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2000
Guido Franzner

DE GRÃO EM GRÃO
Um jovem de 25 anos de idade instala uma roda d’água obtendo energia elétrica para seu moinho de fubá onde trabalha com sua família. Passados 64 anos, essa família se torna um dos maiores produtores de alimentos do país, com 12 indústrias de processamento de grãos, incluindo a maior beneficiadora de arroz de Sinop
A história dessa grande indústria alimentícia começa com o homem cujo nome virou a marca que estampa as embalagens da empresa. Urbano Franzner nasceu no dia 11 de outubro de 1926, na cidade de Jaraguá do Sul (SC). Passou a vida trabalhando na roça de seus pais. No acidentado terreno catarinense, os Franzners plantavam cana nos morros para fazer açúcar e cachaça.
No ano de 1951, ele se casa com Alminda Pradi, e em 24 de maio de 1952 nasce o primeiro filho do casal, Guido Franzner – atual diretor da unidade da Urbano Alimentos em Sinop e narrador dessa história contada pela Fator MT.
Agora pai de família, Urbano sente que precisa fazer mais. Ele pede um pedaço pequeno de terra ao pai para instalar um moinho de fubá. Urbano tinha 25 anos de idade na época e ouviu do seu pai que aquele não seria um bom negócio, que moer milho para os outros colocaria comida na sua mesa, mas jamais daria um ganho maior que isso. Urbano não mudou de ideia e resolveu experimentar.
Usando a força dos braços, busca pedras nos morros com uma carroça e desvia pequena parte do curso d’água formando um canal de 400 metros, com correnteza suficiente para produzir energia mecânica para seu moinho.
Assim que a moenda começou a girar, os colonos da região vieram para fazer fubá com seus grãos. Ele produzia de 20 a 30 quilos por vez. Era uma pequena operação, conforme o pai de Urbano previu. O colono assim chamado na época pagava a prestação de serviço para processar os grãos e o resíduo ficava com Urbano. Usando essa sobra, Urbano montou uma engorda de porcos para tentar fazer um pouco mais do que só matar a fome da sua família, que crescia rápido. Ele e Alminda tiveram 10 filhos.
Para diversificar o negócio, Urbano compra uma pequena máquina de limpar arroz. A ferramenta, que hoje pode ser vista na recepção do Arroz Urbano de Sinop como um objeto de memória, descascava o arroz, separando a casca do grão. O arroz usado era o chamado “amarelão”, tecnicamente descrito como arroz macerado, cujo grão é extraído em água em temperatura ambiente. A “indústria” de arroz do Urbano começa com uma compra de 30 quilos do grão, vendida pelo produtor Giovane Luiz. O estoque foi processado na pequena máquina e empacotado manualmente em sacos menores, pesados em uma balança de pratos.
Com o arroz, a “quirera” era maior. Em 1959, Urbano decide parar com o moinho de fubá para se dedicar ao beneficiamento de arroz. A cerealista é formalmente constituída em 1960. O negócio prospera e Urbano compra uma máquina maior para ampliar sua produção. O problema é que os equipamentos disponíveis operavam com energia elétrica, que não chegavam até a propriedade. Urbano desmonta a roda d’água do moinho, faz ajustes no canal, aumentando novamente a vazão, e instala uma turbina para gerar energia elétrica.
O arroz beneficiado é comercializado na região. Para vender mais longe, Urbano precisava empacotar o grão e o pacote precisava ter um rótulo. Urbano e sua esposa fazem uma lista de nomes que pretendiam usar como marca, para ter opções, caso o nome já estivesse registrado. Quando chega ao Escritório de Patentes em São Paulo (SP), Urbano é informado de que seu registro demoraria 30 dias para ser feito e poderia ser negado no meio desse processo caso a marca já existisse. “O funcionário do escritório disse que se meu pai colocasse o próprio nome, o registro saía na hora. E foi assim que nasceu a marca Arroz Urbano”, conta Guido.
A empresa foi registrada no dia 4 de fevereiro de 1960, e com ela a indústria estampou seus primeiros fardos – na época de papel – vendidos para um supermercado em Curitiba (PR). Nessa época, a beneficiadora tinha uma capacidade para processar 6 sacas de hora. Trabalhando bem chegava a mil sacas por mês.
Tentando crescer, Urbano faz uma compra grande de arroz em 1968. Paga um valor alto pela saca e vê meses depois o preço despencar. Urbano estava pagando para descascar arroz. Seu negócio foi para a lona. Urbano tentou pagar sua dívida dando a empresa, mas os dois credores não aceitaram o negócio. Disseram para Urbano ter paciência e continuar trabalhando. Um gerente de banco ajudou o empresário a organizar as contas. À medida que precisava quitar uma dívida, Urbano se desfazia de um bem. “O pai vendeu chácara, trator, a [Chevrolet] Veraneio... tudo para pagar conta. Chegou a vender a TV de casa”, lembra Guido.
Em 1969, o mercado fez um movimento inverso. O arroz que estava muito barato explodiu em preço. Com isso, o estoque parado de Urbano voltou a ter valor. A família coloca a indústria para girar, organiza as contas e termina o ano quitando todas as dívidas.
Em 1971, Guido vai para Joinville servir no Batalhão de Infantaria, cumprindo um ano de serviço militar obrigatório. Virou motorista do quartel. Certo dia, recebeu a missão de levar alguns militares e estudantes para uma ação social que estava sendo feita em um bairro de Schroeder (SC), cidade vizinha de Jaraguá do Sul a qual Marlene Jahn estudava. Essa jovem que se tornaria sua esposa 6 anos depois.
Guido volta em 1972 e Urbano compra o primeiro caminhão para fazer entrega. Guido passa os próximos 7 anos trabalhando na estrada, abrindo novas rotas comerciais no Paraná e levando o arroz até o Rio de Janeiro. Quando nasce Luciene (Susi), a primeira filha do casal, em janeiro de 1979 ele para de viajar. Eles ainda tiveram mais dois: Angela (abril de 1981) e João Paulo (janeiro de 1986), todos nascidos em Jaraguá do Sul.
O Arroz Urbano cresceu e o negócio, essencialmente familiar, chamava a atenção. Em dado dia, o padre João Heidemann faz uma visita a Urbano e aconselha o empresário a começar um processo de sucessão da empresa, a fim de mantê-los dentro no negócio e evitar partilhas injustas no futuro. Após o conselho clerical, Urbano distribui as cotas igualmente aos 10 filhos sendo que o negócio fica para os 6 filhos homens e as 4 filhas vendem suas cotas.
Nesse mesmo ano, Guido e seus irmãos projetavam montar uma unidade de beneficiamento de arroz em São Gabriel (RS), região com muita produção do grão. “A gente tinha certeza que o pai não ia gostar. Ele queria a família toda junta por perto, um morava do lado do outro e a empresa era nos fundos, então sempre fomos muito próximos”. Após firmar o acordo da área em São Gabriel que fomos falar com o pai. Ele ficou muito bravo, mas acabou entendendo e aceitando aos poucos.
Em 1985, os irmãos formam uma comitiva, reunindo os operários de uma construtora de Jaraguá do Sul, levando as ferragens que foram previamente fabricadas. Acampam no terreno em São Gabriel e erguem a indústria. Em 1986, a segunda unidade do Arroz Urbano começa o beneficiamento, com capacidade para 15 mil sacas por mês. “No Rio Grande do Sul, a gente teve a oportunidade de começar a produzir o arroz branco polido. Nesse meio da indústria de arroz eles chamavam as fábricas de parboilizado ‘emendadeira de arroz’. O arroz branco tinha mais valor e mercado”, explica Guido.
