aprofundado sobre gestão financeira e planejamento estratégico, pilares essenciais para qualquer empreendimento.
Posteriormente, buscou a graduação em Direito em 2010, e Contabilidade, se formando em 2015, pela Faculdade Unic, aprofundando seu conhecimento jurídico para garantir a segurança e a solidez de todas as transações imobiliárias. Essa combinação estratégica de habilidades financeiras e jurídicas, tornou-se um diferencial competitivo inestimável, permitindo que cada passo da empresa fosse estruturado com responsabilidade, precisão e uma base legal robusta.
Foi nesse cenário de uma cidade em plena efervescência, que a Valle Imóveis nasceu. Desde seus primórdios, a empresa foi concebida com uma visão estratégica clara: não se limitar à mera intermediação de imóveis, mas atuar ativamente na construção e organização da cidade, contribuindo para um crescimento urbano planejado e sustentável. Onde outros enxergavam apenas terrenos vazios, Neiva visualizava bairros em formação, famílias construindo seus lares e o futuro de uma cidade inteira sendo meticulosamente desenhado.
A família desempenhou um papel determinante na consolidação e no sucesso da empresa. Sua irmã, Neusa Dalla Valle, assumiu a responsabilidade pela administração interna, garantindo a organização impecável e a eficiência operacional, enquanto Neiva se dedicava às negociações estratégicas e ao relacionamento com clientes. Essa parceria sinérgica entre irmãs, tornou-se um dos pilares inabaláveis da trajetória da Valle Imóveis.
Enquanto Neiva estava à frente da expansão e da visão de mercado, Neusa dedicava-se com maestria às planilhas, aos controles financeiros rigorosos e à estrutura administrativa. Juntas, elas construíram uma empresa resiliente, capaz de atravessar as diferentes fases do desenvolvimento da cidade e de permanecer relevante e inovadora ao longo de décadas.
A capacidade de olhar para frente, uma característica que sempre marcou a trajetória de Neiva, logo a conduziria também a espaços de representação coletiva. Em 2006, ela integrou a diretoria da ACES – Associação Comercial e Empresarial de Sorriso, ficando por seis anos, onde implantou ações inovadoras e contribuiu significativamente para o fortalecimento do comércio local.
Foi em 2006, contudo, que sua liderança ganhou contornos ainda mais significativos e desafiadores. Sorriso enfrentava uma das maiores crises econômicas de sua história, resultado de dificuldades que impactaram diretamente o agronegócio e, consequentemente, toda a economia local. Diante desse cenário preocupante, Neiva foi uma das mentes por trás da criação da OSCIP Sorriso Contagia — um movimento audacioso que visava mobilizar empresários, lideranças e instituições em torno de um objetivo comum: enfrentar a crise com união e buscar novas oportunidades de desenvolvimento.
Mais tarde, Neiva assumiu a presidência da entidade — um desafio ainda maior para uma mulher em um ambiente predominantemente masculino. Ela descreve a experiência como espetacular, um testemunho de passos firmes e de uma fé constante que a ajudaram a superar momentos de dúvida e insegurança. Mais do que representar uma entidade, Neiva demonstrou uma crença inabalável na força da cooperação e no poder das iniciativas coletivas para impulsionar o desenvolvimento de uma cidade inteira.
Enquanto a empresa se consolidava e sua atuação institucional se ampliava, a vida pessoal de Neiva também ganhava novos e emocionantes contornos. Foi nesse período, em 2015, que ela conheceu Fausto Felizardo Santana — um homem cuja trajetória de vida, marcada pela disciplina do esporte e pelo trabalho incansável desde a infância, se somaria à sua para levar a Valle Imóveis a um novo e promissor patamar. O União se oficializou em 2016.
Fausto nasceu em 1971, na cidade de Mineiros, Goiás. Filho de Adelair José Santana e Alcina Felizarda Santana, ele cresceu em uma família que atuava na extração e venda de areia. Desde cedo, aprendeu o valor intrínseco do trabalho, ajudando o pai na mineração. "Com 12 ou 13 anos, eu já ajudava meu pai. Andava de bicicleta para resolver coisas no banco, ajudava no trabalho. Sempre foi assim." Essa experiência precoce forjou nele um senso de responsabilidade e proatividade.
O esporte, no entanto, foi o grande catalisador que o trouxe a Mato Grosso. Jogador de futebol talentoso desde jovem, atuando como volante — posição conhecida como "cabeça de área" —, Fausto recebeu um convite irrecusável para jogar em um time da região norte do estado. "Vim para cá em 1992 para jogar no time da cidade. Acabei ficando na região entre Sinop e Sorriso até hoje", recorda. Essa mudança marcou o início de uma nova fase em sua vida.