No ano de 1987, a indústria dá mais um passo importante. O arroz “macerado” é deixado de lado e a fábrica de Jaraguá do Sul começa a produzir o arroz parboilizado, que passa por um processo de pré-cozimento ainda com casca, que une o grão, reduzindo a quantidade de quebrados, além de torná-lo mais nutritivo que o arroz branco convencional. Foi difícil fazer o equipamento (alto clave) funcionar da forma adequada. “Foram mais de 2 anos até acertar, uma grande parte dos grãos saia quebrado”, conta Guido.
Com um produto diferenciado, a Urbano conseguiu alcançar novos mercados no Sul e no Sudeste. Vender no Mato Grosso continuava sendo um desafio. Por duas vezes, os irmãos tentaram atender a praça de Cuiabá, mas acabou não dando certo. Até que, em 1988, Adones Kunh vai até a Arroz Urbano e se candidata para representar a marca no Mato Grosso. Os irmãos decidem tentar outra vez. E dá muito certo. Em pouco tempo, metade do arroz produzido na unidade de São Gabriel vinha para o Mato Grosso. Quem vivia em Sinop nessa época encontrou Arroz Tio Urbano nas prateleiras do supermercado. Naquele momento, o estado comia muito arroz, mas plantava pouco, e esse pouco era um arroz de baixa qualidade, sem padrão, com grãos redondos.
No início da década de 90, começou a se plantar no estado uma nova variedade. Era o arroz Irati, popularmente chamado de “agulhinha do cerrado”, que produzia um grão mais parecido com o padrão consumido pelos brasileiros. Guido chegou a fazer uma viagem para conhecer essa novidade e comprou uma carga para processar na unidade de Jaraguá do Sul. O grão era tão fino que quando passava pela autoclave, no processo de parboilização, desmanchava.
Mas o Irati mudou o mercado em Mato Grosso, e quando surgiu a variedade BRS Primavera o novo cenário estava sacramentado. O arroz Primavera, desenvolvido pela Embrapa, tinha boa produção e formava um grão padrão, longo fino, bom para panela. Em resumo: o arroz que a Urbano produzia no Rio Grande do Sul começa a ter dificuldade competitiva com o agulhinha do sequeiro. “Quando começou a produzir o arroz Irati, a gente sentiu a queda nas vendas. Quando chegou o arroz Primavera, não tinha mais remédio”, conta Guido.
Recuperar o mercado de Mato Grosso era um plano. Enquanto isso, em 1995, a unidade de São Gabriel inicia a produção de energia elétrica com a casca de arroz. Em 1998, a Urbano abre sua terceira unidade, em Meleiro (SC). A planta é similar à de São Gabriel, processando 15 mil sacas por mês.
Em 1999, Guido, sua esposa e a filha Susi decidem viajar por Mato Grosso para “bisbilhotar”. Queriam sentir o cheiro de oportunidade. Vão pela primeira vez para Tangará da Serra, mas nada acontece. Guido já havia vindo a Lucas do Rio Verde e Sorriso comprar arroz, então estica um pouco mais ao Norte. Vê uma imensidão de terras sendo abertas onde nos primeiros 2 anos só seria plantado arroz. Definiu que a nova indústria do Arroz Urbano seria em Sorriso ou em Sinop.
O empresário vai então conversar com os prefeitos da região. Em Sinop, o empresário foi recepcionado por Adenir Alves Barbosa e apresentou possíveis terrenos. Além disso, Sinop tinha um aeroporto que funcionava, então essa logística também pesou na escolha.
Sinop foi o lugar que Guido escolheu para dar o passo fora de casa. Em São Gabriel e em Meleiro, foram os outros irmãos para gerenciar as unidades. Seu Urbano sempre manteve o filho mais velho encadeado em Jaraguá do Sul. Guido queria construir uma unidade no meio do nada e começar a trabalhar nela.
O terreno que o interessou é colocado para venda em um leilão em abril 2000 e arrematado por Guido por R$ 150 mil. A área tinha 36 hectares. Em maio, ele e sua esposa se mudam para Sinop, indo morar em um hotel. Em 2001 seu filho caçula João Paulo também vem de mudança. Guido também trouxe um velho conhecido: o “Madona”.
Esse era o apelido de Joacir Venson, um terceirizado da Industrial Pagé que, desde 1985, trabalhou montando as unidades do Arroz Urbano. A de Sinop foi a última planta industrial que “Madona” montou pela Pagé. Depois disso, ele abriu sua própria empresa na cidade e hoje é dono da Jhonrob, uma das maiores fabricantes de silos e armazéns do país.
No dia 3 de junho de 2000, iniciam as obras da nova indústria em Sinop.
Depois de meses morando em hotel, a família se muda para um apartamento no Edifício Madage, no centro de Sinop, mas distante 12 quilômetros da sua indústria. Atualmente é possível fazer esse trajeto em 10 ou 15 minutos, dependendo do horário, mas na época podia levar até uma hora, pelas condições da BR-163, que tinha apenas uma pista simples, pavimentada, mas em péssimas condições. Para acabar com esse problema diário de ir de casa para o trabalho, Guido decide construir uma casa para família na chácara ao lado da indústria – do mesmo jeito que seu pai fez lá no sul.
Em janeiro de 2002, a unidade de Sinop começa a empacotar arroz. Mas ao invés de Urbano, nos pacotes estava estampado Arroz Koblenz. O nome remete a uma província da Alemanha de onde os antepassados de Urbano vieram. A marca foi criada como uma estratégia comercial para diferenciar o arroz de terras altas, produzido em Mato Grosso, do arroz de terras baixas, colhido no Rio Grande do Sul.
Em 2003, passa pela primeira ampliação, com a construção do segundo armazém. Já em janeiro 2004 sua filha Susi se muda definitivo juntamente com seu esposo Gioney para Sinop e a segunda filha Angela permanece trabalhando na matriz. Em 2005, são instalados os moinhos para fabricação de farinha de arroz, matéria prima usada para fabricar a massa (macarrão) de arroz em Jaraguá do Sul. Nesse mesmo ano havia muita produção disponível. Guido conta que, o negócio do arroz atravessa a crise e se mantém. No estado, Mato Grosso chegou a ter 80 indústrias que beneficiavam o grão. Hoje não passam de 20.
Quando iniciou a produção, na cidade já haviam 7 beneficiadoras de arroz instaladas. A planta tinha capacidade para processar 3,5 mil toneladas por mês. Em 2024 a capacidade de beneficiamento do Arroz Urbano em Sinop é algo em torno de 10,8 mil toneladas por mês.
Em 2015, a unidade de Sinop começa a produzir o flocão de arroz, e em 2019 adquiri o segundo moinho para produzir farinha. Desde que opera no Norte de Mato Grosso, 2023 foi o pior ano para o Arroz Urbano em termos de oferta de produto. Primariamente cultivado em abertura de áreas, os estoques de arroz oscilam conforme novas lavouras são formadas, ou por pastagens reformadas. Há quem plante arroz em terras velhas e, nesse caso, o preço define qual cultura vai ser plantada. Guido conta que a unidade de Sinop precisou comprar arroz do Rio Grande do Sul para manter a fábrica rodando e que cerca de 10% do arroz que a Urbano de Sinop processou em 2023 veio do Paraguai. Em 2024, segundo Guido, a produção esperada deve ser suficiente. Atualmente, a variedade plantada no estado e que funciona bem para a indústria é ANA-8001. Guido diz que o melhor arroz que já houve para a indústria foi o Primavera e quem mais chegou perto do rei da panela foi a variedade Cambará. “Acredito que a forma como o Arroz Urbano atuou ao longo de toda sua história ajudou a tornar o mercado de Sinop mais sério e confiável. Temos como hábito e valor de vida cumprir com o que se promete. Isso vem do nosso pai, que lá no começo de tudo, quando quase foi à ruína, dizia para gente: “não deixam a empresa quebrar e ficar devendo. Se falou que vai comprar ou que vai entregar, cumpra”, afirma Guido.
Expansão em massa
Depois de Sinop, o Grupo Urbano começa uma expansão em escala. Em 2001, eles implantam uma unidade de recebimento, em Pouso Redondo (SC). Nesse mesmo ano, chegam a trabalhar com o beneficiamento de café, mas abandonam a atividade para focar nos derivados de arroz. É inclusive nesse momento que param a produção do “Urbanitos”, um salgadinho de milho produzido pelo grupo na década de 90.
A marca passa por uma modernização em 2006, e em 2008 lança o primeiro macarrão de arroz, produto que também pode ser consumido pelos celíacos, já que não contém glúten. Em 2009, o grupo compra a marca “Super Máximo” ingressando no beneficiamento de feijão e cereais. Com isso, abrem-se as unidades de Guarulhos (SP), Jaboatão (PE), Ponta Grossa (PR) e Brasília (DF).
Em 2010, uma nova planta é construída em Cabo de Santo Agostinho (PE). Quem foi erguer a unidade juntamente com Guido foi a Construtora Lindóia, de Sinop. No ano seguinte, o grupo compra uma indústria têxtil em Nova Trento (SC), inaugurando a Urbano Têxtil, que em 2024 fábrica 600 toneladas de malha por mês.
Em 2012, a Urbano compra a marca Arroz Belchior e a indústria que o fabricava, em Gaspar (SC). No mesmo ano constrói a segunda unidade do Grupo em Mato Grosso, na cidade de Várzea Grande.
Em 2013, o grupo compra a marca Arroz Vila Nova, bem como a indústria, em Joinville (SC). Também chega ao mercado o Arroz Vitaminado Urbano. Em 2014 o grupo volta a origem, construindo uma PCH (Pequena Central Hidrelétrica), em São Martinho (SC). A usina começa a gerar energia em 2016, em parceria com a Cerbranorte.
O grupo segue a expansão comprando uma beneficiadora em Formosa (GO) com a marca “Nobre”, no ano de 2019. No ano de 2022, a companhia adquire a marca “Broto Legal”, com suas 3 unidades produtoras, em Campinas (SP), Porto Ferreira (SP) e Uruguaiana (RS).
Em 2024, o Grupo Urbano está entre os maiores produtores de alimentos do país. São 12 indústrias de grãos espalhadas pelo território brasileiro, que somam 143 mil metros quadrados de área construída, empregando mais de 1.700 colaboradores diretos. Com tecnologia de última geração, as unidades do Grupo Urbano têm capacidade de produção de 60 mil toneladas de alimentos por mês e armazenar mais de 450 mil toneladas de arroz em casca e de feijão. São mais de 40 diferentes produtos que estampam a marca Urbano.
O dono do nome acabou não vendo o ápice da indústria que fundou. Urbano faleceu em 2014, com 87 anos de idade. Sua esposa Alminda faleceu com a mesma idade, em 2022. Mas o casal deixou um legado familiar. Atualmente, o conglomerado industrial é gerido pelos seus 6 filhos: Guido, Jaime, Adenor, Dorval, Renato e José Jair. O modelo familiar chegou até a terceira geração: 11 netos de Urbano trabalham em empresas do grupo.
Fé, família e trabalho, a cada dia que passa a família mantem esses pilares sólidos e honram a memória de seus pais e avós.
2000
Josmar Pavão

A CONCRETIZAÇÃO DO PIONEIRISMO
Josmar Pavão começou sua jornada como cobrador e quebrou muita pedra até se construir como profissional e receber uma proposta para abrir o mercado de concreto usinado no Norte de Mato Grosso
Viver em um lugar agradável, bonito e próximo da família e dos amigos na região Sul do país, ou partir em uma jornada para um lugar desconhecido, longe dos familiares e pouco estruturado no Norte do Mato Grosso? Pode parecer loucura, mas a segunda opção é a história de muitas famílias que se estabeleceram em Sinop. Este é o caso do Josmar, sócio da Concrenop.
Filho de trabalhadores assalariados de frigoríficos no Oeste Catarinense, Josmar Pavão nasceu em 8 de julho de 1971, em Caxambu do Sul (SC). Ainda pequeno, aos 5 anos de idade, mudou-se com os pais e os irmãos para uma cidade maior: Chapecó (SC), a 40 km de sua cidade natal, onde passou toda a infância e juventude. A infância foi árdua, começando a trabalhar aos 14 anos de idade, já com carteira assinada, no Frigorífico Chapecó. Lá, foi auxiliar de produção e almoxarife.
Após sair do frigorífico e trabalhar em algumas outras atividades, como em uma imobiliária, no ano de 1991, Josmar arrumou um serviço no Britador Baldissera, empresa da tradicional família de Chapecó conhecida por atuar no ramo de mineração desde 1974. Começou como cobrador de contas, mas não demorou muito a subir de cargo, passando a ser vendedor, cargo que ocupou durante 5 anos.
Enquanto Josmar trilhava seu caminho dentro da empresa, João Carlos Baldissera, um dos quatro irmãos sócios do Britador Baldissera, recebeu o convite de um parente que morava em Sinop. “Aqui não tem concreto, vem conhecer’’, disse o parente. Foi então que o empresário visitou a região, gostou e chamou os irmãos para uma nova empreitada: “Vamos montar uma concreteira lá”, disse. A princípio, os irmãos aceitaram, mas posteriormente, abortaram a ideia. Houve resistência por parte da família: “Lá só tem madeira, vão fazer o que com concreto lá?”, indagavam.
Na época o concreto parecia de fato um negócio abstrato. A empresa não tinha como fazer um estudo de viabilidade econômica, visto que o material sequer havia sido experimentado de verdade pelo mercado. João Carlos chegou no Mato Grosso durante o período de seca, mas ouvia histórias de que chovia demais, então tudo era surpresa, desde o clima até às dificuldades de logística. Mas a provocação que Sinop faz com os empreendedores falou mais alto. João desconsiderou os obstáculos e resolveu assumir uma empresa em sociedade com o parente que havia chamado.
Lá no Sul, Josmar conhece Carmen Cavazin em 1995 e eles começam a namorar. Em 1999, ainda em Chapecó, eles passam a morar juntos. Foi nesta época que João Carlos convida Josmar para atuar na unidade de Sinop. Na época com 28 anos de idade, Josmar encara o convite como uma oportunidade de desbravar um novo mercado e quem sabe crescer. Além de ser uma forma de conhecer o estado de que tanto ouvira falar, mas ainda o assustava.
Em março de 2000, Josmar enfim, viajou com João Carlos para Sinop. A visita durou 5 dias. A primeira impressão da nova cidade não foi das melhores. Chegaram à noite. No bairro Alto da Glória, haviam duas lombadas. “Nós demos uma ‘rampada’ naquele quebra-molas, que acordou todo mundo. Como chegamos à noite, não tivemos muita noção da força do impacto. Fomos ver só no outro dia”, lembra.
João Carlos já havia reservado os terrenos e levou o então funcionário para verificar a área. Lá, foram adquiridos 12 mil metros quadrados para a instalação da nova empresa.
O combinado da viagem era ir a Sinop e conhecer. Nessa mesma viagem, aproveitaram para conhecer os municípios goianos de Rio Verde e Mineiros. Embora João Carlos já estivesse decidido a montar a empresa em Sinop, eles estavam com um amigo que possuía negócios em Goiás e queria levá-los para algumas cidades daquele estado, além de outras localizadas no interior de São Paulo. Foram cerca de 7 mil quilômetros percorridos.
Em abril de 2000, a Concrenop foi constituída. Naquele momento, a sociedade de João Carlos com os irmãos estava sendo desfeita. Era a chance de o empresário iniciar um negócio diferente, então, ele agiu no ímpeto ao saber que ainda não havia uma empresa concreteira em Sinop, terra de oportunidades que estava em plena ascensão. Então, como chegaria a um lugar comandando literalmente um monopólio, essa era a oportunidade especial de sair fortalecido de uma sociedade em família.