Foi essa combinação singular de valores — a disciplina rigorosa do esporte, a experiência prática com o trabalho desde a infância e um espírito empreendedor latente — que Fausto trouxe para a Valle Imóveis. Sua formação em Educação Física e sua visão estratégica apurada, contribuíram de forma decisiva para consolidar processos internos, aprimorar o planejamento estratégico e impulsionar a expansão da empresa.
Refletindo sobre essa parceria de sucesso, Neiva resume com sabedoria: "Sempre dizem que por trás de um grande homem, existe uma grande mulher. Mas por trás de uma grande mulher, também existe um grande homem. E o Fausto fez isso acontecer comigo. Ele me deu apoio, me deu base. Me mostrou uma realidade diferente e nós construímos muita coisa juntos." Essa declaração encapsula a força e a complementaridade da união deles.
Com a gestão fortalecida pela soma dessas experiências e talento, a Valle Imóveis passou a ampliar seu campo de atuação. A empresa, que já era uma referência sólida em Sorriso, começou a olhar com audácia para outras cidades da região, levando consigo o modelo inovador de organização territorial e gestão imobiliária desenvolvido e aprimorado ao longo dos anos.
A Valle Imóveis, ao longo de sua trajetória, expandiu sua atuação para além de Sorriso, chegando a cidades como Nova Ubiratã e Ipiranga do Norte, a partir de 2007.
Mais do que uma simples expansão territorial, esse movimento marcou um novo capítulo na história da empresa, consolidando seu papel como um verdadeiro agente de desenvolvimento regional. Cada novo projeto representava o crescimento empresarial e a criação de novas oportunidades para famílias, investidores e comunidades inteiras, transformando paisagens e vidas.
Outro capítulo significativo e socialmente relevante na trajetória da Valle Imóveis, está intrinsecamente ligado ao trabalho de regularização fundiária. Na cidade de Carlinda e no distrito de Água Limpa, a atuação da empresa foi fundamental em iniciativas, que resultaram na entrega de escrituras definitivas a diversos moradores, um marco de justiça social e segurança jurídica.
Para quem vivia há anos em um imóvel sem a documentação regularizada, receber esse documento representava muito mais do que um simples registro em cartório. Era o reconhecimento oficial do direito à moradia, a segurança inestimável de que aquele pedaço de terra, construído com o esforço de uma vida inteira, estava finalmente garantido por lei. Era a materialização de um sonho e a base para um futuro mais tranquilo.
Mas a contribuição da Valle para o acesso à terra, não se limitou à regularização. Em um período em que grande parte da população não tinha acesso a crédito bancário, a empresa desenvolveu modelos próprios e inovadores de parcelamento, criando alternativas acessíveis que possibilitavam a compra de lotes, democratizando o acesso à propriedade.
Por trás de cada contrato assinado, havia uma história humana e inspiradora: o pedreiro que pagava parcela por parcela enquanto, tijolo por tijolo, levantava as paredes da própria casa; a costureira que enxergava no terreno a possibilidade de construir seu pequeno ateliê, um espaço para a criatividade e o sustento; o agricultor que investia, pensando no futuro e na herança para os filhos.
Em muitos casos, as pessoas chegavam à imobiliária cheias de dúvidas e incertezas, mas ouviam uma frase que, com o tempo, se tornaria quase um símbolo da empresa: "Vamos encontrar uma forma." E, de fato, muitas vezes, essa forma era encontrada, transformando desesperança em esperança.
Hoje, muitos dos bairros prósperos que compõem o tecido urbano da região, nasceram dessas primeiras oportunidades, concedidas em um tempo em que o acesso à terra ainda era um desafio para grande parte da população, demonstrando o impacto duradouro da Valle Imóveis.
Depois de mais de 35 anos de história, a trajetória de Neiva Dalla Valle não pode ser resumida apenas à criação de uma empresa de sucesso. Ela está profundamente entrelaçada na organização de bairros, na consolidação de cidades e, principalmente, nas histórias de milhares de famílias que encontraram, por meio do acesso à terra, a possibilidade de construir um futuro mais seguro e digno.
A Valle Imóveis nasceu com um propósito que transcende os limites do mercado: o de participar ativamente da construção do desenvolvimento. Ao longo dos anos, a empresa não apenas acompanhou, mas muitas vezes antecipou o crescimento de Sorriso, ajudando a organizar sua expansão urbana de forma consciente e estratégica.
Hoje, a Valle olha para o futuro com o mesmo espírito pioneiro que marcou sua fundação. Com novos colaboradores e projetos de crescimento, a meta para os próximos dez anos é triplicar a atuação, consolidando ainda mais sua presença no desenvolvimento urbano de Sorriso e região.
E enquanto houver cidades crescendo, famílias buscando um lugar para viver e pessoas sonhando em construir suas próprias histórias, essa trajetória continuará sendo escrita — lote a lote, casa a casa, sonho por sonho.
1990
Paulo Silvestro - Contática
A identidade por trás do CEO da Contática
Paulo Silvestro chegou à Sorriso com 10 anos de idade. A família veio do Paraná em um ônibus da empresa Medianeira; uma caixa de papelão com um fogão azul, marca Continental e duas malas de roupas e panelas eram toda a mudança. Foi em solo sorrisense que estudou, prospectou mercado e oportunidades e se tornou referência em serviços contábeis.
O primogênito de Alceu e Zelir Júlia Silvestro nasceu em Dois Vizinhos (PR). Alcionir Paulo Silvestro — mais conhecido sem o primeiro nome — veio ao mundo pelas mãos da parteira Inês Matachinski, que assistia todas as mães da comunidade. Segundo a mãe, aquele 13 de junho de 1980 foi um dia frio.
Na cidade paranaense, o menino viveu até os quatro anos, período em que a família se mudou para Laranjeira do Sul, município próximo. Dois anos depois, seguiram o caminho inverso, retornando para a comunidade de Rio da Prata, no interior de Dois Vizinhos.
Naquele período, tudo o que o pequeno Paulo conhecia estava ligado à educação, à lavoura e ao árduo trabalho dos pais. Ainda antes de completar 8 anos, já ajudava nas lavouras de milho, feijão e trigo, cultivadas nas várzeas e terrenos acidentados do interior do Paraná. “Meu pai preparava a terra com o arado e os bois, e nós, crianças, ajudávamos no que era possível”, recorda.
Nessa época, a família já havia crescido, dando as boas-vindas a Alcir Luiz, dois anos mais novo que Paulo, e a Anderson Ricardo, com dez anos de diferença em relação ao primogênito.
“Lembro-me de andar com os bois atrelados ao arado ou à carroça, ou ainda de cavalgar pelos carreiros; as estradas eram apenas picadas”, recorda Paulo.
Daqueles tempos, ele também guarda lembranças das ocasiões em que cozinhava para a família. Ainda criança, era responsável pelo almoço dos irmãos e costumava preparar arroz com ovo — um prato simples e rápido que dona Zelir lhe ensinara.
Os dias eram divididos entre o trabalho na lavoura, as tarefas domésticas e as idas à escola, feitas a cavalo, já que a família morava a seis quilômetros do centro da comunidade. Com o tempo, as viagens a cavalo passaram a se alternar com idas em uma velha bicicleta Monark, adquirida por um tio, na qual os irmãos iam engarupados. Na escola, as aulas eram ministradas pela professora Sirene Oliveira, em uma sala multisseriada onde todos os alunos, do primeiro ao quinto ano, estudavam juntos.
A vida transcorria de forma tranquila, conciliando trabalhos, estudos e brincadeiras infantis. Tudo mudou por insistência do tio José Silvestro, um dos irmãos do pai. Alceu vinha de uma família de 16 irmãos, na qual apenas José havia estudado — coincidentemente, o único a seguir esse caminho.
“Ele era muito dedicado, estudioso. Passou em um concurso do Banco do Brasil, e na época foi um grande destaque para nossa família. José foi nomeado para a região de Sinop e assumiu o posto de gerente do Banco do Brasil. Tudo isso era muito distante do nosso cotidiano no Paraná”, lembra Paulo.
Concursado e vivendo novas experiências, a preocupação de José voltou-se para o irmão Alceu e os sobrinhos. “Em Sorriso, tempos depois, meu tio José, o Zezinho da Foto Visão, percebeu oportunidades não só para ele, mas para toda a família”, recorda Paulo.
Durante uma das viagens de fim de ano para visitar a família no Sul, José conversou com Alceu sobre uma possível mudança. “‘Você tem três filhos homens. Lá há muitas oportunidades. Os meninos podem começar trabalhando engraxando sapatos, vendendo picolés, fazendo alguma coisa, e terão condições de estudar e construir uma vida melhor’. Esse foi o conselho do meu tio”, conta Paulo.