Embora não tivesse uma primeira boa impressão, Josmar também sabia que era sua grande chance de crescimento profissional, uma excelente oportunidade de aprendizado e decidiu aceitar a proposta do patrão. Ele se transferiria para o Mato Grosso na condição de gerente da parte de João Carlos – a sociedade era dividida em 50% com o outro sócio.
Após voltar para Chapecó, Josmar fechou a mudança. Faltava convencer a esposa Carmen, que não gostava da ideia de se mudar. Mas ele, já decidido, deu um ultimato. Uma opção da jovem catarinense seria ficar com o marido; a outra, ficar sozinha em Chapecó. A união prevaleceu e eles ficaram juntos no Mato Grosso. “Ela foi parceira, aguentou o arrocho”, disse ele, orgulhoso.
O casal foi embora, de forma definitiva, em junho de 2000. No início, dificuldades de adaptação, especialmente a solidão da esposa e o clima. Além do calor, eram comuns as tempestades de poeira nos fins de tarde, com muitos ventos e redemoinhos.
Então, foi preciso construir tudo do zero. Se em Chapecó, Carmen trabalhava em uma construtora, como seria em Sinop, sem a presença dos parentes? Quem poderia cuidar da criança que ela estava esperando, enquanto ela iria para o trabalho? Foi aí que o casal decidiu que apenas o marido trabalharia fora, enquanto Carmen se dedicaria somente ao lar e à filha. Naquela época, a cidade, já em franca expansão, abrigava jovens casais que estavam iniciando suas vidas.
A Concrenop já contava com um terreno e uma equipe própria para iniciar a obra. Eram três caminhões betoneira. Um deles, inclusive, foi exposto em um estande da Exponop, realizada no ano 2000. Além dos caminhões, a empresa já contava com uma central de concreto (a maior que tinha do mercado, com capacidade de 50 metros cúbicos por hora, aproximadamente) e com sete funcionários.
A margem de lucro no mercado de concretos é estreita. O custo e o investimento são altos. Por exemplo, a bomba de concreto atualmente tem um custo de aproximadamente R$ 3 milhões. São produtos caros que são comprados, estocados e vendidos. Depois de todo esse processo é que vem o lucro. Os insumos mais caros são cimento, pedra, areia, diesel, aditivo, mão de obra, além do imposto, que chega a cerca de 12% de carga tributária.
Mas, logo no primeiro dia de portas abertas, a Concrenop superou o primeiro desafio e fechou com o primeiro cliente. Foi oferecido o primeiro concreto no Posto Caiçara, da MM Instaladora (loja de materiais elétricos). Logo depois, em setembro, veio a construção do viaduto, cartão postal da cidade. A empreiteira que venceu a licitação para construir a obra precisava de uma bomba de concreto usinado e encontrou na Concrenop o prestador de serviço ideal.
Nessa lista de primeiros clientes que ajudaram a endurecer as bases da Concrenop também estão o empresário Vitor Poltronieri, Sinopeças, Machado Itaúbas, Afusmac e Perfisa. De pronto, a empresa foi ganhando destaque no mercado.
E a vida do casal também dava frutos. No dia 28 de janeiro de 2001, nasceu Carla Gabriela, a primeira filha de Josmar e Carmen. No mesmo ano, a Concrenop engrenou, iniciando uma expansão com a montagem da filial em Lucas do Rio Verde, que ainda não tinha nenhuma empresa de concreto. Ou seja, o grupo também foi pioneiro lá.
Mais duas filiais foram abertas em 2002: em Nova Mutum e Sorriso. Nesta última, já existia uma concorrente. Naquela época, a pedra e o cimento vinham de Nobres (MT) como matéria-prima para atender as unidades de Sorriso e Sinop.
Em 2003, acontece a cisão dos sócios: enquanto o Grupo Baldissera fica com Sinop, o outro grupo fica com as outras três unidades: Lucas do Rio Verde, Nova Mutum e Sorriso.
Foi um momento positivo para a Concrenop, com bastante prosperidade. O Grupo Baldissera abre uma unidade em Rondonópolis e compra a de Sorriso, da concorrência. João Carlos era o visionário e decidia o rumo dos negócios. Enquanto isso, a administração passou a seu filho, André Baldissera – que está lá até os dias atuais.
Saindo do investimento em Rondonópolis, entre 2005 e 2008 há uma crise na indústria madeira e também na agricultura em função da desclassificação no arroz. Demissões, redução de investimentos e adequação com a baixa demanda foram algumas das medidas necessárias da empresa. Nessa época, as unidades de Sorriso e Sinop estavam em queda. Praticamente não havia faturamento na unidade de Sinop. Foram dois anos extremamente difíceis, com dívidas e a necessidade de arrumar empréstimos em bancos.
Josmar, por sua vez, nunca perdeu a esperança de que a crise passaria. Em 8 de março de 2006, nasce seu filho caçula, Luiz Eduardo. Então, desistir não era uma opção.
Naquele momento, na empresa, o pensamento de expansão dava uma contida. A Concrenop teve queda de cerca de 60% no volume de vendas (faturamento). Até que, em 2007, o mercado começa a sinalizar uma melhora. Em 2008, melhorou ainda mais e, em 2009, o Grupo Baldissera já tem recursos para abrir a unidade de Cuiabá, que seria concluída no ano seguinte. O mercado competitivo da capital exigiu muito investimento e demanda de equipamentos.
Apesar da expansão dos negócios até a capital, Sinop seguiu sendo o polo administrativo da empresa. Inserido em um grande mercado, a unidade de Cuiabá cresceu e ganhou uma estrutura similar ao do “Nortão”.
Em 2017, o Grupo Baldissera compra uma unidade de Lucas do Rio Verde. No ano seguinte, os sócios decidiram montar uma transportadora para atender a demanda de puxar os agregados: a Rodoja Transportadora Ltda.
O reencontro da empresa com a mineração ocorre em 2021. O Grupo faz uma parceria no município de Nova Santa Helena, onde há uma jazida que atende a expectativa do grupo.
O crescimento da empresa na última década está diretamente relacionado a uma mudança no mercado da construção civil no Norte do Estado. Grandes obras, especialmente os prédios verticais, abriram um mercado que depende de um absurdo volume de concreto usinado para existir. Como se trata de um setor com uma margem muito estreita, se mantém quem está mais organizado. “Ter uma pedreira passa a ser estratégico para garantir que a concreteira tenha essa matéria prima sem falta. Do contrário, a atividade fica comprometida”, explica Josmar.
Em todos esses 24 anos de história, a Concrenop possui participação em diversas obras de uso coletivo em Sinop, como no Centro de Eventos Dante de Oliveira, na UFMT (Universidade Federal de Mato Grosso), nos calçadões da UNEMAT (Universidade do Estado de Mato Grosso), na calçada ao redor do Estádio Municipal Massami Uriu, em praças públicas, na Igreja Assembleia de Deus, também chamada de ‘O Grande Templo’, no Edifício Iramaia e no Edifício Madage, a primeira torre de Sinop.
Focada em obras particulares, tanto no atacado quanto no varejo, a empresa também atuou nos grandes edifícios mais recentes: Ingá Prime, Cataluña, Splendido, Sky e Blend Home & Business – fornecendo aproximadamente 12 mil metros cúbicos de concreto.
Seguindo as normas da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), a Concrenop trabalha com construções acima de três metros cúbicos, atendendo as necessidades de cada cliente, de forma personalizada e respeitando o conjunto de técnicas. Em 2024, a capacidade de produção de concreto usinado é de aproximadamente 20 mil metros cúbicos por mês.
A história mostra o sucesso da Concrenop. Se no início havia 7 funcionários, atualmente, a empresa conta com 158 colaboradores efetivos. São 61 fixos em Sinop, 32 em Cuiabá, 17 em Sorriso, 16 em Rondonópolis, 15 em Lucas do Rio Verde e 17 na Rodoja Transportadora, que conta com uma frota de 25 caminhões.
Em relação ao futuro do mercado de concreto, Josmar é otimista e aposta na força do agronegócio. “Depende muito da força do agro. Se continuar com uma ascendência, o mercado é muito promissor para esse ramo. Serão cinco ou seis anos de muita demanda. Depois, vem a estabilidade”, afirma.
Olhando para si mesmo, um jovem de 29 anos lá no ano 2000, Josmar não se arrepende da decisão que tomou. “O começo foi muito difícil, mas graças a Deus fomos felizes, tivemos uma ascendência em todos os sentidos”, comemora.
A Concrenop cresceu e Josmar também. Assim como Sinop, que não poderia ter crescido sem alguém fazendo o concreto.
2000
Mecson José dos Santos

TIRANDO A CARNE DO OSSO PARA EMPREENDER
O jovem paraense que começou como desossador no frigorífico conseguiu abrir 4 negócios em Sinop, mesmo precisando de uma calculadora para vender bala
Há muitos que gastam mais do que ganham. Poucos raspam a carne do osso para comer, economizando o que podem. Mais raro ainda é quem com as migalhas consegue empreender. Mecson José dos Santos faz parte desse último grupo. Mesmo sem preparo, apenas com foco e iniciativa, ele conseguiu mudar a sua condição de vida, passando de um funcionário de frigorífico a dono de loja de materiais de construção.
A história de Mecson começa em um “fim de linha”. Ele nasceu em 25 de setembro de 1980, em Itaituba, no Pará, uma cidade que fica na ponta da Rodovia Transamazônica separada do restante do Brasil pelo Rio Tapajós. Ainda na infância, os pais de Mecson, pequenos produtores rurais, pegaram a balsa e se mudaram para Rurópolis, a 150 km da terra natal. É em Rurópolis que a Transamazônica se encontra com a BR-163. O jovem já havia encontrado sua estrada, mas ainda estava muito ao Norte.
Na infância e na adolescência, Mecson trabalhou na roça com sua família. Não era exatamente o funcionário do mês nessa atividade. Desde muito jovem, ele sentia uma dor crônica em uma das pernas que, de tempos em tempos, lhe tirava do serviço. “Meus irmãos falavam que era preguiça e que eu ficava inventando desculpa para não ir para a roça trabalhar com eles. Mas a dor era real”, conta Mecson.
Sem muito recurso e blindado com o vigor da juventude, Mecson acabava ignorando o problema. Nunca procurou um médico para averiguar a origem da dor. Sua infância simples também o privou dos estudos.
Entre 1999 e 2000, Gedásio Pereira dos Santos, pai de Mecson, precisava comprar um trator para melhorar a condição de trabalho no sítio. Ao invés de buscar mais ao Norte, em Santarém, ou mesmo em Itaituba, ele pegou a BR-163, não pavimentada, por mais de mil quilômetros, até chegar em Sinop – uma tia de Mecson morava na cidade.
Gedásio se encantou com a cidade. Viu o movimento das madeireiras, pessoas chegando, bairros sendo abertos e muitas empresas funcionando. Sentiu na correria das pessoas, das mais simples até as mais investidas, algo diferente do que estava habituado. Quando voltou para Rurópolis, o patriarca comentou sobre suas impressões de Sinop. “É uma terra de oportunidades”. A frase, vinda do pai, soou como o anúncio de uma “terra prometida” – em uma proporção similar a quando alguém fala de ir para outro país, como Estados Unidos ou na Europa. Foi o suficiente para deixar o jovem de 19 anos, que já estava doido para cair no mundo, completamente ouriçado. “Meu pai não queria que a gente saísse de casa para um lugar que não fosse seguro. Mas ele disse que para Sinop, ele deixaria. Quando ele falou ‘pode ir filho’, eu já estava fechando a mala e comprando a passagem”, relembra Mecson.
De ônibus, ele percorreu os mais de mil quilômetros de estrada de chão sem ver muita coisa até chegar no Mato Grosso. Nessa época, a coisa mais parecida com uma cidade ao sul de Rurópolis era Novo Progresso, a 480 km de distância.
Mecson foi morar na casa da sua tia Cleusa. Ela trabalhava no Frialto, um frigorífico de bovinos, e acabou conseguindo um emprego para o sobrinho. Como Mecson não tinha qualquer qualificação – era praticamente um analfabeto funcional –, o que lhe restou foram os serviços mais braçais. Sua primeira função no frigorífico foi carregar os caminhões refrigerados. Ele pegava as caixas com picanha, maminha, fraldinha e outros cortes na câmara fria e transportava, nas costas, até a carreta. Carregar peso e trabalhar no frio agravaram aquela dor na perna. Mas se quisesse o emprego, Mecson não podia parar no meio do serviço – nem para urinar. “Tinha um gerente, com um baita braço grande e forte, eu tinha um medo daquele cara. Ele começou a me chamar de ‘sangue de barata’. Ele dizia que se eu ficasse saindo a cada pouco, ele me daria as contas”, lembra Mecson.
O problema é que a vida no Pará não havia preparado Mecson para a temperatura negativa. A reação do corpo ao frio era uma vontade de urinar a cada instante. Se fosse ao banheiro toda vez que sua bexiga desse o sinal, certamente o supervisor do braço grande o cortaria. Resta imaginar como foi que ele manteve o emprego.
Vencido o período de experiência, o supervisor levou Mecson para a desossa. Menos frio e possibilidade de aumentar o salário. Agora, Mecson não precisava mais carregar caixas. Bastava pegar a carne que acabara de ser separada do osso e colocar em uma mesa. O jovem acabou fazendo amizade com o desossador, que estava na sua linha de produção. Com ele aprendeu o ofício. Na época, Mecson tinha um salário de R$ 285,00 – quase um salário mínimo e meio. Quem trabalhava na desossa recebia R$ 600,00 – eram 3 salários mínimos. Faca e chaira viraram os “brinquedos” de Mecson. Ele precisava estar afiado para a função.
E a oportunidade apareceu. Um dia, um dos desossadores faltou ao trabalho. O encarregado, querendo manter a produção, pediu se Mecson dava conta. Ele não recuou. Se ofereceu para função e não largou o osso. Foi promovido à desossa e teve seu almejado salário de R$ 600,00.
Nessa época, Mecson ainda morava com a tia. Quando a Colonizadora Sinop abriu uma nova etapa do Jardim das Oliveiras, ele decidiu que investiria em um lote. A parcela era de R$ 185,00. Dava para pagar o terreno e ainda sobrava um pouco para conta de energia e para fazer uma comprinha no mercado para casa.
Mecson tinha um “namorico” no Pará. Elisângela iria visitar uma tia em Campo Grande (MS) e decidiu dar uma parada em Sinop para ver o paquera. Nunca mais saiu. Os dois começaram a viver juntos e alugaram um quartinho, por R$ 50,00/mês. Em pouco tempo Elisângela começou a trabalhar como agente de saúde.
Para sair do aluguel, Mecson construiu uma edícula no terreno que estava comprando. Quarto, cozinha e banheiro. Não tinha reboco nem contrapiso. Eram apenas as paredes de tijolo com as telhas por cima. Precário? Sim! Mas pelo menos não pagaria mais aluguel.
Do lado do lote tinha um bar, sempre com muito movimento. Pertencia ao Seu Geraldo. Mecson pediu ao vizinho se poderia construir um “salãozinho” na parte da frente do seu terreno, mas ao lado do bar. Juntou dinheiro e ergueu a salinha comercial. Logo, conseguiu alugar por R$ 150,00 para um homem que abriu uma mercearia. “Já dava quase a parcela do terreno”, conta Mecson.