Acostumado ao trabalho árduo na lavoura, Alceu também sonhava com uma vida mais leve para os filhos e compartilhou o desejo com a esposa. Porém, para Zelir, não havia a mínima possibilidade de mudança. Se Alceu vinha de uma família italiana grande, com irmãos vivendo próximos, ela era descendente de uma família polonesa cujos pais e irmãos ainda moravam na mesma comunidade. Zelir estava habituada ao convívio diário com os familiares, e só de imaginar a mudança para o Mato Grosso — descrito nas histórias da época como um lugar “com onças por todo lado” — sentia um arrepio percorrer o corpo.
Contudo, após tantas insistências de José, que dizia que em Sorriso haveria melhores perspectivas para os sobrinhos, Alceu acabou se convencendo e decidiu fazer uma experiência. Acompanhou o irmão até Sorriso e começou a trabalhar em armazéns gerais. Em apenas um ano como funcionário, conseguiu economizar o suficiente para comprar um terreno no bairro Bela Vista, que estava começando a se formar na época.
Além do terreno, Alceu havia reunido um valor inicial para começar a construir a casa. Com o terreno adquirido e o alicerce lançado, entrou em contato com a esposa e pediu que ela vendesse a casinha de madeira que tinham no Paraná. Convencida pelo marido, Zelir atendeu ao pedido: vendeu a casa, empacotou todos os pertences e partiu com os filhos para o tão temido Mato Grosso.
A chegada em Sorriso
Foi em um fevereiro chuvoso de 1990, na rodoviária instalada nos arredores da Praça da Juventude — “onde ficava o antigo supermercado Vip, me lembro bem”, recorda Paulo — que Zelir desembarcou do ônibus da empresa Medianeira, acompanhada dos filhos Paulo, Alcir e Anderson.
Assim que o bagageiro foi aberto, o motorista retirou uma caixa de papelão contendo um fogão azul, marca Continental, duas malas de roupa e duas caixas de panelas. Essa era toda a mudança da família Silvestro. Surpresos, os meninos desceram do ônibus: nunca haviam visto tanta chuva.
Quem os aguardava era o pai e o tio. Assim que pisaram em solo sorrisense, receberam a notícia de que precisariam permanecer pelo menos uma semana na casa do tio José, pois a residência que Alceu estava construindo no Bela Vista ainda não estava pronta. O item mais urgente que faltava era o telhado.
Em uma semana, Alceu conseguiu cobrir a casa. Porém, ainda faltavam as divisórias internas. Assim, ainda naquele fevereiro de 1990, a família Silvestro se mudou para o novo lar, em que os cômodos eram delimitados por lençóis, separando os quartos dos meninos, o dos pais, a sala e a cozinha. É nessa casa de divisórias improvisadas que Paulo constrói suas primeiras memórias de Sorriso.
“Só havia asfalto até o Ginásio Domingão; a partir dali, era tudo poeira e lama. Na estiagem, o chão era pó, e quando chovia, muita lama por todos os lados. Nossa casa era cercada por lavouras de soja; onde hoje há cidade, na época era tudo envolto por soja”, lembra Paulo.
Ao chegar à cidade, seguiu o conselho do tio José e começou a procurar trabalho. Com apenas 10 anos, conseguiu seu primeiro emprego como vendedor de picolé.
“Meu tio José nos incentivava muito, tanto pelo exemplo quanto pelas palavras. Ele dizia que, trabalhando, iríamos chegar longe e sempre afirmava que eu tinha energia para conquistar meus objetivos. Cresci nesse ambiente de incentivo, aliado ao apoio da minha mãe, que nos orientava a estudar, buscar cursos e nos profissionalizar”, recorda Paulo.
“Ao chegar aqui, saí em busca de emprego; vender picolé foi a oportunidade que surgiu, e eu a abracei com muita alegria”, completa.
Para se destacar na sorveteria, Paulo desenvolveu suas próprias técnicas. Quando chegava o período de estiagem, com sol escaldante, enchia o carrinho de picolés e procurava as construções com maior movimento de trabalhadores. Assim que se aproximava, os pedreiros e auxiliares corriam para cercar o carrinho; todos queriam um picolé — alguns compravam dois ou mais.
De obra em obra, Paulo chegava a vender até três carrinhos de picolé em um único dia. “O sol era forte, e as pessoas enfrentavam um trabalho pesado. Quando eu chegava, era um alívio para elas. Percebendo isso, passei a focar nas construções como meu público-alvo. Desenvolvendo essa estratégia, acabei conquistando todos os prêmios de destaque em vendas da sorveteria”, recorda.