O novo comércio foi bem. Entre 2002 e 2003, o dono da mercearia achou um aluguel mais em conta e se mudou. Mecson ainda trabalhava no frigorífico, mas achou que talvez pudesse manter o ponto e colocar uma “vendinha” para funcionar no seu imóvel. Ele comprou um freezer e instalou prateleiras. Um amigo que tinha padaria fornecia pão. Outro fornecia leite. Pegou um salário inteiro do mês e entregou na mão do padeiro, que o ajudou comprando biscoitos, balas, salgadinhos e outras coisas para vender na mercearia. “Quando coloquei tudo nas prateleiras, parecia que não tinha nada. Eu não tinha experiência alguma em administrar empresa. Tudo foi na cara e na coragem. Eu não tinha estudo. Tinha dia que eu vendia R$ 2,00. Às vezes, R$ 5,00. A molecada ia comprar bala e eu, como não tinha estudo, ficava com vergonha de fazer as contas na calculadora. Eles pediam um Real de bala e eu acabava dando muito mais por não saber fazer a conta”, lembra Mecson.
Como seu ganha pão era o frigorífico, Mecson contratou a Aurorinha, uma moça que passou a cuidar do balcão da “Mercearia Oliveira”. Quando chegava do trabalho, ficava na negócio. Sua então esposa também se comprometia bastante com a mercearia. “Ela tinha mais noção, colocava preço na mercadoria, deixava tudo arrumado”, pontua Mecson.
No Frialto, o funcionário que não faltasse nenhum dia ao trabalho recebia no final do mês uma cesta básica. Mecson não perdia o benefício. Os itens que ele recebia de bonificação no frigorífico iam para a prateleira da mercearia. Ele percebeu que alguns colegas de trabalho acabavam não usando todos os itens da cesta, como sal, farinha, chá mate. Mecson começou a pedir esses produtos. “Eu saia do frigorífico com umas 4 sacolas, cheias de mercadoria, que colocava para vender na mercearia”, lembra.
Nos finais de semana, Mecson fazia um churrasco na mercearia e chamava os colegas de trabalho e conhecidos. Assim, ele conseguia vender toda a bebida. Toda segunda-feira precisava repor o estoque. A “brincadeira” estava dando certo.
Nessa época, Elisângela saiu do emprego e passou a se dedicar exclusivamente à mercearia. Foi quando um conhecido chegou até Mecson sugerindo que mudasse o nome do seu comércio. “Mercearia Oliveira é muito comum”, disse ele. O homem então perguntou o nome do pai de Mecson: Gedásio Pereira dos Santos. Com as 3 iniciais ele emendou: “vai se chamar GPS Brasil”. Mecson gostou e aderiu. “Já teve gente me dizendo que a sigla é Grupo Pará-Sinop, como se fosse um elo de onde eu vim e onde eu estou. Uma feliz coincidência”, pontua o empresário.
Depois de 4 anos tocando o mercadinho em jornada dupla, em 2007, Mecson pede demissão do frigorífico. Mas não consegue ficar parado atrás do balcão. Com o acerto de 7 anos de firma, ele compra um caminhão pequeno e começa a fazer entregas, de forma terceirizada, para a GR Elétro (uma loja de eletrodomésticos que já não existe mais). Ele contratou mais dois ajudantes, e por 3 anos prestou serviço para a empresa.
Então, vende o caminhão. Mas a mercearia por si só parecia pouco. Então, ele pensa em abrir um novo negócio: uma loja de materiais para construção. “Foi por acaso. Eu não fiz análise de mercado nem nada. Montei a loja com R$ 8 mil. Eu fiz o salão e comprei mercadoria”, conta Mecson.
E foi assim que surgiu a GPS Materiais de Construção, conservando o nome que um conhecido deu. O “salão” foi construído no terreno vizinho à mercearia, que Mecson trocou por uma caminhonete D20 que tinha acabado de ir buscar em Campo Grande (MS). Depois, ele ainda conseguiu pegar o terreno na esquina, que a Colonizadora colocou à venda, fechando os 4 lotes.
A primeira loja da GPS Materiais de Construção foi aberta no ano de 2008 e deu origem a uma rede, pequena, mas pulverizada pela cidade de Sinop, com consumidores cativos. Em 2017, Mecson e Elisângela se separam. A mercearia ficou com Elisângela. “Como ela era a mais ‘cabeça’, que cuidava da administração, e eu o faz-tudo, muita gente achou que eu fosse acabar falindo. Mas eu consegui manter os negócios e crescer com a experiência que acabei adquirindo”, conta Mecson.
Ainda em 2017, Mecson abriu a segunda loja de materiais para construção. Também abriu uma para a ex-esposa. Em 2019, abriu sua terceira unidade. Em 2023, inaugurou a quarta loja, na Avenida André Maggi. Ele chegou a abrir uma loja na cidade de Santa Carmem, mas acabou vendendo. Agora, em maio de 2024, inaugurou a quinta unidade, localizada na Avenida Geraldo Egídio Ferrari, no bairro Menino Jesus I. “Não foi simplesmente abrir a loja e começar a vender muito. Tudo é difícil para mim. Todo novo negócio começou vendendo pouco. As coisas foram se encaixando aos poucos. Tem pessoas que são mais ambiciosas. Eu tenho mais o objetivo de sobreviver. O que vender é lucro. Não adianta vender muito e prestar num pós-venda ruim”, explica Mecson.
Dos 24 anos que ele está na cidade, o momento de mais trabalho – e também de retorno – acabou sendo durante a pandemia. As lojas tiveram um grande movimento, mostrando a capacidade da economia de Sinop de crescer mesmo nas adversidades. “Qualquer região não chega aos pés de Sinop. A cidade cresce mesmo. Quando abri a loja na MT-140, só tinha ela. Agora, tem pelo menos umas cinco. É muito bom ver Sinop crescer assim”, comenta.
Com seu jeito simples, Mecson conseguiu cativar uma clientela fiel, que costuma ligar para saber onde o empresário está para então ir até aquela loja para comprar. Ele poderia ser apenas um “gerentão” das 5 lojas, mas até hoje faz questão de atender a clientela. E já não precisa da ajuda de uma calculadora para não ser logrado na hora de vender balas. “Tenho vontade de abrir mais lojas. A mão de obra é um obstáculo. Costumo dizer que a GPS é uma escola para vendedor. A gente ensina; quando estão ficando bons, acabam saindo”, comenta o empresário. Pior do que treinar um funcionário e ele sair é não treinar e ele ficar.
Hoje, os pais de Mecson moram em uma chácara em Sinop. Seu filho Max acabou comprando a loja de material de construção que era da mãe, dando continuidade ao legado de empreender. Quando Sinop completar 50 anos de existência, Mecson estará perto de fazer 44 anos de idade – dos quais mais da metade foram na “terra das oportunidades” que ‘Seu GPS’ apontou.
2000
Edson Marcos Melozzi

DE CARONA E COM 50 CRUZEIROS EMPRESTADOS
Foi assim que Edson Melozzi veio para o Norte de Mato Grosso, e dois anos depois já estava casado, com filhos e disputando para ser o maior vendedor de insumos agrícolas da região. Com mais 4 anos seu principal concorrente vira seu sócio e dois peões se unem para virar patrões, deixando sua marca na agropecuária do Nortão
O luxuoso escritório do Grupo Melozzi, de frente para a BR-163 em Sinop, não dá pistas de como esse conglomerado começou. Logo, uma atendente sorridente recepciona o visitante, com um café tirado na máquina de expresso. Pelas divisórias de vidro temperado é possível ver um grupo de funcionários concentrados, mas não estafados. O astral é bom. Parecem estar felizes com o que realizam. O ar familiar se estende pelos corredores quando Gabrieli apresenta com domínio, mas sem firulas, os números da empresa. “Em 2022 passamos a chamar de Grupo Melozzi”, explica ela. Mais de 12,5 mil toneladas de ração fabricada por ano, uma frota de 25 caminhões, 18,4 mil hectares de lavoura plantadas, 2,2 mil hectares de pasto com 5,7 mil cabeças de gado e mais um punhado de negócios imobiliários? Isso tudo não pode ter surgido em 2 anos!