De vendedor de picolé, Paulo passou a lavador de carros, empacotador de supermercado, cobrador e torneiro. No torno, o adolescente era responsável por fazer cabos de vassoura. Foi com 16 anos que uma nova etapa se abriu na vida do garoto. O ano era 1996 e ele iniciou um estágio na Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, ou, simplesmente, nos Correios.
No novo emprego, o rapaz passou a percorrer a cidade de bicicleta, entregando correspondências. Após o término do estágio, Paulo iniciou um trabalho como repositor em um supermercado. Cerca de 20 dias depois, o então gerente dos Correios, seu Augusto, procurou-o e lhe ofereceu novamente uma oportunidade na estatal. Paulo então lhe lembrou que já havia encerrado o período de estágio. Seu Augusto, por sua vez, ofereceu-lhe uma função administrativa, explicando que seria um contrato e que ele não precisaria mais percorrer as ruas sob o sol para realizar entregas.
“Aceitei na mesma hora. Vinte e um dia depois de ter saído dos Correios, lá estava eu de volta”, recorda. Nessa nova etapa, já inserido no ambiente administrativo, Paulo permaneceu por dois anos.
Findo o contrato, era hora de procurar um novo emprego. Neste momento surge uma oportunidade como office boy em um escritório de contabilidade. “Entrei na Contática no cargo de office boy, levando boletos, impostos e fazendo a coleta de documentos junto aos clientes do escritório de bicicleta”, frisa. Era novembro de 1998. Com Paulo e o então proprietário José Vanderley dos Santos, eram cinco funcionários.
Coincidiu que, quando entrei na Contática, era época de prestar vestibular. Tudo em Sorriso girava em torno da soja, dos grãos e do milho, então minha ideia inicial era seguir uma faculdade ligada a essa área, por isso pensei em Agronomia. Prestei vestibular em Viçosa (MG), referência em ciências agrícolas na época, mas não passei. Também tentei Arquitetura na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e novamente não fui aprovado. Naquele período, fiquei muito frustrado”, recorda Paulo.
Hoje, porém, a percepção mudou. “Vejo agora o quanto isso foi positivo, porque muitos colegas que saíram para estudar comentavam, ao voltar, que haviam perdido o ritmo da cidade, aquele momento que foi catalisador e colocou definitivamente Sorriso no mapa como centro produtivo e de negócios”, avalia.
Até então, a vida escolar de Paulo havia se desenrolado na sala multisseriada da professora Sirene Oliveira, no Paraná, e depois nos bancos da Escola Estadual 13 de Maio, durante o ensino fundamental, e do Colégio Vinícius de Moraes, no ensino médio. Enquanto trabalhava como office boy na Contática, Paulo aproveitava todas as horas livres para estudar.
“Qualquer curso que aparecesse, minha mãe nos incentivava a fazer, como datilografia, computação, oratória, cursos de eletrônica”, pontua. “Ela sempre dizia que a educação abriria portas. Trabalhando como diarista, todo o dinheiro que conseguia era investido na nossa formação. Foi assim que fizemos vários cursos. Em cada conquista, havia o dedo, o exemplo, o olhar e o carinho da nossa mãe”, destaca.
Naquela época, muita formação era feita pelo Telecurso 2000. “Tínhamos que esperar os moldes chegarem pelo correio para ler, estudar e responder. Depois, enviávamos de volta e aguardávamos o resultado e o próximo módulo. Não era fácil, não era imediato como hoje. Não havia possibilidade de estudar online; nosso aprendizado era, literalmente, ‘com a cara no livro’. Mas aprendi muito nesse período”, recorda Paulo.
No destino, a contabilidade
Apesar de trabalhar em um escritório de contabilidade, Paulo nunca imaginou seguir a carreira de contador. Contudo, o destino tratou de escolhê-lo para a profissão, colocando no seu caminho o amigo Anderson Chenet. Colegas de escola, Anderson planejava prestar vestibular para Ciências Contábeis na primeira turma da recém-inaugurada Universidade de Cuiabá (Unic) em Sinop e se esforçava para convencer Paulo a fazer o mesmo. Como se tratava da primeira turma, a procura era intensa, com mais de 40 candidatos por vaga.
“Falei para o Anderson que não havia qualquer condição de eu prestar vestibular para Ciências Contábeis; não era o que eu queria naquele momento”, lembra Paulo. Mas Anderson não desistiu. Ao fazer a inscrição do vestibular em Sinop, ligou para o amigo na fila e disse: “Me mande seus documentos por fax. Eles aceitam que eu faça sua inscrição para o vestibular”.
Paulo recorda que, a princípio, riu da situação. “Achei que o Anderson estava delirando”. No entanto, diante da insistência do amigo, acabou enviando os documentos. “Ele me convenceu de que seria apenas mais um vestibular para ganhar experiência. Já havia feito dois antes e não tinha passado, então ele disse que era só mais uma oportunidade de aprendizado”, relembra.
Quando os resultados saíram, Paulo foi aprovado — e com excelente desempenho, ficando em 5º lugar. Anderson também foi aprovado.
No início do ano 2000, Paulo se tornava acadêmico de Ciências Contábeis, integrando a primeira turma da Unic, instalada no bairro Jacarandás, em Sinop. Durante o dia, trabalhava como office boy na Contática, em Sorriso, e, a partir das 17h30, embarcava no ônibus rumo a Sinop. As aulas começavam às 19h e se estendiam até 22h30.
Quando não havia imprevistos no caminho, como pneu furado ou ônibus quebrado devido às más condições da BR-163, Paulo retornava a Sorriso por volta da 1h da madrugada. No dia seguinte, às 7h, já estava novamente ativo no escritório. A rotina se repetia de segunda a sexta-feira, e o jovem mantinha o foco nos estudos. Todo o esforço valeu a pena: em 2003, Paulo se formou contador.
Antes mesmo de receber o diploma, o destino e o colega de trabalho Maico Rippel deram a Paulo uma nova guinada na vida. Maico apresentou uma proposta para que se tornassem sócios na aquisição de um escritório de contabilidade. “Tudo aconteceu muito rápido. Havia um senhor com um pequeno escritório que queria vender. O Maico se empolgou, me propôs o desafio e eu aceitei”, recorda Paulo.
Nesse ponto da história entra a figura de seu pai, Alceu Silvestro. “Procurei meu pai e disse: ‘preciso de R$ 10 mil’. Era pouco antes da minha formatura, em 2003. Para a época, e para alguém sem imóveis para dar como garantia, era uma quantia alta. Também não havia como conseguir empréstimo bancário. Meu pai me olhou surpreso e perguntou o que eu faria com o dinheiro. Expliquei a situação, e ele, confiando no meu estudo e na forma como avaliava o mercado, perguntou se eu realmente acreditava que era um bom negócio. Respondi que sim, e ele não hesitou”, lembra Paulo.
Para ajudar o filho na nova empreitada, seu Alceu procurou o então patrão, Luiz Alberto Verller, da Fazenda Pirapó, e propôs um adiantamento do valor que teria a receber pela safra. Paulo acompanhou o pai na negociação. “Seu Luiz olhou nos meus olhos e perguntou firme: ‘É um bom negócio, pia?’. Respondi que sim, e saímos de lá com o cheque na mão”, recorda Paulo.
Com o escritório comprado, o passo natural seria que Paulo e Maico deixassem seus empregos na Contática, onde Maico também trabalhava, para se dedicar integralmente ao novo negócio. No entanto, eles enxergaram uma oportunidade diferente. Analisando o mercado e projetando o futuro, Paulo convenceu Maico de que o melhor seria não atuar separadamente, mas levar o pequeno escritório recém-adquirido para dentro da Contática e trabalhar em conjunto com o patrão José Vanderley dos Santos.
José, ao ouvir a proposta, aceitou imediatamente. Fez o acerto com os funcionários e combinou que Paulo e Maico integrariam o escritório comprado à Contática, mantendo a carteira de clientes. A partir dali cada um teria direito a 10% das ações da empresa. Com o acordo fechado, Paulo e Maico encerraram 2003 como sócios da Contática.
“A Contática nasceu em 1988 pelas mãos de Norberto Favretto, que inicialmente elaborava projetos para produtores rurais em busca de financiamentos junto a instituições bancárias, como o Banco do Brasil, e cooperativas de crédito rural. Com o tempo, esses clientes, quase todos produtores rurais, começaram a solicitar que Norberto também cuidasse do ITR (Imposto Territorial Rural) e do IR (Imposto de Renda). Foi então que ele teve a ideia de abrir a Contática. Posteriormente, vendeu a empresa para José”, explica Paulo.
O empresário conta que a primeira sede da Contática ficava onde hoje está a Loja Bambino, de propriedade da esposa de Norberto Favretto. Em 1996, José entrou na sociedade. “Na época, a legislação passou a exigir que os escritórios de contabilidade tivessem um contador registrado, e foi nesse contexto que Norberto decidiu vender o escritório”, relata Paulo.