E não surgiu. O grupo que leva seu sobrenome é o legado que Edson Melozzi construiu em 35 anos de trabalho no Mato Grosso. O vendedor de defensivos agrícolas chegou no Norte do estado de carona, com 50 Cruzeiros emprestados e pegando uma vaga de emprego que o primo não quis.
Edson é o segundo dos quatros filhos de José Domingo Melozzi e Helena Camilo Melozzi. Ele nasceu no dia 28 de dezembro de 1967, mas só foi registrado como se tivesse nascido no dia 2 de janeiro de 1968. A família vivia em um sítio no distrito de Vidigal, no interior de Cianorte (PR). Em 4 alqueires de terra como meeiros, plantavam café, e entre os pés, culturas variadas, como arroz, feijão e algodão. As sementes eram cravadas no solo com a matraca. A terra era arada com tração animal e a pulverização era feita com bombas costais. Era tudo no braço. A energia elétrica só chegou à propriedade em 1983.
Com 7 anos de idade, Edson já ia para roça. O estudo era em uma escola rural, que ficava a 3 quilômetros de distância do sítio. Foi nessa época, em 1975, que uma forte geada praticamente dizimou os cafezais em toda região, dando início a um período de escassez.
O trabalho no campo era árduo, mas o esteio familiar era sólido e calmo. Com 17 anos de idade, Edson foi para Santa Cruz do Rio Pardo, no interior de São Paulo, para estudar. Ele se matriculou na Escola Maria Joaquina do Espírito Santo, um internato em formato de escola agrícola. Edson passou 3 anos na instituição, voltando a cada 3 ou 4 meses para ver a família.
A iniciativa de sair da roça e estudar tinha como objetivo pavimentar uma vida menos sofrida que aquela que seus pais tinham no campo. Mas quando enfim concluiu sua formação, não encontrava emprego. Larga oferta de postos de trabalho não é bem uma característica do interior do Paraná. Depois de tentar oferecer seus serviços na região, sem sucesso, um primo comenta com Edson que estavam precisando de um técnico em agropecuária, mas era para a cidade de Sorriso, no Norte de Mato Grosso. “Quando meu avô morreu, meu pai ficou só com 2 hectares de terra. Não tinha como continuar lá, não tinha nenhuma perspectiva lá no Paraná. Eu precisava trabalhar”, conta Edson.
Seu primo acabou desistindo da vaga em Sorriso e Edson se ofereceu. Ele pegou 50 Cruzeiros emprestado do seu tio Ailton Melluzzi para fazer a viagem. Na época, o salário mínimo era 63 Cruzeiros. No dia 15 de janeiro de 1989, um caminhão Mercedes Benz 1313, vermelho, saía de Cianorte com destino ao Norte de Mato Grosso. Na carroceria do caminhão tinha um Ford Willys F-75 azul e dentro da cabine da picape veio Edson.
Ele tinha 21 anos de idade na época e só conhecia Sorriso pelo nome. Quando chega na cidade trata de encontrar a empresa onde trabalharia. Era a Terra Forte, de propriedade de Paulo Roberto Ferreira, uma revenda pequena que estava começando. Edson ganha o emprego e também um espaço na casa do patrão para se estabelecer. Na empresa de insumos agrícolas, Edson fazia a venda, as entregas, carregava e descarregava os caminhões. Praticamente um faz-tudo. O salário era bom: pouco mais de 4 salários mínimos e meio. Mas era preciso trabalhar um mês para recebe-lo. “Eu tinha um sapato quando cheguei e ele furou no primeiro dia. Fiquei um mês andando com o pé molhado. Era o fevereiro, chovia muito. Quando recebi o primeiro salário, comprei uma botina”, lembra Edson.
A formação que o jovem recebeu no internato foi útil. Ele lia os compêndios agrícolas e as informações ajudavam a atender de forma mais precisa os clientes da empresa. Em um dos dias de folga decide visitar a amiga do primo que indicou o serviço em Sorriso. Acaba descobrindo a felicidade na casa ao lado. Era Célia, uma jovem bancária caixa do Bradesco, que Edson conhece e nunca mais larga. Os dois logo se casam, e em fevereiro de 1990 nasce Celimara.
Em 1991, Edson recebe uma proposta da Agro Amazônia, uma grande distribuidora de insumos agrícolas que iniciou suas atividades na capital Cuiabá e que na época estava buscando expandir sua clientela para o Nortão. Edson foi contratado como funcionário da região de Sorriso, mas sua tarefa era pôr o pé na estrada. Como ferramenta tinha uma picape Saveiro, uma pasta com os itens e preços, a cara e a coragem, já que sequer havia uma loja da Agro Amazônia em Sorriso. A meta estabelecida era vender 300 mil dólares em insumos naquela safra. Edson vendeu 800 mil dólares. Ele conhecia todos os produtores da região. Com o resultado, a empresa monta uma unidade na cidade de Sorriso, o que aconteceu em 1993.
Edson atendia Sorriso, Lucas do Rio Verde, Nova Mutum e Tapurah. Sinop era sua menor praça. Uma vez por mês ele vinha até a cidade atender 5 ou 6 produtores de arroz. Nessa lista estavam Valdir Taffarel e a família Pelissa. “Sinop não era conhecida por suas lavouras. Ainda era a cidade da madeira”, conta Edson.
Foi nessa época que o jovem de Cianorte tentou empreender pela primeira vez, junto com “Mena”, seu cunhado, que tocava o pequeno comércio de bairro. O capital de giro do açougue era a carne do balcão: uma carcaça de porco e uma de boi. Os pedaços destrinchados precisavam ser vendidos para então outra compra ser feita. Em dado dia faltou energia elétrica, levando o negócio a fechar as portas 3 meses depois.
Enquanto isso, Amazônia Edson voava na Agro Amazônia. Atendia muitos produtores e vendia tanto quanto. Nessa corrida por conquistar a clientela do campo, ombreava com Ângelo Maronesi, um jovem vendedor que trabalhava na concorrente Agro Rural.
A Dow AgroSciences, multinacional referência em defensivos agroquímicos, queria estabelecer uma revenda para representa-la em Sorriso, mas exigia exclusividade. A primeira oferta foi para a Agro Amazônia, que não quis abrir mão das marcas que já representava. A empresa acabou recusando a Dow. Era um cavalo encilhado passando na frente de Edson. Mas faltava cacife para bancar o cavalo.
Edson e Ângelo se unem e encontram um terceiro sócio, com capital para garantir as compras que seriam necessárias e iniciar a operação. Com Décio Locatelli, um produtor rural de Sorriso, os dois vendedores abrem a Agro Norte, revenda autorizada Dow AgroSciences. “Meu ex-patrão falou que queria ver esses dois burros puxando a mesma carroça, se referindo a mim e ao Ângelo”, conta Edson.
Cada um dos “burros” pegou um carro do Décio e saiu para campo. Um pequeno escritório, de 25 metros quadrados, foi montado na Avenida W2, em Sorriso. A carroça traçada atropelou o mercado. No primeiro ano, Edson e Ângelo fizeram a Agro Norte vender 1,3 milhão de dólares em insumos. Além da Dow, entram no portfólio da nova empresa a ICI Seeds (Syngenta), a Agroceres, Adubos Manah e Monsanto. “Veio todo mundo! Após um ano, a Agro Norte já era uma importante empresa agropecuária”, revela Edson.