Três anos após a fundação da empresa, em 1998, Paulo ingressou na Contática e, em 2003, tornou-se sócio. O próximo passo em sua trajetória profissional ocorreu em 2012, quando adquiriu as ações dos demais sócios e se tornou o único proprietário da Contática. “Foi uma caminhada marcada por muito trabalho, noites de estudo, e, em apenas 14 anos, me tornei o proprietário”, relembra.
Mas a vida de Paulo não se resume apenas a números, compras e vendas. Em 2005, durante um encontro religioso do “Segue-me!”, promovido pela Paróquia São Pedro Apóstolo, ele conhece Gisele Richard, natural de Videira, Santa Catarina. O pai de Gisele, Ulisses, era caminhoneiro, e a mãe, Leonice, dona de casa. O casal escolheu Sorriso justamente por causa da profissão de Ulisses, que encontraria na cidade melhores oportunidades para fretes. Além de Gisele, o casal tinha outra filha, Geane.
O namoro entre Paulo e Gisele durou até 2010, quando se casaram e deram início à nova família. “Em 2012, fomos agraciados com Pedro, que hoje tem 13 anos, e, recentemente, em 2022, nos tornamos pais da Helena”, relata orgulhoso Paulo.
Recém-casado, em 2010, o CEO da Contática também cursava Direito. Ele integrava a primeira turma de Direito da Unic em Sorriso e foi aprovado no exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) já em 2011, dois semestres antes de concluir o curso. Somente em 2012 recebeu o diploma de graduação.
Naquele mesmo ano, um novo Paulo surgia. A veia empreendedora o levou a identificar oportunidades em nichos ainda pouco explorados. “Atuando no escritório de contabilidade percebi que os clientes traziam muitos desafios de suas empresas e buscavam orientação no contador”, relata. Entre as questões apresentadas, havia preocupações com mudanças na legislação, possibilidades de investimentos e novos negócios.
“Percebi que havia espaço para crescer e que precisava me especializar ainda mais. Fiz pós-graduações em Perícia, Controladoria e Auditoria Contábil”, acrescenta. O conselho da mãe, de que “estudar abre caminhos”, ecoava fortemente em sua mente. Paulo chegou a ser aprovado em um mestrado, mas decidiu não concluir o último ano, entendendo que aquele não era o caminho que queria seguir. “Optei por me aperfeiçoar em áreas nas quais já tinha experiência e que surgiam com frequência no escritório. Não era o caso da docência”, explica.
Se, por um lado, o dia a dia no escritório abria perspectivas e mantinha um ritmo constante, por outro, Paulo nunca deixou de buscar oportunidades e enxergar caminhos inovadores. Foi justamente em uma dessas situações que, em 2012, ao avaliar um contrato de parceria envolvendo a família de um colaborador da Contática, surgiu uma nova possibilidade: investir no setor imobiliário.
Para isso, Paulo recorreu a Renato Zenaro, colega do curso de Direito, que atuava como topógrafo e advogado. Animada com a ideia, a família de Zenaro não hesitou em investir no novo empreendimento. Assim, em 2013, nasceu a Axxion Empreendimentos Imobiliários, contando ainda com a parceria de José Baggio.
Concomitantemente à formação de sua própria família, Paulo seguia dedicado ao trabalho e à construção de seu caminho profissional. Ele recorda: “Chegamos aqui em uma situação de extrema vulnerabilidade. Meu pai trabalhava diariamente até tarde da noite na lavoura e, muitas vezes, ficávamos dias sem vê-lo. Enquanto isso, minha mãe se desdobrava como diarista. Sem estudo, tudo o que eles tinham à frente era o trabalho braçal”.
O esforço intenso na lavoura trouxe consequências: por diversas vezes, Alceu se intoxicou com veneno. Em 2015, veio a perda precoce: ele faleceu aos 59 anos, vítima de diabetes, pressão alta e outras complicações. Paulo reflete com emoção: “Ele era um gaúcho daqueles que se dedicava integralmente à família e ao trabalho, com pouco tempo para cuidar de si mesmo. Partiu muito jovem, mas deixou um exemplo de dedicação, honestidade e amor à família que carrego comigo até hoje”.
Desde cedo, Paulo entendeu que, para conhecer pessoas e clientes, era necessário estar inserido na comunidade e se dedicar a ela. “Particularmente, eu sinto que essa cidade me moldou, me deu oportunidades que nunca imaginei, e acredito que posso fazer a diferença na vida do outro”, reflete.
Essa visão o levou a atuar ativamente na Paróquia São Pedro Apóstolo, em clubes de serviço como o Rotary Club, e na Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL), onde já liderou a entidade por cinco anos e atualmente cumpre seu terceiro mandato.
Além disso, foi conselheiro da Cooperativa Sicredi por oito anos e presidente da Associação de Contadores do Município, integrando também entidades estaduais, como a Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas do Estado de Mato Grosso (FCDL-MT) e, além de participar de várias associações de empresários, como a RNC - Rede Nacional de Contabilidade.
Perito, contador, advogado e empresário, Paulo dedica seu dia a dia ao empreendedorismo e ao cuidado com o outro, sempre pautado pela preocupação social e pelo compromisso com a comunidade em que está inserido.
Hoje, a rotina do garoto que, aos 10 anos, se destacava vendendo picolés é muito mais intensa. Paulo é sócio de dezenas de empresas e, na Contática, sua liderança influencia diretamente a vida de 68 colaboradores. Somando as demais empresas, são mais de 100 pessoas cujas vidas e famílias estão diretamente ligadas às decisões e ao trabalho do CEO da Contática.
“Somos uma empresa com quase 30 anos de CNPJ, a primeira no Mato Grosso a conquistar a certificação de qualidade ISO 9001. Contamos com Plano de Cargos e Carreira para todos os colaboradores, estruturando um quadro de Partnership arrojado. Somos uma empresa amiga da criança e do adolescente e temos como uma de nossas bandeiras conscientizar nossos clientes de que pequenas atitudes podem transformar vidas, como, por exemplo, a destinação do Imposto de Renda solidário”, ressalta Paulo.
Para ele, existe um compromisso social profundo: “Quando um lugar te acolhe como fui acolhido aqui, você retribui com trabalho, honestidade e criando oportunidades para quem vive ou deseja viver aqui. Sorriso continua sendo uma terra promissora e cheia de oportunidades”, enfatiza.
Extremamente ligado à família, Paulo orgulha-se profundamente de sua história. Faz questão de destacar que Anderson, seu irmão mais novo, sempre teve gosto pelo estudo e hoje é doutor e docente no Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT), no polo de Barra do Garças. Alcir, por sua vez, seguiu os passos do pai, dedicando-se à lavoura e cuidando das plantações em fazendas da região. Do tio José, lembra-se apenas de boas histórias:
“Meu tio, todo mundo daqui conhece, é o Zezinho da Foto Visão. É um cara inspirador”. A convivência com os primos, filhos de seu José, também é fundamental. A prima Josiane reside em Sorriso, enquanto Tiago é padre em Sinop e cuida da fé da família com dedicação e carinho.
“Não sei como será o futuro. O que desejo para meus filhos é que sejam felizes, muito felizes, que sigam o caminho do correto, do justo e do honesto, e que se mantenham sempre na presença de Deus”, compartilha o pai de Pedro e Helena.
Paulo observa com orgulho o interesse do filho pelo trabalho. “Pedro já entra aqui e demonstra uma mentalidade diferente. Ele diz: ‘Pai, dá para robotizar muitos dos serviços feitos aqui’, e vai me explicando sobre avanços tecnológicos e formas de engajamento nas redes sociais. Ao olhar para ele, vejo meu próprio olhar de criança: já fui esse menino cheio de sonhos, novidades e perspectivas próprias. É gratificante ver meu filho desbravando, imaginando e criando o seu próprio mundo”, afirma, contemplando o horizonte a partir da janela da empresa que preside.
“Olho por esta janela e vejo o lugar onde estou hoje. Quando cheguei, era tudo mata fechada, sem caminho para entrar. A cidade terminava no Ginásio Domingão. Onde não havia mata, havia lavoura, inclusive neste espaço onde estamos. Hoje, vejo a cidade verticalizando-se, crescendo e se expandindo a um ritmo acelerado há anos”, ressalta.
Nessas horas, Paulo reflete sobre o futuro de Pedro e Helena. Quais caminhos escolherão? Serão professores, contadores, médicos, advogados, arquitetos? O que despertará a paixão de cada um? Talvez Pedro opte por seguir na empresa, pela Contática, trazendo consigo uma nova fase, um novo ritmo. Até lá, Paulo segue à frente da gestão financeira de mais de mil CNPJs de Sorriso e região, além de todas as outras empresas em que atua.
“Quando você abre uma empresa, espera que ela faça história, que seja centenária. É isso que desejo para a Contática: que ela perdure, marcando a história de Sorriso, seja com gerações da minha família ou com outros CEOs”, afirma. “Que seja uma marca, um nome sinônimo de crescimento e desenvolvimento, assim como a nossa cidade”.