E com um ano de atividade, em 1996, eles deixaram a portinha de 25 metros quadrados e abriram uma loja nova na BR-163. Em meados de 1997, Décio pediu para deixar a sociedade. “Ele ficou com medo que nós estávamos vendendo demais. Parece estranho, mas era o patrimônio dele que estava como garantia das compras que fazíamos”, explica Edson.
Em junho de 1997 a Agro Norte abre sua primeira filial, em Sinop. Edson conta que as lavouras de arroz eram o forte do município na época, mas que começavam a surgir alguns importantes produtores de soja. Ele se recorda de atender com a Agro Norte alguns, como Viro Ludwig, Ernesto Lubic, Romoaldo Aschau e Ademar Titiz.
No ano de 1998, eles expandem a sociedade para ir além de vender insumos. Em uma área próximo ao Camping Club, às margens da BR-163 em Sinop, Edson e seu sócio constroem um armazém com capacidade para 400 mil sacas de grãos, com um secador e duas pré-limpezas. No mesmo ano, a Agro Norte tinha o objetivo de entrar no setor agrícola. “Então, entramos de sócios em uma propriedade rural chamada Fazenda Cabana, de 2.662 hectares com José Maronesi, irmão de Ângelo, comprando 60% da propriedade”.
Em 1999, a Agro Norte Pesquisas e Sementes estabelece uma parceria com Cirad. Nesse processo, foi recuperado um banco de germoplasma que estava sendo desativado por uma cooperativa. Como fruto dessa parceria, a Agro Norte pode avançar no desenvolvimento genético com arroz, pé-de-galinha, soja, etc.
A sociedade foi adquirindo terras em Sinop, perto do armazém da Agro Norte. Pequenas matrículas que somaram 1,2 mil hectares. Em 2000, Edson e a família se mudam para a maior cidade do Nortão, fixando residência. Nessa época, sua filha Celimara estava com 10 anos de idade, Marcos, o segundo, com 8 anos, e Gabrieli, a caçula, com 5 anos.
A engenharia com as sementes era a paixão de Maronesi. Melozzi se dedicava às revendas e à produção agrícola. Em 2002, ele adquire uma propriedade de 10 mil hectares localizada em Tabaporã. Nela, estabelece a Fazenda Santa Fé, para criação de gado. Edson adquire matrizes e reprodutores, montando um sistema de cadeia fechada, criando os bezerros, multiplicando plantel e fazendo engorda. Em alguns anos, acumula um rebanho de 5,7 mil cabeças de gado.
Para complementar a alimentação do seu rebanho, começa a fabricar rações, com um moedor de grãos instalado na propriedade. A princípio era para suprir o consumo da sua fazenda. Até que outros pecuaristas começam a pedir sua ração. O vendedor perde o pelo, mas não perde o viço. Em 2008, ele funda a Agro Norte Nutrição Animal, fabricando rações para bovinos semiconfinados.
No mesmo ano, a Agro Norte abandona sua origem. A empresa que surgiu com dois vendedores peritos em vender defensivos agrícolas encerra essa comercialização em 2008, com Ângelo dedicado à criação de sementes e Edson focado na agricultura e pecuária. Em 2013, houve a dissolução da sociedade. “Fizemos o distrato da sociedade em um dia. Cada um ficou com as partes da empresa que já tocava. Nós dois crescemos com a separação”, revela Edson.
No ano de 2016, ele compra o Ghizone Centro de Eventos, com uma área de 24,2 hectares. No mesmo ano, entra em uma sociedade com o Ditado Popular, barzinho tradicional de Cuiabá, para o centro da cidade de Sinop – estabelecimentos que se mantém ativos até 2024.
Em 2021, ele compra em sociedade do Centro de Eventos Recanto da Natureza, ao lado do Ghizone. Em 2024, o projeto em curso é para transformar os dois espaços de eventos em um loteamento de perfil empresarial, o Ghizone Park.
Ainda em 2021, Edson começa a produzir algodão. Inicia plantando em 330 hectares, e na safra de 2024 atinge a marca de 2,8 mil hectares cobertos com a fibra. Para 2025, o planejamento é para chegar em 3,3 mil hectares de algodão.
Com o avanço em suas produções, Edson funda em 2022 a Melozzi Transportadora, com o propósito de suprir a necessidade logística própria, com uma frota de 25 caminhões. E no mesmo ano a marca que ajudou criar enfim é deixada de lado. Todos os negócios de Edson passam a integrar o Grupo Melozzi, marca principal desse conglomerado.
Um traço de memória da empresa que surgiu com a representação da Dow ainda resta na Agronortena – Nutrição Animal. A empresa produz 12,5 mil toneladas de nutrição animal por ano, e em 2023 teve um faturamento de R$ 35 milhões.
Edson ainda cultiva 18,4 mil hectares de lavouras, entre a primeira e a segunda safra do ano. Na pecuária, seus pastos se estendem por 2,2 mil hectares. Em seus galpões, além de maquinários modernos, é possível encontrar três aeronaves, sendo um deles um Cessna para pulverização e um Bonanza para passeio.
Em 2024, trabalham nos diversos negócios que integram o Grupo Melozzi 145 funcionários. Um dos gerentes tem 26 anos de empresa, ou seja, está com Edson desde o começo. Na área técnica não é difícil encontrar funcionários com 15 ou 20 anos de contrato. Nessa equipe também estão pessoas que acompanham Edson a vida inteira. Seu filho Marcos se tornou agrônomo e atua no negócio da família. O mesmo vale para a filha Gabrieli, que faz o financeiro e a gestão no Grupo Melozzi.
Aos 56 anos de idade, Edson conserva um humor e um entusiasmo incomuns à sua geração. Ele transita pelos corredores da sua empresa com alegria, interagindo com funcionários e clientes, compartilhando um astral revigorante – comportamento que pode estar relacionado ao sentimento de gratidão. “Eu fui muito bem recebido, tanto em Sorriso quanto em Sinop. Eu estava em uma condição muito pior e ainda assim me deram oportunidade. No Paraná não seria simples crescer como foi no Norte de Mato Grosso. Aprendemos muito com esses colonos que vieram para cá ficar debaixo de lona, catando raiz, até prosperar. Terras que no passado foram compradas por 8 sacas o hectare, porque ninguém queria, hoje valem mil sacas o hectare. E cada dia a terra está melhor, produzindo mais, valendo mais. Tivemos que pôr o pé no barro, comer poeira, mas o resultado veio. Quanta gente não trabalhou duro a vida inteira e não viu o progresso? Nessa região eu, e não apenas eu, conseguimos fazer uma nova realidade de ascendência jamais imaginável”, reflete Edson.
Vida nova que começou com uma carona e 50 Cruzeiros emprestados.
2000
Miss Sinop, Miss Mato Grosso e Miss Brasil Josiane Kruliskoski

BELEZA NACIONAL!
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A jovem Josiane Kruliskoski conquista o Miss Sinop e é eleita também Miss Mato Grosso. No mesmo, conquista o Miss Brasil, em concurso realizado no Rio de Janeiro
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A representante de Sinop e de Mato Grosso recebeu a coroa da Miss Brasil 1999, Renata Fan, bastante conhecida como apresentadora há anos do programa esportivo Jogo Aberto, da TV Bandeirantes
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Iniciada em 1999, a obra de construção do viaduto da BR-163 na entrada principal é concluída e inaugurada em 2000
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É realizada a 14ª Noite Cultural de Sinop, nas dependências do SESI Clube. Esta edição é considerada como um dos maiores eventos já realizados na cidade
POPULAÇÃO EM SINOP
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O Censo apontou uma população de 74.761 habitantes em Sinop em 2000